Máquinas Infernais Vindas do Céu - Ana Ferreira

Um conto de Adosinda Gonçalves
Escrito por Ana Ferreira
Para o dia de São Valentim, Fantasy & co.


Apresento-vos Aurélia uma morta-viva (não lhe digam que ela é um zombie, senão ela fica fodida, loira, olhos azuis, pálida e bonitinha. Costuma usar roupas claras e está sempre acompanhada da uma sombrinha. 

Ao seu lado Adosinda, outra morta-viva, mercenária. Cabelo castanho encaracolado, olhos verdes bem vivos e cara também pálida. Nenhuma das duas é simpática, a palavra zombie não será invocada. 

A ler o jornal, Carlos uma criatura dócil, médico de profissão. Cabelo curto castanho claro, olhos dóceis cor de mel e um perfeito cavalheiro. Gosta de explodir coisas. 


Algures em Viseu 

Aurélia olhava para a caixa dourada com dois botões sem indicação para o que serviam. 

“Eu não vou meter isso na pachacha!” Exclamou Adosinda. O aparelho tinha-lhe vindo parar às mãos por ordem do presidente para que ela e Aurélia o destruíssem. 

“Não queres descobrir porque é que o presidente quer isto completamente demolido?” Aurélia piscou-lhe o olho e sorriu. 

“Mete tu então! Se ele disse para dar uma marretada, a gente dá! Não há cá questões.” Adosinda olhava-a de lado com o espartilho a esmagar-lhe o peito. “Já tenho ferros enterrados nas mamas, não preciso dessas coisas na racha. Que raios! O que eles haviam de inventar agora.” Pegou na bengala e ao passar por Carlos deu-lhe uma palmada no ombro. “Hoje vai ser toda a noite acordado.” Riu-se e recolheu-se para o quarto. Já sabia que a curiosidade da amiga levá-la-ia a usar a máquina para seu proveito. Acendeu um charuto e pôs-se a pensar na execução do dia seguinte. Salvar a criatura que inventou a máquina, dar uns pontapés nuns vampiros, uns tiros noutros. O seu quarto em Viseu era mais espaçoso que em Lisboa. Para além de ter um armário que dava para guardar as suas roupas, ainda tinha a retrete privativa. Apesar de morta gostava da quentura da água contra a pele. Além do mais, ajudava a disfarçar o cheiro e a integrar-se com as senhoras completamente ensopadas em perfumes daqueles dos anúncios com mulheres seminuas. Admirou a paisagem para a entrada da mansão de Carlos, médico, filho de comerciantes; aquela mansão já tinha três séculos e mantinha-se sempre atraente. Tirou o espartilho vermelho e os collants pretos, deitando-os sobre a cama. A saia preta foi deixada no chão, tal como as cuecas. Quando Afonso abrisse a porta saberia que ela estaria com as pernas fora da banheira a fumar o resto dos seus cigarros. Acariciou o peito e passou a mão pelo pescoço. As pernas pálidas separaram-se e um gemido escapou-lhe da boca. 

“Se queres que eu continue, vais ter de pagar, Aurélia.” Sorriu para a amiga. “O que se passa?” 

“Esquecemo-nos que… estamos, bem, eu estou morta.” 

“Estamos as duas mortas há uns bons séculos. Já te disse que não vou meter isso aqui, ainda por cima com a água, queres que eu fique com os cabelos em pé do choque, moça?” Apagou o cigarro. “O Carlos não tem aquela bebida para subir o…” Levantou o dedo indicador. 

“Acabou há pouco, mesmo assim só dá para levantar. Aquilo não dura muito tempo. Ele vai mudar o composto. Mas continuo a querer experimentar isto.” Olhou para as tenazes. 

“Cura-te filha! Olha o nosso amigo Freud se fosse um de nós, explicava essa tua obsessão pelo sexo!” Aurélia revirou os olhos. 

“Ai és tão pouco romântica! Tens aqui uma bela espécime de gaja com vontade de foder e queres um encontro com o Freud?” Adosinda saiu da banheira e agarrou numa toalha. 

II 

Aproximou-se de Aurélia e encostou os lábios aos dela. Adosinda não preferia o corpo quente de uma mulher viva. Adorava passar as mãos pelo corpo nu de Aurélia. A pele leitosa, aveludada, pronta para ser adorada pela boca. Os gemidos da mulher aumentaram de volume, aproveitando o facto de ela estar com os olhos cerrados, conduziu-a para a cama. Entrelaçavam as mãos, as pernas e riam-se quando aterraram na cama. Aurélia possuía um peito pouco volumoso, mas isso não impedia Adosinda de adorar os seus seios. Com a sua língua percorria-lhe os mamilos duros, as mãos massajavam a barriga que elevava com o prazer. Aurélia trincava o lábio. Meu Deus, que mulher! Voltou a encarar Adosinda, com um olhar perdido na volúpia. Percorreu os lábios com a língua. 

