Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Ferreira. Mostrar todas as mensagens

Vamos Pintar os Franceses de Carmin - Ana Ferreira

Um conto de Adosinda Gonçalves 
Escrito por Ana Ferreira 

1. Liberté, Fraternité e um tiro nos franceses, por favor! 

Porto, 1809 

As ruas do Porto enchiam-se de posters com gravuras do rei D. João VI e D. Maria I a pedir recompensa dos seus pescoços. “Se viu estes traidores, queremo-los vivos ou mortos. A recompensa: restaurar a honra da pátria.” Adosinda despregou um poster da parede e admirou a pintura básica do rei. Se não pagam, não quero, pensou. Entrou numa tasca e desencantou mais uma vez o papel. Tinham a certeza que aqueles na imagem eram mesmo membros da realeza? D. João VI parecia mais magro e a D. Maria não tinha o cabelo arranjado, como costumava. Bem, de qualquer forma, os tipos estavam no Brasil a comer à grande a à francesa, enquanto a Junot ameaçava entrar no Porto. Pediu um copo de vinho e a carcaça com chouriça que veio a fumegar. O relógio de bolso indicava que ainda tinha vinte minutos até chegar à estalagem e encontrar o general Beresford. O vinho sabia a ranço, mas tanto o cheirinho vindo do pão com o paladar do chouriço eram motivos para ela querer lutar por este país desgraçado, com a monarquia entregue aos franceses. Os trabalhadores voltavam do trabalho, arrumando o farnel. Um olhou para o poster. 

“É uma daquelas que vai atrás do rei?” Perguntou o homem já gasto pelo tempo. Adosinda acendeu um cigarro. 

“Porquê? Vai-me pagar a passagem até ao Brasil?” 

O homem mandou um murro à mesa. “Está a brincar com a nossa cara? Estes filhos da puta merecem ser enforcados pela sua covardia!” 

“Concordo.” Adosinda sorriu, exibindo os dentes um pouco amarelados pelo fumo. “Mas, se tivermos em consideração que os nossos governantes, são, como disse, uns cabrões, e estão a milhas de distâncias, separados por mar, não vejo qual a pressa de os ir buscar. Ou estão com saudades deles?” 

O homem exibiu um canivete. “Eu se fosse a si tinha cuidado com o que dizia, condessa! O povo portuense está farto de vocês, mouros ricos que vivem às nossas custas!” 

Adosinda retirou uma pistola do coldre. “Deixe-me fazer apenas um reparo.” O homem ao ver o revólver deu um salto para trás. “Não sou condessa, sou duquesa. Eu sei que para vocês é, como diriam os nossos cabrões-mor franceses tout lá meme chose, mas não é. Eu tenho mais dinheiro que uma condessa. Um conde tem um condado, um duque tem um ducado. Para uma condessa estar no mesmo patamar que eu teria ainda de passar por marquesa.” O homem deu um passo em direcção à porta e o som da arma a ser pronta para disparar ecoou. “Não vá a lado nenhum que eu ainda não acabei, bom homem! Bem, trate-me então por duquesa, se fizer a fineza.” Levantou-se. “Ah e tem a minha bênção ou o caralho que nós duquesas vos damos para matar os franceses.” Nesse momento entrou um homem com uma farda vermelha. Ao ver a mulher com a arma apontada a um operário parou. 

“Miss Gonçalves?” Ela acenou sem virar a arma. “General Beresford, at your service, madam!” Adosinda desarmou a pistola e guardou-a. 

“I see my husband has already informed you the details?” O homem pareceu confuso, não só pelo aperto de mão forte, mas pela observação. 

“Details, madam?” 

“Well but of course. You are at my service, General Beresford!” 


2. Um plano para a Invicta 

“Portanto, precisamos de um plano!” Adosinda observou com os dois pés em cima da mesa. O general tinha pedido uma chávena de café, ao que ela simulou um riso quase genuíno e deu-lhe duas palmadas nas costas. “Você tem piada! É mesmo disso que eu preciso! Ó Jacinta, traz aqui dois copos de um bom verde para o general, que ele está aqui para matar franceses!” 

“Do you have a plan, madam?” 

“É claro que tenho um plano, criatura. Não o chamaria sem um. Mas vá, aqueça a garganta antes de eu lhe explicar. Tudinho!” 

O general levou o vinho à boca e saboreou. 

“I will only ask you to speak slowly, as I have not yet learnt Portuguese fully, in order to have a conversation.” 

“Não há problema, eu falo devagarinho como você quer, explico-lhe tudo e se quiser até traduzo no fim! O meu plano é simples: você mata franceses, yes?” O general acenou. “Eu também mato franceses com você, ajudo-o, yes?” O homem concordou. “Damos um pontapé no Junot and then you, my friend will be president of the North!” O homem não acenou. 

“President?” 

