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A destilação do absurdo - Carlos Silva

Tal como todas as manhãs, Filipe Freire saiu cedo de casa, ainda o sol não raiava sobre Urbania. Debaixo de um dos braços, um banco dobrado, do outro, o farnel. Havia-se despedido da esposa com um beijo na testa e dos filhos a dormir com um olhar terno, para agora dar os bons dias à luz que penetrava entre os prédios. 

Sozinho, abraçado pelo frio da manhã, atravessou a cidade, recusando os serviços dos ensonados condutores dos riquexós a pedais, até chegar à borda, onde as ruas acabavam e o nevoeiro negro que rodeava a cidade começava. Abriu o banco e sentou-se de frente para as brumas e ficou a observá-las como sempre fazia. Observou como os farrapos de neblina negra rodopiavam e se entrelaçavam para de novo desaparecer na escuridão sem fim, reconhecendo os padrões que o tempo lhe havia ensinado. 

Estava para breve, mais para breve do que pensara. 

Eram aquelas brumas que davam a Urbania o epíteto de "a sempre em movimento", da "nunca igual", engolindo lenta e constantemente a parte velha da cidade, ao mesmo tempo que recuava no lado oposto, revelando novos arruamentos e edifícios à cidade. Eram aquelas brumas que absorviam a atenção de Filipe Freire durante horas as fios, revelando aos poucos os seus segredos, como uma mãe ciosa. No entanto, naquela manhã de inverno, a parede de neblina negra estava silenciosa, o que em si era um sinal para quem lhe conhece as manhas. 

Uma pequena folha emergiu das trevas, bailando no aragem, tentando Filipe a levantar-se do banco, mas este sabia que estava a ser testado. Teria de ser paciente se queria que a folha não voltasse a desaparecer, soprada por uma qualquer rajada oportuna. Fechou os olhos, concentrando-se no assobio do vento e assim ficou durante minutos, numa batalha de paciências que acabou por ganhar sob a forma do pousar lento da folha sobre o seu colo. Pegou nela, com os dedos brutos e levou-a ao olhar. Era uma folha de carvalho, crescida o suficiente para pertencer a uma árvore adulta. Filipe dobrou o banco, virou costas ao nevoeiro e rumou a casa, não sem antes lhe dizer: 

- Estava a ver que não, amigo. 

A família Freire era a melhor e mais antiga produtora do famoso licor de Urbania de nome Reductio Ad Absurdum. O processo, herdado dos seus antepassados, era secreto e só mesmo o chefe da família conhecia todos passos e ingredientes. A produção do licor era um negócio de família, empregando desde a mulher aos filhos, passando pelos tios e sobrinhos, cada um com uma tarefa vital na concepção da preciosa bebida. Nenhum pormenor era descurado, até as garrafas eram especiais. Tinham de ser de cristal, para não corromper os delicados aromas nelas contidos, e de tal esguia forma que os vapores não se escapassem mal se tirasse a rolha. Todavia, o que tornava o Ad Absurdum da família Freire tão especial era a frescura da selecção de flores destiladas a frio, de modo que apenas os aromas mais leves conseguissem escapar para o interior do néctar de outras tantas plantas que ninguém sabia quais. O trabalho de Filipe era montar guarda à muralha de brumas negras, perscrutando a sua escuridão o dia em que as flores iriam chegar. 

Quando o chefe de família chegou a casa, já todos os seus ocupantes estavam despertos, ocupando-se dos seus afazeres diários. A um canto da cozinha, a filha mais velha e a esposa picavam o gelo que iriam colocar sob o alambique; o filho varão preparava-se para sair, para ir buscar as garrafas que o tio tinha produzido no dia anterior; os dois filhos mais novos brincavam com os materiais que tinham sobrado da destilação anterior, atirando pétalas de rosa negra um ao outro, rindo-se como só as crianças conseguem. Assim que Filipe passou o umbral da porta, todos se levantaram expectantes. 

- Já, meu amor? Tão cedo? 

- Sim, até hoje à noite Urbania ganhará uma floresta. – respondeu Filipe, abraçando a mulher - Prepara os cestos. Amanhã por esta hora, Urbania terá o mais fino Ad Absurdum que alguma vez provou. 

Alegremente, a família atravessou a cidade, seguindo os passos de Filipe, balançando os cestos, rindo-se quando os ardinas anunciavam a notícia de última hora: Urbania iria ganhar uma floresta. Ao ouvirem as notícias, as lojas apressaram-se a encomendar toalhas de pique-nique, machados e espingardas de caça, de modo a satisfazer os novos desejos que certamente surgiriam assim que as primeiras árvores surgissem. Todos pareciam contentes com as novidades, com a excepção de um grupo de engenheiros da câmara, que tinham fé que as brumas fossem revelar um novo tribunal para compensar o velho que havia absorvido há um mês, obrigando-os a mudar as audiências para o auditório do palácio da presidência. 

Durante toda a tarde a família Freire vagueou pela floresta, avançando cada vez mais para o seu interior, à medida que as brumas a iam revelando, enchendo os cestos de plantas que iam esvaziando quando encontravam exemplares mais perfeitos. Ao surgir da lua no horizonte, todos regressaram a casa, excepto Filipe, e reuniram-se em torno do alambique, desfolhando as flores, largando as pétalas uma a uma para o interior do vaso de destilação. O chefe de família puxou do banco desdobrável e sentou-se em frente às brumas, quase não conseguindo distingui-las da escuridão em seu redor. Na destilaria, o filho mais velho começou a dar ao fole, fazendo o ar frio penetrar nas pétalas, arrastando os aromas, borbulhando-os no líquido açucarado que fazia o corpo do licor. As brumas quebraram o silêncio, falando uma vez mais com Filipe, contando-lhes o seus segredos. O licor foi mudando de cor, ganhando reflexos madrepérola, transformando-se aos poucos no Ad Absurdum tanto apreciado. Filipe semicerrou os olhos tentando discernir as imagens que as brumas lhe davam, reconhecendo nelas o passado e os futuros de Urbania embrulhados em indefinição. O filho primogénito suava em bica, castigando o fole sem tréguas até que toda a essência passasse da origem para o receptáculo. Filipe levantou-se e tropeçou numa raiz, caindo para lá das brumas. Quando se levanta, já não sabe se está em Urbania se dentro do nevoeiro negro. Lembra-se das histórias que lhe contaram sobre os que haviam entrado e nunca saído e a pele arrepia-se. Houve os gritos das criaturas que habitam a escuridão, reclamando pelo seu quinhão. Está dentro! Sem pensar na direcção, corre, confiando que longe daqueles sons terríveis está a sua casa. Este as mãos, mas não toca em nada. Está perdido. As criaturas aproximam-se cada vez mais. Os tendões gritam de dor e Filipe sabe que não pode parar de correr. Um a um, todos os elementos da família Freire vão dormir, encerrando o Ad Absurdum num enorme vaso de cristal à janela, onde poderá maturar à luz da lua. Sem acordar ninguém, ofegante, Filipe entra dentro de casa e vai para a cozinha, contemplar o trabalho que a sua família faz há gerações. Ignorando as regras que ele próprio instituíra, destapa o vasilhame e espreita para o seu reflexo no líquido estagnado. Não se reconhece. Não sabe a quem pertence aqueles olhos encovados e cara pálida sulcada de rugas. Conheceria melhor se fossem as brumas com que fala todos os dias. Seria muito mais familiar se fossem farripas de negrume. Ri-se. Ri-se descontroladamente até que as lágrimas lhe vêm aos olhos, rolando pelas faces, caindo dentro do licor. O último ingrediente secreto fora adicionado: as lágrimas de um homem louco.


