Mostrar mensagens com a etiqueta Vitor Frazão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vitor Frazão. Mostrar todas as mensagens

Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (8/8) – Despedidas – Vitor Frazão

- Quando partes? – pergunta Hayato, largando o cachimbo e passeando os olhos pela linha de árvores, onde os seus guerreiros aguardavam ordens. 

- De imediato – responde a vampira, agarrando a katana e erguendo-se. – Dentro de 4 dias será Lua Cheia, espero chegar à costa antes disso. 

- Esperam-te? – questiona, levando a taça de sake aos lábios, por entre as barbas brancas. 

- Cada Lua Cheia, na praia onde cheguei – afirma, encaixando a espada entre o cinto e o hakama, recordando o acordo que fizera com Miguel, na noite em que fora traficada para o país, dentro de um barril. Ao mesmo tempo procura esquecer que teria de voltar a atravessar o oceano, tentando esconder de Hayato o seu medo patológico de grande superfícies de água. 

- Durante mais de 30 anos? – admira-se o velho tengu, suspendendo a ingestão do sake e olhando de soslaio para os olhos azul-esverdeados da vampira. – Tens amigos estranhamente leais, Eleanora-chan. 

- Assim o espero – alega, sorrindo perante a lembrança dos belos olhos azuis e caracóis louros de Miguel. Sentia falta dele… 

- Não tens o salvo-conduto contigo – constata, pousando a taça e perscrutando a amiga com os penetrantes olhos pretos. – Irás buscá-lo? Oh… Estou a ver… 

- Far-lhe-á mais falta a ela do que a mim – defende, desviando o olhar, não se sentido confortável a discutir o tema. Tomara a decisão quando partira, não podia dar-se ao luxo de revisitá-la. Ou, pelo menos, não o queria… 

- Então irás sozinha? Ela sentirá a tua falta… 

- É melhor assim – reforça, tanto para si, como para o mestre, fingindo não ouvir a censura na sua voz. Sobre aquela questão não admitia o parecer de ninguém, nem mesmo dele. 

Memórias insistem em surgir, ameaçando minar a sua resolução. Olhos amendoados, castanho-esverdeados, que desaparecem atrás das pálpebras quando a faz gemer de prazer. A sua mão a passar pelos longos e lisos cabelos negros, antes de desaguar na curvatura sinuosa de costas nuas. Lábios finos, pintados vermelhos pelo sangue fresco, que lhe acariciam o mamilo duro, antes de rodar a língua nele… 

Eleanora expulsa as recordações, temendo o seu poder. Fizera a sua escolha. Nada ganharia em mudar de ideias. Era melhor assim… 

- Sabes que se não levares o salvo-conduto será difícil regressar. Talvez até tenhas de voltar a enfrentar as mesmas provações – adverte o velho tengu. – Não podes contar que todos aqueles que se lembram de ti sobrevivam até lá… 

- Hayato-oji, viverás mais anos do que aqueles que já vi. O próprio Deus da Morte não te quer! – brinca a vampira, rasgando um riso malicioso, aproveitando para afastar o que a atormentava. 

- Ah! Verdade! Verdade! – concorda, batendo com a palma da mão no joelho. Via bem que algo consumia a amiga, porém, respeitando a escolha dela em não falar sobre o assunto, assim como, não querendo embaraçar-se perante a despedida, aceita a oportunidade para aligeirar a conversa. – Tentarei manter as coisas organizadas por aqui, enquanto espero a desforra, Eleanora-chan. A propósito, se vais sem salvo-conduto seria melhor teres companhia até à costa, não? Shou-kun poderá levar-te. Shou-kun, vem cá! É grosseiro, mas uma jóia de moço. 

- Eu sei – reconhece, vendo o jovem tengu de asas castanhas e naginata cortada, voar na sua direcção. – Hayato-sama, obrigado! A vénia é profunda, abarcando muito mais do que o agradecimento pela escolta e o mestre retribui o grau de reverência. Pela primeira desde que qualquer um dos jovens guerreiros se lembra, a testa de Hayato-sama toca no solo. Então souberam que a Oculta os superara, tornando-se não só uma verdadeira yokai, como um dos Corvos.


Parte 7:
Parte 6:
Parte 5:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:


Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (7/8) – Uma nova Era – Vitor Frazão

Hayato repôs o cachimbo na boca, balançando-o pensativamente. Não sabia o que o seu povo decidiria, nem lhe interessava. Ele não iria abandonar o mundo e recolher para uma aldeola perdida nas montanhas, onde passaria os seus últimos dias como um qualquer velho caduco e aleijado. Os tengu e os yokai em geral ainda precisavam da sua espada e, enquanto tivesse força para a erguer, viveria segundo ela. 

Abolida a sakoku humana, agora, mais do que nunca, crescia o risco dos Ocultos estrageiros invadirem solo nipónico, corrompendo-o com os seus conflitos, que dilacerariam o modo de vida dos yokai. Isto para não falar do risco crescente de entrarem no país Obliteradores, soldados dessa gigantesca sociedade secreta cujo único propósito parecia ser exterminar seres paranormais. Foram as histórias de Eleanora sobre o horror desse flagelo que atormentava as espécies sobrenaturais além-mar, que insuflaram em Hayato a necessidade de manter-se vigilante. Ironicamente, a única Oculta que desejava conservar no país, era aquela que não conseguia. 

- Os yokai têm muito para decidir sozinhos e esses são debates em que não me quero envolver – justifica Eleanora, passando as mãos pelo cabelo, procurando verificar se ele regenerara o suficiente para voltar a ser preso. 

- Sentes falta do que deixaste, não é? – inquire, tão perspicaz como sempre, enchendo a taça com sake e tragando-o de um gole, antes de voltar a equilibrar o cachimbo na boca. 

