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Os Kravyads 7/7 – Maus Augúrios – Vitor Frazão

     Suando em bica e arfando, como se tivesse acabado de subir a correr uma extensa escadaria, Nowak acabou a leitura, retirando as mãos ensanguentadas de dentro do cadáver e fechando as pálpebras, incapaz de suportar o poder dos próprios olhos por mais um segundo que fosse, à medida que uma violenta dor de cabeça ameaçava rachar-lhe o crânio. Maria ofereceu uma cadeira ao mestre, porém, este recusou, limitando-se a apontar insistentemente para os olhos, exigindo que as costuras fossem recolocadas de imediato e com elas o selo que encerraria o seu poder. Sem hesitação, a semi-humana inverteu o processo, voltando a coser as pálpebras com um sortilégio, e afastou-se sabendo que o mestre também recusaria ajuda para chegar ao lava-loiça. 

     Enquanto o Doutor despia a camisa ensanguentada, passando-a à assistente, revelando uma camisola interior branca de cavas, antes de começar a lavar o sangue dos braços cobertos de cicatrizes paralelas, Kunti mordia a língua para se conter de fazer perguntas, Isha não ousava sequer mexer-se e Anath olhava de soslaio para o caderno, pousado sobre uma cadeira, fingindo desinteresse. 

     O adivinho levou um bom bocado a lavar as mãos, braços e rosto, bichanando durante todo o processo, aparentemente tentando reorganizar ideias ou memorizar algo. Quando finalmente acabou, a eficaz e silenciosa Maria estava ao seu lado com uma toalha seca e uma camisa limpa que tirara da mala de viagem. 

     - Ano complicado, este que aí vem. Muitas mudanças para os que caminham na sombra do Homem – comentou ele, em português, pouco depois, ao mesmo tempo que abotoava a camisa, antes que Kunti pudesse perguntar o quer que fosse. – Precisarei de estudar as palavras com mais atenção… Muitas variáveis… Muitos caminhos, todos eles com ramos largos… – Era-lhe difícil concentrar-se num só pensamento, enquanto o cérebro entrava em hiperactividade para tentar deslizar todas as possíveis consequências e significados daquilo que vira. – Ainda bem que arranjaram um espécime tão bom… teria sido mais difícil com um inferior… Pena ser o último. 

     - O último? Como assim? O que viu? O que vai acontecer? – quis saber Kunti, sentindo-se alarmada, pois embora os rakshasas fossem imortais, no sentido mais lato do termo, não eram indestrutíveis. 

  - Tenho de estudar melhor… – disse Nowak, falando com os botões e colocando os óculos escuros. 

   - Doutor, porquê o último? – insistiu Isha, inclinando-se para a frente e apelando a todo o autocontrolo para não soar ameaçador. 

     - Mesquinhos rakshasas, não é o vosso futuro que merece mais estudo. Fosse tudo tão claro! – respondeu Nowak, abanando a cabeça perante a tacanhez dos devoradores de homens e vestindo o casaco. – O destino do mundo não é ditado pelos vossos umbigos, Kravyads. Disse o último, porque para o ano vocês já não estarão em Coimbra e eu terei de procurar outros caçadores. Será difícil encontrar alguém do vosso nível por aqui… Sim, é pena não poder ir com vocês... Mas não adianta, tenho de ficar… 

   - O que quer dizer quando afirma que não estaremos cá? – inquiriu Anath, como um misto de desconfiança e esperança. 

  - Mudar-se-ão ou pelo menos devem fazê-lo – esclareceu o adivinho, esforçando-se para os informar, embora preferisse gastar toda a energia mental a deslindar questões mais importantes. – Coimbra deixará de vos servir, não prosperarão nela como no passado, na verdade, tornar-se-á perigosa para vós. Partam. Quanto mais cedo melhor. A Sul poderão encontrar prosperidade durante alguns anos, mas as melhores oportunidades estão a Leste. Mantenham-se longe do campo, escolham cidades grandes, onde podem passar despercebidos entre a população. Madrid ou… 

   - Paris? – sugeriu Anath, não escondendo o brilho nos olhos perante a possibilidade. 

