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O Primeiro Voo - Liliana Novais

O coração de Aluminir batia acelerado. Aquele seria o seu primeiro voo sem a companhia dos pais. A ideia da independência excitava-a e amedrontava-a de igual modo. Aquele era o maior acontecimento da sua vida, pelo menos até aquele momento. O sangue corria-lhe quente pelas veias e os primeiros raios de sol da manhã faziam as escamas prateadas brilharem. Estendeu as asas e com apenas um impulso elevou-se no ar com a ajuda das correntes ascendentes. 

Pela primeira vez na curta vida sentia-se completamente livre e queria apenas explorar os seus limites. Elevou-se cada vez mais, subindo acima dos cumes das montanhas Farlan, a enorme cordilheira norte de Ahelanae. Subiu bem acima dos pássaros, deixando de os ver. A sua respiração tornou-se pesada e difícil, como se tivesse um peso a contrair-lhe os pulmões. Nem mesmo assim desistiu, prosseguiu com a subida. A visão começou a ficar turva e o ar que entrava nos seus pulmões não era suficiente.Perdeu os sentidos. Aluminir caía descontroladamente, aproximando-se cada vez mais depressa do solo. O chão estava ameaçadoramente próximo. Finalmente abriu os olhos. Teve apenas tempo de reagir e raspar na encosta de um dos picos mais altos, arrastando várias pedras. Sentiu-as a cortar a pele. Uivou de dor quando uma pedra embateu numa das asas. As suas garras raspavam na encosta, numa tentativa de abrandar, mas não conseguia agarrar-se e continuava a embater contra a parede da montanha. Finalmente conseguiu fincar as patas traseiras e abrandar a queda, acabando por se imobilizar. 

Suspirou, nunca mais faria o mesmo. Aprendera com o erro, quase perdera a vida. 

Esticou a asa.Sentia uma pontada de dor mas era suportável, felizmente não a tinha partido. Retomou o voo. Teria de ser mais cautelosa. Apenas queria sentir o vento sob as asas. Sobrevoou as montanhas em direcção à Floresta de Holvar. Acompanhou os pássaros, voando ao seu lado, pairando sob os altos picos. Fazia corridas com as velozes águias Tiran, as quais tinham metade do seu tamanho. Ria-se. Entendera, finalmente, o significado de ser livre, de poder voar. Estava feliz. 

Uma sombra tapou-lhe o sol. Assustada, olhou para cima. Um segundo dragão prateado surgiu no céu. Aluminir não estava à espera de companhia no seu primeiro voo. 

Iniciaram numa graciosa dança alada,como se duma corte se tratasse. Faziam piruetas, voos rasantes, em torno um do outro. Aluminir não queria admitir, mas estava a divertir-se com aquele dragão desconhecido. Estava curiosa, sem contar com os seus pais, nunca vira outro dragão. Queria falar com ele, conhecê-lo melhor. 

Ela olhou para baixo, já não estavam sob as montanhas, a verdejante floresta estendia-se agora por baixo deles. À frente, um enorme lago alongava-se, o lago Tadal. Ela começou a descer em direcção a este. O outro dragão entendeu e seguiu-a. 

Aluminir tentou aterrar o mais graciosamente que conseguia, queria fazer uma boa figura para o seu companheiro. Virou-se e ficou a observá-lo. Ele era um grande macho prateado. Os seus olhos verdes, raros na sua espécie, fitavam-na com a mesma curiosidade que sentia. Começaram a andar um em torno do outro, observando-se mutuamente. Ele não era muito mais velho do que ela, teria mais cem anos no máximo. Ela queria tocar-lhe, falar-lhe mas não sabia o que dizer. Queria saber mais sobre ele. O seu coração batia mais depressa. O sangue nas suas veias fervia e não compreendia a razão. 

- Olá! Eu sou a Aluminir. E tu, quem és? – Perguntou ela, disfarçando o nervosismo. - Eu sou o Seneth.


Fome - Liliana Novais

Salvador percorria as ruas desertas da cidade, àquela hora tardia. Os seus músculos encontravam-se entorpecidos pelos séculos de descanso. Despertara faminto. As roupas que envergava haviam sido suprimidas roubadas de um qualquer estendal, uma vez que aquelas com que ele se recolhera há muito que haviam sido devoradas pela passagem do tempo. 

Ele tentara, em vão, forçar a sua entrada numa casa próxima do local onde dormira. Mas as portas estavam bem fechadas e as janelas cerradas, o que o impedia de hipnotizar alguma vítima incauta. Ele sabia que se não se alimentasse não recuperaria a sua força. Avançou, dominado pelo impulso, pela necessidade de sangue que o cegava. 

O som de centenas de corações a bater enlouquecia-o. Ele não os conseguia alcançar. O seu desespero era tal, que até um pedinte qualquer caído na beira da estrada serviria para aplacar a sua sede. Mas o azar perseguia-o, pois não se vislumbrava vivalma. Estava sozinho e perdido numa cidade que lhe era estranha. 

Cambaleou. Sentia-se muito fraco e vulnerável. Apoiou-se numa parede para não cair. Apenas conseguia pensar em sangue. Era uma necessidade que crescia e que o estava a começar a dominar, em breve deixaria de raciocinar e abandonaria toda a prudência. 

Com os seus sentidos ao máximo, procura um indício de vida, de uma refeição. A brisa de Verão transportou até si, o som de passos longínquos. Pela sua experiência, concluiu que se tratava de uma mulher que percorria as ruas sozinha. Movimentou-se rapidamente para a conseguir alcançar, sem desperdiçar energia, pelo que não podia utilizar a sua super-velocidade para a alcançar. 

Parou a poucos metros dela. Ele conseguia sentir o seu perfume intoxicante. Desejava o seu sangue como nunca havia desejado ninguém anteriormente. Queria agarrá-la naquele lugar, ignorar o bom senso. Tomá-la nos seus braços, e fazê-la sua. Tinha de se conter, uma vez que alguém o podia ver. 

Parou em frente a uma montra fingindo estar a olhar para esta. O coração dela a acelerou, devia tê-lo ouvido. Tinha de se afastar e segui-la com o uso dos seus sentidos apurados até um lugar mais propício. Na sua mente já conseguia saborear o seu sangue. Imaginava uma explosão de sabores que o invadiria e salivava. 