- Sim – confirma, prendendo os cabelos e sendo incapaz de evitar um sorriso perante as memórias das terras e gentes que conhecera do outro lado do mar. – Além do mais, não consigo afastar esta ideia, talvez utópica, de o resto do mundo usufruir do mesmo que vocês criaram. A comunidade yokai pode não ser perfeita, mas sempre é melhor que o caos generalizado que há lá fora! Talvez com ela tivéssemos hipótese de enfrentar os Obliteradores, de viver algo parecido com uma existência livre, sem olhar constantemente por cima do ombro. Não sei… se calhar é uma tarefa demasiado grande para uma simples vampira… 

- Bah! Também o é manter escumalha Oculta longe desta terra – atira Hayato, batendo com o metal do cachimbo no cinzeiro, para se livrar dos restos carbonizado, enquanto lançava à vampira um sorriso que tinha tanto de troça como de encorajamento – mas a ideia é, justamente, não teres de o fazer sozinha. Eleanora-chan, enfrentaste a justiça yokai e ganhaste, quão difícil poderá ser combater milénios de ódios para unir todos os Ocultos e exterminar os Obliteradores? Caso para se resolver numa estação, certamente, não? 

- Ah! Ah! Mais uma vez dá-me mais crédito do que mereço, Hayato-san – agradece, rasgando um imenso sorriso e fazendo uma pequena vénia. – Tentarei não desiludir. 

Apoio não era algo que o velho tengu desse à toa. Por ligeiro e informal que fosse o seu tom, a força e confiança patente nele era suficiente para dispersar as dúvidas que enublavam a mente de Eleanora, pelo menos, durante algum tempo. A vampira batia-o em idade e vira muito mais do que ele, todavia, por algum motivo, a sabedoria simples e a autoridade sólida do ancião, confortavam-na, como se viessem de alguém muito mais velho, cujo saber assentava nas raízes do Tempo. Hayato desejava que ela ficasse, porém, compreendia porque é que ela tinha que partir. Tal como ele não se sentia capaz de aceitar o exílio numa aldeola perdida nas montanhas, vendo o mundo passar, Eleanora não conseguiria ficar escondida entre os yokai, enquanto lá fora os Ocultos continuavam a ser exterminados pelos Obliteradores. Nenhum deles era capaz de cruzar os braços.


Parte 8:
Parte 6:
Parte 5:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:



Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (6/8) – Entre velhos amigos – Vitor Frazão

A única coisa que Hayato, como todos os da sua espécie, odiava mais que caminhar em vez de voar, era ter um tecto sobre a cabeça. Espaços fechados eram para vermes, seres que não conheciam a glória e liberdade de planar pelos céus. Excepto durante tempestades, escolhia sempre estar ao ar livre, por isso a pequena celebração que mandara preparar para Eleanora ocorrera sob as estrelas e a Lua. Nada de muito elaborado, pois o velho tengu era um guerreiro simples, pouco dado a luxos. Apenas uma toalha vermelha, numa clareira limpa, sobre a qual fora colocada uma mesa baixa, com sake e sushi, enquanto, para a vampira, fora reservada uma bela e pálida mulher, de longos cabelos negros, vestida apenas com um fino quimono íntimo, branco como a mais pura das neves. 

A refeição aproxima-se do fim. Hayato, sentado na toalha, de pernas cruzadas debaixo do corpo, fuma o seu delgado e longo cachimbo, lançando anéis de fumo, enquanto Sora e Shou levam a mortal drenada pela vampira. Apesar de completamente desidratada, a sua expressão é tranquila, como se tivesse adormecido pacificamente, para nunca mais acordar. 

O velho tengu vê Eleanora repor o haori negro desprovido de emblemas sobre o ombro, cobrindo o braço decepado. Levará tempo, mas voltará a crescer. Ela afirma-o e ele sabe que assim é, lembrando-se perfeitamente da noite, há quase 30 anos, em que lhe cortara um braço e quase a matara. Trocar o privilégio de caminhar sob o sol por imortalidade, a capacidade de curar feridas num piscar de olhos e insensibilidade à dor, parecia um bom negócio a Hayato. Pudesse a sua espécie executar tal transformação e ele não hesitaria, por impuros que os vampiros fossem considerados pelos yokai. 

Foram tais poderes que deram a vitória à vampira, embora de pouco lhe tivessem servido no passado. Hayato e Eleanora tinham o mesmo peso e força muscular, mas a velocidade superior dele tê-la-ia fulminado se ela não usasse o próprio braço com escudo, abrandando o golpe da katana do tengu por uma fracção de tempo tão pequena que era impossível de medir. Um batimento de coração. Um piscar de olhos. Quantas vezes a vida de um guerreiro era decidida nessas meras fracções? 

“Um bom combate” pensa Hayato, sorrindo com o cachimbo nos lábios, lamentando apenas não poder repetir a experiência tão cedo. 

- Ajuda este velho tolo a entender, Eleanora-chan – pede, afastando o cachimbo e voltando o rosto para os lábios da convidada, pintados com sangue fresco. – Decides colocar pé nestas terras numa época em que a tua presença era ilegal, tanto pela lei humana como yokai. Sofreste e passaste todas as nossas provas pelo direito a ficar, recebendo dos yokai o salvo-conduto que te permite caminhar entre nós. Privilégio conquistado por poucos Ocultos, devo acrescentar. Escapaste também à justiça humana, para a qual eras um alvo tão fácil, com os teus cabelos louros e redondos olhos claros, tão vincadamente estrangeiros. Mantiveste-te entre nós durante os turbulentos dias do fim da Era Tokugawa. Agora, com sakoku abolida há quase vinte anos, em que o teu aspecto já não é motivo para perseguição humana e que a Bakumatsu acabou, dando-nos algo parecido com paz, é que desejas partir? Sei que esta Era Meiji ainda tem muito que provar, mas já estiveste ao nosso lado durante pior. 

