Vamos Pintar os Franceses de Carmin - Ana Ferreira

Um conto de Adosinda Gonçalves 
Escrito por Ana Ferreira 

1. Liberté, Fraternité e um tiro nos franceses, por favor! 

Porto, 1809 

As ruas do Porto enchiam-se de posters com gravuras do rei D. João VI e D. Maria I a pedir recompensa dos seus pescoços. “Se viu estes traidores, queremo-los vivos ou mortos. A recompensa: restaurar a honra da pátria.” Adosinda despregou um poster da parede e admirou a pintura básica do rei. Se não pagam, não quero, pensou. Entrou numa tasca e desencantou mais uma vez o papel. Tinham a certeza que aqueles na imagem eram mesmo membros da realeza? D. João VI parecia mais magro e a D. Maria não tinha o cabelo arranjado, como costumava. Bem, de qualquer forma, os tipos estavam no Brasil a comer à grande a à francesa, enquanto a Junot ameaçava entrar no Porto. Pediu um copo de vinho e a carcaça com chouriça que veio a fumegar. O relógio de bolso indicava que ainda tinha vinte minutos até chegar à estalagem e encontrar o general Beresford. O vinho sabia a ranço, mas tanto o cheirinho vindo do pão com o paladar do chouriço eram motivos para ela querer lutar por este país desgraçado, com a monarquia entregue aos franceses. Os trabalhadores voltavam do trabalho, arrumando o farnel. Um olhou para o poster. 

“É uma daquelas que vai atrás do rei?” Perguntou o homem já gasto pelo tempo. Adosinda acendeu um cigarro. 

“Porquê? Vai-me pagar a passagem até ao Brasil?” 

O homem mandou um murro à mesa. “Está a brincar com a nossa cara? Estes filhos da puta merecem ser enforcados pela sua covardia!” 

“Concordo.” Adosinda sorriu, exibindo os dentes um pouco amarelados pelo fumo. “Mas, se tivermos em consideração que os nossos governantes, são, como disse, uns cabrões, e estão a milhas de distâncias, separados por mar, não vejo qual a pressa de os ir buscar. Ou estão com saudades deles?” 

O homem exibiu um canivete. “Eu se fosse a si tinha cuidado com o que dizia, condessa! O povo portuense está farto de vocês, mouros ricos que vivem às nossas custas!” 

Adosinda retirou uma pistola do coldre. “Deixe-me fazer apenas um reparo.” O homem ao ver o revólver deu um salto para trás. “Não sou condessa, sou duquesa. Eu sei que para vocês é, como diriam os nossos cabrões-mor franceses tout lá meme chose, mas não é. Eu tenho mais dinheiro que uma condessa. Um conde tem um condado, um duque tem um ducado. Para uma condessa estar no mesmo patamar que eu teria ainda de passar por marquesa.” O homem deu um passo em direcção à porta e o som da arma a ser pronta para disparar ecoou. “Não vá a lado nenhum que eu ainda não acabei, bom homem! Bem, trate-me então por duquesa, se fizer a fineza.” Levantou-se. “Ah e tem a minha bênção ou o caralho que nós duquesas vos damos para matar os franceses.” Nesse momento entrou um homem com uma farda vermelha. Ao ver a mulher com a arma apontada a um operário parou. 

“Miss Gonçalves?” Ela acenou sem virar a arma. “General Beresford, at your service, madam!” Adosinda desarmou a pistola e guardou-a. 

“I see my husband has already informed you the details?” O homem pareceu confuso, não só pelo aperto de mão forte, mas pela observação. 

“Details, madam?” 

“Well but of course. You are at my service, General Beresford!” 


2. Um plano para a Invicta 

“Portanto, precisamos de um plano!” Adosinda observou com os dois pés em cima da mesa. O general tinha pedido uma chávena de café, ao que ela simulou um riso quase genuíno e deu-lhe duas palmadas nas costas. “Você tem piada! É mesmo disso que eu preciso! Ó Jacinta, traz aqui dois copos de um bom verde para o general, que ele está aqui para matar franceses!” 

“Do you have a plan, madam?” 

“É claro que tenho um plano, criatura. Não o chamaria sem um. Mas vá, aqueça a garganta antes de eu lhe explicar. Tudinho!” 

O general levou o vinho à boca e saboreou. 

“I will only ask you to speak slowly, as I have not yet learnt Portuguese fully, in order to have a conversation.” 

“Não há problema, eu falo devagarinho como você quer, explico-lhe tudo e se quiser até traduzo no fim! O meu plano é simples: você mata franceses, yes?” O general acenou. “Eu também mato franceses com você, ajudo-o, yes?” O homem concordou. “Damos um pontapé no Junot and then you, my friend will be president of the North!” O homem não acenou. 

“President?” 

“Sim, você sabe, quem manda e tal. O nosso rei deu de chispes para o Brasil e aqui no Porto a gente é muito simpática e precisamos de um rei or something like that. Mas vocês lá na Bretanha fazem as coisas mais civilizadas que nós! Que acha? Aceita?” 