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Diligência - Carlos Silva

Uma nova vergastada cortou o ar, emitindo o seu terrível silvar. Uma linha fina de sangue rasgou-se nas costas de Semião entre os sulcos vermelhos das vergastadas anteriores. O jovem guerreiro cerrou os dentes, quase cortando a língua, absorvendo no seu silêncio a dor lancinante. O mundo estava turvo. Mesmo assim, conseguia ver os olhares fixos e inexpressivos dos restantes recrutas que assistiam ao castigo. 

- Diligência! – berrou o instrutor, demorando-se em cada sílaba. – Acima de tudo, diligência! 

Semião acenou com a cabeça, aceitando o castigo. Era preciso estar alerta, constantemente de sobreaviso, sempre pronto a actuar. Era treinado para atingir o ideal de soldado, que ao mínimo sinal se transmutasse numa máquina de matar, sem reflexão nem ponderação, apenas acção. Uma nova vergastada caiu sobre as costas de Semião, fazendo algumas gotas de sangue cair no chão. O instrutor parecia satisfeito com o castigo e deu ordens para dispersar. Como um só corpo, o batalhão afastou-se do palanque onde agora Semião jazia no chão, ao lado do toro. 

Um par de braços arrastou o corpo inconsciente do soldado castigado de novo para a caserna, deitando-o numa cama. 

Quando Semião voltou a abrir os olhos, já a noite ia alta. As costas ainda latejavam de dor, avisando-o do que aconteceria se ele se tentasse mover. Do exterior, abafados pela grossa muralha e pela distância, conseguiam-se ouvir os gritos de guerra dos seus companheiros e os guinchos dos ferradentes que, mais uma vez, atacavam a cidade. Semião daria tudo para estar a combater lado a lado com os seus colegas, a proteger a cidade, a cumprir o destino que desde criança escolhera. Tentou levantar-se, mas a dor sobrepôs-se à vontade. Diligência! Repetiu para si e fez uma nova tentativa, erguendo-se num movimento desengonçado. Conseguia agora espreitar pela janela, onde o céu nocturno se iluminava de clarões das rajadas de magia que os magos atiravam contra os ferradentes. 

Todas as noites a história repetia-se, tal como sempre fora desde que havia registo da civilização. Assim que o breu cobria a terra, os ferradentes saíam dos seus covis sedentos de carne humana e lançavam-se num ataque selvagem à cidade mais próxima. Alguns povos isolavam-se em cidades subterrâneas, outros viviam em cidades flutuantes, mas a cidade de Semião, dependente da agricultura, apenas podia erguer muralhas e organizar turnos para que em cada ataque os ferradentes encontrassem a morte nas armas e feitiços em riste. 

O combate duraria, vaga após vaga, até ao sol nascer. Os ferradentes recolheriam para a floresta, levando consigo para comer os seus irmãos caídos em batalha e, se tivessem sorte, algum humano que tivessem conseguido capturar. 

Semião suspirou, pensando nos seus colegas. Aquela era a noite em que o seu batalhão ia ser levado, pela primeira vez, a assistir à defesa da cidade. Não era raro os batalhões em treino serem requeridos para a batalha na sua primeira noite de observação. Semião cerrou os dentes de frustração. Não conseguia suportar a ideia de poder estar a perder uma oportunidade única de despedaçar os monstros que tinham morto o seu irmão mais velho, em vez dos fantoches de treino. Como ansiava ferrar as mãos na sua lança e empalar três e quatro ferradentes de uma só vez. Aprendi a lição. Disse para si. De ora em diante, serei o soldado mais diligente de todos. 

A porta da caserna abriu-se num estrondo, fazendo Semião saltar dolorosamente de susto. O perfil de um soldado recortou-se entre o exterior e o interior. Movia-se com dificuldade, com uma mão a segurar algo contra a barriga. Foi ao ver o sangue a pingar sobre o chão que Semião se apercebeu que estava ferido. Bradou por um mago hospitalar e acorreu ao colega. Não era do seu batalhão, era muito mais velho, provavelmente um veterano que não se conseguira afastar do clamor da batalha. Guiou-o até à sua cama, onde o estendeu. O soldado veterano não respondeu a nenhuma das perguntas que Semião lhe fizera, apenas grunhia sons incompreensíveis motivados pela dor. Semião clamou de novo por um mago hospitalar, mas não obteve qualquer resposta. 

De repente, um segundo homem abeirou-se da porta. Era o seu instrutor, arfando, de espada em punho, procurando algo como um louco. A armadura estava coberta de sangue que se mesclava com o vermelho da capa, mas o seu dono não parecia estar ferido. Colérico, o instrutor apontou para o soldado caído e gritou, projectando fios de baba em todas as direcções:
- Mata-o, Semião! Mata-o! 

Semião olhou para o seu instrutor, olhou para o homem ferido e de novo para o instrutor. Porque é que ele lhe pediria isso? Que se passaria com ele? Que teria feito aquele soldado de tão mal que merecesse a morte? Estaria o instrutor louco? Não podia matar assim sem mais nem menos! 

O recruta ouviu algo a rasgar atrás de si. Quando se virou, apenas teve tempo de ver uma forma negra e esquelética a irromper do soldado moribundo, espalhando carne sangue em todas as direcções. Os olhos amarelos da criatura fitaram os de Semião, arrancando as últimas réstias de coragem do recruta cujas pernas tremiam sem controlo. O instrutor rodou a espada sobre si e desferiu um golpe no ferradente, cortando-o ao meio, não sem antes a criatura abrir com um golpe a garganta de Semião. 

Os dois corpos caíram em uníssono no chão, mesclando os seus sangues avermelhados. O instrutor abanou a cabeça condescendente. Não se podia demorar muito mais ali, os seus recrutas precisavam de si na frente de batalha. Saiu porta fora, deitando um último olhar ao último folgo de Semião. 

- Diligência… Diligência acima de tudo, Semião.