Salvador seguiu-a até um beco deserto e aí viu a sua oportunidade de atacar, tinha de ser rápido e ágil. Aquele era o momento, reuniu as últimas forças que tinha e agarrou-a. Cravou os dentes com força no pescoço da rapariga e tapou-lhe a boca com a mão. O sangue começou a jorrar e a saciar a sede. Era espesso e doce. Ele sentiu o seu corpo a entrar em frenesim. As suas energias estavam a restaurar-se, a cada gota que bebia sentia-se mais forte. Agarrou-a com mais força, sentia o calor dela no seu corpo. Quanto mais bebia, mais se sentia atraído por ela, era o efeito do sangue. Desejava o seu corpo. Ela debatia-se contra o abraço mortal do vampiro. Era uma lutadora, o que o levava a sentir-se ainda mais atraído por ela. Se não tivesse acabado de acordar, ainda poderia ponderar transformá-la. A sua mão livre acariciava o corpo dela. Era dele naqueles breves instantes que partilhavam. A cada gota que bebia sentia a vida dela a esvair-se rapidamente, o seu coração abrandava. E em breve, estava morta. Ele olhou para o corpo inanimado que tinha nos braços com indiferença, era apenas mais uma em muitas que matara, era alimento. Apenas servia para o manter forte. Atirou-a ao chão, pronto para prosseguir a sua busca por uma nova vítima.


Paixão 4/4 - Liliana Novais

Os Eraks foram apanhados desprevenidos pelas hordas furiosas que procuravam sangue. A paixão de Tobi foi a desculpa perfeita para aqueles que odiavam os Eraks e que esperavam que algum deles cometesse um erro para soltar a sua ira contra toda a população. A sua sede de vingança era enorme e todos sofreram. Armaram-se de paus, pedras, bastões. Tudo servia para infligir dor, já que não os conseguiriam matar com aquelas armas. Os Eraks feridos eram rapidamente transportados para os curandeiros. Felizmente as hordas não tinham em sua posse uma Kaleth, a única arma que conseguia matar Eraks e retirar-lhes o poder. Estas tornaram-se raras após a grande guerra e apenas alguns mercenários as possuíam e felizmente não havia nenhum na cidade. 

Os que ainda se encontravam aptos reuniram-se na cabana do oráculo. Tinham de fazer algo para que as hostilidades parassem. 

- A culpa disto tudo se estar a passar é do Tobi. – começou um deles. Fazendo com que este se sentisse ainda mais culpado. 

- A culpa não é dele! – Defendeu-o Orak. – Tal como qualquer um de nós, ele apaixonou-se… 

- Mas mais nenhum de nós se apaixonou por quem não devia! 

Orak abriu a boca para responder, mas Tobi interrompeu-o. 

- Eu sei que me apaixonei. Mas eu pergunto-vos: qual de vocês consegue dizer ao vosso coração o que fazer? Por quem se apaixonar? Eu sei que não consegui. O amor tem vontade própria e ninguém o controla. Amo a Athena e faria tudo por ela. Só lamento ter-vos arrastado para o meio da confusão. Nunca vos quis fazer mal. Mas a verdade é esta: quem são eles para nos mandarem fazer algo? Quem nos pode dizer que uma pessoa não se pode apaixonar por outra? Não devíamos ser livres de escolher o nosso próprio futuro? Temos de lutar pelo que acreditamos, pelo que amamos! Já pagamos muito pelos erros dos nossos antepassados. Durante cem anos mantivemo-nos nas sombras, chegou a altura de dizermos basta! 

O discurso de Tobi incendiou os corações de todos os que o ouviam. Todos sentiam o mesmo que ele e sabiam que aquela era a altura certa para agir. Mostrar que não iam tolerar mais a descriminação. O fim estava próximo. Ou venciam ou morriam a tentar. 

Orak informou o seu amigo que o Lord Huntington ia enviar a sua filha novamente para longe, para a casa de uma tia e que também havia chamado alguns mercenários para a protegerem. Ele era benevolente com os Eraks, mas que os deuses o livrassem de a sua preciosa filha se envolver com um deles! 

O plano era simples, interceptar a carruagem onde Athena seguia de modo aos dois poderem fugir. Seria uma vida complicada, sempre com medo, mas ao menos estariam juntos. Todos os que apoiavam Tobi se prepararam, ali, naquela pequena terra do norte, a revolução ia começar… 

*** 

Esconderam-se no estreito de Gordan. O local perfeito para uma emboscada. Aguardavam em silêncio, ocultos pela densa floresta. A carruagem aproximava-se rapidamente. Uma árvore caiu impedindo a passagem, forçando-a parar. Os homens que a protegiam ficaram alerta temendo uma emboscada. 

Ramos de árvores controlados pelos Eraks derrubaram os mercenários dos seus cavalos. As plantas rasteiras agarram alguns deles e envolveram-nos, restringindo-lhes os movimentos. Animais da floresta assustaram os cavalos que fugiram para longe. Os mercenários colocaram-se em defesa, os Eraks não os podiam matar mas podiam incapacitá-los e levar a sua carga preciosa. Num abrir e fechar de olhos estavam rodeados por centenas de rebeldes. 

Athena espreitou pela sua janela curiosa, o seu coração acelerou quando viu Tobi no meio da multidão. Ele tinha ido salvá-la. Afinal amava-a tanto como ela a ele. 

O confronto tomava agora proporções mais elevadas. Bolas de fogo foram lançadas para separar a carruagem dos seus protetores. Árvores altas nasciam do solo e cresciam a velocidades espantosas criando o caos. Tobi corria para a carruagem de encontro ao seu amor. Do seu interior saiu o Lor Huntington. 

- Se pensa que vai levar a minha filha está enganado. Ela nunca vai ser sua. Deixe-nos passar. 

- Mas eu amo-a. – replicou Tobi. 

- Eu tratei-vos sempre bem e é assim que me retribuem? – gritou o Lord. – Vão pagar com a vida! 