“Sim, você sabe, quem manda e tal. O nosso rei deu de chispes para o Brasil e aqui no Porto a gente é muito simpática e precisamos de um rei or something like that. Mas vocês lá na Bretanha fazem as coisas mais civilizadas que nós! Que acha? Aceita?” 

O homem ficou embasbacado. 

“But… but I am not Portuguese? Why would your people accept me as their ruler?” 

“Oh general, não se preocupe com o facto de não ser inglês. Se der um pontatpé nos franceses até pode ser galego. Quer dizer galego não, que a gente dá-se mal com Espanha… Nem podia ser lá do Brasil, que senão também lhes davam cabo do canastro. Enfim não tem nada a ver consigo! Se fizer o seu trabalho, tem um país seu. Imagine só, general Beresford.” 

O homem não tinha bigode para coçar, senão estaria naquele momento a pensar enquanto afava o bigode. A proposta não era má do todo, mas porque raios queria aquela mulher dar-lhe o governo do país para o colo? I will be damned, pensou, se esta mulher me está a enganar! O que ganharia ela com isto? 

“What it is for you, miss, once I am in charge?” 

“Eu não quero nada, general…” Voltou-se para o prato onde descansavam as beatas dos cigarros. “Quer dizer, querer, querer, of course que quero algo.” 

“You should name your price.” 

“Well, o meu preço é apenas um. Ficar com o Junot depois da batalha!” O general falhou em conter uma gargalhada. 

“That is mostly peculiour, madam. Why would a married woman like you, want a smelly French general for?” 

Adosinda aproximou-se dele e segredou. “Sabe, general, existe uma recompensa, a reward de dois mil reais para quem entregar as ceroulas do Junot. And as you are informed, dois mil reais é bem mais do que Portugal vale neste momento.” 

“That much? Well then you shall have your money and I, my own country…” Virou-se para o balcão e esforçou-se por soltar uma frase em português. “Jacinta, pór fabor, trága two cops de vinho, for us. To celebrate!” 


3. Vamos pintar os franceses de carmim 

Os soldados franceses manchavam a terra de vermelho. O exército do general Beresford era eficiente e o povo do Porto ajudou à causa. Mais valia ter um britânico a lutar pelo país, que um rei covarde. O general armou as mulheres e os homens contra os invasores. Adosinda não se cabia de contente. Sempre que encontrava um francês com o fato manchado de vermelho sabia bem que eram franceses vampiros. Ainda bem que a Maria Adelaide tinha feito o seu serviço! Vampiros e franceses era uma sorte dos diabos poder matá-los a todos com a caçadeira. Um vampiro francês morto, dois vampiros franceses mortos, três vampiros franceses mortos. Todos rebolavam para o Douro, o rio enchia-se de corpos e flutuar. 

“Madam, you have to pay some attention.” O general Beresford cavalgou até ela. 

“Cuidado porque raios?” Limpou a arma. 

“You are attracting too much attention!” Adosinda não via onde é que atrair atenções era mau. Para além dela não saber quem raios era o Junot. Tudo bem talvez fosse o moçoilo jeitoso que estava em cima do seu cavalo todo cheio de condecorações. Já te apanhei, meu cabrão! “Now, miss I ask you to be discreet.” 

“Discreta? But General I am just painting the French red!” 


4. E assim nasceu a Inbicta 

Junot acordou de pernas para o ar, amarrado com as partes de baixo desnudas. Uma mulher estava sentada no que parecia ser uma mesa rasca. Adosinda começou a mascar o charuto. Que merda, não era fluente a francês, e agora, como raios ia explicar o porquê de ele estar ali de pernas para o ar com o, bem era pequenino, à mostra? 

“Je suis desolée pour cette situation… Comprenez-vous portugais, général Junot?” O homem acenou. “Ai que rico moço! Bem era só para o avisar que sou eu que tenho as suas ceroulas.” 

“Pourquois voulez-vous ma cullote?” 

“As suas ceroulas são famosas, caro Junot! Ai se você soubesse quanto elas valiam até você as dava.” 

“Madame, je ne comprend pas pourquoi mes culottes sont importants?” 

“Ó criatura não são as ceroulas. É por causa de você! Ora bem, você foi capturado, vocês perdem, os ingleses ganham. Guerra é guerra, senhor Junot.” O francês mostrava claros sinais de cansaço e inquietação. “Senhor Junot, as ceroulas provam a sua derrota. Dois mil reais para os meus bolsos pela sua cabeça. Sabe o que vou fazer com este argent, general?” O homem abanou a cabeça. “Non? Quel dommage! Com os reais, je vai comprar o Porto a Portugal et sendo a nova dona de um pays, je vai denominá-lo de Inbicta. Que acha, general? C’est mangnifique, non?” 

O General abanou a cabeça. 

“Mais vous êtes folle?” 

