Eternas Palavras 1/2 - Pedro Cipriano


Rui despejou o conteúdo da última caixa no meio da praça. As pessoas convergiam em passo lento para o amontoado de livros. Um monte que havia sido escrito por Pessoa, Eça, Saramago, Camões, Torga e muitos outros. Na sua maioria eram edições antigas, quase desengonçadas, mas havia também bastantes em bom estado. 

Como empregado estatal, tinha de realizar este tipo de tarefas um par de vezes por semana. Era um trabalho como qualquer outro, pensou o funcionário de meia-idade, enquanto ensopava a pilha de papel em álcool. 

Meia dúzia de soldados assegurava que ninguém interferisse com o evento. No meio da multidão que se juntara, estariam à paisana outros tantos agentes da PSI, a polícia de segurança interna. E claro, havia bufos um pouco por todo o lado. Ao estado, muito pouco escapava. 

Olhou para o seu relógio e viu que eram 3 da tarde. Era o momento de dar início ao espectáculo. A chama propagou-se com facilidade do fósforo para as folhas. A multidão soltou urros quase frenéticos. Nunca percebera se eram de alegria ou revolta. O fogo alastrou-se e, foi então, que os livros começaram a voar. Rui deu uns passos prudentes afastando-se da fogueira. 

Uma menina, com uns dez anos de idade, que estava nas primeiras filas começou a chorar. Fora atingida por um dos muitos livros que eram arremessados para a fogueira. Os gritos aumentaram de intensidade atingindo um êxtase colectivo, bem perto das fronteiras da loucura. Algumas pessoas haviam sido atingidas pelos projécteis que cruzavam o ar e mesmo esses estariam na próxima queima. Face a esses incidentes, os soldados nem se haviam movido. Tudo aquilo era normal. 

Rui ficou feliz que nenhum desses escritores fosse vivo. Assim só se queimavam os livros. 

*** 

Rui permaneceu de olhar fixo na caixa de madeira. 

O estaleiro municipal estava vazio naquele fim de tarde de Domingo. Tudo estava arrumado no seu devido lugar, só não sabia o que fazer ao livro. O governo pseudodemocrático não proibia a posse de livros. Nem tão pouco a leitura e a discussão pública era desencorajada ou punida. Era uma sociedade mais fechada do que fora na sua juventude, mas ainda não chegara a extremos. O problema é que havia livros e livros. O que estava à sua frente pertencia à lista de incineração. 

Pegou nele. Parecia estar em bom estado, somente a capa estava dobrada das pontas e as folhas amareladas. Havia algo naquele livro que o fascinava e foi nesse momento que decidiu levá-lo para casa. Olhou em volta e não viu ninguém. Num ápice, guardou-o na sua mala de trabalho. 

Antes de passar pelos guardas já um suor frio lhe envolvia o corpo. Devia ser só a sua cabeça a pregar-lhe uma partida, reflectiu. Qual seria a probabilidade de o livro ali ter sido colocado em jeito de armadilha? Só de considerar a possibilidade, sentiu uma tontura momentânea. Estando já fora do edifício, era impossível voltar atrás. 

Os guardas mandaram-no parar. O coração disparou, não era nada vulgar isso acontecer. Pediram-lhe a identificação. Nervoso como estava, quase não conseguiu retirar o cartão de funcionário. A qualquer momento eles iriam aperceber-se que estava a esconder algo. 

O mais baixo observou com cuidado a credencial e depois pediu-lhe que abrisse a mala. Rui ponderou se haveria de correr. Não valia a pena, eles não teriam dificuldade em capturá-lo. Resignado, abriu a mala, amaldiçoando o momento em que agarrara o livro. Apetecia-lhe gritar para pararem de brincar com ele e só não o fez porque ainda tinha esperança de escapar. 

O polícia observou cuidadosamente o interior do saco velho e gasto. Os dois sentinelas trocaram olhares. Rui quase desmaiou, face à possibilidade de ser detido a qualquer momento. 

Com um ar aborrecido o agente levantou a mão, fazendo-lhe sinal para seguir. Rui não quis acreditar e, após um momento de hesitação, atravessou o portão. Se calhar, os guardas nem sabiam que livros estavam na lista de incineração. 

Caminhou pelas ruas da capital em direcção à Baixa, pois não havia transportes públicos ao Domingo. A tarde estava agradável, adornada por uma temperatura amena de início de Outono. Era quase hora de jantar. Os passeios estavam praticamente vazios e poucos eram os veículos que cruzavam o pavimento. Com essa paz, Rui pôde perder-se nos seus pensamentos. 

Tanta coisa havia mudado desde a Guerra Europeia de há 18 anos atrás. Tudo começara quando se ouviu nas ruas que Lisboa fora ocupada. Mesmo sem um governo, o povo quis lutar contra o invasor estrangeiro. Contudo, nem o fim da ocupação devolveu a união ao país. Ninguém percebera com que é que aquele governo chegara ao poder. Algo semelhante acontecera em Espanha, culminando com a junção do Norte com a região da Galiza. Essa divisão era o motivo pelo qual tudo o que invocasse o período em que Portugal era só um tinha de ser destruído. 

Ao abrir a porta do apartamento, as suas narinas foram invadidas por um delicioso aroma a frango guisado. Rui estava feliz por não haver escassez de galináceos nesse ano. A falta crónica de alguns bens de consumo era o preço a pagar por viver num pequeno estado isolado do resto do mundo. 
A sua esposa e os três filhos já estavam sentados à mesa. A fome que o consumia fê-lo logo esquecer o livro.



2 comentários:

Vitor Frazão disse...

Para já tenho uma opinião muito neutra sobre o conto. Terei de esperar pela evolução.

Joel-Gomes disse...

Opinião do conto na segunda parte: http://fantasy-and-co.blogspot.pt/2012/11/eternas-palavras-22-pedro-cipriano.html.

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