- Hayato-san – retorque, acariciando a bainha negra da sua katana desprovida de guarda, que lhe jazia junto ao joelhos – se é verdade que uma parte de mim deseja ficar e que os dias que se avizinham aparentem ser mais pacíficos que os anteriores, especialmente para uma Oculta estrangeira, também é inegável que, com o fim da Guerra do Ano do Dragão, os yokai se vêem, cada vez mais, obrigados a tomar importantes decisões sobre o seu lugar no mundo dos homens. Tokugawa acabou. Bom ou mau, o tempo dos Meiji não será igual. Hayato sabia-o bem. A abertura aos estrangeiros, que ele defendera como uma das razões para Eleanora permanecer, obrigara, e ainda obrigava, a mudar séculos de tradicional interacção entre os yokai e os humanos daquele país. Ao contrário dos oni, cuja tolerância e colaboração com os humanos variavam de indivíduo para indivíduo, durante séculos os tengu tinham lutado lado a lado com os samurais, aliando-se aos clãs dos senhores feudais que conquistavam o seu respeito. Agora, com a queda da nobreza feudal, erguiam-se vozes dissonantes. Alguns defendiam que deviam retirar-se completamente do mundo humano, procurando refúgio nas suas aldeias nas montanhas, tal como, segundo as lendas, os seus parentes do continente fizeram, há milénios atrás. Outros afirmavam que o melhor seria camuflarem-se na sociedade humana, tal como alguns Ocultos ocidentais. Eleanora tinha razão, cada espécie, cada indivíduo, teria de escolher como enfrentar aquele mundo em mudanças.


Parte 8:
Parte 7:
Parte 5:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:


Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (5/8) – Por honra – Vitor Frazão

- Não desonrarei meus mestres alegando que a vitória se deveu a sorte, contudo, também recuso-me a garantir, sem sombra de dúvida, que seria capaz de repetir a proeza – defende, embainhando a katana, colocando-se de joelhos e fazendo a testa tocar no solo, na mais profunda e respeitosa das vénias. – O desabrochar de uma única flor não embeleza a cerejeira. Ainda tenho muito que aprender dos nobres mestres que me precederam até poder considerar-me ao seu nível. Perdoe-me se na minha ânsia por mostrar o que aprendi e para me provar perante si o ofendi, todavia, creio que pior teria sido fingir-me inferior. Em todo o caso – acrescenta, sorrindo, incerta se não estaria ir longe demais – se fôsseis um guerreiro menos… controlado, as costelas e braço que lhe parti não fariam o meu golpe parecer tão clemente. 

Por resistente que um tengu fosse, os seus ossos ocos, cruciais para voar, eram mais delicados que os dos humanos. Embora não tão sangrento como o corte de uma lâmina, o golpe de Eleanora poderia ter sido igualmente fatal, espetando ossos partidos de encontro a órgãos. O mero acto de respirar devia provocar dores horríveis, mas Hayato, numa incrível demonstração de autocontrolo, escondia-o magistralmente. 

Eleanora manteve a testa no chão, à mercê dos yokai voadores, não sabendo se a sua ousadia conseguira salvar amizade e honra, até que uma poderosa gargalha ecoa pela noite. 

- Ah! Ah! Ah! Espantoso! Espantoso! Ah! Ah! Bem dito, Eleanora-chan! – elogia Hayato, rasgando um imenso sorriso, que o fazia assemelhar-se a um animado velhote após beber mais que a sua conta. Cada gargalhada fazia vibrar as costelas partidas, sem que ele parecesse importar-se muito com isso, ignorando por completo as dores. A agressividade do seu rosto evapora-se como se toda a tensão anterior tivesse sido apena parte de uma piada. – Um bom combate, sem dúvida. Há muito que não me divertia tanto! Aprendeste muito desde o nosso primeiro encontro, Eleanora-chan. 

- Apenas porque enfrento grandes lutadores como Hayato-shishio e Shou-senpai – garante, levantando-se e fazendo uma pequena vénia para o jovem tengu. 

- Não sejas tão modesta e formal! – pede, bem-disposto, à medida que os arqueiros aterram aos seus pés, um deles com a bainha da sua katana. – Mais uma vez provaste que fizemos bem em poupar-te, Oculta-chan, e deixar-te caminhar em solo yokai. Vem, celebremos, Irmãzinha, e talvez me possas contar aquilo que te perturba, enublando ambiente tão festivo. Shou-kun, fecha a boca! Sora-kun, mexe essas asinhas e manda preparar repasto. Estou esganado! Eleanora não conseguiu evitar sorrir. Assim era Hayato, ferocidade em batalha apenas superada pela sua hospitalidade e boa disposição.


Parte 8:
Parte 7:
Parte 6:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:



Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (4/8) – No fio da lâmina – Vitor Frazão

Os dedos magros, sólidos e providos de garras da mão direita de Hayato mantém-se em redor do punho da katana, que nem ao ser arremessado largou, a sua expressão de ave de rapina tão acutilante como o gume da ancestral lâmina. A pele vermelha é coberta por um quimono cinzento, folgado, de tecido barato, com aberturas nas costas para as asas, e por uma tanga larga, diante da qual se encontra um grande pedaço de tecido rectangular que se alonga até aos joelhos, no qual está pintado o kanji para corvo, o emblema do seu esquadrão. No solo, as suas asas, com penas negras e brancas, parecem desgrenhadas, velhas e decadentes, tendo uma penugem mais própria para um espanador do que para um nobre tengu, porém, no ar são transformadas pela graciosidade de um voo capaz de fazer cisnes parecerem desajeitados. 