Chekhov's gun - Carlos Silva

     Todos temos aquele conhecido especial de quem gostaríamos de ser amigos. 
     Algures no passado cruzámo-nos com essa pessoa magnetizante cujas atitudes, personalidade e acções invejamos não serem as nossas. Esse conhecido surge, muitas das vezes, num momento de viragem da nossa vida e marca-nos profundamente e de um modo tão intenso que pensamos que a amizade irá durar para sempre. Depois, começamos a afastar-nos desse conhecido, indolor e gradualmente, até a ligação se desvanecer numa reminiscência de empatia. Tudo o que fica são as memórias e encontros fugazes marcados pelo acaso onde nos recordamos porque o admiramos e admitimos que já não há sintonia dos dois espíritos. 
     É curioso como se mantém contacto com alguém de outro país, mas não se é capaz com alguém da mesma cidade. Deve ser uma questão de destino. 
     O meu conhecido especial desapareceu da minha vida no último dia de aulas do secundário e só o voltei a ver hoje quando cheguei a casa e sentei-me ao computador para consultar os emails. Só tinha uma mensagem, a dele. Era um vídeo. Abri-o e expandi de modo a ocupar todo o monitor. Sorri por ainda o reconhecer, mesmo apesar da barba que lhe cobria o rosto, os olhos cansados e o corte de cabelo desalinhado. Ele contorcia-se na cadeira, mas não dizia nada, mexendo algo nas mãos que não conseguia ver por estar fora do ângulo da câmara. O meu conhecido especial engoliu em seco e disse a mensagem que tinha para mim.- Olá Claúdia, tudo bem? Espero que sim. – O sorriso dele era nervoso, tão depressa se formando como se desfazendo. – Desculpa não te ter dito nada estes anos que passaram. Talvez tenha sido melhor assim. Preciso de falar com alguém distante e próximo ao mesmo tempo. Percebes? – Fez uma pausa, como se esperasse uma resposta da amiga. – Preciso de dizer em voz alta. Preciso de mostrar que não estou louco. Nem que seja a mim próprio, confiando que alguém está aí desse lado a ver isto. Por onde começar? Não é grande história. Acabei o curso de fotografia. Trabalho agora em regime freelancer e estou a tentar construir um portefólio de jeito. Aventurei-me pelo urbex, em busca de imagens que o completassem. Em vez disso, encontrei isto. – Disse ele, revelando o objecto que segurava entre as mãos: um revólver. Dele pendia uma etiqueta que o meu amigo especial fez questão de mostrar na câmara. Dizia “Chekhov's gun” – Sabes o que isto quer dizer, não sabes? Eu não quero usá-la. Não quero. Não sou uma pessoa violenta. Tu sabes disso. Não seria capaz de magoar ninguém, nem que fosse para salvar a minha vida. Lembras-te daquele passarinho caído do ninho que encontrámos uma vez? Nem de um gesto de misericórdia sou capaz. Mas tu sabes… Se ela aparece, tem de ser usada. Não consigo pensar noutra coisa. Não consigo sonhar noutra coisa. Estou a ficar obcecado com isto. Quando é que é a próxima cena? E se eu não a quiser usar quando chegar a altura? Não sou capaz…Não sou capaz, nem que fosse para me salvar. 
     O meu conhecido especial chorava e fungava, sorvendo cada ponto final com um bocado de ranho. As mãos tremiam-lhe, fazendo o cano da arma balançar freneticamente na minha direcção. Sem aviso, encostou o cano debaixo do queixo e disse: 
     - Não vou ser capaz. Não vou… Ela tem de ser usada…Não sou capaz… 
     Um jacto de sangue e massa pastosa cobriu a parede atrás dele e a cabeça caiu sobre o teclado. Abafei o meu grito com as mãos e deixei-me escorregar, atónita, pela cadeira até me sentar no chão. Não queria crer no que acabara de ver. Que história era aquela? Não fazia sentido nenhum. 
     Chorei a noite toda, incapaz de tomar uma acção em concreto. Chorei quando me telefonaram de madrugada a informar que o meu conhecido especial se tinha suicidado. Talvez por não conseguir emprego há quase um ano. Eu chorei em resposta. Ninguém precisava de saber que ele havia morrido por causa de uma metáfora. 
     Só mais tarde, quando as lágrimas secaram, é que o terror veio. 
     Se ele estava morto, quem me enviou o vídeo?


Filho de peixe sabe nadar 4/4 - Carlos Silva

                Uma procissão de vassalos prestava homenagem ao rei Sigmundo, que exalava os últimos folgos de vida no seu leito. A rainha Guinei, sentada no trono, escondia as lágrimas dos súbditos. Não era maior a tristeza de ver o seu marido a morrer que a de saber que ainda não lhe fora capaz de dar herdeiros. Já experimentara centena de poções e feitiços, sem que nenhum lhe desse um ventre capaz de gerar uma criança normal. Todas as noites se remoía em culpa de ter sido fértil para o elfo, mas não o conseguir para o legítimo marido. O mago ainda a tentara convencer de que a falta de gestação era falha de Sigmundo, mas Guinei exortara-o a calar-se e a não duvidar da virilidade do seu rei. No entanto, a cada dia que se passava, a dúvida crescia a compasso com o seu desespero. Teria de casar de novo. Como filha primogénita do falecido rei de Lindura tinha o dever de dar um filho ao seu povo.
                Um descomunal crocitar ecoou pelo salão, seguido da entrada de um enorme vulto negro de asas abertas que, quando tocou no chão, se começou a transformar na conhecida figura do mago da corte. Com um gesto de mão o rei dispensou todos os vassalos e até mesmo a sua rainha. O amanita abeirou-se da cama do monarca, deixando o meio-sangue no meio do salão. Sigmundo agarrou a manga de Hiram e puxou-o para mais perto de si.
                - Falhaste, mago – gemeu com esforço. – Prometeste que darias um príncipe ao reino ainda antes do meu último dia. Que me trazes tu? Um elfo? – Disse, apontando para o rapaz de cabelo verde que observava as paredes de pedra, estranhando-lhes a falta de vida.
                - Sabeis bem que o meu voto de lealdade está enraizado em algo muito mais poderoso do que qualquer ética. Segui à regra o que me pedistes: Aqui tendes um filho, nascido no ventre de Guinei, educado nas finas artes da exigente sociedade élfica e nos saberes reais por um mago experiente – disse, apontando para o príncipe Volter.
                O rosto do rei encolerizou-se, tornando-se vermelho, fazendo as veias sobressair como as raízes de uma árvore antiga. Um ataque de tosse que o levou às lágrimas intercalou cada palavra gritada:
                - Nunca! Nunca compactuarei com tal coisa! O reino precisa de um herdeiro, mas eu também preciso de um filho meu! Nunca aceitarei que ele use o escudo deste país.
                - O meu voto de lealdade é para com o reino, não para com o rei. O concílio dos magos nunca exigiria outra coisa de um dos seus. Aqui tendes um rapaz que irá dar um excelente rei sem que Lindura tenha de passar por uma crise de sucessão. Se não o aceita, pior para si, ninguém o ouvirá depois de morto e o sangue real que corre nas veias de Volter passará em todos os testes.
                - Como te atreves, insolente! Nem um mago sabe quando chega a derradeira hora de um homem!
                O sorriso de Hiram rasgou-se, exibindo as duas fileiras cerradas de pequenos dentes pontiagudos.
                - Oh, meu bom rei, tendes toda a razão. Porém, um bom mago sabe quanto tempo demora cada um dos seus venenos a trazer a morte. – O mago consultou o horológio que trazia na túnica. - O da rainha Guinei deve estar mesmo agora a surtir efeito e o seu não deve tardar.
                Resignado, engolindo o seu orgulho e as lágrimas que lhe escorriam pela barba, o rei Sigmundo deixou-se morrer serenamente perante o olhar frio do mago e do Príncipe Volter. O plano arquitectado pelo amanita corria ágil e preciso, como os mecanismos do seu horológio. Só faltava uma ponta por atar… Hiram olhou por cima do ombro e ali estava ela! Vento que Anda entrava pela janela, sob a forma de um avejo que certamente enganara para lhe roubar a essência. Tocando no chão, desfez a mentira e tomou a forma de elfo, segurando um avejo morto entre os dedos que depressa atirou para o chão com desprezo.
                - Parabéns – felicitou, batendo palmas sem entusiasmo - Um plano digno de um elfo! Confesso que não esperava nada assim. Não sei…Talvez pela sua simplicidade…De qualquer modo, foste tão desleixado na análise das leis que nem te ocorreu que tendo eu partilhado o leito com a rainha e dando-lhe o filho com que continuar a linhagem faz de mim o legítimo rei regente em caso do infortúnio que acaba de acontecer.
                - Não te ocorreu pensar porque foste tu o escolhido para ser o pai desta criança? Soberba! Todos os elfos têm esse terrível defeito, mas tu ultrapassa-los a todos. Sabia que não resistirias em reclamar o teu lugar por direito, colocando-te exactamente no lugar em que eu te quero.
                - E que lugar é esse, reles amanita?
                - Exactamente aí, onde estás, trespassado pela espada do filho que acaba de ver os pais assassinados.
                Dito isto uma lâmina irrompeu pelo ventre de Vento que Anda, revelando a presença até lá oculta por artes da raça do meio-sangue. Ao ouvir o grito do elfo, a guarda irrompeu pelo salão de lanças em punho, prontos a punir qualquer ameaça ao rei. No entanto, tinham chegado tarde de mais, informou-lhes o mago, o elfo conseguira matar os monarcas de Lindura. Felizmente, o filho há muito perdido tinha tornado a casa, morto o regicida, e estava pronto para ocupar o trono.
Rei morto, rei posto.
O mago bateu-lhe nas costas amigavelmente, segredando-lhe ao ouvido.
- Ides agora fazer o teste do sangue, perante o túmulo dos seus antepassados e todos os nobres da corte. Não vos preocupeis, irá correr tudo da melhor forma.
- Não vindes comigo, fiel amigo? Presenciar o momento eu que sou aclamado como real herdeiro da coroa?
- Não, tenho de ir libertar Ruão da sua prisão élfica.
O choque estampou-se na cara de Volter.
- Mentiste-me! Dissestes que já o tinhas liberto!
- Meu príncipe, até parece que não reconheceis o valor de uma pequena mentira em favor de um bem maior!


