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7 Virtudes
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Ana Ferreira
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Fantasy and Co.
O documento (humildade) - Ana Ferreira
Neste momento, um autor acaba de escrever o seu texto. Não se senta à frente de uma máquina de escrever com tabaco ao lado e com a injecção de morfina. O ópio fica esquecido nas folhas dos livros antigos, nas estantes e a vodka é trocada por uma chávena de café. A ideia do escritor solitário, a escrever isolado do mundo, já não existe. A visão de um autor que mal acaba de produzir a sua obra numa assentada, não passa de uma lenda que nos é contada para que continuemos a alimentar um sonho de perfeição. Neste momento, o autor que acaba de escrever o seu texto, procura por editoras para enviá-lo. O seu livro não estará muito tempo perdido nas pastas de escrita do seu computador. Não é preciso. Tudo o que escrever terá de servir para publicar. Afinal de contas para que se quer um brinquedo, se não podemos brincar com ele? O autor envia o seu livro para a sua editora para ela avaliar. O seu orgulho promete-lhe que este livro será aceite por uma editora. Tem todos os ingredientes para isso e passou três meses a escrevê-lo. Afinal, se Kafka escreveu a sua Metamorfose numa noite e o Álvaro de Campos nunca revia os seus textos, em três meses algo de bom teria de sair daquela cabeça. Nem tudo eram ilusões na cabeça do autor. Sabia bem que cativar a audiência seria difícil. Não se pode agradar a todos, mas se vendesse bastante já deveria chegar. O nosso autor também tinha plena consciência de que viver como autor não passava mesmo disso, uma ilusão. Se conseguisse chegar à segunda edição seria uma vitória. Mas afinal isso seria fácil com uma editora grande. A sua editora mais tarde dir-lhe-ia o que era preciso ser alterado. Nunca contratara uma editora antes. Todos os grandes escritores pareciam ter um. O seu telemóvel vibrou.
- Estou? Olá Sofia, então como vais?
A voz do outro lado soluçava.
- Não consigo, Miguel... Não consigo escrever...
- Então, que se passou? O que aconteceu àquela ideia que tinhas? – Um silêncio e depois a mulher voltou a falar.
- Não sei... está uma merda! Tudo uma merda. – Outro soluço. – Não posso enviar isto ao meu editor. Ninguém vai querer ler isto.
Ele suspirou.
- Posso ler? Queres enviar-me por e-mail?
- Vais dizer que está horrível!
- E depois? Antes eu que o mundo inteiro. – O choro parou. – Anda lá, eu acabei de te enviar tudo, tenho tempo para ver o teu livro. Não vás abaixo. Conseguiste planear tudo num ano e só estás há dois a tentar escrever.
- Se não pensarmos nos cinco anos que tive para aprender a escrever alguma coisa minimamente decente...
- Só começou a contar quando escreveste a primeira frase.
- Miguel, é a terceira vez que reescrevo o início do livro... Nunca vou acabar esta merda! – O choro voltou.
- Pára com isso... manda-me isso e eu depois vejo, ok? Não demoro muito tempo. Depois se formos os dois aceites e publicados, eu faço-te o jantar. Soja como tu gostas. Combinado?
A mulher esforçou-se para sorrir enquanto as lágrimas caíam. Na sua secretária um maço de tabaco e chocolate quente acabado de fazer.
- Até já...
Pousaram os telemóveis. Miguel voltou-se para o computador para fazer refresh na conta de e-mail à espera do manuscrito. Bebeu um gole de chá. A miúda não podia desistir naquele momento. Demorara muito tempo até conseguir elaborar a sua história... tinha a certeza que iam conseguir publicar. Na sua Caixa de entrada caiu um e-mail com o assunto: A desgraça. Miguel sorriu. Raios partam a miúda. Abriu o documento e começou a ler. O início não lhe parecia mau. Como sempre ela estava a exagerar com os seus devaneios. Um dia, enquanto bebiam os dois um chocolate quente no café, Miguel perguntara-lhe porque é que não se tornava editora em vez de escritora. Sofia respondera-lhe que era ambos. Era possível ser ambos e ela seria a prova disso. Claro que era alheia a estes ataques de raiva, em que a sua editora interior tratava de querer apagar tudo o que tinha escrito. Olhou para o relógio. Três da manhã, tempo de ir recarregar baterias.
