Gula - Carina Portugal


Com um gesto impulsivo, Alug atirou o resto de perna humana para cima de uma das incontáveis poças de sangue que manchavam a sala outrora branca. Fora descarnada até os dentes ficarem marcados no osso.
Recostou-se contra a parede fria e lambeu os lábios sujos, onde ainda se entranhava um gosto inebriante a vida. Era tudo o que sobrava da prostituta: ossos e sangue, e também mãos-cheias de cabelo arrancado pela raiz.
No entanto, a carne dela não o satisfizera; o seu corpo implorava por mais, depois de ser mantido por tantos dias em abstinência, envenenado com químicos que o prostravam na cama, também ela agora ensopada em sangue. Fora lá que começara o pequeno banquete.
Lambeu as mãos de dedos longos e certificou-se de que nenhum pedacinho de carne se escondia sob as unhas. Fazia questão de que nada sobrasse, nem mesmo as vísceras.
Por essa razão, levantou-se e foi verificar se, por entre a sua voracidade cega, não deixara no crânio qualquer vestígio de massa encefálica. Quando pegou nas duas metades, soltou um suspiro. Estavam tão limpas que um canibal as poderia utilizar para servir ensopado de carne humana.
Atirou-as ao chão num movimento frustrado e dirigiu-se à porta, junto da qual fora montado um intercomunicador de aço inoxidável, tão frio quanto a voz fingidamente calorosa que falava através dele. Premiu o botão e esperou, deixando lá uma impressão digital de sangue e saliva.
Estalando como se algum fio fritasse dentro do aparelho, uma voz masculina, mas suave, chegou até si. Ainda não lhe conhecera o dono, mas podia adivinhar a crueza que se escondia sob a camada melíflua, principalmente depois daquele acepipe inesperado.
“Boa tarde, Senhor Alug Odacep. Gostou do presente que lhe enviámos?”
Alug revirou os olhos e lançou uma mirada à câmara pregada ao centro do tecto. Vigiava-o, segundo a segundo, perseguindo-lhe cada movimento.
– Adorei. Não tem mais nenhuma guardada na dispensa, Doutor? Aquela só serviu para abrir o apetite.
A resposta demorou alguns segundos até atingir a cela, como se se tivesse perdido no labirinto de cobre que se escondia dentro das paredes.
“Lamento. É difícil encontrar alguém que lhe sacie a fome. Apesar de eu duvidar de que possa chamar fome àquilo que sente. Comeu o suficiente para vários dias” notou, sem espanto, sem repreensão, sem sentimento. “Diga-me o que sente”.
Continuando contemplar a câmara, o recluso arqueou uma sobrancelha, permitindo que esta captasse bem o desprezo que sentia por aquele doutor e as suas experiências.
‒ Um desejo insaciável por carne humana viva. Agora que já respondi enésimas vezes à mesma questão, poderia, por gentileza, arranjar mais uma das suas amigas de quem se queira livrar? Devia agradecer-me por fazer com que a sua esposa não saiba de nada.
Alug conseguia imaginar o sorriso sardónico que o médico deveria estar a esboçar naquele momento, e estava capaz de lho arrancar à dentada.
“Como já disse, não posso fazer nada quanto a isso. Se sentir necessidade de mais alguma coisa, para além da carne humana, não hesite em contactar-me”. Dito isto, o crepitar do intercomunicador cessou.
Com um ranger de dentes, Alug afastou-se da porta, recomeçando um dos seus passatempos constantes, quando não estava drogado: dar voltas à sala. Os pés descalços pisavam o sangue que começava a secar, e as pegadas de assassino que eram deixadas para trás pareciam formar um círculo para algum ritual pagão. Por vezes parava para contemplar a janela de vidro fixo, para além da qual deambulavam muitos dos moradores do hospital psiquiátrico onde os tribunais o tinham selado. Passeavam nos jardins, com sorrisos parvos no rosto, expressões sérias, ou olhares perdidos no céu. Apesar disso, cada um deles dava-lhe vontade de partir o entrave e saltar os três andares que os separavam. O vidro era, contudo, inquebrável. Sabia-o por experiência própria, depois de ter fracturado o pulso esquerdo, no qual ainda usava uma ligadura.
Voltou a lamber os dedos por instinto, imaginando o sabor que não teria a carne de uma das novas enfermeiras, temperada com gritos, dor e angústia. Eram a cereja no topo do bolo.
Quando a língua acabava de lamber o dedo polegar, Alug parou de súbito, colapsando sob a força de um pensamento que não lhe ocorrera antes. Fitou a própria mão, como se a visse pela primeira vez.
– É isso – sussurrou para si. – Sou mesmo idiota…
Voltou ao seu lugar no chão, na zona mais limpa da sala, seguido de imediato pela câmara. Mirou-se por um momento, ponderativo, antes de dobrar as costas e puxar o pé para cima com ambas as mãos.
Usando toda a força, abocanhou o dedo grande e arrancou-o num só movimento. No entanto, um grito lancinante fê-lo cuspir a nova guloseima que encontrara para se saciar. Arfou e mordeu o lábio inferior, tentando conter o ardor atroz que lhe consumia o pé. Mas isso durou apenas até o seu olhar cair sobre o dedo ensanguentado. Pegou-lhe rapidamente e enfiou-o outra vez na boca, como se na sala houvesse ratazanas que lho pudessem roubar. Mastigou-o devagar, controlando a respiração, para assim controlar a dor.
As papilas gustativas não deixaram escapar um único nuance da própria carne. Nunca na vida provara uma refeição tão suculenta e o gosto era supremo. Não se absteve de comer um pouco do gémeo interno da perna direita, e provou todos os músculos que existiam nos braços. A dor era imensa, todavia o desejo superava-a de tal forma que Alug era incapaz de se conter. O sangue que lhe manchava o peito, o pescoço e a parte inferior do rosto era já tanto que ninguém perceberia que acabara de dar uma dentada no lábio inferior, arrancando-o por completo.
No momento em que a porta da cela se abriu, e meia dúzia de enfermeiros se precipitou para ele, já Alug engolia metade da própria língua.
Tentaram estancar as hemorragias, mas foi um esforço vão. Quando o médico se aproximou e debruçou para o observar, alheio às feridas em carne viva, o doente lançou-lhe meia dúzia de palavras mal articuladas, envolvidas num golfo de sangue, que nenhum dos seis enfermeiros compreendeu. Depois disso, a sua alma esvaiu-se também, abandonando aquele corpo deteriorado para não mais voltar.
Com um encolher de ombros ligeiro, o médico afastou-se do cadáver e regressou ao gabinete, deixando para trás um grupo de humanos horrorizados. Pelo caminho, um grito de terror fez estremecer os vidros de uma das portas, quando uma enfermeira aparentemente normal se lançou, qual lobo esfaimado, ao pescoço de uma velhota acamada.
Ele limitou-se a sorrir e a seguir caminho, de mãos nos bolsos. Por um instante de segundo, os olhos brilharam num reflexo de obsidiana negra. Aquele fragmento de pecado encontrara um novo corpo onde se instalar e uma nova alma para drenar até ao Inferno. Porque pecado que se preze consome por completo o possuidor, de tão guloso que é. E demónio que é demónio faz sempre por aumentar as legiões infernais.