“Qual louca! Não gosta do nome? Que pena. Pense assim, general a sua derrota vai ficar para a história! A derrota do general francês originou a criação de um país independente, a Inbicta, onde os franceses foram pontapeados e nunca mais voltaram! Et Voilà, Ça c'est Histoire, mon petit général!” A porta abriu-se, deixando passar um faixe de luz. 

“Ele ainda está vivo?” 

“Ah Adelaide, eu nunca falho um compromisso. Prometi-vos o general vivo e aqui o tendes. Já estava farta de falar francês. Como está o Beresford?” A mulher sentou-se ao lado de Adosinda. 

“O povo adora-o. É visto como o salvador do Porto, except he is broke.” Adosinda sorriu. 

“Not anymore, my darling.” Olhou para o Junot. “Ah mas este general é feito de ouro.” Um vampiro entrou no casebre. Cabelo preto amarrado, vestido com fato militar. “Olha-me esta, sim sra, o duque de Aveiro em pessoa aqui, vê general como a gente gosta de si! A sua sorte é alguém dos Távora ser vampiro e viver o suficiente para presentear-nos com a sua presença.” Adosinda esboçou um sorriso amarelo. O vampiro pegou na sua mão direita e beijou-a. 

“Soube que foi um sucesso a matar os vampiros franceses.” 

“A gente cá luta pelo que é nosso. Quando temos franceses, consigo tolerar-vos.” Levantou-se a aproximou-se do general, dando-lhe uma palmada no traseiro à vista. “Sejam simpáticos. Olhem que o general aqui vem de um Império e não está habituado a parvónias!” Saiu do casebre e fechou a porta. Em direcção à estalagem pensou que seria boa ideia deixar o homem com dois vampiros. Encolhou os ombros. Já tinha a prova que merecia o seu dinheiro e ainda tinha dado uma coça aos franceses. Qual viva lá liberté, bom era ver os portuenses separados de Lisboa e com um homem de armas a chefiá-los. Na estalagem mandou recado para estarem prontas cinco malas para uma viagem longa. Chegou ao porto da Foz de carruagem. 

“Ouve lá, porque raios pediste isto?” Afonso, um homem alto com uma barriga generosa, esperava-a de barba aparada e também ele com as malas a seu lado. Adosinda beijou-o e abraçou-o. Fez sinal a um senhor que estava perto. 

“Desculpe, mas esta embarcação vai para o Brasil, certo?” O homem acenou. “Vês, vamos para o Brasil! Consegui duas passagens para nós os dois.” 

“Porque é que vamos mesmo para o Brasil?” 

“Ora, saiu hoje um pedido de que quem encontrasse a peruca do D. João VI ganharia seis mil reais! Isto ainda é maior que as ceroulas do Junot e escuso de ver El-rei com o mastro a badalar!” Afonso abraçou-a. 

“Para o Brasil?” 
“Mais oui, monsieur. Vamos pintar os brasileiros de carmim!”


Máquinas Infernais Vindas do Céu - Ana Ferreira

Um conto de Adosinda Gonçalves
Escrito por Ana Ferreira
Para o dia de São Valentim, Fantasy & co.

I 

Apresento-vos Aurélia uma morta-viva (não lhe digam que ela é um zombie, senão ela fica fodida, loira, olhos azuis, pálida e bonitinha. Costuma usar roupas claras e está sempre acompanhada da uma sombrinha. 

Ao seu lado Adosinda, outra morta-viva, mercenária. Cabelo castanho encaracolado, olhos verdes bem vivos e cara também pálida. Nenhuma das duas é simpática, a palavra zombie não será invocada. 

A ler o jornal, Carlos uma criatura dócil, médico de profissão. Cabelo curto castanho claro, olhos dóceis cor de mel e um perfeito cavalheiro. Gosta de explodir coisas. 


Algures em Viseu 

Aurélia olhava para a caixa dourada com dois botões sem indicação para o que serviam. 

“Eu não vou meter isso na pachacha!” Exclamou Adosinda. O aparelho tinha-lhe vindo parar às mãos por ordem do presidente para que ela e Aurélia o destruíssem. 

“Não queres descobrir porque é que o presidente quer isto completamente demolido?” Aurélia piscou-lhe o olho e sorriu. 

