A destilação do absurdo - Carlos Silva

Tal como todas as manhãs, Filipe Freire saiu cedo de casa, ainda o sol não raiava sobre Urbania. Debaixo de um dos braços, um banco dobrado, do outro, o farnel. Havia-se despedido da esposa com um beijo na testa e dos filhos a dormir com um olhar terno, para agora dar os bons dias à luz que penetrava entre os prédios. 

Sozinho, abraçado pelo frio da manhã, atravessou a cidade, recusando os serviços dos ensonados condutores dos riquexós a pedais, até chegar à borda, onde as ruas acabavam e o nevoeiro negro que rodeava a cidade começava. Abriu o banco e sentou-se de frente para as brumas e ficou a observá-las como sempre fazia. Observou como os farrapos de neblina negra rodopiavam e se entrelaçavam para de novo desaparecer na escuridão sem fim, reconhecendo os padrões que o tempo lhe havia ensinado. 

Estava para breve, mais para breve do que pensara. 

Eram aquelas brumas que davam a Urbania o epíteto de "a sempre em movimento", da "nunca igual", engolindo lenta e constantemente a parte velha da cidade, ao mesmo tempo que recuava no lado oposto, revelando novos arruamentos e edifícios à cidade. Eram aquelas brumas que absorviam a atenção de Filipe Freire durante horas as fios, revelando aos poucos os seus segredos, como uma mãe ciosa. No entanto, naquela manhã de inverno, a parede de neblina negra estava silenciosa, o que em si era um sinal para quem lhe conhece as manhas. 

Uma pequena folha emergiu das trevas, bailando no aragem, tentando Filipe a levantar-se do banco, mas este sabia que estava a ser testado. Teria de ser paciente se queria que a folha não voltasse a desaparecer, soprada por uma qualquer rajada oportuna. Fechou os olhos, concentrando-se no assobio do vento e assim ficou durante minutos, numa batalha de paciências que acabou por ganhar sob a forma do pousar lento da folha sobre o seu colo. Pegou nela, com os dedos brutos e levou-a ao olhar. Era uma folha de carvalho, crescida o suficiente para pertencer a uma árvore adulta. Filipe dobrou o banco, virou costas ao nevoeiro e rumou a casa, não sem antes lhe dizer: 

- Estava a ver que não, amigo. 

A família Freire era a melhor e mais antiga produtora do famoso licor de Urbania de nome Reductio Ad Absurdum. O processo, herdado dos seus antepassados, era secreto e só mesmo o chefe da família conhecia todos passos e ingredientes. A produção do licor era um negócio de família, empregando desde a mulher aos filhos, passando pelos tios e sobrinhos, cada um com uma tarefa vital na concepção da preciosa bebida. Nenhum pormenor era descurado, até as garrafas eram especiais. Tinham de ser de cristal, para não corromper os delicados aromas nelas contidos, e de tal esguia forma que os vapores não se escapassem mal se tirasse a rolha. Todavia, o que tornava o Ad Absurdum da família Freire tão especial era a frescura da selecção de flores destiladas a frio, de modo que apenas os aromas mais leves conseguissem escapar para o interior do néctar de outras tantas plantas que ninguém sabia quais. O trabalho de Filipe era montar guarda à muralha de brumas negras, perscrutando a sua escuridão o dia em que as flores iriam chegar. 

Quando o chefe de família chegou a casa, já todos os seus ocupantes estavam despertos, ocupando-se dos seus afazeres diários. A um canto da cozinha, a filha mais velha e a esposa picavam o gelo que iriam colocar sob o alambique; o filho varão preparava-se para sair, para ir buscar as garrafas que o tio tinha produzido no dia anterior; os dois filhos mais novos brincavam com os materiais que tinham sobrado da destilação anterior, atirando pétalas de rosa negra um ao outro, rindo-se como só as crianças conseguem. Assim que Filipe passou o umbral da porta, todos se levantaram expectantes. 

- Já, meu amor? Tão cedo? 

- Sim, até hoje à noite Urbania ganhará uma floresta. – respondeu Filipe, abraçando a mulher - Prepara os cestos. Amanhã por esta hora, Urbania terá o mais fino Ad Absurdum que alguma vez provou. 

