A Cidade Perdida - Um Conto Acerca do Orgulho - Liliana Novais


Reza a lenda que as ruinas de uma cidade grandiosa se encontram enterradas no deserto. Ninguém sabe ao certo onde se encontra e homens já perderam a sua sanidade mental e a vida procurando-a e às riquezas que se encontram perdidas no seu interior. Era conhecido como o mais belo tesouro que alguma vez podia ser visto, o Tesouro de Decaltium.
A cidade era governada pelo Rei Dilacius, senhor de uma enorme fortuna, a maior que o mundo jamais conhecera. Mas a sua maior riqueza era a filha, a mais bela de toda a terra. Facto que ele repetia continuamente a todos os visitantes. De todos os reinos e cidades chegavam príncipes para cortejar a jovem princesa e pedi-la em casamento. Mas o rei havia desenhado uma série de testes impossíveis de ultrapassar. Nenhum era bom o suficiente aos olhos do rei, o qual os dispensava rindo e dizendo:
«A minha filha merece o homem mais perfeito do mundo e você não é ele.
Os candidatos que haviam chegado triunfantes e muito seguros de si, partiam derrotados.
A cidade vizinha, Fibar, era uma cidade muito pobre. Esta já havia pedido auxílio ao Rei Dilacius. Ele recusou pois não havia nada que esta lhe pudesse oferecer que este não tivesse já. A população passava fome e vivia do pouco que conseguia produzir. Nessa cidade habitava um jovem de nome Jobel e que sempre ouvira falar das riquezas que existiam em Decaltium. Vendo o quanto os seus precisavam de ajuda o jovem parte com um plano audacioso, assaltar os cofres do Rei e ajudar todos os que pudesse.
Jobel ficou fascinado com a cidade, tão diferente da sua. As portas das casas eram de prata sólida, as casas todas caiadas de branco, não perderam a sua candura original, como se fossem pintadas todas as semanas. Os telhados eram todos em cúpulas de ouro e vidros coloridos. O palácio erguia-se imponente no centro da cidade murada. Ele passeava pelas ruas fascinado por aquela sumptuosidade e extravagância.
Para conseguir completar o seu plano, Jobel empregou-se como servente na casa do Guarda do Tesouro do Rei, o seu homem de confiança. Assim, conseguiu aceder aos planos do Palácio e obtera localização da sala do trono.
Passaram-se alguns meses até ele se sentir à vontade para prosseguir com o seu plano. A oportunidade surgiu na noite de aniversário da princesa. Após a festa, os guardas estariam embriagados ou a dormir.
Jobel caminhava com dificuldade pelas ruas desertas que já conhecia como a palma da sua mão, transportando uma ferrugenta e pesada besta. Chegou à torre leste do palácio, preparou a besta, colocou o birote que tinha numa corda amarrada e disparou. Caiu no chão com o coice da arma, ficou a olhar enquanto a corda subia a uma velocidade alucinante. Falhou o alvo e a corda caiu. Jobel recolheu a corda com o birote e voltou a preparar a besta. Da segunda vez a sua pontaria foi certeira e a corda ficou bem presa. Ele testou a segurança desta e começou a trepar. A subida era complicada e perigosa, a torre estava protegida com espigões e entre as pedras que a constituíam abundava musgo, que o fazia escorregar e dificultava o seu avanço.
Ao chegar finalmente ao parapeito, entrou com cuidado tentando não fazer barulho. A sala encontrava-se escura, mas nada lhe fazia lembrar uma sala do tesouro. Parecia-se mais com os aposentos de alguém do que outra coisa. “Mas o que necessitaria de tanta proteção?” Pensou ele. Nesse momento, um suspiro sobressaltou-o. Estava mais alguém naquele lugar. Ele colocou-se numa posição defensiva empunhando o punhal que trazia à cintura. Moveu-se lentamente na direção do som. Este provinha da cama.
A luz ténue da lua cheia iluminava o quarto, e assim que se aproximou desta, Jobel deparou-se com a mais bela donzela que alguma vez vira. Ela dormia serenamente. Ele observava-a deslumbrado. A sua tez era café com leite, o seu cabelo negro brilhava ao luar. Ela abriu os seus olhos azuis e olhou assustada para este. Jobel cobriu a boca da rapariga com uma mão.
«Eu não te vou fazer mal. – Acalmou-a. – Prometes que não gritas se eu tirar a minha mão? – Ela acenou com a cabeça, algo fazia com que ela confiasse naquele estranho. – Como te chamas?
«Selene. E tu?
«Eu sou o Jobel.
«O que fazes nos meus aposentos.
«Eu enganei-me. Pensei que aqui era a sala do tesouro. Eu vim roubar o Rei. Com tanta defesa só podia ser.
«De um certo modo é. O Rei é meu pai, e ele não me deixa fazer nada, fico presa neste quarto. Ele nunca me deixará casar porque acha que ninguém é bom o suficiente para mim. Ninguém se iguala na minha beleza, diz ele. Penso que ele apenas me deixaria casar com um Semideus ou mesmo um Deus. Eu quero partir mas nunca conseguirei.
«Não chores princesa. Eu farei o que puder por ti. – Disse ele enamorado fazendo com que ela sorrisse.
«E de que viveríamos?
«Do que a vida nos trouxer. Consegues abandonar todo este luxo e partires comigo para longe.
Ela olha em volta ponderando as suas opções, uma vida de prisioneira no meio do luxo, ou uma vida simples e mais importante, livre. A resposta era simples.
«Não partiremos de mãos vazias. – Disse ela levantando-se, pegou numa caixa de joias. – Aqui temos algo que nos ajudará, naquele armário tenho a minha tiara que podemos vender.
Jobel ajudou a bela princesa a descer pela sua corda. Os dois fugiram e nunca mais foram vistos.
Na manhã seguinte, quando a fuga foi descoberta, o rei Dilacius entrou em desespero. Com o seu orgulho destruído, ele deixou de se preocupar, o povo partiu. Na cidade esquecida no deserto, diz-se que o Rei morreu sozinho no trono e que não havia ninguém para o enterrar.


3 comentários:

Leto of the Crows disse...

O conto lembrou-me a história do Aladdin, mas está interessante. Só gostava de ter visto uma pitada mais significativa de Fantasia :)

Adeselna Davies disse...

Não fiquei fã deste. Já li e reli esta história bastantes vezes, o conto precisava de alguma correcção no português, de forma a evitar algumas repetições desnecessárias e a "fantasia" em si ficou um pouco de lado. Isto poderia muito bem ter sido retirado do livro das Mil e uma noites :) Veremos como os outros contos se portam.

chroniclesofeos disse...

Concordo plenamente com as opiniões supra. Irritou-me especialmente o betacismo nortenho (ou seja, trocar V's por B's) aplicado à palavra "virote", o virote da besta ("birote" designa, em Português, um tipo de penteado em que o cabelo é apanhado no cocuruto da cabeça). Qual a lógica, já agora, de um ladrão carregar uma arma não só pesada como em mau estado de conservação? E uma besta não dá "coice" algum ao ser disparada.

All in all, uma tentativa de fábula mal feita e na qual o único verdadeiro enterrado foi a Fantasia, que ficou ausente (porque inventar uns nomes esquisitos não é trazer Fantasia a texto nenhum).

BUT como nem tudo pode ser mau, a autora revela uma melhoria continua na qualidade de escrita desde há uns tempos para cá, o que é sempre de louvar.

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