***
Duas semanas depois acordou com o som da campainha. No chão estava uma caixa dos correios com o seu manuscrito anotado. Sofia tinha escrito as anotações a azul e as mais graves sublinhou com caneta fluroscente. Sentou-se na poltrona a ler as modificações. Nada de grave. Uma alteração de cenário no primeiro capítulo, algumas alterações sintáticas. Foi aquecer água para um chá. A meio do manuscrito a sua cara ficou séria... Estás a gozar comigo, miúda? Sofia pedia-lhe para matar uma personagem, mudar o final e ainda fazer umas quantas alterações no seu worldbuild. Os olhos de Miguel incharam de raiva. Matar aquela personagem? Caramba, de todas as que podia ter pedido, para matar, tinha de ser mesmo aquela? Rebolou na cama. Não! Não, não, não podia matar a Cybil! A Cybil era a sua personagem favorita. Ia doer demasiado. Ela representava a sua amada. Impossível. A Sofia que fosse dar uma curva. Ligou o computador para escrever um extenso e-mail, onde justificava o porquê de não poder mudar certas coisas. Se fosse correcção de português ainda entendia. Ele era um autor! Tinha publicado um livro e este era o seu segundo trabalho. A Sofia estava há cinco anos a tentar acabar um livro, o que sabia ela de escrita? Nem por sombras! Ela não sabia o quanto custava apegar-se às personagens. Ele era um autor e ela não... Das duas uma: ou arranjava um novo editor ou então enviava assim para a editora. Lamento, Sofia.
***
Sofia abriu o documento de word com todas as justificações... Suspirou. Ai, ai Miguel. Quando é que vais entender que o orgulho de autor não te leva a lado nenhum. Encostou a cabeça no sofá. Só porque recebeu críticas positivas do seu primeiro livro, não implicava que este não tinha falhas. Um ego de autor inchado é do pior que pode haver. Pegou num cigarro. Kill your darlings... Always kill your darlings. Aquela personagem que mais parecia uma Mary Sue não ia a lado nenhum. Precisava de sofrer, de apanhar porrada. Arranca-lhe um membro ao menos. Os leitores precisam de sentir que ela é humana. Um autor com ego era uma coisa horrível. Miguel tinha de entender que Sofia queria que ele passasse de um autor pouco conhecido, para aqueles autores, cujas críticas apareciam nos jornais e nas revistas. Queria o seu livro à venda em todo lado e com críticas positivas de críticos conhecidos. Para isso teria de mudar muitas coisas... se o seu ego o permetisse.
***
Miguel abriu a caixa de e-mail. Não se entendiam quanto ao livro. Miguel ia agora enviar o seu manuscrito para outro editor. Verificou o documento mais uma vez e começou a ler os capítulos. O seu coração acelarou. Pegou no telemóvel com as mão trémulas.
- Miúda, tu não vais-te acreditar no que aconteceu...
Do outro lado, Sofia abria a porta do fogão para colocar o macarrão lá dentro.
- Podes tentar chocar-me... – O seu tom de voz reflectia a tristeza do seu rompimento como editora do Miguel.
- O meu texto não é o meu texto! Tipo abri o documento, o livro, e tipo o que está aqui escrito não fui eu! Isto não é a minha versão!
- Que alterações tem?
- A que tu escrevestes. Mas é impossível, as tuas estavam à mão e isto está no word... Como raios é que isto aconteceu?
- Karma can be a bitch, uh? – Sofia carregou nos botões. – Olha lá, não queres vir cá jantar? Já que estou de tacões e a fazer um tabuleiro mais vale ter outra pessoa a comer comigo.
- Estou mais preocupado em saber como é que isto aconteceu.
- Fine. Vens cá, trazes a pen, bebes um copito. – Miguel concordou. –Agora que tens as minhas alterações vais publicar?
- Nem penses. Isto não é meu, Sofia. Até já. Sofia repetiu a despedida e desligou o telemóvel. Enquanto esperava por ele, sentou-se com o portátil no colo da sala. Abriu o seu texto. O seu editor tinha-lhe enviado as alterações e estava agora a alterar consoante as suas indicações. Séria, a beber um pouco de chá preto, via as alterações sendo introduzidas automaticamente no programa. A sua editora elogiou o seu trabalho e já tinha três editoras interessadas após as alterações serem feitas. Miguel não tinha recebido qualquer resposta dos outros editores. O coração de Sofia apertava-se cada vez mais. Não compreendia a sua atitude. Uma editora nunca queria o mal do autor, o seu sucesso era o sucesso dela. Adicionou uma palavra à lista das qualidades dos autores: humildade. Todos os editores sabem que um bom autor em busca de sucesso deverá estar preparado para ouvir críticas.