“Mete tu então! Se ele disse para dar uma marretada, a gente dá! Não há cá questões.” Adosinda olhava-a de lado com o espartilho a esmagar-lhe o peito. “Já tenho ferros enterrados nas mamas, não preciso dessas coisas na racha. Que raios! O que eles haviam de inventar agora.” Pegou na bengala e ao passar por Carlos deu-lhe uma palmada no ombro. “Hoje vai ser toda a noite acordado.” Riu-se e recolheu-se para o quarto. Já sabia que a curiosidade da amiga levá-la-ia a usar a máquina para seu proveito. Acendeu um charuto e pôs-se a pensar na execução do dia seguinte. Salvar a criatura que inventou a máquina, dar uns pontapés nuns vampiros, uns tiros noutros. O seu quarto em Viseu era mais espaçoso que em Lisboa. Para além de ter um armário que dava para guardar as suas roupas, ainda tinha a retrete privativa. Apesar de morta gostava da quentura da água contra a pele. Além do mais, ajudava a disfarçar o cheiro e a integrar-se com as senhoras completamente ensopadas em perfumes daqueles dos anúncios com mulheres seminuas. Admirou a paisagem para a entrada da mansão de Carlos, médico, filho de comerciantes; aquela mansão já tinha três séculos e mantinha-se sempre atraente. Tirou o espartilho vermelho e os collants pretos, deitando-os sobre a cama. A saia preta foi deixada no chão, tal como as cuecas. Quando Afonso abrisse a porta saberia que ela estaria com as pernas fora da banheira a fumar o resto dos seus cigarros. Acariciou o peito e passou a mão pelo pescoço. As pernas pálidas separaram-se e um gemido escapou-lhe da boca. 

“Se queres que eu continue, vais ter de pagar, Aurélia.” Sorriu para a amiga. “O que se passa?” 

“Esquecemo-nos que… estamos, bem, eu estou morta.” 

“Estamos as duas mortas há uns bons séculos. Já te disse que não vou meter isso aqui, ainda por cima com a água, queres que eu fique com os cabelos em pé do choque, moça?” Apagou o cigarro. “O Carlos não tem aquela bebida para subir o…” Levantou o dedo indicador. 

“Acabou há pouco, mesmo assim só dá para levantar. Aquilo não dura muito tempo. Ele vai mudar o composto. Mas continuo a querer experimentar isto.” Olhou para as tenazes. 

“Cura-te filha! Olha o nosso amigo Freud se fosse um de nós, explicava essa tua obsessão pelo sexo!” Aurélia revirou os olhos. 

“Ai és tão pouco romântica! Tens aqui uma bela espécime de gaja com vontade de foder e queres um encontro com o Freud?” Adosinda saiu da banheira e agarrou numa toalha. 

II 

Aproximou-se de Aurélia e encostou os lábios aos dela. Adosinda não preferia o corpo quente de uma mulher viva. Adorava passar as mãos pelo corpo nu de Aurélia. A pele leitosa, aveludada, pronta para ser adorada pela boca. Os gemidos da mulher aumentaram de volume, aproveitando o facto de ela estar com os olhos cerrados, conduziu-a para a cama. Entrelaçavam as mãos, as pernas e riam-se quando aterraram na cama. Aurélia possuía um peito pouco volumoso, mas isso não impedia Adosinda de adorar os seus seios. Com a sua língua percorria-lhe os mamilos duros, as mãos massajavam a barriga que elevava com o prazer. Aurélia trincava o lábio. Meu Deus, que mulher! Voltou a encarar Adosinda, com um olhar perdido na volúpia. Percorreu os lábios com a língua. 

“Amo-te.” Murmurou. “Deixa-me satisfazer-te.” Adosinda acedeu, deixando que os seus lábios se tocassem mais uma vez. 

Poisou os lábios no meio das pernas de Adosinda e assim que a viu morder o lábio e a fechar os olhos, colocou a pinça no clitóris. 

“Ah sua filha da…” Aurélia pousou os dedos nos lábios da amante. 

“Shhhh, vamos lá ver para que é que isto serve.” Aurélia circulou o clitóris da amante com os seus dedos esguios. Os gritos indicavam que estava no caminho certo. Adosinda guiava-a com movimentos das suas ancas e acariciava a cabeleira loura. Os olhos azuis de Aurélia atingiam o olhar perdido da amante. “Tens uma cona linda.” 

“Olha, lá se foi romantismo!” Gozou Adosinda. Como resposta, Aurélia subiu para cima dela e trincou-lhe os mamilos. Os seus olhares cruzaram-se e regressaram aos beijos e carícias leves. A cada toque, os nervos de Adosinda pioravam e ela sabia que estava perto de conseguir atingir o orgasmo só com a língua da amiga. Afastou mais as pernas. 

“É esse o vosso conceito de comerem-se uma à outra?” Uma voz masculina e grave fez com que Aurélia parasse. Desiludida pela interrupção, Adosinda retomou a cara da amiga para o centro do seu corpo. 

“Estamos a testar uma geringonça. Ai meu Deus, o que eu faço pela ciência!” Trincou os lábios, sentiu o peito ficar apertado e mal o grito que anunciou o orgasmo ecoou pelo quarto, duas lâmpadas ligaram-se. Aurélia olhou para o tecto. 

“Uma máquina de electricidade a orgasmos? Sim senhora, onde foram desencantar isso?” O homem observava a máquina. 

“O presidente quer isso destruído! Imagina só, uma máquina destas e as companhias de electricidade iam à falência!” Para Aurélia era bastante óbvio o porquê do presidente querer aquilo aniquilado. Os prejuízos das companhias que o Estado teria. Adosinda, entretanto, já fumava o quarto cigarro do dia. 