O homem ficou embasbacado. 

“But… but I am not Portuguese? Why would your people accept me as their ruler?” 

“Oh general, não se preocupe com o facto de não ser inglês. Se der um pontatpé nos franceses até pode ser galego. Quer dizer galego não, que a gente dá-se mal com Espanha… Nem podia ser lá do Brasil, que senão também lhes davam cabo do canastro. Enfim não tem nada a ver consigo! Se fizer o seu trabalho, tem um país seu. Imagine só, general Beresford.” 

O homem não tinha bigode para coçar, senão estaria naquele momento a pensar enquanto afava o bigode. A proposta não era má do todo, mas porque raios queria aquela mulher dar-lhe o governo do país para o colo? I will be damned, pensou, se esta mulher me está a enganar! O que ganharia ela com isto? 

“What it is for you, miss, once I am in charge?” 

“Eu não quero nada, general…” Voltou-se para o prato onde descansavam as beatas dos cigarros. “Quer dizer, querer, querer, of course que quero algo.” 

“You should name your price.” 

“Well, o meu preço é apenas um. Ficar com o Junot depois da batalha!” O general falhou em conter uma gargalhada. 

“That is mostly peculiour, madam. Why would a married woman like you, want a smelly French general for?” 

Adosinda aproximou-se dele e segredou. “Sabe, general, existe uma recompensa, a reward de dois mil reais para quem entregar as ceroulas do Junot. And as you are informed, dois mil reais é bem mais do que Portugal vale neste momento.” 

“That much? Well then you shall have your money and I, my own country…” Virou-se para o balcão e esforçou-se por soltar uma frase em português. “Jacinta, pór fabor, trága two cops de vinho, for us. To celebrate!” 


3. Vamos pintar os franceses de carmim 

Os soldados franceses manchavam a terra de vermelho. O exército do general Beresford era eficiente e o povo do Porto ajudou à causa. Mais valia ter um britânico a lutar pelo país, que um rei covarde. O general armou as mulheres e os homens contra os invasores. Adosinda não se cabia de contente. Sempre que encontrava um francês com o fato manchado de vermelho sabia bem que eram franceses vampiros. Ainda bem que a Maria Adelaide tinha feito o seu serviço! Vampiros e franceses era uma sorte dos diabos poder matá-los a todos com a caçadeira. Um vampiro francês morto, dois vampiros franceses mortos, três vampiros franceses mortos. Todos rebolavam para o Douro, o rio enchia-se de corpos e flutuar. 

“Madam, you have to pay some attention.” O general Beresford cavalgou até ela. 

“Cuidado porque raios?” Limpou a arma. 

“You are attracting too much attention!” Adosinda não via onde é que atrair atenções era mau. Para além dela não saber quem raios era o Junot. Tudo bem talvez fosse o moçoilo jeitoso que estava em cima do seu cavalo todo cheio de condecorações. Já te apanhei, meu cabrão! “Now, miss I ask you to be discreet.” 

“Discreta? But General I am just painting the French red!” 


4. E assim nasceu a Inbicta 

Junot acordou de pernas para o ar, amarrado com as partes de baixo desnudas. Uma mulher estava sentada no que parecia ser uma mesa rasca. Adosinda começou a mascar o charuto. Que merda, não era fluente a francês, e agora, como raios ia explicar o porquê de ele estar ali de pernas para o ar com o, bem era pequenino, à mostra? 

“Je suis desolée pour cette situation… Comprenez-vous portugais, général Junot?” O homem acenou. “Ai que rico moço! Bem era só para o avisar que sou eu que tenho as suas ceroulas.” 

“Pourquois voulez-vous ma cullote?” 

“As suas ceroulas são famosas, caro Junot! Ai se você soubesse quanto elas valiam até você as dava.” 

“Madame, je ne comprend pas pourquoi mes culottes sont importants?” 

“Ó criatura não são as ceroulas. É por causa de você! Ora bem, você foi capturado, vocês perdem, os ingleses ganham. Guerra é guerra, senhor Junot.” O francês mostrava claros sinais de cansaço e inquietação. “Senhor Junot, as ceroulas provam a sua derrota. Dois mil reais para os meus bolsos pela sua cabeça. Sabe o que vou fazer com este argent, general?” O homem abanou a cabeça. “Non? Quel dommage! Com os reais, je vai comprar o Porto a Portugal et sendo a nova dona de um pays, je vai denominá-lo de Inbicta. Que acha, general? C’est mangnifique, non?” 

O General abanou a cabeça. 

“Mais vous êtes folle?” 

“Qual louca! Não gosta do nome? Que pena. Pense assim, general a sua derrota vai ficar para a história! A derrota do general francês originou a criação de um país independente, a Inbicta, onde os franceses foram pontapeados e nunca mais voltaram! Et Voilà, Ça c'est Histoire, mon petit général!” A porta abriu-se, deixando passar um faixe de luz. 

“Ele ainda está vivo?” 

