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Carlos Silva
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Fantasy and Co.
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Halloween
Chekhov's gun - Carlos Silva
Todos temos aquele conhecido especial de quem gostaríamos de ser amigos.
Algures no passado cruzámo-nos com essa pessoa magnetizante cujas atitudes, personalidade e acções invejamos não serem as nossas. Esse conhecido surge, muitas das vezes, num momento de viragem da nossa vida e marca-nos profundamente e de um modo tão intenso que pensamos que a amizade irá durar para sempre. Depois, começamos a afastar-nos desse conhecido, indolor e gradualmente, até a ligação se desvanecer numa reminiscência de empatia. Tudo o que fica são as memórias e encontros fugazes marcados pelo acaso onde nos recordamos porque o admiramos e admitimos que já não há sintonia dos dois espíritos.
É curioso como se mantém contacto com alguém de outro país, mas não se é capaz com alguém da mesma cidade. Deve ser uma questão de destino.
O meu conhecido especial desapareceu da minha vida no último dia de aulas do secundário e só o voltei a ver hoje quando cheguei a casa e sentei-me ao computador para consultar os emails. Só tinha uma mensagem, a dele. Era um vídeo. Abri-o e expandi de modo a ocupar todo o monitor. Sorri por ainda o reconhecer, mesmo apesar da barba que lhe cobria o rosto, os olhos cansados e o corte de cabelo desalinhado. Ele contorcia-se na cadeira, mas não dizia nada, mexendo algo nas mãos que não conseguia ver por estar fora do ângulo da câmara. O meu conhecido especial engoliu em seco e disse a mensagem que tinha para mim.- Olá Claúdia, tudo bem? Espero que sim. – O sorriso dele era nervoso, tão depressa se formando como se desfazendo. – Desculpa não te ter dito nada estes anos que passaram. Talvez tenha sido melhor assim. Preciso de falar com alguém distante e próximo ao mesmo tempo. Percebes? – Fez uma pausa, como se esperasse uma resposta da amiga. – Preciso de dizer em voz alta. Preciso de mostrar que não estou louco. Nem que seja a mim próprio, confiando que alguém está aí desse lado a ver isto. Por onde começar? Não é grande história. Acabei o curso de fotografia. Trabalho agora em regime freelancer e estou a tentar construir um portefólio de jeito. Aventurei-me pelo urbex, em busca de imagens que o completassem. Em vez disso, encontrei isto. – Disse ele, revelando o objecto que segurava entre as mãos: um revólver. Dele pendia uma etiqueta que o meu amigo especial fez questão de mostrar na câmara. Dizia “Chekhov's gun” – Sabes o que isto quer dizer, não sabes? Eu não quero usá-la. Não quero. Não sou uma pessoa violenta. Tu sabes disso. Não seria capaz de magoar ninguém, nem que fosse para salvar a minha vida. Lembras-te daquele passarinho caído do ninho que encontrámos uma vez? Nem de um gesto de misericórdia sou capaz. Mas tu sabes… Se ela aparece, tem de ser usada. Não consigo pensar noutra coisa. Não consigo sonhar noutra coisa. Estou a ficar obcecado com isto. Quando é que é a próxima cena? E se eu não a quiser usar quando chegar a altura? Não sou capaz…Não sou capaz, nem que fosse para me salvar.
O meu conhecido especial chorava e fungava, sorvendo cada ponto final com um bocado de ranho. As mãos tremiam-lhe, fazendo o cano da arma balançar freneticamente na minha direcção. Sem aviso, encostou o cano debaixo do queixo e disse:
- Não vou ser capaz. Não vou… Ela tem de ser usada…Não sou capaz…
Um jacto de sangue e massa pastosa cobriu a parede atrás dele e a cabeça caiu sobre o teclado. Abafei o meu grito com as mãos e deixei-me escorregar, atónita, pela cadeira até me sentar no chão. Não queria crer no que acabara de ver. Que história era aquela? Não fazia sentido nenhum.
Chorei a noite toda, incapaz de tomar uma acção em concreto. Chorei quando me telefonaram de madrugada a informar que o meu conhecido especial se tinha suicidado. Talvez por não conseguir emprego há quase um ano. Eu chorei em resposta. Ninguém precisava de saber que ele havia morrido por causa de uma metáfora.
Só mais tarde, quando as lágrimas secaram, é que o terror veio.
Se ele estava morto, quem me enviou o vídeo?
Filho de peixe sabe nadar 4/4 - Carlos Silva
Uma
procissão de vassalos prestava homenagem ao rei Sigmundo, que exalava os
últimos folgos de vida no seu leito. A rainha Guinei, sentada no trono,
escondia as lágrimas dos súbditos. Não era maior a tristeza de ver o seu marido
a morrer que a de saber que ainda não lhe fora capaz de dar herdeiros. Já
experimentara centena de poções e feitiços, sem que nenhum lhe desse um ventre
capaz de gerar uma criança normal. Todas as noites se remoía em culpa de ter
sido fértil para o elfo, mas não o conseguir para o legítimo marido. O mago
ainda a tentara convencer de que a falta de gestação era falha de Sigmundo, mas
Guinei exortara-o a calar-se e a não duvidar da virilidade do seu rei. No
entanto, a cada dia que se passava, a dúvida crescia a compasso com o seu
desespero. Teria de casar de novo. Como filha primogénita do falecido rei de
Lindura tinha o dever de dar um filho ao seu povo.