    - Sim, Paris é uma boa escolha – concordou o Doutor, passando a mão pelo queixo em reflexão, sendo impossível precisar se avaliava a situação dos Kravyads ou se pensava nos eventos que vira nas entranhas. – É uma terra mais fria do que estão habituados… contudo, cuidará de vós. Mantenham-se longe dos turistas, é o que aconselho. Desejo-vos boa sorte, rakshasas. Vamos, Maria – acrescentou apressadamente, abotoando o casaco e começando a dirigir-se para a saída, ansioso por chegar a casa e lançar-se de cabeça no trabalho, em busca dos verdadeiros significados das visões que tivera. 

     - Obrigado Doutor – agradeceu Kunti, desviando-se do caminho de Nowak, privilégio que não reservava a mais nenhum mortal. Estava irritada perante a perspectiva de recomeçar do zero numa cidade nova, contudo, não lhe passou pela cabeça ignorar o conselho do adivinho, a quem aquela família devia tanto – Anath, acompanha-os. 

     Enquanto a mãe se enervava, pensando no trabalho que as mudanças dariam, tentando esconder a apreensão, e o pai focava a atenção em desmontar o cadáver do humano, procurando calcular como levaria as provisões durante a viagem, Anath seguiu os convidados, dando por si a sorrir genuinamente pela primeira vez em décadas. Finalmente iria para uma cidade a sério, Paris ainda por cima! Lá sim, encontraria verdadeira diversão. 

     Imerso em pensamentos e caminhando com uma confiança que escondia a sua cegueira, Nowak alcançou a saída rapidamente, porém, quando abriu a porta, estacou, parecendo ponderar sobre algo, e revelou no rosto uma emoção que raramente utilizava, pesar. Antes de franquear a ombreira, fez duas coisas que Anath nunca o vira fazer, voltou-se directamente para ela e colocou-lhe a mão no ombro. 

    - Lamento, criança – afirmou, com sincera tristeza, retirando-se logo de seguida e começando a percorrer o corredor do prédio, que se encontrava imerso numa escuridão invulgar. 

     Essas duas palavras foram suficientes para manchar a alegria da rakshasi, roubando-lhe o sorriso e abalando-lhe a confiança, como nunca acontecera nos seus duzentos e trinta anos de existência. 

     - O que é que ele quis dizer com aquilo? – perguntou Anath, alarmada, agarrando o braço de Maria para a impedir de avançar. Assim que entrou em contacto com ela sentiu um ligeiro ardor e algo a mexer-se debaixo da pele da semi-humana, porém, manteve o aperto, exigindo uma resposta. 

     - O Mestre lamenta se lhe deu esperanças infundadas e pela sua perda, quando está tão perto de alcançar aquilo que deseja – respondeu Maria, com calma e cortesia, não se deixando intimidar e fazendo eco dos pensamentos de Nowak, como se eles fossem seus. – Ele sabe o quanto a mudança para uma grande cidade significa para si. 

     - Desculpa? – proferiu Anath, começando a sentir-se assustada. 

     - Receio que não viverá em Paris – disse a semi-humana, com compaixão na voz, pois sempre simpatizara com a jovem rakshasi. 

     - Mas ele disse?… Era uma mentira? – perguntou Anath, sabendo que estava errada assim que falou. Nowak nunca mentia. Podia ser vago, mas era incapaz de mentir descaradamente. 

     - Não, a sua família, de facto, encontrará prosperidade lá. Você não terá tal sorte – especificou a assistente, sentindo o aperto da rakshasi abrandar. 

    - Ele está errado – retaliou Anath, com mais choque do que confiança, largando o braço da semi-humana. 

