Nada e tudo - Pedro Cipriano


O meu nome é Félix e sou o homem com mais dinheiro que alguma vez existiu. Para ser mais exacto, eu não existo, eu acumulo. Quase todo o dinheiro da humanidade me pertence. Perdão! Se contarmos com os juros do último semestre, todo o dinheiro é meu e um pouco mais até.
Eu nasci numa família pobre e humilde. Tive de esperar até ser maior de idade para receber o primeiro milhão dos meus pais.
A maior parte de vós não se recorda da Terceira Guerra Mundial. Foi um conflito sangrento e sem sentido, se excluirmos o potencial de crescimento económico. Havia passado apenas quatro anos desde que a guerra terminara e todas as companhias de produção de equipamento bélico estavam num poço bolsista. Escusado será dizer que comprei grandes cotas por tuta-e-meia. Não o podia ter feito em melhor altura. Poucas semanas depois as tensões nacionalistas na Crimeia dispararam e, com elas, as vendas de material de guerra.
Previ que não seria um conflito longo, pois já todos andavam fartos de guerra e a comunidade internacional não tardaria a intervir. Tomei uma decisão crítica e vendi as acções nas primeiras horas do conflito, obtendo um valor muito próximo do seu máximo histórico. Com o lucro comprei várias de empresas de construção e reconstrui os locais devastados pelo conflito.
Investi as parcas dezenas de milhão que daí resultaram na banca e em companhias de seguros. A partir de agora, para facilitar, vamos omitir a palavra milhões e chamemos-lhe apenas dezenas. O crescimento de 15% por ano era bom, mas achei que podia fazer melhor, por isso investi na indústria alimentar.
A grande fome fez-me perder uns vinte (milhões) em compensações resultantes de seguros. Pior, apenas ganhei uns quarenta (milhões) nos outros dois ramos. Aproveitei, contudo, para comprar mais algumas seguradoras.
Quando atingi os duzentos (milhões), já a minha fama me precedia. Bastava comprar um (milhão) de acções para o mercado enlouquecer. Aproveitei-me disso e criei mais confusão. Nunca consegui ganhar dinheiro tão rápido como nessa altura. Aos vinte e cinco anos de idade já tinha atingido um bilião.
Cada vez que a bolsa perdia num sector eu aproveitava para comprar e assim as minhas cotas de mercado cresciam cada vez. O filão de ouro era mesmo a banca, já que emprestava dinheiro a todos os outros.
Não tardei a conseguir comprar corporações e até pequenos estados. Financiar guerras e reconstruções era a tarefa mais lucrativa. Quando isso não era possível, bastava emprestar dinheiro. Em menos que uma década havia poucas empresas que não me devessem dinheiro. Bastava mexer um pouco com a bolsa para tornar essas dívidas impagáveis e assim poder adquirir a empresa.
E foi assim que consegui adquirir todo o dinheiro do mundo. Então o inesperado aconteceu, as pessoas perderam o interesse no dinheiro. Ainda tinha todo o capital, mas a maioria não se preocupava com isso. Não consigo compreender como é que o fazem, mas é certo que o fazem.
Hoje em dia o dinheiro não tem praticamente valor, por isso não consigo decidir se sou o homem mais rico ou o mais pobre do mundo. Se tenho tudo ou não tenho nada.


5 comentários:

Carlos Silva disse...

Gostava de algo ainda mais maquiavélico, sem medo de entrar mais no campo do impossível.

Leto of the Crows disse...

Hm... o texto tem o seu interesse, digamos, filosófico, porém achei-o aborrecido, não suscita emoção no leitor. A Fantasia está tão, mas tão diluída que é quase impalpável, como uma gota de água doce no vasto oceano (eu sei que humanos a perderem o interesse em dinheiro é muito fantasioso, mas mesmo assim...).
Para além disso, o texto precisava de uma revisãozita.

Adeselna Davies disse...

Demasiado infodump e tell :( Eu sei que é complicado expor algo em tão poucas palavras, mas quando se tem um conto curto mais vale tentar contar pouca coisa e com mais "show"

Inês Montenegro disse...

Gostei da premissa e de como no final tudo o que ele ganhou perdeu o interesse pelos demais, mas a maneira como está desenvolvido não atrai, pelas razões que já foram enunciadas no comentários acima.

Joel-Gomes disse...

Lê-se mais como um testemunho do que como um conto, na melhor das hipóteses será uma narrativa epistolar. Géneros à parte, não é dos melhores trabalhos que já li de Pedro Cipriano. A premissa é interessante, carregada de potencial, mas não foi trabalhada da melhor forma. Está, como alguns apontam, carregado de info-dump e de 'telling', mas convenhamos que transformar todo este 'tell' em 'show' transformaria este conto num romance. E porque não?

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