“Ah Adelaide, eu nunca falho um compromisso. Prometi-vos o general vivo e aqui o tendes. Já estava farta de falar francês. Como está o Beresford?” A mulher sentou-se ao lado de Adosinda. 

“O povo adora-o. É visto como o salvador do Porto, except he is broke.” Adosinda sorriu. 

“Not anymore, my darling.” Olhou para o Junot. “Ah mas este general é feito de ouro.” Um vampiro entrou no casebre. Cabelo preto amarrado, vestido com fato militar. “Olha-me esta, sim sra, o duque de Aveiro em pessoa aqui, vê general como a gente gosta de si! A sua sorte é alguém dos Távora ser vampiro e viver o suficiente para presentear-nos com a sua presença.” Adosinda esboçou um sorriso amarelo. O vampiro pegou na sua mão direita e beijou-a. 

“Soube que foi um sucesso a matar os vampiros franceses.” 

“A gente cá luta pelo que é nosso. Quando temos franceses, consigo tolerar-vos.” Levantou-se a aproximou-se do general, dando-lhe uma palmada no traseiro à vista. “Sejam simpáticos. Olhem que o general aqui vem de um Império e não está habituado a parvónias!” Saiu do casebre e fechou a porta. Em direcção à estalagem pensou que seria boa ideia deixar o homem com dois vampiros. Encolhou os ombros. Já tinha a prova que merecia o seu dinheiro e ainda tinha dado uma coça aos franceses. Qual viva lá liberté, bom era ver os portuenses separados de Lisboa e com um homem de armas a chefiá-los. Na estalagem mandou recado para estarem prontas cinco malas para uma viagem longa. Chegou ao porto da Foz de carruagem. 

“Ouve lá, porque raios pediste isto?” Afonso, um homem alto com uma barriga generosa, esperava-a de barba aparada e também ele com as malas a seu lado. Adosinda beijou-o e abraçou-o. Fez sinal a um senhor que estava perto. 

“Desculpe, mas esta embarcação vai para o Brasil, certo?” O homem acenou. “Vês, vamos para o Brasil! Consegui duas passagens para nós os dois.” 

“Porque é que vamos mesmo para o Brasil?” 

“Ora, saiu hoje um pedido de que quem encontrasse a peruca do D. João VI ganharia seis mil reais! Isto ainda é maior que as ceroulas do Junot e escuso de ver El-rei com o mastro a badalar!” Afonso abraçou-a. 

“Para o Brasil?” 
“Mais oui, monsieur. Vamos pintar os brasileiros de carmim!”


6 comentários:

Inês Montenegro disse...

A Adosina está rapidamente a tornar-se numa das minhas personagem fictícias favoritas a nível vitalício!
Tens alguns erros de digitação =/ Deste bem a volta em relação aos línguas e à quantidade de informação em poucas palavras. A escrita nestes moldes tem um encanto muito Inbicto X)

Carlos Silva disse...

A Adosinda é uma moçatona que está a agitar esse Portugal! Gosto muito do humor que se conserva bem na linha do verosímel e da naturalidade das personagens.

Anónimo disse...

"pedir recompensa dos seus pescoços"
não seria
"oferecer recompensa pelos seus pescoços" ?
Não li o resto...

Adeselna Davies disse...

Não leu?? Ó caro Anónimo, não me diga isso. Olhe que se calhar, já pensou que vai gostar do resto? Que se calhar está a perder um conto que até vai gostar por causa de uma questão de semântica? Ou então é um grammar nazi assumido... não? Ande lá, dê lá uma chance a uma pobre personagem fictícia! Já viu que triste que seria a nossa vida literária se desistíssemos de ler passado duas frases? Mas vá, eu vou ser uma fofinha e não vou mandar a Adosinda atrás de si! Nem a Adelaide... mas tem de me prometer que não desiste assim de ler contos! Para a próxima tente dar mais feedback, que isso de mandar bitaites do estilo: não li o resto não me ajuda em nada, meu querido! Mas deixe lá. Ninguém irá morrer por isto... quer dizer, nunca se sabe...

Joel-Gomes disse...

Esta não é a primeira história que leio da Ana, nem tão pouco é a primeira sobre a qual elaboro uma opinião. Porém, é a primeira sobre a qual irei manifestar essa opinião publicamente.

'Vamos Pintar os Franceses de Carmim' é um conto estupendo de tão hilariante e vertiginoso que é. Adosinda é uma mulher sem papas na língua, decidida e determinada. Um pouco como a escrita de Ana, aliás: rápida, directa, mas simples. Não é um conto perfeito - há uma ou outra gralha - mas se o seu propósito era entreter, isso fê-lo na perfeição.

Leto of the Crows - Carina Portugal disse...

Raios te partam, Adosinda, fiquei com vontade de comer pão com chouriço e isso não é nada simpático para a minha gastrite.

Em todo o caso, o conto ficou engraçado. Acho que foi o primeiro texto completo que li sobre a famosa Adosinda.

Enviar um comentário