Preguiça - Carlos Silva


Todos os dias eu ia a casa de Roberto e ficava lá todo o dia a vê-lo fazer nada, sorvendo discretamente a bebida que me era servida.
                As visitas começaram assim que Roberto perdeu o seu emprego na gráfica e prolongaram-se ao longo de todo o verão. Ao início, o dono do T0 ainda começou por se inscrever nos sites de emprego e enviar currículos para apreciação, mas o desânimo foi-se somando à medida que as dívidas seguiam a mesma tendência. Aquando das primeiras visitas, Roberto costumava preparar refeições que emanavam exóticos aromas que quase me faziam abandonar a minha bebida para as provar, mas depressa foram substituídas por pedidos telefónicos de comida rápida ensopada em óleo. Inexoravelmente, a inércia foi preenchendo cada movimento, a lentidão o pensamento.
                É das leis mais básicas do universo: nada se faz sem um preço. Toda a acção tem uma certa quantidade de atrito associada. É também sabido que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e a mente humana não é dos materiais mais fortes.
                Roberto está agora deitado num himalaia de almofadas, uma vez que os móveis pagaram as contas da electricidade que mantém a velha ventoinha a rodar. O suor pinga-lhe das axilas desnudas e faz uma poça no tecido abaixo dele. Da boca, baforadas de fumo de um cachimbo de água que chupa indolentemente. À distância de um braço, um computador exibia a lista de compras que esperava pacientemente o desmedido esforço de clicar o botão de confirmação da encomenda. Ao lado, uma dezena de moscas faz voos rasantes a um cilindro de fezes que flutua em urina quase a transbordar do penico. Um pouco por toda a casa, pacotes de produtos consumidos quase não deixam sítio para me sentar.
                Não me importa. Fico em pé, a bebericar, enquanto o Roberto fita o tecto com os olhos inchados do sono. Pouco resta a alguém que até o cansaço o fatiga. A procrastinação assume a sua forma mais requintada e deliciosa, onde se inventam tarefas improfícuas para adiar as mais prementes. Tudo isto eu degusto com prazer nas minhas visitas.
                Apenas precisei de ser convidado a primeira vez para ganhar acesso permanente à casa e à vida do Roberto. Não me orgulho grandemente. Esta amostra de homem não é sequer uma presa suculenta, parte da força de viver já se tinha esvaído quando cheguei. Ao menos, dá-me forças suficientes para procurar caça grossa.
                Aspiro os últimos resquícios de ânimo do Roberto e ele revira os olhos. Quase consigo ouvir-lhes os pensamentos: “Para quê viver? Que canseira…” 


6 comentários:

Leto of the Crows disse...

Gostei deste ponto de vista do observador passivo que se limita a "sorver" a presa.

E adorei a expressão "himalaia de almofadas" :D

Adeselna Davies disse...

Gostei de igual forma. Se tivesse que alterar alguma coisa, se calhar colocaria frases mais curtas para dar maior ideia de fadiga. Mas de resto está bastante porreiro.

Vitor Frazão disse...

Muito bem encarnado o pecado. A meu ver o facto de não revelares a natureza do narrador é uma mais valia.

Olinda P. Gil © disse...

Já depois de tudo o que foi dito, digo que aprecio a introdução no fantático no quotidiano real. ;)

Inês Montenegro disse...

O nojo que a imagem do Roberto me meteu... Anyway, gostei de ver a evolução daquilo que seria uma pessoa dita "normal" a cair no pecado da preguiça até ao seu extremo e do modo como este nos foi apresentado, ou seja, pelo ponto de vista da criatura sobrenatural, que apenas se revela totalmente como tal no final, mas que já ao longo do conto se iam lançando umas suspeitas.

Joel-Gomes disse...

Gostei da ideia e gostei da descrição do espaço, do comportamento do personagem e de tudo o que o rodeia. Encurtaria ou quebraria algumas frases, não para tornar a história mais lenta, mas para apressá-la. Quem vê as coisas com vagar é o Roberto, não a figura que narra a história.

O visitante, que eu associo à Morte ou um arauto desta (um reaper talvez) poderia ser logo apresentado como tal. Podia-se perder a surpresa final, mas talvez se ganhasse outra coisa. Pessoalmente, penso que a preguiça poderia ser levada ao extremo de ter o visitante a sorver a alma de Roberto, talvez mesmo a alimentar-se do seu corpo, e Roberto limitar-se a dizer "Pára. Deixa-te estar quieto.", mas sem levantar um dedo para se defender. Lazy prick.

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