Gosma Literária - Carlos Silva


- Estava à espera de algo diferente, Professor Gonzaga. – Disse Marco Freitas, acariciando a pequena máquina que tinha à sua frente.
 - Não se deixe enganar pelo aspecto, esta maravilha da ciência vai mudar o modo como a leitura é vista no Mundo! Melhor ainda, vai impulsionar a sua carreira de escritor para níveis nunca antes vistos!
- Pode mostrar-me como funciona?
O professor anuiu e pegou num exemplar da Mensagem de Fernando Pessoa e colocou-o no prato de alimentação da máquina. Ao recolher do prato, centenas de luzinhas começaram a piscar e ruídos mecânicos a fazerem-se ouvir. No pequeno monitor, um gráfico tomava forma. Por fim, o bulício parou e uma válvula do lado direito abriu-se e deixou escorrer lentamente uma gosma azulada semitransparente para um pequeno prato. Cheirava a mar e a manhãs de nevoeiro.
- No interior da máquina, o livro é folheado e lido e, graças a um complexo algoritmo matemático, o sentido e estética das palavras é percebido. Com essa informação, consigo determinar que substâncias devem ser misturadas de modo a transmitir todo o leque de sensações que o livro transmite ao leitor.
Marco abanou a cabeça em confusão e encarou de novo o investigador.
- Está a afirmar que, ao comer essa gosma irei sentir o mesmo que sentiria ao ler o livro?
- Exactamente! Dentro de alguns anos, ler livros será uma coisa do passado. Bastará meter a gosma na boca e toda uma miríade de sensações invadirá o cérebro do ex-leitor.
- Fantástico! – Coçou o queixo. – No entanto, pelo que percebi, vai precisar de escritores à mesma.
- É verdade, mas não serão necessários bons escritores, apenas pessoas que pareçam bons escritores. O conteúdo não será de todo importante. Basta por exemplo combinar umas antíteses, umas metáforas sem sentido, umas inversões da sintaxe comum e umas ideias feitas que ressoem no desejo das pessoas que a gosma literária terá um sabor adocicado e saciante. O único defeito desta estratégia é que, quando o leitor tentar degustar com mais cuidado a gosma, vai notar que ela tem um sabor demasiado artificial e muito pouca consistência.
O investigador inseriu uma colectânea de contos de quatrocentos e cinquenta e três autores completamente desconhecidos e máquina converteu em gosma. Era um líquido baço, sem consistência, por vezes pontilhado de pequenas gotas que pareciam saborosíssimas,  mas que rapidamente se diluíam no resto e desapareciam.
- Estou a ver… Talvez se possa contornar esse facto com utilização abundante de anáforas. O cérebro humano adora repetição de padrões.
- Você vai ser um óptimo produtor de gosma literária! De facto, as anáforas causam uma sensação de cócegas no céu-da-boca e fundo da garganta que distrai a maior parte dos ex-leitores da falta de consistência.
- Compreendo. Basta-me apenas alguns truques baratos de estética para obter um bom resultado.
- Não, não, de todo! Tem também de apostar nas temáticas que ofereçam o melhor sabor. Por exemplo, leves angústias pessoais fúteis dão um leve sabor avinagrado muito apreciado por leitores que se consideram intelectuais. Mas tem de ter cuidado com a dose! No outro dia, transformei em gosma um livro de Musil e tive dificuldade em comê-la até ao fim. Sugiro que prove um desses romances femininos que nascem como cogumelos nas livrarias. São dulcíssimos, sem dúvida alguma, mas a tentativa desesperada das autoras de introduzir tons ácidos, acaba por criar um falso sabor a vinagre balsâmico.
Marco Freitas já sonhava com mil e uma histórias que poderia criar com a premissa básica do amor. Um suceder de aproximações e afastamentos sem fim nem nexo que produziria gosma literária que agradaria qualquer palato feminino
- Podia tentar enveredar por esse caminho… - disse pensativo. – O das histórias de amor.
- Jamais! Não tente retratar amor por meio da literatura. É extremamente frustrante conseguir captar a verdadeira essência, vai desperdiçar imenso tempo e imensa gosma para o lixo antes de conseguir um bom produto final. Aposte antes noutro tipo de narrativas que pareçam – Fez um especial enfâse em “pareçam. – amor, mas que sejam apenas sentimentos de posse, fascínio ou desejo sexual. Aliás, aposte no sexo. Sexo é sempre bom. Toda a gente gosta de uma gosma literária pejada de sexo. – Introduziu um exemplar de Teleny e saiu uma gosma vermelha cristalina de cheiro pungente. Cheirou-a deliciado e deglutiu-a num só trago. – Este livro dá um sabor picante e a especiarias fantástico! Mesmo que a descrição do acto seja péssima e os sabores complexos não surjam de todo, tem sempre garantido uma sensação de frémito nos órgãos sexuais que compensa tudo o resto.
- Tem razão, esta máquina vai mudar a literatura para sempre.
- Meu amigo, a literatura não é para aqui chamada. – Admoestou severamente. - Qualquer tentativa de a inserir nesta máquina dá uma gosma indigesta, que tem como principal efeito colocar os ex-leitores a cismar sobre o Mundo. Não, esta máquina só serve para textos do calibre dos seus!
Marco sorriu largamente, pensado nas imensas oportunidades de negócio que aquela invenção lhe trazia. Por uma certa quantia de dinheiro, poderia até ensinar as pessoas a fazer as suas próprias gosmas literárias. Toda a gente gosta de vangloriar os objectos culinários que são capazes de preparar. O instagram e milhares de posts no facebook são prova disso mesmo. Quanto dinheiro estaria o povo disposto a pagar pelo status de fazer gosmas literárias, mesmo que nunca chegassem aos supermercados? Revirou os olhos de prazer orgástico ao pensar na sua conta bancária a encher.
- Professor Gonzaga, estou convencido. Quanto quer pela máquina?