“Isso fica como prenda como demonstração do meu eterno amor por ti.” Revirou os olhos depois da última frase. Aurélia pegou na máquina e retirou-se do quarto.

III 

Afonso tirava a gravata e os sapatos. 

“Um homem não pode sair de casa, que chega e tem duas mulheres enroladas na sua cama.” Pegou numa rosa de plástico vermelho e ofereceu-lhe. 

“Que lamechice!” Afonso virou-lhe a cara e beijou-a com força, sem que pudesse recusar. 

“Vais-me agradecer quando souberes que essa rosa foi pintada com o sangue de três vampiros.” Adosinda olhou-o de soslaio. 

“Três vampiros?” perguntou desconfiada, gesticulando com os dedos o número três. 

“Três vampiros mortos para a mercenária mais sanguinária de Portugal!” Adosinda passou o dedo pela rosa e provou o sangue. Blergh, sabia mal, tal como o sangue podre dos vampiros. Com os lábios vermelhos sorriu. “Feliz dia dos namorados, amor!”


O documento (humildade) - Ana Ferreira

Neste momento, um autor acaba de escrever o seu texto. Não se senta à frente de uma máquina de escrever com tabaco ao lado e com a injecção de morfina. O ópio fica esquecido nas folhas dos livros antigos, nas estantes e a vodka é trocada por uma chávena de café. A ideia do escritor solitário, a escrever isolado do mundo, já não existe. A visão de um autor que mal acaba de produzir a sua obra numa assentada, não passa de uma lenda que nos é contada para que continuemos a alimentar um sonho de perfeição. Neste momento, o autor que acaba de escrever o seu texto, procura por editoras para enviá-lo. O seu livro não estará muito tempo perdido nas pastas de escrita do seu computador. Não é preciso. Tudo o que escrever terá de servir para publicar. Afinal de contas para que se quer um brinquedo, se não podemos brincar com ele? O autor envia o seu livro para a sua editora para ela avaliar. O seu orgulho promete-lhe que este livro será aceite por uma editora. Tem todos os ingredientes para isso e passou três meses a escrevê-lo. Afinal, se Kafka escreveu a sua Metamorfose numa noite e o Álvaro de Campos nunca revia os seus textos, em três meses algo de bom teria de sair daquela cabeça. Nem tudo eram ilusões na cabeça do autor. Sabia bem que cativar a audiência seria difícil. Não se pode agradar a todos, mas se vendesse bastante já deveria chegar. O nosso autor também tinha plena consciência de que viver como autor não passava mesmo disso, uma ilusão. Se conseguisse chegar à segunda edição seria uma vitória. Mas afinal isso seria fácil com uma editora grande. A sua editora mais tarde dir-lhe-ia o que era preciso ser alterado. Nunca contratara uma editora antes. Todos os grandes escritores pareciam ter um. O seu telemóvel vibrou. 

- Estou? Olá Sofia, então como vais? 

A voz do outro lado soluçava. 

- Não consigo, Miguel... Não consigo escrever... 

- Então, que se passou? O que aconteceu àquela ideia que tinhas? – Um silêncio e depois a mulher voltou a falar. 

- Não sei... está uma merda! Tudo uma merda. – Outro soluço. – Não posso enviar isto ao meu editor. Ninguém vai querer ler isto. 

Ele suspirou. 

- Posso ler? Queres enviar-me por e-mail? 

- Vais dizer que está horrível! 

- E depois? Antes eu que o mundo inteiro. – O choro parou. – Anda lá, eu acabei de te enviar tudo, tenho tempo para ver o teu livro. Não vás abaixo. Conseguiste planear tudo num ano e só estás há dois a tentar escrever. 

- Se não pensarmos nos cinco anos que tive para aprender a escrever alguma coisa minimamente decente... 

- Só começou a contar quando escreveste a primeira frase. 

- Miguel, é a terceira vez que reescrevo o início do livro... Nunca vou acabar esta merda! – O choro voltou. 

- Pára com isso... manda-me isso e eu depois vejo, ok? Não demoro muito tempo. Depois se formos os dois aceites e publicados, eu faço-te o jantar. Soja como tu gostas. Combinado? 

A mulher esforçou-se para sorrir enquanto as lágrimas caíam. Na sua secretária um maço de tabaco e chocolate quente acabado de fazer. 

- Até já... 

