Desejos - Vitor Frazão



Eunice queria um bebé. Todas as vizinhas tinham uma criança para amar e educar, mas ela, por mais que rezasse e tentasse, continuava sozinha naquela casa com o bebedolas do marido. O inútil nem para a engravidar servia. Todas as amigas arranjaram maridos de jeito, logo ela tivera de se contentar com aquele picha mole.
Remoendo na amargura, naquele dia quente de Verão, decidiu abrir a melancia que apanhara no dia anterior.
Assim que espetou a faca para cortar uma fatia ouviu um grito angustiado que a fez dar um pulo para trás. De coração nas mãos, meteu o dedo no líquido vermelho que escorria da sumarenta fruta e levou-o à boca.
- Sangue! – exclamou, perante o inconfundível travo férreo, benzendo-se aterrorizada.
Estava prestes a correr para fora de casa quando a casca listrada da melancia começou a estalar, abrindo uma fenda a partir do primeiro golpe, rachando-se em duas metade para revelar um bebé.
Os olhos de Eunice brilharam ao contemplar a minúscula, mimosa e perfeita criança. O encanto foi substituído por apreensão, com força suficiente para roubar-lhe o fôlego, ao recordar o golpe que lhe fizera ao cortar a fruta. Rapidamente foi tranquilizada ao ver a ferida no delicado ombro fechar-se, em dois tempos.
Fora de si de felicidade, nem sequer pestanejou perante o fenómeno. Se Deus, na sua infinita sabedoria, fora generoso o suficiente para a abençoar com aquele pequeno milagre, fazia sentido que não deixasse um golpe de azar roubar-lho.
Se dúvidas houvesse na mente de Eunice desapareceram por completo quando o bebé abriu as pálpebras para revelar os olhos verdes e soltou um enternecedor riso de deleite.
Rendida por completo, perante o sonho realizado, pegou no filho, aquele tesouro abençoado por Deus e aninhou de encontro ao peito, sem reparar nas antenas, patas e mandíbulas da forma crustácea revelada pela sua sombra projectada na parede.
Também a criatura tinha um sonho e vê-lo-ia realizado às custas daquela mulher invejosa… 


4 comentários:

Leto of the Crows disse...

O conto está engraçado, mas favorecê-lo-ia um maior desenvolvimento das personagens. Digo eu :)

rui alex disse...

A ideia é engraçada.
Achei que foi bastante apressado, um pouco mais de desenvolvimento podia criar um pertinente suspension of desbelief.
O pecado também podia ser mais explorado.

Inês Montenegro disse...

Concordo que o pecado poderia ter sido melhor explorado, mas gostei da ideia e está bem escrito (algumas vírgulas a mais, thought). Não me importava nada de ler uma continuação.

Joel-Gomes disse...

Boa exploração da temática, fez-me lembrar o ambiente de uma série de terror japonesa que vi aqui há tempos. Talvez pudesse ter tido mais desenvolvimento como alguns dizem, mas como está não está nada mau.
A haver mais que venha numa próxima história, de preferência com um bom período de tempo de intervalo. (The new Damien comes from the watermellon from Hell!)

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