Gosma Literária - Carlos Silva


- Estava à espera de algo diferente, Professor Gonzaga. – Disse Marco Freitas, acariciando a pequena máquina que tinha à sua frente.
 - Não se deixe enganar pelo aspecto, esta maravilha da ciência vai mudar o modo como a leitura é vista no Mundo! Melhor ainda, vai impulsionar a sua carreira de escritor para níveis nunca antes vistos!
- Pode mostrar-me como funciona?
O professor anuiu e pegou num exemplar da Mensagem de Fernando Pessoa e colocou-o no prato de alimentação da máquina. Ao recolher do prato, centenas de luzinhas começaram a piscar e ruídos mecânicos a fazerem-se ouvir. No pequeno monitor, um gráfico tomava forma. Por fim, o bulício parou e uma válvula do lado direito abriu-se e deixou escorrer lentamente uma gosma azulada semitransparente para um pequeno prato. Cheirava a mar e a manhãs de nevoeiro.
- No interior da máquina, o livro é folheado e lido e, graças a um complexo algoritmo matemático, o sentido e estética das palavras é percebido. Com essa informação, consigo determinar que substâncias devem ser misturadas de modo a transmitir todo o leque de sensações que o livro transmite ao leitor.
Marco abanou a cabeça em confusão e encarou de novo o investigador.
- Está a afirmar que, ao comer essa gosma irei sentir o mesmo que sentiria ao ler o livro?
- Exactamente! Dentro de alguns anos, ler livros será uma coisa do passado. Bastará meter a gosma na boca e toda uma miríade de sensações invadirá o cérebro do ex-leitor.
- Fantástico! – Coçou o queixo. – No entanto, pelo que percebi, vai precisar de escritores à mesma.
- É verdade, mas não serão necessários bons escritores, apenas pessoas que pareçam bons escritores. O conteúdo não será de todo importante. Basta por exemplo combinar umas antíteses, umas metáforas sem sentido, umas inversões da sintaxe comum e umas ideias feitas que ressoem no desejo das pessoas que a gosma literária terá um sabor adocicado e saciante. O único defeito desta estratégia é que, quando o leitor tentar degustar com mais cuidado a gosma, vai notar que ela tem um sabor demasiado artificial e muito pouca consistência.
O investigador inseriu uma colectânea de contos de quatrocentos e cinquenta e três autores completamente desconhecidos e máquina converteu em gosma. Era um líquido baço, sem consistência, por vezes pontilhado de pequenas gotas que pareciam saborosíssimas,  mas que rapidamente se diluíam no resto e desapareciam.
- Estou a ver… Talvez se possa contornar esse facto com utilização abundante de anáforas. O cérebro humano adora repetição de padrões.
- Você vai ser um óptimo produtor de gosma literária! De facto, as anáforas causam uma sensação de cócegas no céu-da-boca e fundo da garganta que distrai a maior parte dos ex-leitores da falta de consistência.
- Compreendo. Basta-me apenas alguns truques baratos de estética para obter um bom resultado.
- Não, não, de todo! Tem também de apostar nas temáticas que ofereçam o melhor sabor. Por exemplo, leves angústias pessoais fúteis dão um leve sabor avinagrado muito apreciado por leitores que se consideram intelectuais. Mas tem de ter cuidado com a dose! No outro dia, transformei em gosma um livro de Musil e tive dificuldade em comê-la até ao fim. Sugiro que prove um desses romances femininos que nascem como cogumelos nas livrarias. São dulcíssimos, sem dúvida alguma, mas a tentativa desesperada das autoras de introduzir tons ácidos, acaba por criar um falso sabor a vinagre balsâmico.
Marco Freitas já sonhava com mil e uma histórias que poderia criar com a premissa básica do amor. Um suceder de aproximações e afastamentos sem fim nem nexo que produziria gosma literária que agradaria qualquer palato feminino
- Podia tentar enveredar por esse caminho… - disse pensativo. – O das histórias de amor.
- Jamais! Não tente retratar amor por meio da literatura. É extremamente frustrante conseguir captar a verdadeira essência, vai desperdiçar imenso tempo e imensa gosma para o lixo antes de conseguir um bom produto final. Aposte antes noutro tipo de narrativas que pareçam – Fez um especial enfâse em “pareçam. – amor, mas que sejam apenas sentimentos de posse, fascínio ou desejo sexual. Aliás, aposte no sexo. Sexo é sempre bom. Toda a gente gosta de uma gosma literária pejada de sexo. – Introduziu um exemplar de Teleny e saiu uma gosma vermelha cristalina de cheiro pungente. Cheirou-a deliciado e deglutiu-a num só trago. – Este livro dá um sabor picante e a especiarias fantástico! Mesmo que a descrição do acto seja péssima e os sabores complexos não surjam de todo, tem sempre garantido uma sensação de frémito nos órgãos sexuais que compensa tudo o resto.
- Tem razão, esta máquina vai mudar a literatura para sempre.
- Meu amigo, a literatura não é para aqui chamada. – Admoestou severamente. - Qualquer tentativa de a inserir nesta máquina dá uma gosma indigesta, que tem como principal efeito colocar os ex-leitores a cismar sobre o Mundo. Não, esta máquina só serve para textos do calibre dos seus!
Marco sorriu largamente, pensado nas imensas oportunidades de negócio que aquela invenção lhe trazia. Por uma certa quantia de dinheiro, poderia até ensinar as pessoas a fazer as suas próprias gosmas literárias. Toda a gente gosta de vangloriar os objectos culinários que são capazes de preparar. O instagram e milhares de posts no facebook são prova disso mesmo. Quanto dinheiro estaria o povo disposto a pagar pelo status de fazer gosmas literárias, mesmo que nunca chegassem aos supermercados? Revirou os olhos de prazer orgástico ao pensar na sua conta bancária a encher.
- Professor Gonzaga, estou convencido. Quanto quer pela máquina?


4 comentários:

rui alex disse...

Adorei, muito divertido.

chroniclesofeos disse...

Precisa de uma limpadela, mas de resto é para mim a melhor short da tua autoria. A ideia é brutalmente simples e simplesmente brutal, e a execução é competente. *Clap clap*

Vitor Frazão disse...

Divertido e incisivo ao mesmo tempo. Adoro um conto com toque a farpinha. ;) Era com que alguns autores entendessem a deixa.

4 Estrelas

Joel-Gomes disse...

As melhores críticas são aquelas que não parecem sê-lo. A possibilidade de poder insultar alguém através da retórica e ter essa pessoa a colocar um "Gosto" porque não percebe patavina do que está a ler, mas o nome dela vem lá por isso deve ser bom, é qualquer coisa de refrescante. Até faz pensar em bolos.
Para muitos dos que escrevem e visitam este espaço o óbvio alvo das palavras afiadas e irónicas do autor é facilmente identificável, porém não é único. O que não falta à flecha que o autor atira com este arco são alvos. E o que também não falta, infelizmente, são pessoas a suportá-los.

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