- Kenji-kun treinou-te bem, Eleanora-chan – elogia o ancião, tenso apesar do tratamento informal. O seu rosto vermelho, ladeado por orelhas bicudas, era iluminado pelo luar, enquanto os guerreiros em redor se mantinham na escuridão. 

- Akio-sensei foi apenas um de muitos cuja sabedoria abençoou esta humilde estudante, Hayato-sama – afirma, fazendo uma respeitosa vénia, sem tirar os olhos do yokai ou embainhar a espada, bem consciente da proximidade de Shou e da letal lâmina curva da naginata dividida. – As suas bondosas palavras honram-me e às suas ilustres casas. 

- Agrada-me saber que ensinar o seu estouvado avô não foi tempo perdido – confessa, flectindo as asas com aparente indiferença. – Contudo, desde os dias que Ichimaru-kun subiu a montanha em busca da sabedoria tengu na arte da espada, que ninguém da sua honrada casa conseguiu voar tão alto. 

- Não tenho o privilégio de pertencer a tão nobre casa – alega, compreendendo bem o rumo da conversa e o que estava em causa, mesmo sem estar segura do resultado. Hayato era um guerreiro nobre e sábio, mas também orgulhoso e, pelo que constava, a idade tornara-o temperamental e instável. 

- O que não te impediu de não só derrotar, como poupar um velho tolo – acusa o ancião, amargura bem patente na voz. 

Aí reside o cerne da questão. Os guerreiros de Hayato vivem por um conjunto regras de conduta reduzidas em número, mas abrangentes em efeito, entre as quais tomam primazia a honra, a abnegação perante a morte e a ferocidade em combate. A arte da guerra era levada muito a sério e, mesmo em sessões de treino como aquela, cada ataque era feito com intento de matar. Embora os guerreiros mais jovens, como Shou, ainda tivessem dificuldade em abraçar a noção, a morte de um camarada de armas, mesmo às mãos de um aliado, por algo tão banal como um treino, não era motivo para tristeza, raiva ou culpa, pois a preparação para a batalha tomava precedente face a tudo o resto. Vida era insignificante perante a honra. O facto de Eleanora não só ter conseguido vencer Hayato, como tido o sangue frio para, em pleno ataque, golpeá-lo com o lado rombo da katana e não com o gume, provava a sua superioridade a um ponto que o mestre consideraria humilhante. Um guerreiro orgulhoso como o velho tengu preferiria a honra do golpe fatal, à clemência e agora, mantendo-se diante dela, em digno silêncio, exigia saber o porquê da atitude. No ver da vampira, qualquer que fosse a sua resposta, só poderiam existir dois possíveis resultados, Hayato insistiria no combate, pretendendo limpar a humilhação com sangue, qualquer que fosse a sua fonte, ou dar-lhe-ia a honra de requerer a sua ajuda durante o ritual de seppuku. Embora não desejasse decapitá-lo enquanto ele se esventrava, também não arriscaria ofendê-lo ainda mais recusando. Não desejava a morte do velho tengu… A única esperança residia nas suas palavras poderem criar uma terceira alternativa.


Parte 8:
Parte 7:
Parte 6:
Parte 5:
Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:



Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (3/8) – A queda – Vitor Frazão


Shou pisca os olhos e o combate entre a vampira e velho tengu termina, tão rápido que apenas os danos provam que ocorreu de todo. Um braço é decepado por entre uma nuvem de sangue, convertendo-se em osso e depois em pó antes de cair no chão, sofrendo numa fracção de segundo a decomposição que lhe fora negada durante séculos pelos poderes da filha da noite. O sangue no coto estanca quase de imediato, enquanto os farrapos ensanguentados da manga esvoaçam em redor. Regenerando perante o olhar de todos, uma linha vermelha rasga a garganta de Eleanora de lado a lado, indicando que o fim não estivera longe, contudo, é o seu inimigo que jaz a vários metros de distância, arremessado pelo impacto do golpe. 

- Sensei! 

- Hayato-sama! 

Aflitos, os yokai voadores confluem sobre o mestre caído, ignorando a adversária. Apenas Shou, o mais novo, solta um clamor de fúria e dor, lançando-se sobre Eleanora, num suicida voo picado, naginata em punho. A vampira mal tem tempo de se voltar para enfrentar a investida, antes de ser abalroada. Os adversários rebolam pelo chão, por entre folhas secas e poeira. Quando se afastam, preparando o ataque seguinte, a arma do tengu está cortada ao meio e a filha da noite é obrigada a regenerar outra ferida no pescoço. Mais dois ou três centímetros teria sofrido uma decapitação e com ela a derradeira morte… 

Sem perder tempo, o tengu atira as asas de penas castanhas em frente, utilizando-as como uma espécie de capa para cobrir as mãos e os fragmentos da arma dividida. A técnica visava esconder a direcção do ataque que executaria com as armas improvisadas, estratégia que não funcionaria tão bem contra alguém que podia ver sangue através de objectos sólidos… 

Shou prepara-se, Eleanora segura a katana com firmeza, usando apenas uma mão, posicionando-a num ângulo em que o seu próprio corpo a esconde do adversário, e lançam-se um sobre o outro. 

- PAREM! 

O grito em japonês que ecoa pela noite não é um apelo desesperado, mas uma ordem férrea, proferida por uma voz habituada a ser obedecida. Sem magia para além da autoridade e respeito que o portador inspira, a palavra suspende os adversários em pleno ataque, impedindo-os de cortarem a garganta um ao outro. 

- Hayato-jijii? – pergunta Shou, chocado, sem afastar do pescoço da vampira a lâmina curva da naginata partida. 