Pousaram os telemóveis. Miguel voltou-se para o computador para fazer refresh na conta de e-mail à espera do manuscrito. Bebeu um gole de chá. A miúda não podia desistir naquele momento. Demorara muito tempo até conseguir elaborar a sua história... tinha a certeza que iam conseguir publicar. Na sua Caixa de entrada caiu um e-mail com o assunto: A desgraça. Miguel sorriu. Raios partam a miúda. Abriu o documento e começou a ler. O início não lhe parecia mau. Como sempre ela estava a exagerar com os seus devaneios. Um dia, enquanto bebiam os dois um chocolate quente no café, Miguel perguntara-lhe porque é que não se tornava editora em vez de escritora. Sofia respondera-lhe que era ambos. Era possível ser ambos e ela seria a prova disso. Claro que era alheia a estes ataques de raiva, em que a sua editora interior tratava de querer apagar tudo o que tinha escrito. Olhou para o relógio. Três da manhã, tempo de ir recarregar baterias. 

*** 

Duas semanas depois acordou com o som da campainha. No chão estava uma caixa dos correios com o seu manuscrito anotado. Sofia tinha escrito as anotações a azul e as mais graves sublinhou com caneta fluroscente. Sentou-se na poltrona a ler as modificações. Nada de grave. Uma alteração de cenário no primeiro capítulo, algumas alterações sintáticas. Foi aquecer água para um chá. A meio do manuscrito a sua cara ficou séria... Estás a gozar comigo, miúda? Sofia pedia-lhe para matar uma personagem, mudar o final e ainda fazer umas quantas alterações no seu worldbuild. Os olhos de Miguel incharam de raiva. Matar aquela personagem? Caramba, de todas as que podia ter pedido, para matar, tinha de ser mesmo aquela? Rebolou na cama. Não! Não, não, não podia matar a Cybil! A Cybil era a sua personagem favorita. Ia doer demasiado. Ela representava a sua amada. Impossível. A Sofia que fosse dar uma curva. Ligou o computador para escrever um extenso e-mail, onde justificava o porquê de não poder mudar certas coisas. Se fosse correcção de português ainda entendia. Ele era um autor! Tinha publicado um livro e este era o seu segundo trabalho. A Sofia estava há cinco anos a tentar acabar um livro, o que sabia ela de escrita? Nem por sombras! Ela não sabia o quanto custava apegar-se às personagens. Ele era um autor e ela não... Das duas uma: ou arranjava um novo editor ou então enviava assim para a editora. Lamento, Sofia. 

*** 

Sofia abriu o documento de word com todas as justificações... Suspirou. Ai, ai Miguel. Quando é que vais entender que o orgulho de autor não te leva a lado nenhum. Encostou a cabeça no sofá. Só porque recebeu críticas positivas do seu primeiro livro, não implicava que este não tinha falhas. Um ego de autor inchado é do pior que pode haver. Pegou num cigarro. Kill your darlings... Always kill your darlings. Aquela personagem que mais parecia uma Mary Sue não ia a lado nenhum. Precisava de sofrer, de apanhar porrada. Arranca-lhe um membro ao menos. Os leitores precisam de sentir que ela é humana. Um autor com ego era uma coisa horrível. Miguel tinha de entender que Sofia queria que ele passasse de um autor pouco conhecido, para aqueles autores, cujas críticas apareciam nos jornais e nas revistas. Queria o seu livro à venda em todo lado e com críticas positivas de críticos conhecidos. Para isso teria de mudar muitas coisas... se o seu ego o permetisse. 

*** 

Miguel abriu a caixa de e-mail. Não se entendiam quanto ao livro. Miguel ia agora enviar o seu manuscrito para outro editor. Verificou o documento mais uma vez e começou a ler os capítulos. O seu coração acelarou. Pegou no telemóvel com as mão trémulas. 

- Miúda, tu não vais-te acreditar no que aconteceu... 

Do outro lado, Sofia abria a porta do fogão para colocar o macarrão lá dentro. 

- Podes tentar chocar-me... – O seu tom de voz reflectia a tristeza do seu rompimento como editora do Miguel. 

- O meu texto não é o meu texto! Tipo abri o documento, o livro, e tipo o que está aqui escrito não fui eu! Isto não é a minha versão! 

- Que alterações tem? 

- A que tu escrevestes. Mas é impossível, as tuas estavam à mão e isto está no word... Como raios é que isto aconteceu? 

- Karma can be a bitch, uh? – Sofia carregou nos botões. – Olha lá, não queres vir cá jantar? Já que estou de tacões e a fazer um tabuleiro mais vale ter outra pessoa a comer comigo. 

- Estou mais preocupado em saber como é que isto aconteceu. 

- Fine. Vens cá, trazes a pen, bebes um copito. – Miguel concordou. –Agora que tens as minhas alterações vais publicar? 

- Nem penses. Isto não é meu, Sofia. Até já. Sofia repetiu a despedida e desligou o telemóvel. Enquanto esperava por ele, sentou-se com o portátil no colo da sala. Abriu o seu texto. O seu editor tinha-lhe enviado as alterações e estava agora a alterar consoante as suas indicações. Séria, a beber um pouco de chá preto, via as alterações sendo introduzidas automaticamente no programa. A sua editora elogiou o seu trabalho e já tinha três editoras interessadas após as alterações serem feitas. Miguel não tinha recebido qualquer resposta dos outros editores. O coração de Sofia apertava-se cada vez mais. Não compreendia a sua atitude. Uma editora nunca queria o mal do autor, o seu sucesso era o sucesso dela. Adicionou uma palavra à lista das qualidades dos autores: humildade. Todos os editores sabem que um bom autor em busca de sucesso deverá estar preparado para ouvir críticas.