Por trás deste saiu um homem monstruoso. Na sua mão trazia uma enorme espada e na outra uma Kaleth. Este avançou em direção ao Tobi, não lhe era necessário chegar até ele. O fogo que a Kaleth libertava queimava a magia dos Eraks e sem magia eles morriam. Com um movimento brusco, o homem lançou uma primeira vaga de fogo, a qual falha Tobi por pouco. Ele cai no chão desamparado. Sem qualquer hipótese de defesa, uma segunda labareda de fogo é lançada. Athena, que havia abandonado a carruagem sem ninguém a ver, grita: Não! E atira-se em frente deste tentando proteger Tobi. Infelizmente a chama era maior do que a anterior e consome-os os dois. Lord Huntington a ver o que causara entra em desespero e chora pela sua filha. As hostilidades terminam naquele momento e todos olham para os corpos sem vida dos dois jovens amantes… 

*** 

O enterro dos dois amantes foi de acordo com os costumes do seu povo, mas ambos ficaram lado a lado para que pudessem passar a eternidade juntos. Lord Huntington viu a hipocrisia do seu ato ao tentar separá-los e utilizou a sua raiva e dor para acabar com as estúpidas leis que limitavam a vida dos Eraks. Ainda tinham um caminho longo a percorrer, mas um dia todos seriam tratados como iguais.


Parte 3:
Parte 2: 


Devorador de Mundos - Liliana Novais

Estava um dia horrível. Chovera a noite toda e a rua estava alagada. Arranjar um táxi naquele tempo era algo de impossível. E para onde ia o tempo ainda estaria pior, previam um nevão iria atingir a cidade de Genebra. Fernando tinha de estar no aeroporto dali a uma hora. Esperavam-no no CERN para dar início à sua experiência de colisão de partículas. Ele estava ansioso, toda a sua tese de doutoramento dependia dos resultados que obtivesse. Depois de muitas tentativas telefónicas, finalmente conseguira um táxi que o deixaria mesmo a tempo à entrada do aeroporto. 


A viagem foi um pouco turbulenta, com poços de ar que obrigavam o avião a dar solavancos. Fernando saiu do avião todo dorido, o que lhe valia era que apenas tinha de se apresentar no laboratório no dia seguinte. 

Deitado na cama do seu quarto, Fernando, verificava os dados da sua experiência para o dia seguinte. Reviu os cálculos. Tinha que estar tudo perfeito, teria apenas uma oportunidade para testar as suas teorias. Ele já tinha tido sorte em conseguir aquela vaga, que era muito difícil de obter. Estava na hora de descansar, esperava-o um dia longo. 

A neve caía grada naquele primeiro dia de inverno, mas Fernando estava quente no interior do laboratório. Olhava para os técnicos que inseriam os seus valores e aguardava ansiosamente enquanto eles faziam todos os procedimentos para iniciar a primeira colisão do dia. 

O coração de Fernando acelerou. No interior do anel, as partículas moviam-se a velocidades estonteantes percorrendo-o inúmeras vezes, até atingirem a velocidade pretendia e colidirem. E finamente uma enorme quantidade de novas partículas encheu os detetores. Um resultado inesperado que encheu a sala de excitação pela primeira vez desde que descobriram o bosão de Higgs. Um micro-buraco negro formou-se como resultado da experiência. Era a primeira vez que tal era observado experimentalmente. A sala estava em festa, os técnicos abraçavam-se, congratulavam Fernando pelo seu feito, como se este fosse digno de um Nobel. A alegria reinava e um deles saiu para ir buscar uma garrafa de champagne para comemorar aquele feito. Queriam descobrir tudo acerca deste. Começaram a bombardeá-lo com partículas, tentando estimar o seu peso e as suas dimensões. Mas, mais importante ainda, queriam saber quanto tempo demoraria a dissipar-se. 

As horas passavam e nenhuma alteração ocorria. A excitação deu lugar à preocupação. O micro buraco-negro continuava a sugar tudo em seu redor, cada vez mais depressa, aumentando gradualmente de tamanho. Eles sabiam que tinham de fazer algo para o travar senão estavam a condenar a humanidade à extinção. Primeiro a Terra seria engolida depois todo o sistema solar se não o travassem em primeiro. 

Com o nervos à flor da pele, cada um gritava por cima dos outros tentando encontrar uma solução. Não se conseguiam entender nem chegar a uma solução. A situação estava a ficar demasiado complicada. Tinham de resolver o problema antes que tudo se tornasse demasiado complicado e irreversível, isto se não tivesse já passado esse momento. Fernando gritou para todos se calarem. Ele tinha uma sugestão, um segundo buraco-negro que anulasse o anterior. 

Recriaram a experiência, passo-a-passo, sem se enganarem. O resultado foi o mesmo. Um segundo micro Buraco-negro formou-se perto do primeiro. Mas esperanças foram rapidamente logradas, os dois fundiram-se e criaram um maior e o apetite deste era voraz. 

Quando a notícia chegou à comunicação social a gerou-se o caos. Sem saber do que falavam, os jornalistas criaram o pânico na população. O medo gerou-se nas ruas enquanto as pessoas se convenciam que o mundo iria acabar nesse dia, ao invés do dilatar do tempo que o buraco-negro ia criar, e o tempo que demoraria a consumir toda a Terra. Inicialmente não se iria notar nada, só muito mais tarde é que a Terra se fraturaria com a força gravítica do buraco-negro. 

As grandes capitais pareciam campos de batalha entre polícia, exército e população. Todos queriam viver os últimos momentos das suas vidas com as coisas que não eram suas e que nunca teriam possibilidade de ter de outra forma. Rebentavam com montras de joalharias, para roubarem as peças raras e caras. Iam às grandes lojas de alta-costura e saíam com roupa para todos. Destruíam a propriedade pública e achavam-se no direito de o fazer. 

Enquanto jantava, Fernando olhava incrédulo para a televisão. Sempre pensara que quando o fim estivesse próximo a Humanidade se unisse e alcançasse um plano mais elevado de existência. Mas a realidade era o contrário, esta estava a regredir para um estado animal. E era tudo culpa sua... Ele via e revia os resultados mas nada fazia sentido. Os buracos-negros deviam ter-se extinguido mas isso não acontecera. Estavam a lidar com uma física que ultrapassava a sua compreensão. 

O fim do mundo, o Apocalipse, começara a 21 de Dezembro de 2012, não por uma mão divina mas pela mão do homem na sua busca incansável pelo conhecimento. Já nada se podia fazer a não ser ver o fim aproximar-se enquanto o buraco negro crescia. Tudo o que o rodeava era engolido fazendo-o crescer ainda mais. O devorador de mundos crescia e dominava. 