     - É possível – admitiu Maria, não se sentindo ofendida com a contestação das capacidades do mestre, pois há muito que a aprendera que não existia predestinação ou sinas imutáveis, apenas probabilidades e tendências. – Nenhum futuro é inquestionável até ser passado. Foi por isso que o Doutor não o mencionou aos seus pais. Entenda-o como um pequeno agradecimento pelos vossos anos de bons serviços. Não obstante, as probabilidades são muito baixas. Não sabemos se morrerá antes de lá chegar ou ficará retida noutro sítio, apenas estamos noventa porcento seguros que não descobrirá aquilo que deseja… 

     - Ele está errado... – repetiu Anath, tentando manter-se confiante apesar de se sentir cada vez mais desanimada. Embora dez por cento não fosse o mesmo que zero, as hipóteses eram demasiado baixas para permitir mais do que uma fugaz esperança, especialmente, quando a sentença fora proferida por alguém como Nowak, que nunca errava. - Lamentamos e desejamos-lhe sorte – despediu-se Maria, fazendo uma ligeira vénia e sorrindo encorajadoramente, antes de seguir o mestre para a escuridão, deixando atrás de si uma rakshasi que, pela primeira vez na sua longa existência, sentiu como era ser destroçada por uma ilusão.




Os Kravyads 6/7 – Sacrifício – Vitor Frazão

     A previsibilidade dos acontecimentos, fez Anath revirar os olhos de tédio, enquanto se encostava à parede, cruzando os braços, e procurava imaginar-se noutro local, fazendo uma lista mental de sítios e actividades mais emocionantes, algo que não era difícil. 



     A cerimónia processava-se sempre da mesma entediante maneira. Após obter a confirmação da qualidade da vítima, Nowak retirava o casaco, que passava à assistente; arregaçava as mangas até aos cotovelos, expondo os antebraços polvilhados com marcas de cortes auto-infligidos no decorrer de outros rituais, e removia os óculos escuros, revelando que não só era cego como tinha as pálpebras cosidas, num padrão em ziguezague. Então, Maria esticava o braço esquerdo, colocando a mão a milímetros do rosto do Mestre, proferia duas palavras e as linhas dos pontos começavam a mexer-se, quais vermes, deslizando para fora da pele e enrolando-se nos dedos da semi-humana. Nessa altura, Nowak abria as pálpebras, revelando que dentro de cada órbita, no lugar do olho, tinha uma minúscula esfera amarela, que à primeira impressão parecia brilhar, mas na verdade sugava luz para a escuridão absoluta, aparentemente sem fundo, que ocupava a sua periferia. 

     Perante esta visão bela e aterrorizante, na qual temia perder-se, caindo para o abismo negro e infinito das órbitas, Luís quase desmaiou, agonizando por não conseguir fechar as próprias pálpebras, sendo forçado a assistir, indefeso com um cordeiro. 

     Pegando numa pequena faca, ferrugenta e ligeiramente curva, com um velho cabo negro em madeira, tirada da mala de viagem pela assistente, Nowak entoou uma lengalenga numa língua que Anath desconhecia, enquanto Maria sacava de uma caneta e de um caderno novinho em folha. Após fazer um pequeno corte no braço, o Doutor repetiu o processo na mão esquerda do humano, misturando o seu sangue com o dele e salpicando a substância na direcção de cada ponto cardeal. Por fim, com um golpe preciso e lento, abriu o ventre da vítima viva, de ilharga a ilharga, fazendo com que as tripas se erguessem, altura em que pousou a faca na bancada e meteu as mãos dentro do mortal, qual obstetra a ajudar um nascimento. 

    Concentrando-se enquanto remexia as entranhas, o Doutor analisou tudo o que percepcionava e ditou-o à assistente, numa língua morta que mais ninguém naquela sala compreendia. Num estado de transe parcial, a fala do adivinho era acelerada e desprovida de pausas, sendo apenas devido à sua vasta experiência e capacidades sobrenaturais que Maria conseguia apontar as palavras proferidas. Ocasionalmente, Nowak puxava órgãos para fora do corpo de Luís e estudava-os, com os seus estranhos olhos, virando-os e revirando-os, detectando neles mistérios inalcançáveis para os comuns mortais, alguns dos quais difíceis de ler mesmo com a sua mente prodigiosa. 