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Ana Ferreira
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O que não cura - satisfaz (temperança) - Ana Ferreira
A visão da porta de metal surgia através da renda do véu. Sentou-se à espera que a porta se abrisse para a consulta. As paredes com papel amarelado estavam descoladas e exibiam a degradação do prédio. Não havia nenhum motivo para achar que uma visita ao médico era motivo de embaraço. As suas amigas tinham sempre um médico, parcialmente humano. Embora achasse horripilante de início – ter alguém parcialmente humano a tentar curá-la - as amigas exibiam resultados perfeitos. Nunca mais a haviam procurado para satisfazer o que os maridos muitas vezes não conseguiam. A fechadura rodou e saiu uma mulher com um véu preto. O médico pareceu-lhe igual aos outros. Sem casaca, sem bata, com as mangas arregaçadas, cabelo curto e barba aparada. Não se parecia nada com os homens mecânicos que as amigas descreviam, mas também não devia ser esse o objectivo. Ele não a chamou, apenas fitou-a, como se esperasse que a consulta dependesse dela. Não notou nenhuma secretária. A sala exibia um papel de parede escarlate, com chão de madeira. O mais curioso foi a cama no meio do consultório com um colchão grosso e amarras. Na secretária do médico vários papéis estavam espalhados. O médico pegou neles todos e atrapalhou-se.
- Eeer pois, menina...?
- Clarissa. Trate-me por Clarissa, por favor.
O médico fechou os olhos.
- Sim, menina Clarissa, claro. – Os olhos azuis voltaram a aparecer. – Ah, já sei onde guardei. – Clarissa estava assustada. Embora as amigas lhe confiassem que este tipo de médicos teriam aspecto humano, à primeira vista não se teria de preocupar. Isso seria impossível! Queria tocar-lhe na cara, entender se a barba era verdadeira, se o cabelo seria igualmente macio como os dos homens. – Menina Clarissa está-me a ouvir? – A mulher saiu do transe.
- Peço perdão, perdi-me em divagações. – Tentou esboçar um sorriso forçado. O médico olhava sem mostrar nenhuma emoção.
- Estava a questionar quais os sintomas que tem para decidir visitar um médico de mulheres. – O homem continuava passivo e à espera de informação.
- Bem, sr. Doutor... A verdade é que ultimamente tenho-me sentido mal. Não tenho tido muita vontade de comer, durmo bastante. – O médico repetia os sintomas à medida que ela os mencionava. – Quando eu e o meu marido estamos juntos, à noite, não sinto nada, doutor. – Ele acenava e repetia “falta de apetite sexual”. Clarissa corou. Talvez fosse melhor se em vez de ter aparência de um jovem, fosse realmente um amontoado de cabos e engenhocas. Sentia-se como se estivesse a falar com uma pessoa. Mas o médico era uma máquina, lembrou. Não a iria julgar por não satisfazer o seu marido como os outros médicos. Talvez conseguisse, de facto, uma cura.
- Irei pedir que retire a roupa e o véu.
Clarissa estremeceu. O véu? Não o tinham programado para saber que o véu só era removido na presença do marido?
- Mas... o sr. Doutor deve saber que..
- Por favor, proceda ao removimento do seu véu e roupa. – Clarrisa obedeceu. Ordens de médico. Primeiro retirou a blusa dourada, seguida da saia comprida castanha. O véu igualmente dourado foi o último a cair no chão. Clarissa sentia-se completamente nua. O médico não sabia que uma serva só retirava o véu em frente ao seu marido? Quando uma mulher o retirava só significava uma coisa... – Queira fazer a gentileza de ser deitar na cama. – O tom continuava neutro. Clarissa cedeu. Deitou-se na cama. Imediatamente depois do seu corpo ficar colado aos lençóis, fivelas rodaram os seus braços e pernas, para a prender na cama. Ai meu Deus! O que se passa? O médico tirou a roupa. A pele falsa cobria todo o seu corpo. Não tinha qualquer órgão sexual. Os olhos de Clarissa não conseguiram esconder o choque. O médico pegou numa pistola e arrancou uma parte redonda transparente para colocar no sítio onde estaria o órgão.
- Sintomas da menina Clarissa Alves Gomes da Costa Silva: excesso de sono, falta de apetite e falta de apetite sexual. O prognóstico: histerismo grau 1. Início do tratamento fase 1. – Avançou para a mulher que tinha as pernas presas.
- Páre, por favor! – Mas o médico continuava a avançar. – Páre, por tudo o que é mais sagrado!