“Amo-te.” Murmurou. “Deixa-me satisfazer-te.” Adosinda acedeu, deixando que os seus lábios se tocassem mais uma vez. 

Poisou os lábios no meio das pernas de Adosinda e assim que a viu morder o lábio e a fechar os olhos, colocou a pinça no clitóris. 

“Ah sua filha da…” Aurélia pousou os dedos nos lábios da amante. 

“Shhhh, vamos lá ver para que é que isto serve.” Aurélia circulou o clitóris da amante com os seus dedos esguios. Os gritos indicavam que estava no caminho certo. Adosinda guiava-a com movimentos das suas ancas e acariciava a cabeleira loura. Os olhos azuis de Aurélia atingiam o olhar perdido da amante. “Tens uma cona linda.” 

“Olha, lá se foi romantismo!” Gozou Adosinda. Como resposta, Aurélia subiu para cima dela e trincou-lhe os mamilos. Os seus olhares cruzaram-se e regressaram aos beijos e carícias leves. A cada toque, os nervos de Adosinda pioravam e ela sabia que estava perto de conseguir atingir o orgasmo só com a língua da amiga. Afastou mais as pernas. 

“É esse o vosso conceito de comerem-se uma à outra?” Uma voz masculina e grave fez com que Aurélia parasse. Desiludida pela interrupção, Adosinda retomou a cara da amiga para o centro do seu corpo. 

“Estamos a testar uma geringonça. Ai meu Deus, o que eu faço pela ciência!” Trincou os lábios, sentiu o peito ficar apertado e mal o grito que anunciou o orgasmo ecoou pelo quarto, duas lâmpadas ligaram-se. Aurélia olhou para o tecto. 

“Uma máquina de electricidade a orgasmos? Sim senhora, onde foram desencantar isso?” O homem observava a máquina. 

“O presidente quer isso destruído! Imagina só, uma máquina destas e as companhias de electricidade iam à falência!” Para Aurélia era bastante óbvio o porquê do presidente querer aquilo aniquilado. Os prejuízos das companhias que o Estado teria. Adosinda, entretanto, já fumava o quarto cigarro do dia. 

“Isso fica como prenda como demonstração do meu eterno amor por ti.” Revirou os olhos depois da última frase. Aurélia pegou na máquina e retirou-se do quarto.

III 

Afonso tirava a gravata e os sapatos. 

“Um homem não pode sair de casa, que chega e tem duas mulheres enroladas na sua cama.” Pegou numa rosa de plástico vermelho e ofereceu-lhe. 

“Que lamechice!” Afonso virou-lhe a cara e beijou-a com força, sem que pudesse recusar. 

“Vais-me agradecer quando souberes que essa rosa foi pintada com o sangue de três vampiros.” Adosinda olhou-o de soslaio. 

“Três vampiros?” perguntou desconfiada, gesticulando com os dedos o número três. 

“Três vampiros mortos para a mercenária mais sanguinária de Portugal!” Adosinda passou o dedo pela rosa e provou o sangue. Blergh, sabia mal, tal como o sangue podre dos vampiros. Com os lábios vermelhos sorriu. “Feliz dia dos namorados, amor!”


2 comentários:

Inês Montenegro disse...

A Adosinda não deixa escapar nada, tem para todos os gostos XD
Nota-se que há história e mais nas personagens atrás disto, como um detalhe de uma história maior, mas lê-se bem como conto individual e julgo que é essencialmente graças à forma narrativa.

Joel-Gomes disse...

Contos eróticos não são o meu forte, mas não foi isso que me impediu de pegar neste conto de Ana Ferreira. Neste caso 'erótico' não será o termo mais correcto, mas vamos mantê-lo para não chocar as mentes mais sensíveis - guardemos o choque para quando lerem o conto.
Para dizer a verdade, não sabia que o conto se inseria neste género. Confesso que, se soubesse, talvez não o tivesse lido. Como disse, não são o meu forte.
Quanto à história em si, tudo aquilo que já disse em histórias anteriores relativamente à escrita de Ana Ferreira e à sua Adosinda, mantenho e reforço tudo. Fazendo a comparação com a música, não gosto de hip-hop, mas um dos melhores álbuns que já ouvi pertence precisamente a uma banda desse estilo musical. O conteúdo deste conto, a sua temática, não me dizem muito, mas, ainda assim, a autora conseguiu tornar essa leitura suportável e, em certos momentos, agradável. Trabalhou bem um conteúdo que não é nada fácil e isso é de louvar.
Palavras finais: Temáticas à parte, Adosinda continua a ser uma óptima personagem. Não me importava nada de vê-la protagonizar uma história de maior dimensão. Fica a dica à autora.

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