O que não cura - satisfaz (temperança) - Ana Ferreira

A visão da porta de metal surgia através da renda do véu. Sentou-se à espera que a porta se abrisse para a consulta. As paredes com papel amarelado estavam descoladas e exibiam a degradação do prédio. Não havia nenhum motivo para achar que uma visita ao médico era motivo de embaraço. As suas amigas tinham sempre um médico, parcialmente humano. Embora achasse horripilante de início – ter alguém parcialmente humano a tentar curá-la - as amigas exibiam resultados perfeitos. Nunca mais a haviam procurado para satisfazer o que os maridos muitas vezes não conseguiam. A fechadura rodou e saiu uma mulher com um véu preto. O médico pareceu-lhe igual aos outros. Sem casaca, sem bata, com as mangas arregaçadas, cabelo curto e barba aparada. Não se parecia nada com os homens mecânicos que as amigas descreviam, mas também não devia ser esse o objectivo. Ele não a chamou, apenas fitou-a, como se esperasse que a consulta dependesse dela. Não notou nenhuma secretária. A sala exibia um papel de parede escarlate, com chão de madeira. O mais curioso foi a cama no meio do consultório com um colchão grosso e amarras. Na secretária do médico vários papéis estavam espalhados. O médico pegou neles todos e atrapalhou-se. 

- Eeer pois, menina...? 

- Clarissa. Trate-me por Clarissa, por favor. 

O médico fechou os olhos. 

- Sim, menina Clarissa, claro. – Os olhos azuis voltaram a aparecer. – Ah, já sei onde guardei. – Clarissa estava assustada. Embora as amigas lhe confiassem que este tipo de médicos teriam aspecto humano, à primeira vista não se teria de preocupar. Isso seria impossível! Queria tocar-lhe na cara, entender se a barba era verdadeira, se o cabelo seria igualmente macio como os dos homens. – Menina Clarissa está-me a ouvir? – A mulher saiu do transe. 

- Peço perdão, perdi-me em divagações. – Tentou esboçar um sorriso forçado. O médico olhava sem mostrar nenhuma emoção. 

- Estava a questionar quais os sintomas que tem para decidir visitar um médico de mulheres. – O homem continuava passivo e à espera de informação. 

- Bem, sr. Doutor... A verdade é que ultimamente tenho-me sentido mal. Não tenho tido muita vontade de comer, durmo bastante. – O médico repetia os sintomas à medida que ela os mencionava. – Quando eu e o meu marido estamos juntos, à noite, não sinto nada, doutor. – Ele acenava e repetia “falta de apetite sexual”. Clarissa corou. Talvez fosse melhor se em vez de ter aparência de um jovem, fosse realmente um amontoado de cabos e engenhocas. Sentia-se como se estivesse a falar com uma pessoa. Mas o médico era uma máquina, lembrou. Não a iria julgar por não satisfazer o seu marido como os outros médicos. Talvez conseguisse, de facto, uma cura. 

- Irei pedir que retire a roupa e o véu. 

Clarissa estremeceu. O véu? Não o tinham programado para saber que o véu só era removido na presença do marido? 

- Mas... o sr. Doutor deve saber que.. 

- Por favor, proceda ao removimento do seu véu e roupa. – Clarrisa obedeceu. Ordens de médico. Primeiro retirou a blusa dourada, seguida da saia comprida castanha. O véu igualmente dourado foi o último a cair no chão. Clarissa sentia-se completamente nua. O médico não sabia que uma serva só retirava o véu em frente ao seu marido? Quando uma mulher o retirava só significava uma coisa... – Queira fazer a gentileza de ser deitar na cama. – O tom continuava neutro. Clarissa cedeu. Deitou-se na cama. Imediatamente depois do seu corpo ficar colado aos lençóis, fivelas rodaram os seus braços e pernas, para a prender na cama. Ai meu Deus! O que se passa? O médico tirou a roupa. A pele falsa cobria todo o seu corpo. Não tinha qualquer órgão sexual. Os olhos de Clarissa não conseguiram esconder o choque. O médico pegou numa pistola e arrancou uma parte redonda transparente para colocar no sítio onde estaria o órgão. 

- Sintomas da menina Clarissa Alves Gomes da Costa Silva: excesso de sono, falta de apetite e falta de apetite sexual. O prognóstico: histerismo grau 1. Início do tratamento fase 1. – Avançou para a mulher que tinha as pernas presas. 