O CERN foi abandonado. Os cientistas e os trabalhadores partiram para junto das suas famílias, de modo a poderem enfrentar o que iria acontecer. Aos poucos a população abrandou, resignando-se com a realidade, o último Natal da humanidade foi passado em harmonia e calma. 

E, assim, o mundo fica regido pelas leis de Einstein, o tempo dilata e o fim nunca mais chega, o relógio quase que para. A Humanidade fica presa no tempo e no espaço sem escapatória possível. Será que algum dia conseguirão fugir, ou a força gravítica será tão forte que transformará todos os seres humanos em esparguete?


Paixão 3/4 - Liliana Novais

A cada passo que dava, Tobi sentia-se cada vez pior, não era a sua intensão deixar Athena para trás, mas não havia nada que pudesse fazer. Tinha de arranjar onde se esconder para organizar as ideias. Não podia regressar a casa, aí seria o primeiro lugar onde o procurariam. 

O que é que eu fiz? Pensou Tobi. A minha pobre mãe… O que é que ela vai pensar de mim? Deixei-a desamparada. 

Percorreu a floresta cegamente. Exausto, caiu de joelhos e verificou que se encontrava em frente da cabana do oráculo. Este aguardava-o em frente desta, sorrindo. 

- Anda jovem Tobi. – Disse-lhe. 

- Não me devia proteger. Só lhe vai trazer problemas. – Explicou-lhe Tobi ofegante. 

- Não tenhas medo. Ninguém me vai fazer mal. – Acalmou-o colocando-lhe a mão no ombro. – Entra e descansa. 

Tobi receava trazer problemas para o Oráculo mas não tinha outro lugar para onde ir. Sentou-se à mesa e rapidamente uma malga de caldo estava à sua frente. 

- Come alguma coisa. Vai-te fazer bem. Tiveste uma noite agitada, não foi? 

- Sim, foi um pouco. Não sei o que fazer. 

- Tem calma. Uma boa noite de descanso sempre foi boa conselheira. Eu também o sou. Sei o que te aflige. Tens medo pela tua mãe e pelo teu amor. Pensas que lhe podem fazer mal. 

- Mas como é que?… 

- Eu sou capaz de muitas coisas, vivi muitas vidas. É a minha maldição. Domino artes que poucos conseguem. 

- O que é que é que eu posso fazer? Sou um fugitivo. 

- Meu jovem, és um dos eraks mais poderosos que conheço. Sempre tiveste medo de usar o teu poder, de o explorar… Agora é a altura certa para o fazeres. 

- Mas o senhor sabe tão bem quanto eu que não podemos utilizar a nossa magia contra nenhum ser vivo, nem mesmo se for para nos salvarmos. 

- Nós sabemos, mas eles não. Esse é o nosso segredo melhor guardado. Podes bem simular tudo, só tens de assustar quem tem de ser assustado. 

- Eu sou apenas um homem contra o mundo. 

- Um homem pode mudar o mundo. Pensa nisso enquanto descansas. 

*** 

Tobi foi acordado por alguém que batia insistentemente à porta. O seu coração acelerou. Já o tinham descoberto. Preparava-se para se defender com um pau quando o oráculo surgiu para atender. Ele reconheceu imediatamente a voz da sua mãe. Esta estava preocupada com ele. 

- Mãe, como é que me descobriu aqui? 

- Eu sempre soube que virias para aqui. Parece que te esqueces do meu poder. 

- Sim, eu sei mãe. Não consigo ver o que fazer de seguida. – desabafou, tentando saber mais acerca do que a visão da sua mãe mostava do seu futuro. 

- Tu sabes que as coisas que vejo não surgem quando eu quero nem sobre o que eu quero. O teu futuro é-me vedado a partir deste momento. Não te posso ajudar nesse sentido. Apenas o posso fazer enquanto mãe. 

- Sabes alguma coisa acerca da Athena? 

- Apenas sei que o pai a tem fechada no quarto e a vai mandar novamente para longe. 

Tobi sentiu-se desesperado. Tinha de fazer algo, se ele a deixasse partir nunca mais a veria. A sua mãe garantiu-lhe que arranjaria quem o auxiliasse a recuperar a sua amada. A notícia dos acontecimentos espalhou-se rapidamente, Tobi era agora procurado pela guarda. Dizia-se que havia desonrado a jovem Athena. A população insurgia-se contra todos os eraks. Grupos de encapuçados entravam pelo gueto batendo em todos os que viam, como se todos eles fossem os culpados pelo erro de um. Ao final daquele dia, o sangue voltava a correr pelas ruas como havia sucedido há muito tempo atrás.


Parte 4:
Parte 2: 


Paixão 2/4 - Liliana Novais

- Tobi, rapaz acorda! – Gritou Orak, o seu melhor amigo, dando-lhe um cachaço. 


- O que foi? – Perguntou ainda distraído. 



- Em que raios tanto pensas? Isto de teres um trabalho na casa do grande senhor dá cabo de ti. 

Tobi era um privilegiado em relação aos outros, a maioria dos Eraks tinha trabalhos pesados, ou nas minas ou nos campos. Quem diga que os magos são frágeis e de corpos delicados está enganado. Para conseguirem suportar os mais complicados feitiços eles têm de estar em excelente forma física. O que os torna também úteis para os Eluar. Os quais os exploram ao máximo. Orak era um desses casos. Trabalhava nas minas de ouro de Luduan, a norte. 

- Não penso em nada. – Respondeu Tobi defensivamente. 

- Pois, eu conheço-te desde o berço e sei que se passa algo. Mas se não quiseres falar não te obrigo. Quando te sentires capaz falas. Agora voltando ao assunto principal. O que é que achas? 

- Acerca do quê? 

- Estou aqui a falar há duas horas para as paredes por acaso? – Resmungou batendo com os punhos na mesa, fazendo com que a sala toda se silenciasse e as pessoas ficassem a olhar espantadas. 

- Desculpa. 

- Eu vou resumir então. O Alber faleceu esta tarde numa desabamento na minha, não o conseguimos salvar sem pudermos usar magia… 

- Eu já sei onde queres chegar Orak, mas não há nada que eu possa fazer. O Lord é tal como todos os outros Eluar, acham-nos úteis mas não aceitam a magia. Já não te chega termos de aprender às escondidas. Se fosse pela sua vontade nenhum de nós aprendia a controlar os seus poderes. E sabes como isso é perigoso. 