14 comentários:

Carla M. Soares disse...

Gostei. Bem guloso. :)

Adeselna Davies disse...

Ei lá, muito bom! Um pequeno toque de fantasia não-óbvia mais ainda lá, com um pouco de influência de FMA (para quem não sabe no Full Metal Alchemist existem personagens - os humunculus - que são a representação do pecado e a Gula come desde metal até carne humana). O final tem um twist interessante.

Sandra disse...

ADOREI!!!Muito bom :D Arrepiei-me toda =)

Carlos Silva disse...

Muito giro. Prendeu-me a leitura. Estás de parabéns!

rui alex disse...

tambem eu fiquei preso na leitura, muito bom.

agnesrubra disse...

Lembrei-me de Renfield e do médico Jack Seward (Drácula de Bram Stoker). Mas o teu médico é mau, muito pior que o canibal... e o Renfield também não é um canibal e sim um vampiro frustrado :)

Gosto sobretudo que estas poucas linhas sejam tão cruas e mais do que suficientes para cumprirem o seu objectivo.

Vitor Frazão disse...

Muito bem. Negro, sanguinário e doentio. Gostei. :) Há por lá uma frase ou outra que podiam ser dispensadas, mas nada que perturbe a leitura. Aliás, é capaz de ser o conto mais extenso dos Pecados até agora e não se dá por isso ao ler.

Sufocada disse...

Descobri o blog à pouco tempo e adorei este conto.
Bom trabalho :)

Leto of the Crows disse...

Obrigada a todos. Estas palavras fazem-me muito bem ao ego :D

d311nh4 disse...

Ei lá! Gostei mesmo! Boa, Carina :)
Está mesmo bom!

Inês Montenegro disse...

Muito bom! A escrita, a personagem, a ideia, o final... Agradou-me muito a leitura.

Ash disse...

Arrepiante sem dúvida!! Um final em aberto, dá ideia que teremos mais...
É o primeiro dos contos que leio, a convite do Vitor e gostei!

Carla disse...

Fantástico! Arrepiante e viciante. Muitos parabéns, a meu ver está perfeito! Adorava que tivesse continuação...

Leto of the Crows - Carina Portugal disse...

Talvez um dia lhe escreva uma continuação, não seria a primeira vez que pegaria num conto mais pequeno para fazer um maior, ou algo mais :)

Obrigada e um abraço!

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