O Cálice de Prata (1/5) – Sara Farinha

Os cascos do cavalo ressoavam no empedrado. Com um movimento do pulso André sacudiu as rédeas de couro sobre a crina cinzenta e espetou os calcanhares no animal. Quilos de cota de malha no dorso de Blanche Croix e sobre a sua própria figura, num equilíbrio treinado, que impedia um rápido avanço pelas ruas da miserável aldeia. As casas de pedra e palha eram a última paragem antes do feudo que era o seu destino. 

O longo manto branco e a cruz vermelha, orgulhosamente disposta sobre o seu coração, asseguravam passagem segura pelos inúmeros feudos. Ajeitou o capacete de metal sentindo o volume do pergaminho, entalado no largo cinto de couro castanho, espetar-se nas costelas. 

Guiou Blanche Croix para a floresta, que circundava o seu destino, consciente do peso que carregava. Nesta viagem os seus serviços asseguravam a troca de correspondência vital entre a Ordem e os seus súbditos mais leais. Uma tarefa pacífica, mais do que a conversão de mouros e sarracenos, mas perigosa o suficiente para exigir um cavaleiro treinado ao invés do habitual escudeiro ou padre ordenado. 

Circundado pelo chilrear de pássaros, inspirou uma golfada de ar, puxando as rédeas de couro e ordenando Blanche Croix a avançar a passo. Ignorou o pó levantado pelos cascos do seu corcel, apreciando a trama de frondosas árvores e luxuriante vegetação rasteira, que se alastrava em todas as direcções. O som de água corrente fê-lo engolir em seco, notando a aspereza que o pó do caminho colocara na sua garganta. Puxou as rédeas e desmontou tendo o cuidado de segurar o cabo da espada que carregava. Guiou o cinzento animal ladeira abaixo, em busca do precioso fio de água, largando-o na margem cravada de rochas imersas em musgo verde. 

Pousou o capacete de metal em cima de uma rocha, libertando a mecha de cabelos castanhos do calor opressivo e, com movimentos limitados pela pesada cota de malha, assentou um joelho na água translúcida que serpenteava entre as rochas esverdeadas. Debruçou-se e com uma mão em concha bebeu o precioso líquido, humedecendo o restolho que lhe cobria a face, antes de reencher o cantil. 

O esmagar de folhas secas fê-lo levantar-se e desembainhar a espada. Observou as margens do rio com as íris azuis atentas a qualquer movimento. 

– Guarde essa espada. – uma voz enrouquecida pediu. 

– Revele-se. 

Um encurvado homem saiu detrás do tronco de um enorme carvalho arrastando os pés, com dificuldade, pelos tufos de vegetação. Os seus olhos apontados ao rosto de André, dum negrume brilhante que ofuscava as milhentas rugas que lhe cobriam o rosto, enquanto o cinzento dos seus cabelos tomavam um brilho azulado. 

– Água. – o velho murmurou, apontando um enorme cálice de prata na direcção do riacho. 

– A sua graça? 

– Corvo. A sua? 

– Cavaleiro André Beaumont. – respondeu, baixando a espada. 

– Vejo que sim… Oferecia-lhe comida e albergue, mas desconfio que não precisa. 

– Retomo o meu caminho de seguida. – André retorquiu, afastando-se da beira do rio e recuperando os objectos que largara, sem abrir mão do punho da sua espada. 

– O que traz um templário por estas bandas? 

– Nada que seja da sua conta. – André respondeu. 

O enrugado velho cambaleou até à margem do riacho, amparado por um cajado de madeira escura, enquanto apertava o cálice prateado contra o peito. Deixou-se cair sobre os joelhos na terra molhada e inclinou-se para a frente enchendo o cálice com o líquido. Assim que a água atingiu a peça ela libertou um arco-íris. A superfície de prata polida ganhou vida com as inúmeras cores que dançavam sem cessar nos seus contornos redondos. 

André inspirou, de repente, incapaz de mover os olhos para qualquer outra coisa que não a beleza do cálice nas enrugadas mãos daquele velho. 

– Onde arranjou esse objecto? 

– Foi-me oferecido, por alguém que conheci… há muito tempo atrás. 

André notou o estado andrajoso do velho, os acastanhados panos que o cobriam atestavam uma vida miserável, assim como as rotas sandálias de couro quase negro. O cálice brilhava com todas as cores do arco-íris, enquanto subia no ar e se inclinava sobre uns lábios gretados, apagando-se assim que esvaziou o seu conteúdo. 

– Onde o roubou? – André questionou, avançando de espada na mão. 

– É minha! Para guardar e proteger. – o velho bramiu, tombando para trás com o avanço da portentosa figura de André. 

O homem tremeu, de olhos esbugalhados e receio estampado nas rugas do rosto, sem parar de acariciar as laterais polidas do cálice enquanto o apertava contra o peito. Por entre os dedos do velho, sobressaíam azuis, cinzentos e negro, invadindo a superfície prateada do cálice e capturando a atenção de André como se fosse o único objecto do mundo. 

– Dá-mo! 

– Não! É meu! 

Arrancando-o dos dedos enrugados do velho, André observou-o, absorto e vidrado nas coloridas paredes do recipiente. 

– Devolvo-o ao dono. O senhor destas terras. – André declarou, sentindo as entranhas contorcerem-se, com uma agonia profunda provocada pela possibilidade de se separar do objecto. 

– Maldito sejas! Que preso fiques e estejas. Que te seja impossível saciar o desejo. Qualquer desejo, até que voltes aqui e devolvas o que não te pertence. – o homem vociferou. 

– Velho tolo! – André murmurou, sem tirar os olhos do cálice. 

O cavaleiro agarrou-o contra o peito e avançou pela margem do rio, onde o seu cavalo bebericava, espalhando água a cada furiosa passada. Subiu a encosta, montado no dorso do majestoso Blanche Croix, deitando um olhar à figura tombada no leito do rio. Por instantes, lamentou o que fizera… mas sentiu o metal na palma da mão, acariciando as suas entranhas com um calor impossível, impelindo-o a sacudir as rédeas e cavalgar até ao seu destino. O estranho cálice era seu, pelo menos, durante o próximo punhado de horas.


Parte 5:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:


3 comentários:

Carlos Silva disse...

my preciousssss

sarinhafarinha disse...

LOL. Não me ocorreu, mas agora que falas nisso... Mas garanto que não se repete no resto da história :-D

Vitor Frazão disse...

O Carlos tem razão, quando é que aparecem os Nazgûl? ;) Por outro lado houve uma altura que temi que fosses escrever uma cena à Macbeth.

Até agora não me prendeu, mas presumo que a partir do momento que comece a dar para o torto fique mais interessante.

PS: era mesmo preciso estar sempre a repetir o nome do bicho?

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