- Eu sei. Mas temos de fazer alguma coisa. Ficar de braços abertos é que não. Já se passaram demasiados anos desde o final da guerra sem que nada mudasse. Continuamos a pagar pelos pecados dos nossos antepassados. 

Passara um século desde o final da Grande Guerra e que o Rei Olam, o grande mágico fora deposto. Este fora assassinado no seu próprio leito por um traidor, o seu amigo Toram, um Eluar. A Guerra que durara dez anos chegava assim ao seu fim. Desgostosos com a morte do seu soberano e cansados de tanta luta os Erak, que estavam em minoria, renderam-se temendo pelos seus filhos que não se podiam defender. Uma vez que nessa mesma noite massacres ocorreram em todo o país. E têm sido tratados como escravos. Mas a esperança de um dia saírem dessa condição não morrera, e continuavam a ensinar a arte aos seus filhos à rebeldia. 

Tobi despediu-se do seu amigo e regressou a casa. Estava na hora de levar a sua irmã Oriana às aulas na casa do oráculo, que ficava no meio da floresta, longe dos olhares dos Eluar que o temiam, dizia-se que ele tinha mais de cento e cinquenta anos. Ela era a aluna mais promissora. Tobi ficava encantado a vê-la com apenas dez anos e a dominar com facilidade as bolas de fogo e as poções. Brevemente conseguiria curar feridas e outras coisas mais complicadas, que apenas jovens de catorze ou quinze anos conseguiam. As aulas eram bastante activas. 

Na pequena clareira, os jovens eram preparados para controlar os seus poderes, e secretamente treinarem para uma revolução que ainda ninguém sabia que se aproximava a passos largos. A magia de uma criança Erak era descontrolada, dependente das suas emoções. Facilmente pegaria fogo a uma casa ou mesmo causaria uma enorme tempestade. O oráculo colocava as crianças numa clareira e fazia com que se irritassem ou se chateassem para desencadear os seus poderes. Cada uma delas possuía uma especial ligação a um elemento da natureza. Tobi relembrava o seu tempo de estudante e sorria, nada mudara e a magia continuava forte no interior de todos os Erak, isso nunca lhes conseguiriam tirar. 

Numa árvore oca junto ao lago Erdar, Athena aguardava ansiosamente por ele. Tinha tanto para lhe contar. O seu coração batia descompassado e questionava-se se Tobi sentia o mesmo que ela, ou se apenas a veria como a amiga que fora em criança. Ela viu-o a surgir no horizonte e correu no seu encontro, abraçaram-se com intensidade. Choravam por não terem conseguido fazê-lo anteriormente. Apenas com aquele toque, ambos sabiam que a amizade tinha crescido para algo mais e que aquele vazio que haviam sentido todos aqueles anos estava preenchido. Tobi deixou-se levar pelas suas emoções e em volta dos dois todo o prado floriu. E um manto de cor os rodeava. 

- E agora o que fazemos? – Perguntou Athena quebrando o silêncio que os rodeava. 

- Não sei. – Respondeu. – O que sentimos é proibido. Não podemos estar juntos. 

- Aqui não, podemos partir deixar tudo para sermos felizes. Podemos abandonar este país. – Athena sugeriu. 

- Mas eu não posso partir. Toda a minha família depende de mim para sobreviver. Que seria deles se partisse? 

- Tens razão mas o que vai ser de nós se ficarmos cá? – Ela perguntou desesperada. 

- Temos de lutar pelo nosso amor. Fazê-los ver que o que estamos a fazer não é nada de errado. 

Eles voltaram a beijar-se, nesse preciso momento o Lord Huntington surge por entre a folhagem e olha escandalizado para a sua filha. 

- Mas o que se passa aqui! – Gritou, vermelho de raiva. – Tire essas mãos nojentas da minha filha. Uma pessoa trata-o bem e é assim que me retribui Tobi? Vai pagar pelo que fez. 

- Mas pai, eu amo-o. Sempre o amei. 

- Tu não sabes o que é o amor! O que ele fez foi enfeitiçar-te. Vais pagar meu malandro! – Gritou avançando em direcção a Tobi com a intenção de lhe bater.~ 

- Foge. – Disse-lhe Athena. – Salva-te. 

- E tu? – Perguntou preocupado. 

- Ninguém me vai fazer mal. 

- Eu amo-te. – Disse-lhe, beijando-a. Tobi correu o mais depressa que conseguiu, deixando a sua amada para trás. Chorava de raiva pelo que tinha feito e como tinha perdido o controlo. Agora era um fugitivo.

Parte 4:

Parte 3:
Parte 1: 

Paixão 1/4 - Liliana Novais

Tobi preparava-se para sair de casa. Vestiu a jaqueta, ajeitando o pentagrama de metal que adornava a sua lapela. Ele odiava-o, mas era uma imposição pelos Outros. Ele era um Erak, um ser com magia, e como tal tinha de andar identificado. Sair de casa sem ele, era um crime punível com a morte. Tudo lhe era negado, não podia pertencer à sociedade Oriniana, mesmo sendo descendente de um dos grandes reis. Se não tivesse ocorrido a Grande Guerra estaria a habitar num palácio, ao invés da sua cabana decrépita que dividia com a sua família de oito pessoas. Ele desprezava aquela vida, as restrições, o ódio e a discriminação. 



O dia nascera limpo, a neve começara a derreter e a revelar o manto verde que se ocultara durante todo o Inverno. Inspirou o ar ainda frio da manhã. Tinha de ir para a casa do Lord Huntington, onde trabalhava como como escriba e guarda-livros da família Huntington. Assumira a posição que o seu falecido pai ocupara. Enquanto filho mais velho era a sua obrigação sustentar a família. Nesse dia a mansão estava em alvoroço, a filha mais velha do Lorde, Athena, iria regressar a casa após uns anos num colégio para meninas. Tobi desejava poder enviar as suas irmãs para um lugar desses mas isso era-lhe negado. 



Ele estava perdido nos seus pensamentos nos eu caminho para o trabalho, quando um homem apressado derrubou, atirando-o para uma poça de lama. 