     O Doutor e a assistente encontravam-se imersos no trabalho em mãos, enquanto aos espectadores restava apenas esperar em silêncio. Anath aproveitou para experimentar ligeiras alterações no aspecto, mudando sinais, feições e cortes de cabelo, o que lhe valeu várias chamadas de atenção da mãe, executadas discretamente por medo de perturbar a cerimónia. A verdade era que, embora aborrecida pelo ritual e de mal com a vida, a jovem rakshasi tinha sempre esperança que as visões e conselhos do Doutor lhe concedessem a mudança que tanto desejava, convencendo os pais a partir para um local mais emocionante. Enquanto a filha escondia zelosamente tais sentimentos, os pais eram muito mais transparentes. Kunti esfregava as mãos em antecipação e receio, temendo que aquele fosse o ano em que seria profetizada a sua morte ou qualquer outra desgraça. Isha petiscava de uma malga de alumínio cheia de dedos humanos cozidos, que ocasionalmente oferecia à mulher e filha, ao mesmo tempo que analisava a qualidade dos órgão retirados e repostos por Nowak, procurando imaginar como os cozinharia. 

     Contudo, nenhum deles, rakshasa ou não, reconhecia o sofrimento de Luís, cujos olhos tremiam como se a alma quisesse fugir do corpo. Diante do terror de se ver indefeso, à mercê de um bando de sádicos que pretendiam esquartejá-lo vivo, a mente do humano disparou em dezenas de direcções: implorou a Deus e amaldiçoou-o; fez todas as promessas possíveis e confessou pecados; ponderou que nunca mais veria família e amigos; reconheceu a insignificância dos problemas que o haviam atormentado até então e lutou com todas as forças que tinha para se mover ou simplesmente gritar, sem qualquer resultado. Todavia, esta cornucópia de pensamentos evaporou-se perante a dor, quando a barriga lhe foi aberta e o Doutor começou a remexer-lhe nas entranhas. Infelizmente para o humano, morrer de um golpe no ventre pode levar várias horas de incomensurável sofrimento, não havendo o alívio de um final sujo e rápido ou sequer do torpor criado pelo acto de esvair-se em sangue. Paralisado, mas experienciando cada toque, Luís sentiu os seus gritos de agonia presos na garganta, sem escapatória possível, enlouquecerem-no, enquanto o tormento tomava controlo de cada parte da sua mente, levando-o a desmaiar e a acordar sucessivamente. 

     Após o que lhe apareceu uma eternidade, o veneno que o paralisara começou a perder efeito e Luís conseguiu mexer os dedos e as pálpebras, porém, por essa altura já não tinha forças para lutar, desejando apenas que lhe acabassem com o sofrimento. Eventualmente, o mortal viu o seu pedido atendido, quando os danos provocados aos órgãos, pela desajeitada violação do Doutor, se tornaram demasiado extensos. O fim não foi rápido, nem pacífico, apenas bem-vindo.





Os Kravyads 5/7 – Aquilo que o Doutor receitou – Vitor Frazão

     Como era habitual, o convidado e a assistente chegaram exactamente à meia-noite e cinco minutos, sendo recebidos por Anath, que os guiou para a cozinha, enquanto tentava esconder o tédio, perante aquela monótona tradição anual, atrás de uma máscara de cortesia e simpatia, função particularmente difícil, uma vez que a sua beleza e ilusões não afectavam o Doutor. 

      O recém-chegado era um homem pálido, alto e magro, com cerca de cinquenta anos, dedos compridos, feições cadavéricas, nariz aquilino e cabelo branco cortado rente. Vestia um fato e camisa preta, sapatos do mesmo tom e não usava anéis, nem relógio, apenas um par de óculos escuros, com lentes circulares pequenas e armação fechada, sendo completamente impossível ver-lhe os olhos. Era um indivíduo educado, mas sisudo, sorrindo apenas quando as convenções o exigiam. 

