Trial Version - Carlos Silva


Sorri para agradecer a reunião de toda a minha família e amigos no meu leito de morte. A minha mulher agarrava-me a mão e eu via-a, apesar dos sulcos cavados pelas décadas passadas, linda como no primeiro dia. Os meus filhos também estavam presentes, apesar das agendas preenchidas. O gesto enterneceu-me, significa que os eduquei bem. O suficiente para terem sucesso a nível profissional, sem terem de atropelar todos os valores que fazem de alguém uma boa pessoa.
Não me resta muito tempo, a doença que me consome o corpo é de sintomas tardios mas de evolução exponencial. Um qualquer defeito genético que funciona como uma bomba relógio que, após detonação, me foi roubando as forças até chegar ao presente estado de quase inanimação que precede a morte. Não existe cura, mas se a houvesse, talvez a recusasse. Vivi a vida em toda a sua glória e plenitude. A minha memória de tudo o que se passou para trás é um tanto ou quanto difusa, como se não as tivesse vivido realmente, mas sim apresentada há minutos atrás. No entanto, a sensação que tenho é que tive uma infância feliz no campo com os meus pais. As imagens que a minha mente invoca são pradarias e cascatas, uma espécie de Éden versão minhota. Vim para a cidade, conheci o amor da minha vida, num golpe de sorte preparado pelo destino para cumprir a sua vontade. Sinto-me tão feliz ao lado dela! Sei que vivemos muito, que vimos muito, que fizemos muito, mesmo que não recorde exactamente o quê.
A minha respiração torna-se mais profunda, arranhada e pesada.
A enfermeira dá indicação às pessoas que se despeçam e saiam da sala. Um a um, os meus amigos depositam-me um beijo na testa, selando a longa relação que desenvolvemos e saem. Ah! Que boas sensações aquelas caras me despertam. Cada uma eram dezenas de aventuras e momentos que, embora desafiantes, haviam tido sempre um desfecho feliz.
Ficou apenas a minha mulher e dois filhos. Eu fecho os olhos e ela aperta-me a mão com ainda mais força. Faleço como quem adormece.
Está tudo branco.
Tento mexer-me, mas não tenho corpo para obedecer à vontade.
Olho em volta e vejo igual paisagem branca, como se não tivesse mudado a direcção do olhar.
O branco começou a desvanecer-se e revelou um aquário com um laboratório lá dentro. Só depois me apercebi que quem estava dentro do aquário era eu. O nível líquido azulado foi descendo, à medida que os sorvedouros se abriam a meus pés. Um homem vestido com um impecável fato branco aproximou-se, sorrindo tão abertamente que mais um pouco fazia os cantos da boca rasgarem-se. Abriu o cilindro transparente onde eu estava e perguntou-me:
- Que achou da demonstração do nosso produto?
Eu acenei positivamente, o tubo que tinha enfiado na garganta não permitiam grandes conversas. As memórias voltaram todas de repente, como que se a barragem que as cingia tivesse sido destruída. Não eram lá grande coisa. Recordações sensaboronas e deprimentes do que se passara na sua vida até aquele momento. Sabia porque estava ali e, mais importante ainda, sabia o seu saldo bancário.
Introduzi o código de autorização de débito no terminal bancário que o homem do fato branco trazia debaixo do braço e encostou-se à máquina, esperando a submersão no líquido azul. O homem de fato branco fechou de novo a campânula e acenou-lhe um adeus alegre.
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4 comentários:

Selenyum disse...

Um sci-fi interessante que responde à pergunta: O que aconteceria se houvesse um Matriz inc?

rui alex disse...

é um tema algo corrente mas está bem escrito e gostei muito de ler.

Essa empresa já existe no Total Recall (alguém já viu o mais recente?).
Mas o filme que me fez lembrar, principalmente por causa da aproximação usada do autor do conto, é o Inception.

*spoiler do Inception*
aquela cena em que o casal sonha uma vida inteira, vivendo uma juventude e partilhando a velhice, é linda! Acho até que escreveu aquelas coisas tantas dos sonhos, como sentir mais tempo percepcionado que o vivido, só para justificar essa mesma cena.

Vitor Frazão disse...

Não é dos temas que mais me interessam, nem dos mais originais. Não me marcou nem negativa, nem positivamente. Não obstante, está bem executado, por isso tenho de dar 3 Estrelas.

Joel-Gomes disse...

Um conto confuso, mas confuso no bom sentido. Trouxe-me à memória imagens do Vanilla Sky e do The Fountain. O momento da despedida final é algo extremamante difícil de trabalhar, mas Carlos Silva conseguiu fazê-lo de forma competente, tornando-o comovente, sem cair em choradinhos e lamechices.

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