Ombreado pelos yokai mais novos, o velho tengu ergue-se sobre as próprias pernas, os seus pés bifurcados, cada um dos quais providos de duas garras aquilinas à frente e uma atrás, cravados no solo. Mantinha a habitual dignidade e autoridade, apesar dos cabelos, normalmente presos no topo da cabeça, caírem soltos pelo rosto e de ter folhas mortas na triangular barba branca que lhe desce até ao peito, onde, surpreendentemente, apenas espreita um hematoma por entre o meio aberto e largo quimono cinzento, em vez do rasgão sangrento que o golpe da vampira deveria ter deixado. 

- Shou-kun – diz o ancião, dando a entender que o jovem devia baixar a arma e afastar-se da vampira. 

O mais jovem dos yokai demora a cumprir a ordem, tendo dificuldade em lidar com a mistura de raiva, orgulho, alívio e surpresa que experiencia. 

- Puff! – solta, ao recuar e colocar descontraidamente ao ombro a ponta provida de lâmina da arma cortada, rasgando um sorriso trocista para simular indiferença e procurar esconder aquilo que sente. – Parece que afinal, Shisho-jijii não foi abatido, só tropeçou. 

Um dos outros yokai pretende repreender Shou pela rudeza, mas Hayato, habituado a ela e dando-lhe pouca importância, impede-o, voltando os olhos negros e longo nariz aduncado para a vampira. Eleanora baixa a katana e retribui o olhar, como se não existisse mais ninguém no mundo senão ela, aquele humanóide alado, de pele vermelha, e uma tensão de cortar à faca entre eles. Embora não parecesse, a batalha ainda não terminara…   


Parte 8:
Parte 7:
Parte 6:
Parte 5:
Parte 4:
Parte 2:
Parte 1:
     

Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (2/8) – O mais poderoso – Vitor Frazão

Disparadas da segurança da copa das árvores, pelos assimétricos yumi dos tengu, com uma força impossível a qualquer arco de fabrico humano, as flechas não só são extremamente rápidas, como invisíveis ao Pulsar. Felizmente, os ouvidos de Eleanora foram treinados para detectar o menor sinal de disparo e os seus reflexos são sobrenaturais. Desvia-se do primeiro projéctil, que se vai espetar no solo remexido, e move-se ligeiramente para levar com o segundo no peito em vez do ombro. Consciente que uma flecha nas articulações lhe toldará os movimentos, tornando-a um alvo fácil, dá-se ao trabalho de fugir de projécteis que não a podem matar ou sequer provocar dor. 



As vagas de ataques tornam-se mais intensas, obrigando-a a mover-se freneticamente em redor, saltando, rodando sobre si mesma e rebolando pelo chão, por entre uma cacofonia de metal a cantar de encontro a metal. Nem todos os golpes são desviados ou aparados, cortes nas vestes e pele multiplicam-se. Onde outros contemplariam uma situação cada vez mais desesperada, Eleanora vê oportunidades. Três soldados de infantaria, dois arqueiros, cinco atacantes, ou seja, muitas falhas na rede. E estavam a ficar cada vez mais descuidados… 



Eleanora volta a atirar-se ao chão, rebolando para o lado e aproveitando para agarrar um punhado de terra, que lança ao tengu mais próximo, ao levantar-se, fazendo-o falhar o ataque e quase não conseguir defender o contra-ataque. O tengu da katana afasta-se, executando um voo muito mais largo do que o habitual, enquanto esfrega os olhos. Ao mesmo tempo, a vampira desvia-se de uma investida e corta a ponta da lança do adversário seguinte, que é forçado a uma manobra de emergência para evitar despenhar-se. O terceiro yokai quase lhe arranca a katana das mãos com a naginata, mas as suas forças acabam por provar-se demasiado equilibradas para uma se sobrepor à outra. 



Recebendo mais duas flechas nas costas, enquanto vê os inimigos voarem para longe, de modo a ganharem balanço para as investidas seguintes, Eleanora não se sente aliviada com as tréguas, pois sabe que ainda lhe falta enfrentar o mais velho, perigoso e poderoso dos yokai voadores. Ele encontra-se perto, nas sombras, à espera da altura certa para atacar… Todos eles eram fulminantemente rápidos e furtivos, mas Hayato fazia os demais parecerem folhas a cair com indolência numa brisa outonal. Ao senti-lo aproximar-se por trás, atacando de um ângulo impossível, Eleanora apenas tem tempo de tirar a mão esquerda da katana enquanto se vira. Um golpe. Tudo ou nada, num único movimento. Sem espaço para errar.






Parte 8:
Parte 7:
Parte 6:
Parte 5:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 1: 

Crónicas Obscuras: Dança do Corvo (1/8) – Asas na escuridão – Vitor Frazão

O vento desliza pelos ramos, fazendo estalar as folhas ao luar. Pés pequenos, envoltos em waraji esmagam o solo amolecido pela chuva, ao adoptarem uma posição sólida, em preparação para a batalha. Uma mão pálida, aparentemente delicada, ergue-se para agarrar a bainha negra à cintura, atada com firmeza de encontro ao hakama, enquanto outra atravessa diante da barriga, pousando sobre o punho da katana desprovida de guarda. 

Entre árvores milenares, cuja altura parece desafiar o Céu, envolta em sombras que enegrecem a sua palidez sobrenatural, está uma pequena guerreira loura de feições cheias, quase angelicais. Os seus olhos azul-esverdeados brilham a cada mudança de luz. 

O silêncio e o negrume escondem uma paz falsa. Ela sabe que não está sozinha. Sente o bater dos corações e, pelo canto do olho, consegue ver os inimigos moverem-se entre as copas. À distância que estão, o sangue que lhes corre nas veias, que devia ser para ela como fogo na escuridão, não passa de uma faísca fugaz. Conhecendo bem a rapidez dos adversários, a filha da noite não se deixa enganar pela ilusória segurança que o espaço entre eles proporciona. 

