Luxúria - Sara Farinha


Um passo e a escuridão do bar envolvia Lux. Imóvel, ambientou os seus olhos negros a penetrá-la. Ecoavam conversas e gargalhadas, o fumo espesso do tabaco invadia os seus pulmões e o calor colava-se à pele. Vibravam as primeiras notas duma música que, em sintonia com o pulsar dos focos luminosos, era um assalto sensorial perturbante.
Atravessou a pista sucumbindo aos ritmos que pulsavam nos ouvidos e ressoavam no seu peito. Empurrou para trás os longos cabelos negros e pousou um cotovelo no balcão, ignorando os olhares. A loira oxigenada debruçou-se sobre o balcão, colocando o habitual Martini à sua frente.
Lux encostou o fino vidro aos lábios vermelhos observando aqueles que a rodeavam. Um par de olhos masculinos apreciava o seu generoso decote, enquanto duas jovens segredavam a pouca distância. Sorveu o Martini, apreciando os inúmeros corpos que balançavam ritmadamente. Passou a mão pela cintura descaída das apertadas calças de cabedal, endireitou as costas e terminou a sua bebida, sentido a coragem líquida a entrar na circulação sanguínea.
Na pista de dança deixou que o ritmo assoberbasse os seus sentidos e, em minutos, o pouco tecido do top prateado e o desconforto dos saltos agulha dos seus Louboutin eram demasiado.

Num dos sofás uns olhos azuis reluziam, seguindo cada movimento do corpo dela. Colados no balançar das suas ancas, no oscilar dos seus seios, em cada passagem de mãos pelo longo cabelo negro.
Entre corpos suados e o espectáculo de luzes, vislumbres tentadores chegavam até ele. Com um braço estendido sobre as costas do sofá, Lux viu-o passar a mão pelos cabelos acobreados e recostar-se de forma lânguida, ajeitando as pernas enquanto a garrafa de cerveja pairava entre elas.
Fechou os olhos e, com a mão esquerda, agarrou o cabelo levantando-o das costas enquanto a mão direita deslizou pelo pescoço, passou pelo decote, alisou o tecido brilhante, tocando na pele exposta do ventre, descendo lentamente pela anca, parando sobre o início da coxa.
No próximo olhar Lux focou a íris preta sobre um azul brilhante. Sorrindo, deixou que os seus olhos negros percorressem as feições masculinas do rosto dele, o formato amendoado dos olhos, os lábios carnudos, os tendões salientes do seu pescoço e, à altura do seu rosto, os músculos que sobressaíam através da camisa cinza escura.

– Vamos? – O estranho murmurou, encostando os lábios ao ouvido dela, enquanto as suas mãos acariciavam a pele exposta das suas ancas.
Assentindo com a cabeça, voltou-lhe as costas, meneando as ancas a cada passo. Entre a multidão ouviam-se murmúrios, convites obscenos e olhares devoradores. Atrás de si, a presença daquele estranho eliminava as conversas à sua passagem.
Recuperados do bengaleiro, o casaco de Lux pendia num dos braços e a bolsa na mão. Apreciou o ar fresco e o som cortante de cada salto nos degraus de acesso ao bar, enquanto aceitava o amparo do musculoso braço oferecido.
No recôndito parque de estacionamento piscavam as luzes de um deslumbrante carro desportivo. Lux fez deslizar o seu longo cabelo negro expondo a pele do ombro e do pescoço e, agarrando-o pela nuca, guiou-o até aos seus lábios vermelhos.
Com um arrepio, os lábios carnudos daquele estranho acariciaram os seus. Sentiu as mãos dele agarrar as suas ancas, deslizando pelas costas acima e deterem-se, por um instante, no pescoço antes de se enterrarem nos seus cabelos. A sua língua molhada deslizou para dentro da boca de Lux, apossando-se dela. A cada inspiração o odor masculino invadia os seus pulmões, cada fricção de línguas faziam-na implorar por mais, a colisão entre pele e tecido adensava as sensações.
Fechando os punhos, ele agarrou-a pelos cabelos, provocando um arrepio com a fricção de dedos na nuca. Os lábios dele escorregaram, acariciando a face dela, delineando a linha do maxilar e enterrando-se no seu pescoço com uma inspiração profunda.
Agarrando-o pelos cabelos acobreados, Lux puxou-o, descolando-o do seu corpo. Nos brilhantes olhos azuis dele, um misto de descrédito e horror, os seus lábios entreabertos revelavam a cor pérola de dois longos caninos e do seu peito brotava a extremidade de uma estaca.
Ele era cinza antes de atingir o asfalto e o som dos saltos dela era um murmúrio longínquo antes disso.


5 comentários:

Vitor Frazão disse...

Estava com esperança que fosse outra criatura... Não obstante, boa descrições.

Adeselna Davies disse...

Um pouco fraquinho. Na terceira linha já sabia o que ia acontecer. Arrisquem mais :| "Think outside the box"

Leto of the Crows disse...

Gostei das descrições, mas penso que o pecado em si poderia ter sido um pouco mais enfatizado. Acho que digo o mesmo em todos os contos xD

Sandra disse...

Eu gostei bastante, mas é previsível.
Beijos

Inês Montenegro disse...

Previsível e algumas frases ganhavam com uma estrutura mais simples.

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