Os Kravyads 7/7 – Maus Augúrios – Vitor Frazão

     Suando em bica e arfando, como se tivesse acabado de subir a correr uma extensa escadaria, Nowak acabou a leitura, retirando as mãos ensanguentadas de dentro do cadáver e fechando as pálpebras, incapaz de suportar o poder dos próprios olhos por mais um segundo que fosse, à medida que uma violenta dor de cabeça ameaçava rachar-lhe o crânio. Maria ofereceu uma cadeira ao mestre, porém, este recusou, limitando-se a apontar insistentemente para os olhos, exigindo que as costuras fossem recolocadas de imediato e com elas o selo que encerraria o seu poder. Sem hesitação, a semi-humana inverteu o processo, voltando a coser as pálpebras com um sortilégio, e afastou-se sabendo que o mestre também recusaria ajuda para chegar ao lava-loiça. 

     Enquanto o Doutor despia a camisa ensanguentada, passando-a à assistente, revelando uma camisola interior branca de cavas, antes de começar a lavar o sangue dos braços cobertos de cicatrizes paralelas, Kunti mordia a língua para se conter de fazer perguntas, Isha não ousava sequer mexer-se e Anath olhava de soslaio para o caderno, pousado sobre uma cadeira, fingindo desinteresse. 

     O adivinho levou um bom bocado a lavar as mãos, braços e rosto, bichanando durante todo o processo, aparentemente tentando reorganizar ideias ou memorizar algo. Quando finalmente acabou, a eficaz e silenciosa Maria estava ao seu lado com uma toalha seca e uma camisa limpa que tirara da mala de viagem. 

     - Ano complicado, este que aí vem. Muitas mudanças para os que caminham na sombra do Homem – comentou ele, em português, pouco depois, ao mesmo tempo que abotoava a camisa, antes que Kunti pudesse perguntar o quer que fosse. – Precisarei de estudar as palavras com mais atenção… Muitas variáveis… Muitos caminhos, todos eles com ramos largos… – Era-lhe difícil concentrar-se num só pensamento, enquanto o cérebro entrava em hiperactividade para tentar deslizar todas as possíveis consequências e significados daquilo que vira. – Ainda bem que arranjaram um espécime tão bom… teria sido mais difícil com um inferior… Pena ser o último. 

     - O último? Como assim? O que viu? O que vai acontecer? – quis saber Kunti, sentindo-se alarmada, pois embora os rakshasas fossem imortais, no sentido mais lato do termo, não eram indestrutíveis. 

  - Tenho de estudar melhor… – disse Nowak, falando com os botões e colocando os óculos escuros. 

   - Doutor, porquê o último? – insistiu Isha, inclinando-se para a frente e apelando a todo o autocontrolo para não soar ameaçador. 

     - Mesquinhos rakshasas, não é o vosso futuro que merece mais estudo. Fosse tudo tão claro! – respondeu Nowak, abanando a cabeça perante a tacanhez dos devoradores de homens e vestindo o casaco. – O destino do mundo não é ditado pelos vossos umbigos, Kravyads. Disse o último, porque para o ano vocês já não estarão em Coimbra e eu terei de procurar outros caçadores. Será difícil encontrar alguém do vosso nível por aqui… Sim, é pena não poder ir com vocês... Mas não adianta, tenho de ficar… 

   - O que quer dizer quando afirma que não estaremos cá? – inquiriu Anath, como um misto de desconfiança e esperança. 

  - Mudar-se-ão ou pelo menos devem fazê-lo – esclareceu o adivinho, esforçando-se para os informar, embora preferisse gastar toda a energia mental a deslindar questões mais importantes. – Coimbra deixará de vos servir, não prosperarão nela como no passado, na verdade, tornar-se-á perigosa para vós. Partam. Quanto mais cedo melhor. A Sul poderão encontrar prosperidade durante alguns anos, mas as melhores oportunidades estão a Leste. Mantenham-se longe do campo, escolham cidades grandes, onde podem passar despercebidos entre a população. Madrid ou… 

   - Paris? – sugeriu Anath, não escondendo o brilho nos olhos perante a possibilidade. 

    - Sim, Paris é uma boa escolha – concordou o Doutor, passando a mão pelo queixo em reflexão, sendo impossível precisar se avaliava a situação dos Kravyads ou se pensava nos eventos que vira nas entranhas. – É uma terra mais fria do que estão habituados… contudo, cuidará de vós. Mantenham-se longe dos turistas, é o que aconselho. Desejo-vos boa sorte, rakshasas. Vamos, Maria – acrescentou apressadamente, abotoando o casaco e começando a dirigir-se para a saída, ansioso por chegar a casa e lançar-se de cabeça no trabalho, em busca dos verdadeiros significados das visões que tivera. 