Procurando suprimir o nervosismo, a vampira passa a língua pelos caninos. Nesse exacto momento, um dos corações bate mais depressa, fazendo-a virar para o atacante, que voa na sua direcção, batendo as asas ruidosamente, naginata em mãos. 

“É uma distracção” apercebe-se, sacando da espada e preparando-se para atacar o outro inimigo que plana na sua direcção, vindo de trás. Vê-o, ficando impressionada por constatar que se encontra tão relaxado, que o coração bate como se estivesse sentado a beber chá e não no coração de uma batalha. Não fosse pela sua experiência, a vampira nunca o teria sentido aproximar-se. Infelizmente, também ele era um engodo. 

Mesmo com Pulsar, Eleanora quase não detecta a tempo um tengu que cai do céu em voo picado, directamente sobre a sua cabeça, qual falcão-peregrino a tomar partido do ângulo morto, sendo apenas graças aos seus reflexos sobrenaturais que consegue evitar ser empalada pela longa lança. Desviada pela katana, a lâmina dupla da lança limita-se a rasgar de alto a baixo a manga esquerda do quimono masculino, enquanto Eleanora recua, saindo do caminho do Oculto voador, na esperança que ele se despenhe ao falhar o alvo. Demonstrando uma incrível perícia física e agilidade mental, o yokai voador recupera de imediato, planado graciosamente para longe, sem sequer tocar no chão. A vampira sente as penas das asas do inimigo no rosto, mas não reage a tempo de lhe acertar. 

Quase de imediato, vê-se obrigada a usar a katana para desviar a lâmina de outro tengu e depois a rebolar sobre o ombro para fugir à naginata de um terceiro, aquele cujo coração batia com o poder de ondas a esmagarem-se contra penedos. A mortal dança prossegue. Os três yokai voadores, rápidos e precisos, acossam-na em círculos cada vez mais apertados, em vagas que a impedem de concentrar-se num alvo. A vampira baixa-se e, em vez de ficar sem pescoço, é-lhe cortado o rabo-de-cavalo louro, preso no topo da cabeça. Rolando para a frente desvia-se de uma arma e, dessa posição vulnerável, deflecte outra com a katana. Os cabelos soltos caem-lhe sobre o rosto ao erguer-se, sendo então que os arqueiros atacam.


Parte 8:
Parte 7:
Parte 6:
Parte 5:
Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:

O Farol - Vitor Frazão

Não havia luar ou estrelas, apenas nuvens negras lançando um manto de trevas sobre o oceano. Não fosse pela luz do farol, Alan não teria qualquer meio de se orientar, além do som das vagas a esmagarem-se contra as rochas ou o assobio furioso do vento, enquanto o seu corpo encharcado era arremessado de um lado para o outro e o peito oprimido pelas garras da água gelada. Do barco nem sinal. Tanto quanto o infeliz náufrago sabia, a mesma onda que o arrebatara para o mar colocara a embarcação a pique e com ela todos os seus companheiros, deixando-o sozinho na imensidão indomável do Atlântico Norte. Verdade fosse dita, na escuridão, com o barulho do vento e das ondas, os seus amigos poderiam estar a menos de dois ou três metros, a bradar a plenos pulmões por ajuda, que ele não saberia. 


Apenas a luz do farol o guiava e foi graças a ela que Alan viu o rochedo antes da vaga o atirar de encontro a ele. Avisado do perigo, virou-se para receber o impacto com as solas, diminuindo os danos, mas não a dor. Quando a onda passou, o náufrago estava abraçado ao penedo com todas as forças e, apesar do mar o fustigar, ao ponto dos dedos e palmas ficarem em carne viva, sangrando de vários cortes provocados pelas saliências da rocha, recusava-se a largar a minúscula ilha, abandonando aquela segurança relativa em detrimento da aterradora vastidão do oceano. 

O olhar do homenzinho encharcado ergueu-se para a ilha onde se localizava o farol, uma imensa massa negra que estaria a menos de uma centena de metros. Uma parte dele ponderou arriscar-se, lançando-se no mar aberto, num último esforço desesperado para procurar refúgio no ventre daquele sólido porto de abrigo. Todavia, sentia-se intimidado pelo vulto intermitentemente iluminado, que se elevava acima do nível do mar como a bossa de um gigantesco monstro marinho, pois receava ser esmagado de encontro à mesma solidez que o poderia proteger, morrendo numa explosão salgada de espuma e sangue, ou perder as forças antes de o alcançar. No seu medo e insegurança, foi incapaz de abandonar o penedo, acto que racionalizava, considerando que era demasiado perigoso fazê-lo durante a noite, sendo preferível esperar pelo amanhecer. 

Entretanto, numa das encostas da ilhota surrada pelos ventos, onde só os arbustos e ervas mais resistentes conseguiam crescer, um homem de cabelos grisalhos, casaco azul-escuro de fazenda e calças castanhas de bombazina estava sentado numa rocha, a comer uma maçã cujos pedaços cortava com uma pequena faca, provida de um tosco e irregular cabo de madeira. Aparentava cerca de sessenta anos, mãos áspera e um rosto severo, adornado por um nariz aduncado e lábios secos. Uma figura que passaria despercebida, não fosse pelo facto de nada nele reagir aos inclementes ventos que castigavam a encosta, permanecendo as suas roupas e cabelos tão imóveis como se estivesse sentado dentro de casa. 

Dir-se-ia que o mundo exterior não o afectava, porém, o ancião mantinha um olhar vigilante nele, especialmente naquele miserável náufrago, vendo para além da escuridão, da distância, da ondulação e do mau tempo. Aparentemente indiferente ao sofrimento do humano, Cathasach afastou o braço para o lado, de modo a retirar a manga de cima do relógio, revelando-se aborrecido com a demora. 