- Desculpe, senhor… - Começou o indivíduo, cessando assim que olhou para a lapela de Tobi e viu o símbolo. – Só podia ser, um Erak… O que fazes aqui? A cidade é proibida para os da tua raça. Vou chamar a guarda para te colocar no teu lugar! O meu caminho ser impedido por uma reles amostra de homem! – O seu tom de voz revelava o desprezo que sentia. Este sabia que tinha de sair daquela situação complicada e chegar sem mais percalços ao seu trabalho. Dispensava mais problemas e Lord Huntington detestava atrasos. 

- Meu caro senhor, peço desculpa por me ter colocado no seu caminho. Mas foi um acidente. Perdoe-me a ofensa. Eu sou escriba do Lord Huntington, e por isso tenho autorização para atravessar a cidade a caminho do meu trabalho. Tenho aqui o papel assinado pelo Governador que atesta essa mesma autorização, caso queira ver. – Respondeu cordialmente, quase bajulando o seu interlocutor. 

- Deixa estar. – Respondeu o homem, não queria arranjar problemas com os empregados do Lord. Acabaria por ter de dar muitas justificações e pedir desculpa por ter desestabilizado o dia de sua excelência. – Eu deixo-te ir desta vez, mas da próxima sou eu mesmo que te ensino uma lição e te coloco no teu devido lugar. – Terminou elevando a sua mão em tom de ameaça. Tobi sentiu o sangue a aquecer-lhe e correr mais depressa nas veias, mas sabia que nada podia fazer contra aquele homem caso quisesse viver. Ele acabara de se livrar de um valente acoitamento. 

Enquanto o homem se afastava, Tobi levantou-se do chão e tentou limpar a sujidade o melhor que conseguia. Já estava a ficar atrasado e logo naquele dia tão importante. O seu patrão pedira-lhe para chegar mais cedo para adiantarem o trabalho. Este era um dos poucos Eluars que ainda contratavam Eraks para trabalharem para si. Ele compreendia que as diferenças eram poucas, mas tinha de cumprir a lei e portanto todos os funcionários viviam no gueto de Thornsol e não na sua sumptuosa propriedade. 

Assim que entrou no escritório, Tobi explicou em pormenor o que se passara na cidade ao Lord Hungtinton. Não queria ter problemas no trabalho, mas também não queria parecer queixinhas. 

- Sei bem de quem fala, Tobi. Esse homem sempre foi um pouco brusco em relação à sua casta. – Começou o Lord. – Não se precisa de preocupar que não está atrasado. Vamos lá pôr as mãos à obra que à hora do almoço a Athena chega e quero ter a tarde livre para passar com ela. 

- Muito obrigado, senhor, e vamos a isso. – Respondeu Tobi enquanto acenava com a cabeça em concordância. 

A manhã passou sem que ele desse por isso, escrevera imensas cartas ditadas pelo seu patrão. Foram interrompidos pela esposa do Lord que entrou para avisar que Athena estava a chegar. 

- Bem Tobi, penso que por hoje seja tudo. Não preciso mais dos seus serviços. Tem a tarde para passar com a sua família. E não se preocupe que lhe vou pagar o dia completo. Eu é que o estou a mandar para casa. 

Ele sentiu-se mais aliviado, o parco salário que recebia era essencial para manter a sua família alimentada o mês inteiro e a falta de metade do vencimento diário causaria um transtorno enorme. Ele tinha por hábito sair pela porta de serviço e foi quando saía do escritório que se cruzou com ela, a mais bela mulher que alguma vez vira. Não podia acreditar que aquela era a mesma menina-rapaz desmazelada que anos antes corria pela casa e trepava às árvores. À sua frente tinha uma jovem mulher de cabelos loiros bem penteados, com curvas acentuadas e seios proeminentes. Ele ficou espantado com a mudança que ela sofrera. 

Estava já a sair da mansão quando uma mão pousou sobre o seu ombro. 

- Espera. – Disse uma voz feminina e doce. – Nem me dizes olá Tobi? 

- Desculpe menina, mas não é comum dirigirmo-nos assim aos patrões. – Respondeu olhando para o chão. 

- Tobi, nem pareces tu! Ao fim destes anos todos tratas-me assim. – Respondeu irritada. – Aqui estou eu exausta de uma longa viagem a tentar falar contigo e tratas-me com tanto desprezo? O que é que eu fiz para merecer isso? 

O coração de Tobi amoleceu. 

- Athena acalma-te por favor. Sabes bem que não te consigo ver a chorar. 

- Tu sempre soubeste fazer-me sorrir. 

- As coisas mudaram muito por aqui. Já não somos crianças, não podemos ser amigos, nem sequer ser vistos a falarmos um com o outro. 

- Estás muito resignado Tobi, não pareces aquele menino que subia comigo às árvores na floresta. 

- O nosso castigo foi brando. Foste mandada para longe e eu levei umas valentes chicotadas apenas pela nossa amizade. – Explicou. 

- Mas… 

- Se eles soubessem que eu te mostrava magia tinham-me morto. 

- Por favor Tobi, vamos falar com mais calma. Depois da festa no nosso lugar secreto? Ele assentiu com um gesto. Não conseguia parar de pensar na Athena, como ela tinha mudado e como fizera o seu coração bater descompassado.

Parte 4:

Parte 3: 
Parte 2: 