- Páre, por favor! – Mas o médico continuava a avançar. – Páre, por tudo o que é mais sagrado! 

- Impossível parar o tratamento. Este estará concluído em aproximadamente uma hora. – A mulher fechou os olhos. Aquando o contacto com o médico, Clarissa tremeu. Não era frio como pensava. Surpreendentemente sentiu o membro do médico a ficar maior e ajustar-se. O seu coração começou a palpitar mais depressa. A face ruborizou-se mais uma vez. Assim que o doutor sentiu o pulso da mulher ficar acelerado, o membro começou a vibrar com intensidade. – Feche os olhos. – A mulher obedeceu, sentindo o seu corpo a ser invadido por ondas de prazer. Com os olhos fechados, abriu um pouco a boca para trincar o lábio de forma a deter um gemido. Sentia o seu corpo a reagir de forma perfeita àquele brinquedo. De vez em quando o ritmo abrandava, e Clarissa conseguia recuperar o fôlego para logo a seguir soltar um gemido mais alto. A sua cabeça virava constantemente para esquerda e direita, as costas arqueavam para conseguir ir mais fundo. Perdida no transe em que estava, notou que as palavras de encorajamento estavam a ser proferidas por ela e não pelo doutor. 

- Não páre, por favor! Continue! Sim... por favor, sr. Doutor mais fundo! – Cumprindo o desejo da mulher, o membro aumentou o tamanho e a grossura. Minutos depois os tímidos gemidos de Clarissa resultaram na erupção de tremores e gritos abafados. A respiração tornou-se irregular, mas o médico notou um sorriso nos lábios da mulher depois da primeira fase do tratamento. Retirou o membro postiço. 

- Tratamento fase 1 terminado. Cinco minutos de descanso até começar o tratamento 2. – As amarras soltaram os pulsos e os tornozelos. Por momentos lamentou o processo já ter acabado. O médico ausentou-se por momentos para regressar com uma chávena de chocolate quente e na outra mão uma fatia de bolo de chocolate. Há quantos tempo não bebia um chocolate quente... – Segunda fase do tratamento: iniciar. – Clarissa bebeu um gole do chocolate quente. O sabor doce dissolvia-se na boca. Há quanto tempo não sentira um orgasmo e depois comia algo que não fosse apenas pão seco? Não tinha propriamente fome, mas aquele bolo tinha tão bom aspecto! Uma serva só deveria comer pão e água depois das relações com o seu parceiro. O seu corpo purificaria a actividade mundana do sexo para depois a mulher poder estar propicia à gestação. Antes de dar uma garfada no bolo, Clarissa começou a pensar. Os seus cabelos longos já não estavam cobertos pelo véu, mas sim soltos pelos seus ombros, tinha traído o parceiro com uma máquina e para finalizar quebrara a regra do pós-coito para beber um chocolate quente em vez do tradicional pão e água. Algo dentro do seu coração arrastou-a outra vez para a expressão neutra. Os seus lábios perderam a emoção. O médico verificou esta mudança. – Mudança para tratamento fase 2. – Colocou outra vez o objecto desta vez castanho. Clarissa tentou fugir e debater-se contra o médico quando este a apanhou. Encostou-a contra a parede e com a boca abafou os seus pedidos. Clarissa quis repetir o seu pedido, implorar para parar, mas desta vez o médico tinha assumido o comportamento de um homem e consumia-a como se fosse um homem, ou bicho, contra a parede. Clarissa só tinha tido relações com o parceiro na cama. O médico segurava-a firmemente, enquanto a sua nova paciente se entregava mais uma vez a si. As entranhas dela revoltavam-se contra aquele maldito órgão que estava a fazê-la tão feliz. Isto é o mal, pensou. O demónio enviou-me este médico para me tentar, mas não vai conseguir! Uma hora passada e Clarisse sucumbia aos prazeres provocados pelos vibradores de clockwork vindos de Inglaterra. Olhou para a roupa espalhada no chão e recolheu-a. Apressou-se a vestir e a colocar o véu em ordem. Agora sim, estava apresentável. O médico foi à secretária buscar um documento para ela passar na boutique. Enquanto ele estava de costas, Clarisse imaginou-se a desliga-lo, a espetar algo nos seus circuitos. Aquele homem, ainda que metade máquina, sabia o seu nome completo e poderia dar a informação a qualquer membro do Governo. Antes que ele se virasse, Clarisse pegou num bisturi e direcionou a mão para lhe cortar os fios. A passos de distância, parou. Meu Deus, acabei de pecar duas vezes, como posso pensar em pecar mais uma? O médico virou-se e deu-lhe o papel. - Por favor, volte para a semana. – Sorriu. Clarissa pegou no papel e fugiu daquele lugar. Naquela noite e nas noites seguintes, o seu parceiro informou-a que iriam jejuar das suas noites de amor. Clarissa pensou em regressar ao médico ao outro dia... mas não o fez.