Aos pés do ancião uma criatura de pelagem negra, com colmilhos afiados a ornar a larga boca vermelha, emitiu um pequeno queixume, como se pedinchasse algo. 

- Não, rapazola – respondeu o ancião, ainda a mastigar o último pedaço de maçã, que se apressou a engolir. – Ele tem de se safar sozinho ou não servirá para nada. Estas ilhas não são para fracos. 

Embora soubesse falar, o buggane juvenil limitou-se a emitir novo grunhido, desta feita de desilusão e mágoa, por o mestre não o deixar salvar aquele infeliz humano. Ao contrário dos seus parente maiores da Ilha de Man, aquele pequeno humanóide peludo, com garras robustas feitas para escavar, olhos minúsculos, um sentido de olfacto muito apurado e aproximadamente a altura de um criança de cinco anos, era um excelente nadador, produto da vida naquela ilhota perdida no topo do mundo. 

Cathasach não partilhava da generosidade do rapazola. As suas responsabilidades não lhe permitiam ao luxo de tais sentimentalismos.

Havia quarenta anos que aquelas ilhas não tinham um residente humano, apenas visitas esporádicas, a maioria das quais feitas para garantir que o farol automático permanecia operacional, e Cathasach não podia permitir que o seu primeiro inquilino mortal em quatro décadas fosse débil. Precisava de um indivíduo forte ou aquelas ilhas devorá-lo-iam, cuspindo de volta para o oceano um corpo ensanguentado e uma mente mutilada. Na verdade, se aquele tipo não tivesse a força de vontade necessária para confiar nas suas capacidades e nadar até à ilha, deixá-lo ser engolido pelo oceano era a opção mais misericordiosa, pois ele não seria capaz de suportar as provações e os espíritos atormentados que assombravam aquele calhau perdido nos confins do mundo, na zona mais inclemente dos oceanos, dilacerar-lhe-iam a sanidade. Cathasach acreditava no rapaz ou não teria comprado o bilhete dele com as vidas dos seus companheiros de viagem, que naquele momento eram arrastados para o Abismo, porém, recusava-se a fornecer mais refeições fáceis às ilhas e às suas cavernas empestadas com o cheiro a carne putrefacta.

“Tem que ser ele” pensou o ancião, acariciando o cabo da faca com uma mão e passando a outra pelos cabelos, enquanto desejava que aquela nova “aposta” não falhasse, como tantas outras antes… Os Pais o ajudassem… Após todos aqueles séculos precisava tanto daquela vitória, quanto as ilhas careciam de um novo Zelador…


Os Kravyads 7/7 – Maus Augúrios – Vitor Frazão

     Suando em bica e arfando, como se tivesse acabado de subir a correr uma extensa escadaria, Nowak acabou a leitura, retirando as mãos ensanguentadas de dentro do cadáver e fechando as pálpebras, incapaz de suportar o poder dos próprios olhos por mais um segundo que fosse, à medida que uma violenta dor de cabeça ameaçava rachar-lhe o crânio. Maria ofereceu uma cadeira ao mestre, porém, este recusou, limitando-se a apontar insistentemente para os olhos, exigindo que as costuras fossem recolocadas de imediato e com elas o selo que encerraria o seu poder. Sem hesitação, a semi-humana inverteu o processo, voltando a coser as pálpebras com um sortilégio, e afastou-se sabendo que o mestre também recusaria ajuda para chegar ao lava-loiça. 

     Enquanto o Doutor despia a camisa ensanguentada, passando-a à assistente, revelando uma camisola interior branca de cavas, antes de começar a lavar o sangue dos braços cobertos de cicatrizes paralelas, Kunti mordia a língua para se conter de fazer perguntas, Isha não ousava sequer mexer-se e Anath olhava de soslaio para o caderno, pousado sobre uma cadeira, fingindo desinteresse. 

     O adivinho levou um bom bocado a lavar as mãos, braços e rosto, bichanando durante todo o processo, aparentemente tentando reorganizar ideias ou memorizar algo. Quando finalmente acabou, a eficaz e silenciosa Maria estava ao seu lado com uma toalha seca e uma camisa limpa que tirara da mala de viagem. 

     - Ano complicado, este que aí vem. Muitas mudanças para os que caminham na sombra do Homem – comentou ele, em português, pouco depois, ao mesmo tempo que abotoava a camisa, antes que Kunti pudesse perguntar o quer que fosse. – Precisarei de estudar as palavras com mais atenção… Muitas variáveis… Muitos caminhos, todos eles com ramos largos… – Era-lhe difícil concentrar-se num só pensamento, enquanto o cérebro entrava em hiperactividade para tentar deslizar todas as possíveis consequências e significados daquilo que vira. – Ainda bem que arranjaram um espécime tão bom… teria sido mais difícil com um inferior… Pena ser o último. 

     - O último? Como assim? O que viu? O que vai acontecer? – quis saber Kunti, sentindo-se alarmada, pois embora os rakshasas fossem imortais, no sentido mais lato do termo, não eram indestrutíveis. 

  - Tenho de estudar melhor… – disse Nowak, falando com os botões e colocando os óculos escuros. 

   - Doutor, porquê o último? – insistiu Isha, inclinando-se para a frente e apelando a todo o autocontrolo para não soar ameaçador. 

     - Mesquinhos rakshasas, não é o vosso futuro que merece mais estudo. Fosse tudo tão claro! – respondeu Nowak, abanando a cabeça perante a tacanhez dos devoradores de homens e vestindo o casaco. – O destino do mundo não é ditado pelos vossos umbigos, Kravyads. Disse o último, porque para o ano vocês já não estarão em Coimbra e eu terei de procurar outros caçadores. Será difícil encontrar alguém do vosso nível por aqui… Sim, é pena não poder ir com vocês... Mas não adianta, tenho de ficar… 

   - O que quer dizer quando afirma que não estaremos cá? – inquiriu Anath, como um misto de desconfiança e esperança. 