Morte Branca - Liliana Novais


     Era véspera do dia de Todos os Santos, feriado que nos leva aos cemitérios e a honrar pessoas a quem não dávamos importância em vida. Eu estava sentado no sofá de minha casa olhando para o ecrã da televisão sem prestar grande atenção à emissão. Na casa ao lado uma festa do dia das bruxas parecia não ter fim. Malditas importações culturais. Nada daquilo é nacional é apenas uma desculpa para as raparigas se vestirem de prostitutas, e os rapazes sentirem-se viris, sem ninguém se importar com isso. Eles divertem-se com uma ilusão, será que as bruxas virão esta noite e acabarão com esta diversão toda? Ao menos teria descanso.
     Estava a pensar chamar a polícia, quando o chão começou a tremer. A festa parou e os gritos histéricos substituíram a música.
     Eu vivera uns anos em Los Angeles e sabia o que fazer. Abriguei-me debaixo da minha mesa de centro e esperei que o pior passasse. Sabia que na pior das hipóteses demoraria uns minutos.
     O tempo passou e a intensidade aumentou como se algo enorme se aproximasse de nós.
     As raparigas gritavam cada vez mais histéricas.
     - Fujam! Fujam! Que ele vem aí. Salvem-se!
     A curiosidade levou a melhor sobre a prudência e abandonei o meu refúgio para ver o que se passava na rua. Parado à minha porta as pessoas fugiam a correr.
     - Fuja que ele vem aí! - Desatando a correr novamente.
     Antes que eu lhe pudesse perguntar do que fugia, ele desapareceu na multidão aterrada, que corria desordenadamente, a gritar em plenos pulmões. Eu, sem saber o que fazer, continuei a assistir àquele espetáculo como se de um filme se tratasse.
     Os meus pés começaram a elevar-se do chão. No final da rua, vislumbrei, finalmente, do que aquelas pessoas fugiam… Um enorme coelho branco roía uma árvore num quintal. Ele devia ser tão alto como uma casa de dois andares, e o seu apetite voraz, acabaria por consumir tudo à sua passagem. Eu olhava aterrado para aquele monstro, os seus dentes eram enormes fiquei estático por momentos, sustendo a respiração tentando entender o que aquele bicho era e como era possível ele existir
     Juntei-me à multidão assustada. O meu coração batia descompassadamente. De onde teria vindo tal monstro?
     Afastámo-nos dele enquanto ele comia consolado mais um jardim e uma outra árvore. Era a primeira vez que via tal bicho comer madeira. Mas também nunca vira um coelho gigante antes. Eu tremia como varas verdes, custava-me a respirar, sentia um enorme peso sob o meu peito
     - Ouvi dizer que ele comeu um ser-humano. - Comentou um dos homens, entre as dezenas, que se encontrava escondido debaixo de uma ponte comigo -.
     - Os coelhos não comem carne. - Respondeu outro. - Do que eu tenho medo é de ficar esmagado numa das suas gigantescas patas.
     - Eu ouvi a mesma coisa. A mulher de um vizinho meu contou-nos que ele lhe comeu o marido, quando este o tentou enxotar.
     Eu ouvia aqueles relatos, atentamente, e pensava no trabalho do meu pai. Cientista militar, tudo o que ele fazia era secreto e algo me dizia que ele estaria envolvido. O seu animal de estudo preferido era o coelho, devido à sua rápida multiplicação. Imaginava como seria ser comido como se de uma cenoura me tratasse. Ver aquele animal mastigar um ente querido sem poder fazer nada para impedir deve ser uma agonia e dor enorme.
     Pelo tremer do chão sabíamos que o raio do bicho estava novamente em movimento. E aproximava-se rapidamente. Nós não podíamos permanecer ali, assim que ele tentasse transpor a ponte que ligava as duas margens de Vilarejo, ela cederia com o peso. Acabaríamos mortos naquele lugar sob os escombros.
     A parte onde o coelho se pavoneava estava completamente destruída e parecia que, quanto mais ele devorava, maior se tornava.
     A população não sabia o que fazer. O presidente da junta tentava, a todo o custo, entrar em contacto com a Protecção Cívil. Contudo os postes das linhas fixas haviam sido devoradas e as antenas das redes móveis atiradas ao chão.
     Sem saber o que fazer, os autocarros da junta e as carreiras, esperavam pelos habitantes, tentando levar todos para fora da cidade. Estes entravam, rapidamente, atropelando-se para encontrarem uma vaga, um pequeno espaço onde coubessem nos já atolados veículos. Partiam nestes sentados, em pé. Mas, estes salva-vidas não levariam toda a população, alguns seriam deixados para trás à sua sorte. Cada um tentava salvar-se sem olhar a quem ultrapassava.
     Eu fui um dos que fiquei para trás, sem ter espaço para me salvar. Sabia que iria morrer ali.
     Estava numa pequena colina e vi o bicho atravessar o rio com um salto apenas. Nada o conseguiria parar. Os poucos elementos da Guarda Nacional Republicana que estavam aquartelados na nossa aldeia, disparam contra ele, tentando detê-lo. Para meu espanto, e horror, estes foram devorados pelo esfaimado coelho.
     Era o meu fim. Em breve o animal estaria ali e os seus olhos vermelhos seriam a última coisa que veria. Aceitei o meu fim e sem medo dirigi-me na sua direção, de encontro a morte branca que me aguardava faminta.


A Senhora dos Dragões - Inverno - Parte 5/5 - Liliana Novais


Mergulhou em direcção ao riacho fechando as asas para aumentar a sua velocidade, um dos veados que estava de guarda deu o alerta e começaram todos a correr.

“Estão a ir exactamente para onde eu os quero”- pensou ela com satisfação.