Alegremente, a família atravessou a cidade, seguindo os passos de Filipe, balançando os cestos, rindo-se quando os ardinas anunciavam a notícia de última hora: Urbania iria ganhar uma floresta. Ao ouvirem as notícias, as lojas apressaram-se a encomendar toalhas de pique-nique, machados e espingardas de caça, de modo a satisfazer os novos desejos que certamente surgiriam assim que as primeiras árvores surgissem. Todos pareciam contentes com as novidades, com a excepção de um grupo de engenheiros da câmara, que tinham fé que as brumas fossem revelar um novo tribunal para compensar o velho que havia absorvido há um mês, obrigando-os a mudar as audiências para o auditório do palácio da presidência. 

Durante toda a tarde a família Freire vagueou pela floresta, avançando cada vez mais para o seu interior, à medida que as brumas a iam revelando, enchendo os cestos de plantas que iam esvaziando quando encontravam exemplares mais perfeitos. Ao surgir da lua no horizonte, todos regressaram a casa, excepto Filipe, e reuniram-se em torno do alambique, desfolhando as flores, largando as pétalas uma a uma para o interior do vaso de destilação. O chefe de família puxou do banco desdobrável e sentou-se em frente às brumas, quase não conseguindo distingui-las da escuridão em seu redor. Na destilaria, o filho mais velho começou a dar ao fole, fazendo o ar frio penetrar nas pétalas, arrastando os aromas, borbulhando-os no líquido açucarado que fazia o corpo do licor. As brumas quebraram o silêncio, falando uma vez mais com Filipe, contando-lhes o seus segredos. O licor foi mudando de cor, ganhando reflexos madrepérola, transformando-se aos poucos no Ad Absurdum tanto apreciado. Filipe semicerrou os olhos tentando discernir as imagens que as brumas lhe davam, reconhecendo nelas o passado e os futuros de Urbania embrulhados em indefinição. O filho primogénito suava em bica, castigando o fole sem tréguas até que toda a essência passasse da origem para o receptáculo. Filipe levantou-se e tropeçou numa raiz, caindo para lá das brumas. Quando se levanta, já não sabe se está em Urbania se dentro do nevoeiro negro. Lembra-se das histórias que lhe contaram sobre os que haviam entrado e nunca saído e a pele arrepia-se. Houve os gritos das criaturas que habitam a escuridão, reclamando pelo seu quinhão. Está dentro! Sem pensar na direcção, corre, confiando que longe daqueles sons terríveis está a sua casa. Este as mãos, mas não toca em nada. Está perdido. As criaturas aproximam-se cada vez mais. Os tendões gritam de dor e Filipe sabe que não pode parar de correr. Um a um, todos os elementos da família Freire vão dormir, encerrando o Ad Absurdum num enorme vaso de cristal à janela, onde poderá maturar à luz da lua. Sem acordar ninguém, ofegante, Filipe entra dentro de casa e vai para a cozinha, contemplar o trabalho que a sua família faz há gerações. Ignorando as regras que ele próprio instituíra, destapa o vasilhame e espreita para o seu reflexo no líquido estagnado. Não se reconhece. Não sabe a quem pertence aqueles olhos encovados e cara pálida sulcada de rugas. Conheceria melhor se fossem as brumas com que fala todos os dias. Seria muito mais familiar se fossem farripas de negrume. Ri-se. Ri-se descontroladamente até que as lágrimas lhe vêm aos olhos, rolando pelas faces, caindo dentro do licor. O último ingrediente secreto fora adicionado: as lágrimas de um homem louco.


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4 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

O conto deixou-me interessada pelo que escreveste sobre Urbania. Um mundo em que de um momento para o outro há mudanças físicas? Nãi augura nada de bom para os seus habitantes...

Vitor Frazão disse...

Não me parece que seja de um momento para o outro, afinal, como diz o conto à sinais. ;) Mas sim, não deve ser fácil, mudança nunca é...

Inês Montenegro disse...

O momento em que ele se perda nas brumas podia ser melhor desenvolvido e o conto ficar a ganhar (but there was a word limite, I suppose). Gostei mesmo muito do conceito da bruma a "fazer e desfazer" a cidade.

Leto of the Crows - Carina Portugal disse...

Gostei muito do conto, mas também acho que a última parte podia ser um pouco mais desenvolvida.

Em todo o caso, toma um kinder bueno imaginário pelo bom trabalho *dá chocolate*

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