  - Mudar-se-ão ou pelo menos devem fazê-lo – esclareceu o adivinho, esforçando-se para os informar, embora preferisse gastar toda a energia mental a deslindar questões mais importantes. – Coimbra deixará de vos servir, não prosperarão nela como no passado, na verdade, tornar-se-á perigosa para vós. Partam. Quanto mais cedo melhor. A Sul poderão encontrar prosperidade durante alguns anos, mas as melhores oportunidades estão a Leste. Mantenham-se longe do campo, escolham cidades grandes, onde podem passar despercebidos entre a população. Madrid ou… 

   - Paris? – sugeriu Anath, não escondendo o brilho nos olhos perante a possibilidade. 

    - Sim, Paris é uma boa escolha – concordou o Doutor, passando a mão pelo queixo em reflexão, sendo impossível precisar se avaliava a situação dos Kravyads ou se pensava nos eventos que vira nas entranhas. – É uma terra mais fria do que estão habituados… contudo, cuidará de vós. Mantenham-se longe dos turistas, é o que aconselho. Desejo-vos boa sorte, rakshasas. Vamos, Maria – acrescentou apressadamente, abotoando o casaco e começando a dirigir-se para a saída, ansioso por chegar a casa e lançar-se de cabeça no trabalho, em busca dos verdadeiros significados das visões que tivera. 

     - Obrigado Doutor – agradeceu Kunti, desviando-se do caminho de Nowak, privilégio que não reservava a mais nenhum mortal. Estava irritada perante a perspectiva de recomeçar do zero numa cidade nova, contudo, não lhe passou pela cabeça ignorar o conselho do adivinho, a quem aquela família devia tanto – Anath, acompanha-os. 

     Enquanto a mãe se enervava, pensando no trabalho que as mudanças dariam, tentando esconder a apreensão, e o pai focava a atenção em desmontar o cadáver do humano, procurando calcular como levaria as provisões durante a viagem, Anath seguiu os convidados, dando por si a sorrir genuinamente pela primeira vez em décadas. Finalmente iria para uma cidade a sério, Paris ainda por cima! Lá sim, encontraria verdadeira diversão. 

     Imerso em pensamentos e caminhando com uma confiança que escondia a sua cegueira, Nowak alcançou a saída rapidamente, porém, quando abriu a porta, estacou, parecendo ponderar sobre algo, e revelou no rosto uma emoção que raramente utilizava, pesar. Antes de franquear a ombreira, fez duas coisas que Anath nunca o vira fazer, voltou-se directamente para ela e colocou-lhe a mão no ombro. 

    - Lamento, criança – afirmou, com sincera tristeza, retirando-se logo de seguida e começando a percorrer o corredor do prédio, que se encontrava imerso numa escuridão invulgar. 

     Essas duas palavras foram suficientes para manchar a alegria da rakshasi, roubando-lhe o sorriso e abalando-lhe a confiança, como nunca acontecera nos seus duzentos e trinta anos de existência. 

     - O que é que ele quis dizer com aquilo? – perguntou Anath, alarmada, agarrando o braço de Maria para a impedir de avançar. Assim que entrou em contacto com ela sentiu um ligeiro ardor e algo a mexer-se debaixo da pele da semi-humana, porém, manteve o aperto, exigindo uma resposta. 

     - O Mestre lamenta se lhe deu esperanças infundadas e pela sua perda, quando está tão perto de alcançar aquilo que deseja – respondeu Maria, com calma e cortesia, não se deixando intimidar e fazendo eco dos pensamentos de Nowak, como se eles fossem seus. – Ele sabe o quanto a mudança para uma grande cidade significa para si. 

     - Desculpa? – proferiu Anath, começando a sentir-se assustada. 

     - Receio que não viverá em Paris – disse a semi-humana, com compaixão na voz, pois sempre simpatizara com a jovem rakshasi. 

     - Mas ele disse?… Era uma mentira? – perguntou Anath, sabendo que estava errada assim que falou. Nowak nunca mentia. Podia ser vago, mas era incapaz de mentir descaradamente. 

     - Não, a sua família, de facto, encontrará prosperidade lá. Você não terá tal sorte – especificou a assistente, sentindo o aperto da rakshasi abrandar. 

    - Ele está errado – retaliou Anath, com mais choque do que confiança, largando o braço da semi-humana. 

     - É possível – admitiu Maria, não se sentindo ofendida com a contestação das capacidades do mestre, pois há muito que a aprendera que não existia predestinação ou sinas imutáveis, apenas probabilidades e tendências. – Nenhum futuro é inquestionável até ser passado. Foi por isso que o Doutor não o mencionou aos seus pais. Entenda-o como um pequeno agradecimento pelos vossos anos de bons serviços. Não obstante, as probabilidades são muito baixas. Não sabemos se morrerá antes de lá chegar ou ficará retida noutro sítio, apenas estamos noventa porcento seguros que não descobrirá aquilo que deseja… 

     - Ele está errado... – repetiu Anath, tentando manter-se confiante apesar de se sentir cada vez mais desanimada. Embora dez por cento não fosse o mesmo que zero, as hipóteses eram demasiado baixas para permitir mais do que uma fugaz esperança, especialmente, quando a sentença fora proferida por alguém como Nowak, que nunca errava. - Lamentamos e desejamos-lhe sorte – despediu-se Maria, fazendo uma ligeira vénia e sorrindo encorajadoramente, antes de seguir o mestre para a escuridão, deixando atrás de si uma rakshasi que, pela primeira vez na sua longa existência, sentiu como era ser destroçada por uma ilusão.




Mensagens antigas