     - Obrigado Doutor – agradeceu Kunti, desviando-se do caminho de Nowak, privilégio que não reservava a mais nenhum mortal. Estava irritada perante a perspectiva de recomeçar do zero numa cidade nova, contudo, não lhe passou pela cabeça ignorar o conselho do adivinho, a quem aquela família devia tanto – Anath, acompanha-os. 

     Enquanto a mãe se enervava, pensando no trabalho que as mudanças dariam, tentando esconder a apreensão, e o pai focava a atenção em desmontar o cadáver do humano, procurando calcular como levaria as provisões durante a viagem, Anath seguiu os convidados, dando por si a sorrir genuinamente pela primeira vez em décadas. Finalmente iria para uma cidade a sério, Paris ainda por cima! Lá sim, encontraria verdadeira diversão. 

     Imerso em pensamentos e caminhando com uma confiança que escondia a sua cegueira, Nowak alcançou a saída rapidamente, porém, quando abriu a porta, estacou, parecendo ponderar sobre algo, e revelou no rosto uma emoção que raramente utilizava, pesar. Antes de franquear a ombreira, fez duas coisas que Anath nunca o vira fazer, voltou-se directamente para ela e colocou-lhe a mão no ombro. 

    - Lamento, criança – afirmou, com sincera tristeza, retirando-se logo de seguida e começando a percorrer o corredor do prédio, que se encontrava imerso numa escuridão invulgar. 

     Essas duas palavras foram suficientes para manchar a alegria da rakshasi, roubando-lhe o sorriso e abalando-lhe a confiança, como nunca acontecera nos seus duzentos e trinta anos de existência. 

     - O que é que ele quis dizer com aquilo? – perguntou Anath, alarmada, agarrando o braço de Maria para a impedir de avançar. Assim que entrou em contacto com ela sentiu um ligeiro ardor e algo a mexer-se debaixo da pele da semi-humana, porém, manteve o aperto, exigindo uma resposta. 

     - O Mestre lamenta se lhe deu esperanças infundadas e pela sua perda, quando está tão perto de alcançar aquilo que deseja – respondeu Maria, com calma e cortesia, não se deixando intimidar e fazendo eco dos pensamentos de Nowak, como se eles fossem seus. – Ele sabe o quanto a mudança para uma grande cidade significa para si. 

     - Desculpa? – proferiu Anath, começando a sentir-se assustada. 

     - Receio que não viverá em Paris – disse a semi-humana, com compaixão na voz, pois sempre simpatizara com a jovem rakshasi. 

     - Mas ele disse?… Era uma mentira? – perguntou Anath, sabendo que estava errada assim que falou. Nowak nunca mentia. Podia ser vago, mas era incapaz de mentir descaradamente. 

     - Não, a sua família, de facto, encontrará prosperidade lá. Você não terá tal sorte – especificou a assistente, sentindo o aperto da rakshasi abrandar. 

    - Ele está errado – retaliou Anath, com mais choque do que confiança, largando o braço da semi-humana. 

     - É possível – admitiu Maria, não se sentindo ofendida com a contestação das capacidades do mestre, pois há muito que a aprendera que não existia predestinação ou sinas imutáveis, apenas probabilidades e tendências. – Nenhum futuro é inquestionável até ser passado. Foi por isso que o Doutor não o mencionou aos seus pais. Entenda-o como um pequeno agradecimento pelos vossos anos de bons serviços. Não obstante, as probabilidades são muito baixas. Não sabemos se morrerá antes de lá chegar ou ficará retida noutro sítio, apenas estamos noventa porcento seguros que não descobrirá aquilo que deseja… 

     - Ele está errado... – repetiu Anath, tentando manter-se confiante apesar de se sentir cada vez mais desanimada. Embora dez por cento não fosse o mesmo que zero, as hipóteses eram demasiado baixas para permitir mais do que uma fugaz esperança, especialmente, quando a sentença fora proferida por alguém como Nowak, que nunca errava. - Lamentamos e desejamos-lhe sorte – despediu-se Maria, fazendo uma ligeira vénia e sorrindo encorajadoramente, antes de seguir o mestre para a escuridão, deixando atrás de si uma rakshasi que, pela primeira vez na sua longa existência, sentiu como era ser destroçada por uma ilusão.




1 comentários:

Joel-Gomes disse...

Precisei de ir à wikipedia saber o que eram os rakshasas. O conto de Vitor Frazão apresenta um retrato bastante completo e interessante destes seres, mas eu quis tentar saber um pouco mais.
Sobre o conto em si, é bastante violento e negro sem cair no ridículo. Consegue manter o suspense do princípio ao fim, apesar de sabermos que o fim, pelo menos para o humano, não vai ser nada bom.
A matéria que serviu de base ao conto foi muito bem pesquisada e aplicada (uma boa pesquisa nem sempre pressupõe uma boa história). Os diálogos estão naturais, reduzidos ao que importa, e os personagens apresentam uma complexidade que não é aparente à primeira vista.

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