Filho de peixe sabe nadar 3/4 - Carlos Silva


Os anos passaram e o pequeno príncipe cresceu forte e saudável, para admiração dos restantes elfos do reino que esperavam que um meio-sangue ao cuidado de um javardo morresse ainda antes de começar a falar. Não só sobrevivera como se versara nos saberes élficos, integrando-se quanto possível na sociedade, de tal modo que apenas as feições e os olhos castanhos o podiam denunciar. Na escola o seu nome era Olhos de Carvalho, para que nunca ninguém se esquecesse que aquele rapaz era diferente e merecia ser tratado de modo diferente. Olhos de Carvalho sentia-se diferente. Embora tolerassem a sua presença, elogiassem esporadicamente os seus avanços nos estudos, o meio-sangue vivia segregado da vida social, não lhe sendo autorizado a partilhar o espaço de refeições com o seu pai, ou a participar nos eventos sobre o cepo. Nessas noites solitárias, Ruão ensinava-lhe o que estava no coração de um javardo e quão frios e distantes os elfos conseguiam ser uns dos outros e da natureza. De vez em quando, Olhos de Carvalho recebia a visita velada de uma estranha criatura envolta em panos negros e conversas estranhas. À medida que foi crescendo, foi valorizando as parcas visitas, encontrando cada vez maior sentido nas palavras sibiladas pela criatura que não o chamava de Olhos de Carvalho mas de Príncipe Volter.
                Ao contrário dos seus tios da sua idade, o décimo terceiro aniversário, data a partir do qual era considerado adulto, não foi pautado pela alegria da festa que os elfos convocam em honra das crianças que o deixavam de ser. Olhos de Carvalho não sentira a idade a garantir o acesso aos círculos de decisão, mas sim o assinar de uma ordem de expulsão informal do quilongue onde as crias viviam. Não lhe fora sequer oferecido um escravo, como seria de esperar. Nessa noite, ao chegar à casota de Ruão, onde o pai adoptivo preparara um ninho de farrapos para o meio-sangue se aninhar, deixou o choro correr livremente, carpindo a desgraça de nem ter direito a uma casota só para ele.
                A horas incertas da madrugada Ruão acordou Olhos de Carvalho. Vento que Anda chamara-o à sua presença imediatamente. De olhos inchados, o meio-sangue vestiu o melhor fato que tinha e apressou-se a ir de encontro ao seu pai. Este esperava-o na biblioteca, sentado no cadeirão de leitura virado para a janela, folheado distraidamente um livro de poesia. A sua posição era, como sempre, altiva, mas Olhos de Carvalho conseguia sentir-lhe o nervosismo que lhe cerrava os dentes e tremia as mãos. Assim que fez anunciar a sua presença com um leve pigarrear, Vento que Anda chamou-o para mais perto com um aceno. A distância parecia infinita, mas nem por isso o meio-sangue apressou o passo. A cultura élfica exigia que tentasse saber o máximo concedendo o mínimo.
                - Queria dar-te os parabéns, filho – principiou por dizer, transparecendo uma empatia fingida no étimo que lhe dirigira. – Para o bem ou para o mal, és um adulto. Já pensaste no que queres fazer da tua vida?
                Olhos de Carvalho estava agora a escassos metros do cadeirão.
                - Não pensei nisso, meu pai. Aliás, se não fosse Ruão a lembrar-mo, poderia até ter esquecido que este era o meu décimo terceiro aniversário. – O lábio superior do elfo tremeu milimetricamente com a provocação. Um gesto que passaria despercebido para qualquer outra raça, mas não para o meio-sangue. Passou ao ataque. – Porque me chamou aqui a estas horas? Que me quer dizer que mais nenhum dos seus irmãos possa ouvir?
                Vento que Anda censurou-se por subestimar o filho. Os quilongues não tinham portas trancadas sem ser as do exterior, pelo que uma conversa confidencial teria de tomar lugar a horas pouco comuns ou em locais mais esquecidos. O rapaz tinha sido bem educado e estava tão alerta quando era preciso numa sociedade como aquela. Teria de o destabilizar se quisesse atingir o seu objectivo.
- Sabes, filho…Tu só estás vivo por causa de uma dívida que tenho para com o mago que te visita. Se não fosse por ele, nem a tua mãe teria deixado que nasceste. Nunca perguntaste, mas sei que queres saber quem é a tua mãe, não é? Se algum dia fores até ao reino de Lindura, pergunta pela Negreta, a prostituta perneta. – lançou uma gargalhada de escárnio. – Sabes o que mais me alegra? É que apenas prometi ao mago que te mantinha vivo até chegares a adulto.
Ainda não tinha acabado a última palavra já uma espada surgira na sua mão, em direcção ao pescoço do meio-sangue que por pouco se conseguiu desviar. Olhos de Carvalho pensou em fugir, mas Vento que Anda já lhe tinha cortado o caminho para a porta e a janela era demasiado alta. Desembainhou um punhal oculto nas vestes, à boa moda élfica, e empunhou-o em direcção de seu pai. Os golpes de espada caíram sobre si com uma velocidade com que nenhum professor de esgrima o testara, atirando o meio-sangue para o chão ofegante. Com um golpe de rins, voltou à posição vertical, mas nem por isso recuperou vantagem no combate. Saltou por cima de uma mesa de leitura e pontapeou os tomos na direcção do seu atacante que não teve defesa senão encolher-se. Aproveitando o espaço de manobra, Olhos de Carvalho golpeou o ventre do elfo que se desviou a tempo de apenas ficar com uma ferida superficial. Os olhos verdes irradiavam ódio.
- Nunca esperei que fosses tão bom espadachim, Carvalho! – cuspiu para o chão e estalou os dedos. – Mas nem por um momento penses que vou dar ao mago aquilo que ele quer.
Atrás de Olhos de Carvalho surgiu um segundo elfo, que certamente se esgueirara durante a peleja sem ser visto. Nas suas mãos trazia uma besta que largou o seu virote na direcção do meio-sangue, que assistiu com horror um ataque que não podia evitar. Durante esses mesmos instantes, algo de estranho aconteceu a tudo, como se a própria essência do ar tivesse sido corrompida. O virote abrandou a sua velocidade, desfazendo-se em nada, as prateleiras começaram a vibrar, fazendo cair os seus livros e a própria luz solar vacilou a entrar na biblioteca. Vindo de nenhures surgiu Hiram, envolto em negro, de braços esticados e os olhos tão abertos que pareciam ter duplicado o seu grande tamanho. Com um olhar atirou o elfo da besta para longe, fazendo-o deslizar ao longo do corredor que saía da biblioteca como que puxado por uma mão invisível. A trama do mundo voltou a tremer com o movimento das mãos do mago e um projéctil de luz embateu contra Vento que Anda, fazendo-o largar a espada.
- Irei transformar-me para o levar daqui. Agarre-se às minhas costas e conduza-me na direcção das montanhas. Chegando a um castelo, tire-me este colar para eu voltar à minha forma natural. – Disse, apontando para a tira de cabedal que apertou em torno do pescoço.
- E o Ruão? Não o posso deixar aqui!
- Já o libertei, Príncipe Volter, ele juntar-se-á a nós no castelo que…
Porém o mago não conseguiu terminar a frase sob as dores excruciantes que a transformação que estava a sofrer lhe provocava. Os ossos estalaram como vidro à medida que penas negras cobriam o corpo do amanita e um bico lhe substituía os dentes pontiagudos. Em vez de um grito de dor, Hiram largou um crocitar. O corpo dilatou em todas as direcções, em vez de braços, duas enormes asas negras abriram-se e um enorme corvo tomou o lugar do mago. Olhos de Carvalho agarrou-se com força ao pescoço do pássaro que levantava voo e desapareceu pela janela, deixando Vento a gritar maldições ainda paralisado pelo feitiço.