Um descomunal crocitar ecoou
pelo salão, seguido da entrada de um enorme vulto negro de asas abertas que,
quando tocou no chão, se começou a transformar na conhecida figura do mago da
corte. Com um gesto de mão o rei dispensou todos os vassalos e até mesmo a sua
rainha. O amanita abeirou-se da cama do monarca, deixando o meio-sangue no meio
do salão. Sigmundo agarrou a manga de Hiram e puxou-o para mais perto de si.
- Falhaste, mago – gemeu com
esforço. – Prometeste que darias um príncipe ao reino ainda antes do meu último
dia. Que me trazes tu? Um elfo? – Disse, apontando para o rapaz de cabelo verde
que observava as paredes de pedra, estranhando-lhes a falta de vida.
- Sabeis bem que o meu voto de
lealdade está enraizado em algo muito mais poderoso do que qualquer ética. Segui
à regra o que me pedistes: Aqui tendes um filho, nascido no ventre de Guinei,
educado nas finas artes da exigente sociedade élfica e nos saberes reais por um
mago experiente – disse, apontando para o príncipe Volter.
O rosto do rei encolerizou-se,
tornando-se vermelho, fazendo as veias sobressair como as raízes de uma árvore
antiga. Um ataque de tosse que o levou às lágrimas intercalou cada palavra
gritada:
- Nunca! Nunca compactuarei com
tal coisa! O reino precisa de um herdeiro, mas eu também preciso de um filho meu!
Nunca aceitarei que ele use o escudo deste país.
- O meu voto de lealdade é para
com o reino, não para com o rei. O concílio dos magos nunca exigiria outra coisa
de um dos seus. Aqui tendes um rapaz que irá dar um excelente rei sem que
Lindura tenha de passar por uma crise de sucessão. Se não o aceita, pior para
si, ninguém o ouvirá depois de morto e o sangue real que corre nas veias de
Volter passará em todos os testes.
- Como te atreves, insolente! Nem
um mago sabe quando chega a derradeira hora de um homem!
O sorriso de Hiram rasgou-se,
exibindo as duas fileiras cerradas de pequenos dentes pontiagudos.
- Oh, meu bom rei, tendes toda a
razão. Porém, um bom mago sabe quanto tempo demora cada um dos seus venenos a
trazer a morte. – O mago consultou o horológio que trazia na túnica. - O da
rainha Guinei deve estar mesmo agora a surtir efeito e o seu não deve tardar.
Resignado, engolindo o seu
orgulho e as lágrimas que lhe escorriam pela barba, o rei Sigmundo deixou-se
morrer serenamente perante o olhar frio do mago e do Príncipe Volter. O plano
arquitectado pelo amanita corria ágil e preciso, como os mecanismos do seu
horológio. Só faltava uma ponta por atar… Hiram olhou por cima do ombro e ali
estava ela! Vento que Anda entrava pela janela, sob a forma de um avejo que
certamente enganara para lhe roubar a essência. Tocando no chão, desfez a
mentira e tomou a forma de elfo, segurando um avejo morto entre os dedos que
depressa atirou para o chão com desprezo.
- Parabéns – felicitou, batendo
palmas sem entusiasmo - Um plano digno de um elfo! Confesso que não esperava nada
assim. Não sei…Talvez pela sua simplicidade…De qualquer modo, foste tão desleixado
na análise das leis que nem te ocorreu que tendo eu partilhado o leito com a
rainha e dando-lhe o filho com que continuar a linhagem faz de mim o legítimo
rei regente em caso do infortúnio que acaba de acontecer.
- Não te ocorreu pensar porque
foste tu o escolhido para ser o pai desta criança? Soberba! Todos os elfos têm
esse terrível defeito, mas tu ultrapassa-los a todos. Sabia que não resistirias
em reclamar o teu lugar por direito, colocando-te exactamente no lugar em que
eu te quero.
- E que lugar é esse, reles
amanita?
- Exactamente aí, onde estás, trespassado pela espada do filho que acaba de ver os pais assassinados.
Dito isto uma lâmina irrompeu pelo
ventre de Vento que Anda, revelando a presença até lá oculta por artes da raça
do meio-sangue. Ao ouvir o grito do elfo, a guarda irrompeu pelo salão de
lanças em punho, prontos a punir qualquer ameaça ao rei. No entanto, tinham
chegado tarde de mais, informou-lhes o mago, o elfo conseguira matar os
monarcas de Lindura. Felizmente, o filho há muito perdido tinha tornado a casa,
morto o regicida, e estava pronto para ocupar o trono.
Rei morto, rei posto.
O mago bateu-lhe nas costas amigavelmente, segredando-lhe
ao ouvido.
- Ides agora fazer o teste do sangue, perante o túmulo dos
seus antepassados e todos os nobres da corte. Não vos preocupeis, irá correr
tudo da melhor forma.
- Não vindes comigo, fiel amigo? Presenciar o momento eu
que sou aclamado como real herdeiro da coroa?
- Não, tenho de ir libertar Ruão da sua prisão élfica.
O choque estampou-se na cara de Volter.
- Mentiste-me! Dissestes que já o tinhas liberto!
- Meu príncipe, até parece que não reconheceis o valor de
uma pequena mentira em favor de um bem maior!









