Os Deuses do Fogo 3/5 - Liliana Novais
Ao ver aquele cenário, Ikiri
paralisou por momentos. Ele tinha que a travar. Aquilo era apenas o início, as
coisas iriam piorar rapidamente. Saiu do templo em direção à aldeia, à procura
de Ubasti.
O tempo piorava a cada minuto que
passava.
Ubasti percorria as ruas da
aldeia como se esta fosse sua. Procurava uma razão que justificasse a sua
raiva.
«Mãe. O que fazemos aqui? –
Perguntou Miri, confusa.
A deusa acordou do seu transe ao
ver a filha. Era melhor ela estar ali, assim aprenderia desde cedo como um deus
se devia comportar em situações como aquelas. As ruas estavam a encher-se
rapidamente com os aldeões que haviam acabado de acordar. Eles olhavam
incrédulos para ela, nunca a haviam visto a passear. Ela dirigiu-se para a
praça central, onde um viajante estava sentado a conversar.
«O meu Deus não é pretensioso nem
egoísta, ele pensa em nós em primeiro. – Ouviu ela o estranho a
comentar, o que a enfureceu ainda mais. O vento começou a rugir alto em
conformidade com a irritabilidade da deusa. – Ele mandou-me aqui para partilhar
com todos o seu amor e a sua dedicação. É um Deus misericordioso, ao contrário
de si. Sim, eu sei quem é. Os meus antepassados contavam histórias de como você
destruiu uma aldeia inteira devido às indiscrições do seu marido Ikiri.
Ubasti estava furiosa, aquele
humano ousava criticá-la, ele que não era nada em comparação a si. Dotada de
uma força sobrenatural, arrancou o coração do peito do visitante com as suas
próprias mãos. O coração ainda deu alguns batimentos na mão da deusa, enquanto
o corpo do homem jazia no chão, pintando-o de vermelho. Os humanos que se
encontravam na zona a ouvir a discussão, desataram aos gritos e a correr,
tentando fugir da deusa. O pânico estava instalado.
Ikiri chegou tarde, aos seus pés
jazia o corpo do visitante. O mesmo com quem ele falara no dia anterior. Era um
homem simples e em nada ameaçava o seu estilo de vida. Havia espaço para todos
os Deuses e todas as religiões, apesar de a sua companheira não concordar
consigo. Um ronco soltou-se das entranhas da montanha. Esta estava a acordar…
Continua…
Os Deuses do Fogo 2/5 - Liliana Novais
Os
primeiros raios de sol espreitavam pelo topo da montanha, iluminado o vale que
se estendia até ao horizonte. Todos os dias àquela hora, em que os habitantes
da aldeia ainda dormiam, ela descia do seu castelo, no topo montanha em busca
das oferendas que os aldeões lhe haviam deixado no dia anterior. Adorava as
frutas acabadas de colher, as quais eram adocicadas pelo sol dos trópicos.
Nessa
manhã, Miri acompanhava-a. Era a primeira vez que a pequena Deusa se encontrava
no mundo dos humanos e sentia-se fascinada pelas cores e pelos animais que
despertavam. Ela sentia curiosidade em relação aos humanos, queria ver um mas
sabia que a sua mãe nunca lhe permitiria aproximar-se deles. Facto que a
entristecia bastante.
O
templo era vasto, colunas sumptuosas suportavam o teto abobadado. A pequena
Miri ficou encantada com o engenho que os humanos apresentavam, eles conseguiam
construir coisas lindíssimas sendo incapazes de dominar as forças da natureza.
Atrás do altar encontravam-se imagens gigantes dos seus pais, estranhamente
semelhantes à realidade. Pousados sobre a toalha branca bordada encontravam-se
travessas e cestos repletos de comida.
Miri
observou a mãe enquanto ela vistoriava o conteúdo de cada um deles, e os
inspecionava cuidadosamente. A deusa movia-se com graça e elegância através do
salão. Ela viu a sua mãe ficar zangada, as velas que se encontravam espalhadas,
arderam com mais intensidade, com a fúria desta. Ela ficou assustada com a
reação da mãe, nunca a vira assim. A deusa saiu furiosa do templo. O céu que se
encontrava limpo encheu-se de nuvens e formou-se uma tempestade.
Ikiri,
que ainda repousava, foi acordado pela tempestade. Sabia que Ubasti tinha que estar
por detrás daquela repentina mudança climatérica. Tinha de a parar antes que
ela destruísse tudo. Ele não queria ter de recomeçar com uma nova aldeia, ele que
tanto amava aqueles humanos. Desceu ao templo em busca dela, mas este estava em
chamas. O fim havia começado.