- Impossível parar o tratamento. Este estará concluído em aproximadamente uma hora. – A mulher fechou os olhos. Aquando o contacto com o médico, Clarissa tremeu. Não era frio como pensava. Surpreendentemente sentiu o membro do médico a ficar maior e ajustar-se. O seu coração começou a palpitar mais depressa. A face ruborizou-se mais uma vez. Assim que o doutor sentiu o pulso da mulher ficar acelerado, o membro começou a vibrar com intensidade. – Feche os olhos. – A mulher obedeceu, sentindo o seu corpo a ser invadido por ondas de prazer. Com os olhos fechados, abriu um pouco a boca para trincar o lábio de forma a deter um gemido. Sentia o seu corpo a reagir de forma perfeita àquele brinquedo. De vez em quando o ritmo abrandava, e Clarissa conseguia recuperar o fôlego para logo a seguir soltar um gemido mais alto. A sua cabeça virava constantemente para esquerda e direita, as costas arqueavam para conseguir ir mais fundo. Perdida no transe em que estava, notou que as palavras de encorajamento estavam a ser proferidas por ela e não pelo doutor.
- Não páre, por favor! Continue! Sim... por favor, sr. Doutor mais fundo! – Cumprindo o desejo da mulher, o membro aumentou o tamanho e a grossura. Minutos depois os tímidos gemidos de Clarissa resultaram na erupção de tremores e gritos abafados. A respiração tornou-se irregular, mas o médico notou um sorriso nos lábios da mulher depois da primeira fase do tratamento. Retirou o membro postiço.
- Tratamento fase 1 terminado. Cinco minutos de descanso até começar o tratamento 2. – As amarras soltaram os pulsos e os tornozelos. Por momentos lamentou o processo já ter acabado. O médico ausentou-se por momentos para regressar com uma chávena de chocolate quente e na outra mão uma fatia de bolo de chocolate. Há quantos tempo não bebia um chocolate quente... – Segunda fase do tratamento: iniciar. – Clarissa bebeu um gole do chocolate quente. O sabor doce dissolvia-se na boca. Há quanto tempo não sentira um orgasmo e depois comia algo que não fosse apenas pão seco? Não tinha propriamente fome, mas aquele bolo tinha tão bom aspecto! Uma serva só deveria comer pão e água depois das relações com o seu parceiro. O seu corpo purificaria a actividade mundana do sexo para depois a mulher poder estar propicia à gestação. Antes de dar uma garfada no bolo, Clarissa começou a pensar. Os seus cabelos longos já não estavam cobertos pelo véu, mas sim soltos pelos seus ombros, tinha traído o parceiro com uma máquina e para finalizar quebrara a regra do pós-coito para beber um chocolate quente em vez do tradicional pão e água. Algo dentro do seu coração arrastou-a outra vez para a expressão neutra. Os seus lábios perderam a emoção. O médico verificou esta mudança. – Mudança para tratamento fase 2. – Colocou outra vez o objecto desta vez castanho. Clarissa tentou fugir e debater-se contra o médico quando este a apanhou. Encostou-a contra a parede e com a boca abafou os seus pedidos. Clarissa quis repetir o seu pedido, implorar para parar, mas desta vez o médico tinha assumido o comportamento de um homem e consumia-a como se fosse um homem, ou bicho, contra a parede. Clarissa só tinha tido relações com o parceiro na cama. O médico segurava-a firmemente, enquanto a sua nova paciente se entregava mais uma vez a si. As entranhas dela revoltavam-se contra aquele maldito órgão que estava a fazê-la tão feliz. Isto é o mal, pensou. O demónio enviou-me este médico para me tentar, mas não vai conseguir! Uma hora passada e Clarisse sucumbia aos prazeres provocados pelos vibradores de clockwork vindos de Inglaterra. Olhou para a roupa espalhada no chão e recolheu-a. Apressou-se a vestir e a colocar o véu em ordem. Agora sim, estava apresentável. O médico foi à secretária buscar um documento para ela passar na boutique. Enquanto ele estava de costas, Clarisse imaginou-se a desliga-lo, a espetar algo nos seus circuitos. Aquele homem, ainda que metade máquina, sabia o seu nome completo e poderia dar a informação a qualquer membro do Governo. Antes que ele se virasse, Clarisse pegou num bisturi e direcionou a mão para lhe cortar os fios. A passos de distância, parou. Meu Deus, acabei de pecar duas vezes, como posso pensar em pecar mais uma? O médico virou-se e deu-lhe o papel. - Por favor, volte para a semana. – Sorriu. Clarissa pegou no papel e fugiu daquele lugar. Naquela noite e nas noites seguintes, o seu parceiro informou-a que iriam jejuar das suas noites de amor. Clarissa pensou em regressar ao médico ao outro dia... mas não o fez.