Eles corriam cegamente enquanto ela planava por cima da copa das árvores guiando-os. Mas, mesmo assim, ela era mais rápida que eles e passava-lhes à frente, sempre que isso acontecia ela voltava para a cauda da manada, dando uma cambalhota no ar. Era desta vez, com tantas presas, iria de certeza conseguir caçar algo para levar para casa assim que chegassem à clareira. Estavam quase lá e ela preparou-se para o golpe final. Assim que chegaram à clareira, ela esticou as suas patas ergueu as asas um pouco, como que se estivesse a aterrar, e investiu sobre uma das corsas que tinha escolhido, fazendo com que as suas garras se cravassem nela e a matassem instantaneamente. A que ela tinha escolhido era grande o suficiente para alimentar as suas crias e assim salvá-las. Quando aterrou as suas patas dianteiras despedaçaram a jugular do animal e o seu pescoço com o impacto. O resto da manada partira, o que não lhe interessava uma vez que ela já tinha o que pretendia daquele lugar. Ela ergueu-se orgulhosa do seu feito, já tinha como alimentar as suas adoradas crias. Agora apenas teria de esperar que o animal sangrasse completamente antes de o levar.
Em Ahelanae, não tinha essa preocupação, mas ali era essencial, pois se uma gota de sangue caísse em cima de um ser humano, que por acaso passasse. Ela poderia ser descoberta no seu caminho para a Porta Branca, e tudo estaria perdido.
Continuava faminta, mas não se iria alimentar daquela carcaça, esta era para as suas crias. Então decidiu lamber o sangue do pescoço da corça morta, não era muito mas chegava para aplacar um pouco a fome que sentia.
Enquanto comia sentiu um odor de putrefação, este não vinha da presa que acabara de chacinar. Era sim de uma morte antiga, com algumas horas, pelo menos. Procurou a origem do cheiro, tinha de se apressar, uma vez que este era demasiado apelativo para abutres e os outros animais necrófagos, e ela não gostava particularmente de se encontrar com eles. Avançou em direção ao cheiro proveniente da floresta, segui-o até encontrar o corpo de uma mulher estendida, esta havia sido trespassada por uma flecha, estava abraçada a um embrulho como se o estivesse a proteger. Gentil e respeitosamente, afastou o corpo da mulher com o nariz. Soprou de modo a conseguir abrir o cobertor e para seu espanto encontrava-se um bebé no seu interior. Estaria vivo ou morto?
Com o auxílio dos seus poderes mágicos, conseguiu sentir o coração deste. Foi muito difícil encontrar qualquer batimento, pois este era muito fraco, estava quase a morrer. Ao olhar para aquele bebé pensou em quão indefesas as crias podem ser. O seu coração encheu-se de carinho e pena por aquele bebé moribundo, e uma lágrima correu dos seus olhos.
«Tenho de salvar esta cria de humano.» Pensou ela, deixando que a lágrima escorresse para a cabeça de modo a sarar o seu corpo frágil.
O seu espírito estava muito fraco e abandonava o seu corpo. Portanto, Aluminir deitou-se ao seu lado e tentou voltar a encontrar o batimento cardíaco do bebé. Demorou mais tempo do que anteriormente a encontrá-lo. Quando finalmente o sentiu, elevou o seu espirito, fragmentando-o. O pedaço mais pequeno pairava sobre o bebé, acabando por se juntar à alma deste. Um clarão de luz envolveu-os aquando da junção, e assim tudo terminara. Sentia-se satisfeita com a sua ação, mas essa sensação não durou muito tempo, ela não podia abandonar a bebé naquele lugar. Nunca antes um dragão prateado havia partilhado a sua força de vida com um ser humano, e o resultado era imprevisível. Ela teria de levar o bebé consigo, uma menina de meses de idade, era sua responsabilidade tomar conta dela e a guiar para usar os poderes, que eventualmente desenvolvesse, para o bem. Partiu de regresso à floresta mágica, levando a bebé e a sua presa.
FIM





A Senhora dos Dragões - Inverno - Parte 4/5 - Liliana Novais


Aluminir atravessou o portal para mundo exterior e ali estava ela, num penhasco com o mar à sua frente, onde ela estava era impossível chegar a pé, ou mesmo montado em algum animal por mais ágil que este fosse. Apenas voando é que se conseguiria chegar até aquele local.
Ela voou até ao topo do penhasco. De lá podia ver, olhando para o horizonte, uma cidade a Sul, apenas um dragão com a sua visão extremamente apurada é que conseguia ver a essa distância. Cheirou o ar, também estava frio deste lado, também era Inverno. Mas o frio era menos intenso que em Ahelanae.
A Porta Branca ligava Ahelanae a este país no exterior da cortina chamado Indahar. Era improvável que as outras portas ligassem também a este reino, uma vez que os habitantes de Ahelanae vinham de partes diferentes do mundo e tinham diferentes capacidades de mobilidade. Por exemplo, nem as sereias nem os dragões aqua-marina poderiam ter entrado pela Porta Branca.
Preparou-se para voar, esticou as suas longas asas e elevou-se no ar. A sua visão apurada permitia-lhe ver presas que estivessem no solo com clareza mesmo que tivesse de voar a altitudes muito elevadas. Ela tinha de se manter bastante longe do solo para o caso de que se alguém em terra a visse, pensasse que se tratava de um pássaro e não de um dragão, o que era bastante difícil, já que ela tinha dez vezes a altura de um cavalo alto. Tinha de se manter atenta quer a futuras presas, quer aos humanos. Estes eram considerados criaturas vis, sem qualquer respeito pela vida e pelas outras criaturas, apenas pensavam em si e serviam-se se tudo o que existia na Natureza ao mínimo capricho.
Ela tinha 1000 anos e nunca vivera no mundo exterior, sabia o que se passara através dos mais antigos, dos que haviam habitado o mundo exterior. Mas, ela não se podia perder nestes pensamentos, não agora, uma vez que toda a sua família dependia dela para sobreviver. Voltou a concentrar-se na sua caçada. Voava em círculos, procurando o que caçar e também mantendo o olho aberto para os humanos.
Observava a extensa floresta com árvores coladas umas às outras, seria difícil e arriscado caçar ali, poderia facilmente embater contra os ramos e magoar-se seriamente, ficando vulnerável no chão, impossibilitada de voar para junto da sua família. Tinha de procurar uma clareira suficientemente grande para que pudesse aterrar com segurança.
Ao fim de mais duas ou três voltas completamente concentrada na sua busca, encontrou o que queria. Ao longe, a Este, podia ver uma abertura nas árvores, dirigiu-se para lá, sempre voando alto, de forma a não ser detectada antes de estar pronta, alarmando os animais e assim perdendo toda a esperança de caçar algo para levar de volta.
Em Indahar notava-se que a Primavera esta a chegar, a neve já estava a derreter e os rios estavam a engrossar os seus caudais devido à água proveniente do degelo. As árvores que haviam perdido as suas folhas no Outono anterior já começavam a rebentar. A floresta estava de novo a acordar para a vida. O som de pássaros e animais enchia a floresta. Era a altura perfeita para caçar, uma vez que os primeiros animais migratórios já haviam chegado e estavam cansados da longa viagem que tinham feito, fazendo com que eles fossem presas fáceis para Aluminir. Agora só os tinha de localizar e guiar para a clareira. O problema que ela via com aquela clareira era uma estrada que a atravessava, mas ela não tinha outra hipótese, pois não havia outra perto. Tinha de se arriscar, mas antes de o fazer, tinha de se assegurar que o caminho estava livre.
Voou em círculos sobre a clareira durante algum tempo para estudar a estrada e não aparecia ninguém, não devia ser muito usada e grande parte dela estava coberta pelas árvores. Estando satisfeita com as suas conclusões, passou a procurar caça. Sempre voando em círculos, encontrou finalmente o que queria num riacho ali perto, uma manada de veados estava a beber água e descansava da longa viagem, eram mais pequenos que as presas que ela geralmente caçava em Ahelanae, mas para aguentar mais uns tempos serviam perfeitamente. Agora só tinha de os levar para a clareira.
Continua




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