Filho de peixe sabe nadar 2/4 - Carlos Silva



Nove meses se passaram e um bebé de cabelo verde nasceu em lugar incógnito, algures nas catacumbas do castelo de Sigmundo. Guinei, completamente ensopada em suor, desmaiara exausta e exangue assim que viu o pequeno rebento a sair pelas mãos de Hiram. O mago acariciou a cabeleira verde rala da criança e enrolou o pequeno corpo nos tecidos das suas vestes.
- Achas mesmo que uma mera ilusão élfica te esconderia do olhar de um mago, Vento que Anda? – disse Hiram, olhando por cima do ombro. – Aparece por fim, não temos a noite toda!
Vento que Anda dispensou as sombras que o envolviam, ordenando que voltassem para a floresta de onde pertenciam. O que os leigos chamavam de magia élfica não era realmente magia, mas sim o resultado do talento natural dos elfos em ludibriar e mentir. Havia magos a dedicar a vida inteira a descobrir que terrível engodo caíra a natureza para lhes dever tantos favores, ou de que modo conseguiam mentir sobre a sua essência ao ponto de ignorar as leis naturais. Porém, por mais ardiloso que um elfo pudesse ser, sabia dos perigos de tentar enganar um mago. Vento que Anda aprendera isso da maneira mais difícil.
- Trouxeste o substituto? – perguntou Hiram.
O elfo tirou uma raiz da sacola e entregou-a ao mago que, por sua vez, entregou o bebé ao Vento que Anda. O elfo pegou no pequeno ser, enojado pela pele encarquilhada e acinzentada de proporções estranhas que dormia encolhido nos trapos em que fora enrolado. Parecia tão frágil, será que seria saboroso? Talvez fervido com natas e gengibre…Ou porventura envolto em farinha de milho e levado ao forno para tostar… O melhor seria desossá-lo primeiro, para não se engasgar como acontecera quando assou as crias de urso. Hiram observava-o severo.
- Quero-o vivo, percebes? Assegura-te que ele chega a adulto e aí eu perdoarei a tua dívida de vida. – Avisou o mago.
- Percebo, Hiram. Só não consigo ver onde queres chegar com este rapaz.
- Isso só a mim me diz respeito e não está ao alcance da tua compreensão.
Um gemido fraco quebrou a troca de olhares tensos entre os dois seres, fazendo o elfo partir, carregando a criança, e o amanita voltar-se para a rainha. Guinei não tinha a face iluminada pela leveza, candura e felicidade de uma mãe que acabava de dar à luz, mas sim o cenho de um guerreiro no fim da batalha. Cerrando os dentes, ergueu-se do monte de palha onde dera a luz e abeirou-se de Hiram perguntando-lhe:
- Com quem faláveis?
- Ninguém para além de mim, senhora.
- Mostrai-me o corpo do bastardo.
O mago entregou a raiz trespassada por um punhal à rainha, desejando que as ilusões do elfo não o traíssem no momento crucial. A rainha observava, mas não parecia furiosa, mas sim enojada. Afastou o tronco de si com as mãos, vendo nele um bebé trespassado por um punhal, gotejando sangue.
- Pensei que fosseis agir com maior subtileza, mas o que importa são os resultados. Livrai-vos do corpo e da adaga para que nada testemunhe contra nós.
- Assim seja, minha rainha.
O elfo cavalgava velozmente, rasgando o trilho da floresta como um relâmpago faz a um velho carvalho. Com o braço direito segurava as rédeas e com o esquerdo o seu filho. Iria exibi-lo no próximo baile, conjuntamente com os seus mais recentes escravos. Numa sociedade onde apenas a Rainha dos Elfos podia dar à luz, a sua cria iria certamente causar furor.  Olhou para a pequena criatura enrugada, que dormitava apesar dos solavancos provocados pelo cavalgar. Era feio, os bebés elfos eram muito mais perfeitos.
Ao longe, Vento que Anda já conseguia ver a sua cidade. Como era bela todo aquele entrelaçar de árvores e arquitectura élfica onde não se distinguia a parte viva da casa e da erigida. Só o seu povo detinha as sementes daquelas plantas que eram capazes de crescer até alturas inacreditáveis e o segredo para entrelaçar os inúmeros ramos e raízes de modo a dar forma às casas. Dos colossos vivos a que chamavam quilongues e da arte aperfeiçoada pelos séculos nasciam esculturas titânicas, ligadas entre si por passadiços de madeira que pareciam nascer do interior das árvores, cujo interior poderia ser esculpido com formas sinuosas ao estilo dos elfos. Os quilongues formavam um círculo em torno de um cepo descomunal, que servia de praça e salão de baile ao ar livre, onde todos os elfos e seus escravos se podiam reunir à vista do palácio real, esculpido no tronco da árvore maior.
Assim que entrou em casa, a cria do elfo começou a berrar e a chorar para frustração de Vento que Anda que o tentou acalmar cantando-lhe canções do seu povo. Talvez fosse fome, pelo que o elfo ordenou que fosse preparado um avejo assado em malaguetas. Ao tocar com os lábios no delicioso molho que pingava da perna do pássaro o choro redobrou em intensidade. Vento que Anda ameaçou-o, tentou dissuadi-lo com argumentos que faria um amanita comer carne, tentou suborná-lo com os mais variados tesouros, chantageou-o com sofrimento da sua mãe, mentiu-lhe, bateu-lhe, porém nada funcionou. Não podia levar tamanho incómodo para o baile daquela noite e nenhum dos seus truques parecia fazer efeito. Furioso, pegou na cria e dirigiu-se até à casota de Ruão, o jovem javardo que lhe fora oferecido quando atingira a maioridade. Bateu na porta até o rapaz de face suína e maciço corpo hirsuto sair. Colocou o jovem príncipe nos cascos de Ruão, que o envolveu num terno abraço, apesar de toda a gritaria que fazia. O javardo cheirou o bebé com o seu focinho cartilagíneo e uma lágrima de alegria brotou dos seus pequenos olhos negros.
- Eu disse-te que um dia ainda te arranjava um animal de estimação. Aqui tens. – Virou costas ao seu escravo e começou a caminhar em direcção ao seu quarto. Tinha uma festa para a qual se preparar. No entanto, a meio das escadas deteve-se e disse ao rapaz-porco. – Cuida bem dele, dá-lhe tudo o que ele precisar. Se alguma coisa lhe acontecer, serás severamente castigado.
- Não se preocupe, senhor, cuidarei dele como se fosse meu filho.
O que Vento que Anda não desconfiava é que Ruão não estava a ser servil, mas sincero.





Trial Version - Carlos Silva


Sorri para agradecer a reunião de toda a minha família e amigos no meu leito de morte. A minha mulher agarrava-me a mão e eu via-a, apesar dos sulcos cavados pelas décadas passadas, linda como no primeiro dia. Os meus filhos também estavam presentes, apesar das agendas preenchidas. O gesto enterneceu-me, significa que os eduquei bem. O suficiente para terem sucesso a nível profissional, sem terem de atropelar todos os valores que fazem de alguém uma boa pessoa.
Não me resta muito tempo, a doença que me consome o corpo é de sintomas tardios mas de evolução exponencial. Um qualquer defeito genético que funciona como uma bomba relógio que, após detonação, me foi roubando as forças até chegar ao presente estado de quase inanimação que precede a morte. Não existe cura, mas se a houvesse, talvez a recusasse. Vivi a vida em toda a sua glória e plenitude. A minha memória de tudo o que se passou para trás é um tanto ou quanto difusa, como se não as tivesse vivido realmente, mas sim apresentada há minutos atrás. No entanto, a sensação que tenho é que tive uma infância feliz no campo com os meus pais. As imagens que a minha mente invoca são pradarias e cascatas, uma espécie de Éden versão minhota. Vim para a cidade, conheci o amor da minha vida, num golpe de sorte preparado pelo destino para cumprir a sua vontade. Sinto-me tão feliz ao lado dela! Sei que vivemos muito, que vimos muito, que fizemos muito, mesmo que não recorde exactamente o quê.
A minha respiração torna-se mais profunda, arranhada e pesada.
A enfermeira dá indicação às pessoas que se despeçam e saiam da sala. Um a um, os meus amigos depositam-me um beijo na testa, selando a longa relação que desenvolvemos e saem. Ah! Que boas sensações aquelas caras me despertam. Cada uma eram dezenas de aventuras e momentos que, embora desafiantes, haviam tido sempre um desfecho feliz.
Ficou apenas a minha mulher e dois filhos. Eu fecho os olhos e ela aperta-me a mão com ainda mais força. Faleço como quem adormece.
Está tudo branco.
Tento mexer-me, mas não tenho corpo para obedecer à vontade.
Olho em volta e vejo igual paisagem branca, como se não tivesse mudado a direcção do olhar.
O branco começou a desvanecer-se e revelou um aquário com um laboratório lá dentro. Só depois me apercebi que quem estava dentro do aquário era eu. O nível líquido azulado foi descendo, à medida que os sorvedouros se abriam a meus pés. Um homem vestido com um impecável fato branco aproximou-se, sorrindo tão abertamente que mais um pouco fazia os cantos da boca rasgarem-se. Abriu o cilindro transparente onde eu estava e perguntou-me:
- Que achou da demonstração do nosso produto?
Eu acenei positivamente, o tubo que tinha enfiado na garganta não permitiam grandes conversas. As memórias voltaram todas de repente, como que se a barragem que as cingia tivesse sido destruída. Não eram lá grande coisa. Recordações sensaboronas e deprimentes do que se passara na sua vida até aquele momento. Sabia porque estava ali e, mais importante ainda, sabia o seu saldo bancário.
Introduzi o código de autorização de débito no terminal bancário que o homem do fato branco trazia debaixo do braço e encostou-se à máquina, esperando a submersão no líquido azul. O homem de fato branco fechou de novo a campânula e acenou-lhe um adeus alegre.
- Faça um bom proveito da sua Vida Feliz, com a garantia da Cyber Lifes.


Filho de peixe sabe nadar 1/4 - Carlos Silva

- Quero-a – disse Vento que Anda.
- Para quê, senhor? Podeis ter as mais belas de entre os elfos, para quê esta humana?
- Não sei, agrada-me os seus traços toscos no geral. Os olhos cor de carvalho e os lábios sanguíneos em particular. Nunca amei uma mulher humana, dizem que gritam mais que as nossas. Diz-me tu, como era a tua mulher?
- Senhor, quando me levaram para o vosso reino era demasiado jovem para poder sentir o calor do leito conjugal
- És um bom animal de estimação, Ruão. Lembra-me de te arranjar uma companheira quando voltarmos. Agora vai. – Agitou a mão com desprezo. – Prepara-me um banho, para quando voltar.
Alheia à presença dos dois elfos ocultos por artes da raça, a rainha Guinei penteava o cabelo à janela, espreitando pelo arvoredo a fim de verificar o marido que tardava em voltar. Já partira há dois dias para a caça e ainda não havia novas dos seus feitos, nem sequer um avejante-correio. Ter-se-ia metido o seu homem em alguma peleja? Seria a chuva que caía nas terras altas que o atrasavam? Pousou a escova no parapeito e suspirou. O mais provável seria ainda não se ter cansado da companhia dos cães, amigos, criados e cerveja. Guinei sentiu uma presença atrás de si que tomou pela sua aia, dizendo-lhe:
- Traz-me o bardo à minha presença, preciso de me distrair.
Em vez do assentir submisso na voz jovem da sua aia, a resposta fez-se ouvir num tom grave, mas alegre.
- O seu marido não lhe é entretém suficiente, meu amor?
A rainha rejubilou ao reconhecer a voz do rei Sigmundo, seu marido. Voltou-se e deu com o enorme colosso que era o rei daquelas terras, ainda envergando o capote molhado da chuva que caía nas montanhas. Antes que lhe pudesse dar as boas-vindas, foi atirada para a cama de dossel, onde esperou que Sigmundo se livrasse das peles encharcadas e fedorentas. Guinei levantou a cabeça para espreitar o pénis erecto apontado na sua direcção, levantando as saias até à barriga. Sigmundo não se fez rogado e investiu sobre a sua rainha, cobrindo-a de beijos e carícias famintas. Num gesto, puxou pela faca e cortou o corpete, libertando a pele láctea de Guinei que se contorcia de prazer. Quando ele lhe chupou os mamilos rosáceos não conseguiu prender um guinchinho púdico de prazer. Num só movimento, virou a mulher ao contrário e chocou-a ao possuí-la como os animais. Sentiu os espasmos orgásmicos de Sigmundo e a força com que a agarrava a aligeirar-se. Por fim, o rei deixou-se cair ao lado da rainha, arfando e rindo. Guinei nunca tinha visto o seu marido a rir-se assim, nem mesmo quando estava ébrio. De igual modo, nunca tinha reparado nos olhos verdes de Sigmundo. Podia jurar que eram castanhos como os dela. Debruçou-se sobre o peito do rei para o observar melhor e logo viu a farta cabeleira encaracolada a desaparecer, deixando o tronco musculado como o de um rapaz. As próprias feições abolachadas de que tanto gostava estavam a ficar gradualmente angulosas e o cabelo a adquirir tons verdes. Quando a transformação acabou, Guinei já não estava deitada ao lado do seu marido, mas de um elfo que ainda não se parara de rir.
A rainha pensou em gritar por ajuda, mas deteve-se. Que seria de si, do país e da coroa se todo o castelo soubesse que havia cometido adultério? Mordeu um farrapo de vestido, descarregando toda a sua frustração e lágrimas. Olhou para a faca caída no chão à beira da cama que lhe daria um fim digno. Porém, afastou as ideias nefastas da sua alma. Que seria do seu marido, filhos e pátria sem esposa, mãe e rainha? Tinha demasiados compromissos para satisfazer a sua vontade de apagar o que acontecera naquela tarde.
O elfo fez-lhe uma carícia na cara e segredou-lhe:
- Não chores que ficas feia  – disse o elfo, beijando Guinei na fronte. – O filho que carregarás no ventre pertence-me e eu virei buscá-lo quando ele nascer. Percebeste?
A rainha acenou, engolindo o orgulho ferido e o elfo desfez-se em neblina. Resoluta, Guinei vestiu-se e gritou pelo nome do único homem que a poderia ajudar:
- Hiram! Hiram!
O mago amanita não tardou a surgir na soleira da porta. A túnica negra própria dos da sua vocação contrastava com a tez pálida, quase transparente, da sua espécie. Guinei tinha insistido com Sigmundo para que este acolhesse um mago humano, mas ele dera preferência ao amanita, ao que era mais experiente. A rainha convidou-o a sentar-se e entre lágrimas e gemidos informou-o do terrível engodo em que caíra, do qual sentia tanta vergonha. Os enormes olhos dourados percorreram o corpo da princesa, como que procurando por algo. Não aguentando a tensão, a rainha jogou-se aos pés do mago.
- Dai-me daquelas poções que secam o ventre e acabai com o meu sofrimento ainda antes de ele começar.
A mão de cinco dedos ligados por pregas resistentes de pele pousou sobre a cabeça de Guinei num gesto paternalista.
- Minha rainha, não posso arriscar a perder-vos. Não sei que dose aplicar para um meio sangue, como o que irá transportar. – A sua pronúncia era sibilada. – Terá de levar a gravidez até ao fim.
- Oh! – gemeu, deixando-se cair num pranto amargurado. – Que faço eu com este filho?
- Não temeis, quando a altura chegar, eu próprio me encarregarei de o matar. Até lá, esconderemos o seu ventre dilatado com manha e artes mágicas.



Preguiça - Carlos Silva


Todos os dias eu ia a casa de Roberto e ficava lá todo o dia a vê-lo fazer nada, sorvendo discretamente a bebida que me era servida.
                As visitas começaram assim que Roberto perdeu o seu emprego na gráfica e prolongaram-se ao longo de todo o verão. Ao início, o dono do T0 ainda começou por se inscrever nos sites de emprego e enviar currículos para apreciação, mas o desânimo foi-se somando à medida que as dívidas seguiam a mesma tendência. Aquando das primeiras visitas, Roberto costumava preparar refeições que emanavam exóticos aromas que quase me faziam abandonar a minha bebida para as provar, mas depressa foram substituídas por pedidos telefónicos de comida rápida ensopada em óleo. Inexoravelmente, a inércia foi preenchendo cada movimento, a lentidão o pensamento.
                É das leis mais básicas do universo: nada se faz sem um preço. Toda a acção tem uma certa quantidade de atrito associada. É também sabido que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e a mente humana não é dos materiais mais fortes.
                Roberto está agora deitado num himalaia de almofadas, uma vez que os móveis pagaram as contas da electricidade que mantém a velha ventoinha a rodar. O suor pinga-lhe das axilas desnudas e faz uma poça no tecido abaixo dele. Da boca, baforadas de fumo de um cachimbo de água que chupa indolentemente. À distância de um braço, um computador exibia a lista de compras que esperava pacientemente o desmedido esforço de clicar o botão de confirmação da encomenda. Ao lado, uma dezena de moscas faz voos rasantes a um cilindro de fezes que flutua em urina quase a transbordar do penico. Um pouco por toda a casa, pacotes de produtos consumidos quase não deixam sítio para me sentar.
                Não me importa. Fico em pé, a bebericar, enquanto o Roberto fita o tecto com os olhos inchados do sono. Pouco resta a alguém que até o cansaço o fatiga. A procrastinação assume a sua forma mais requintada e deliciosa, onde se inventam tarefas improfícuas para adiar as mais prementes. Tudo isto eu degusto com prazer nas minhas visitas.
                Apenas precisei de ser convidado a primeira vez para ganhar acesso permanente à casa e à vida do Roberto. Não me orgulho grandemente. Esta amostra de homem não é sequer uma presa suculenta, parte da força de viver já se tinha esvaído quando cheguei. Ao menos, dá-me forças suficientes para procurar caça grossa.
                Aspiro os últimos resquícios de ânimo do Roberto e ele revira os olhos. Quase consigo ouvir-lhes os pensamentos: “Para quê viver? Que canseira…” 


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