      Quanto à assistente, apesar de reflectir a indumentária sóbria e insonsa do mestre, na forma de um casaco largo, camisa simples, saia com bainha abaixo do joelho e sapatos rasos, sendo todas as peças azul-escuras, era muito mais sorridente, embora raramente mostrasse os dentes ao fazê-lo. Não era uma mulher completamente desprovida de encantos, contudo, perante a beleza sobrenatural de Anath, os seus trinta anos, pele morena, olhos azuis, cabelos lisos até aos ombros e feições delicadas, empalideciam. Tal como o mestre não usava jóias ou relógio, trazendo consigo apenas uma pequena mala de viagem. 

      - Saudações, Senhora e Senhor Kravyad – cumprimentou o convidado, em português, ao entrar na cozinha, executando uma fria e quase imperceptível vénia, ao mesmo tempo que tentava esconder o nojo perante o cheiro a carne podre do casal. 

      - Bem-vindo, Doutor Nowak – retribuiu Kunti, na mesma língua, simulando respeito, a um nível que rasava o servilismo. – Creio que arranjámos um belo espécime este ano – afirmou, afagando a cabeça da vítima apavorada. 

      - Veremos – respondeu o convidado. – Maria. 

      Perante o simples comando, a assistente baixou os olhos em concordância, pousou a mala no local mais limpo que conseguiu encontrar dentro da macabra cozinha, cuja decoração aliava sangue, serradura e pedaços de ossos partidos, a electrodomésticos enferrujados e móveis velhos, e esticou a mão para Isha. O rakshasa apressou-se a passar à semi-humana um pires, com o sangue que pouco antes retirara do braço direito da vítima, que enfaixara toscamente com um pano sujo. Recebendo a amostra, cheirou-a antes de molhar a língua nela, bebendo-a qual gato, e degustar o fluido vital por entre estalidos. 

      - Oitenta e cinco porcento – afirmou Maria, pousando o pires vazio num armário empoeirado. Nas raras ocasiões em que falava, um observador atento teria a oportunidade de reparar que a assistente de Nowak possuía minúsculos símbolos entalhados nos dentes e um discurso ligeiramente sibilado. 

      O Doutor lançou um meio sorriso de cortesia ao ouvir a avaliação, vendo-se forçado a reconhecer que a Senhora Kravyad tinha razão, aquele era um bom exemplar, certamente o melhor que os rakshasas arranjaram desde que iniciaram a aliança. Nowak era um fazedor de magia que se dedicava às artes divinatórias. Muitas eram as técnicas que utilizava para praticar o seu ofício, tendo uma predilecção pela hepatomancia, a leitura e interpretação das vísceras de animais sacrificados, particularmente do fígado. Não obstante, para ele nenhuma funcionava com maior eficácia e precisão que a observação dos órgãos de um humano vivo no decorrer de um lento e meticuloso sacrifício anual. O ritual nunca era perfeito, porém, escolhendo a altura em que a Lua estava na posição ideal e procurando a vítima adequada, tentava reduzir ao máximo o número de variáveis que poderiam interferir com a cerimónia. Por isso, fizera um acordo com aquela família de rakshasas, eles arranjavam o humano para o sacrifício e ele utilizava aquilo que aprendia com o ritual para os aconselhar no modo mais seguro e prospero de agirem nos decorrer do ano seguinte. Afinal, quem melhor para descobrir vítimas que uma raça que caçava humanos há milénios. Por outro lado, perante os novos perigos e desafios do mundo ocidental do século XXI, aquelas criaturas ancestrais precisavam de toda a ajuda que conseguissem arranjar…



Os Kravyads 4/7 – O cordeiro – Vitor Frazão

     Embora paralisado, o aterrorizado Luís manteve-se completamente desperto, experienciando tudo, por isso, quando entrou na cozinha, os seus sentidos foram atacados. O cheiro putrefacto emitido por Kunti tornou-se mais forte e passou a ser acompanhado por outro, no qual o férreo odor a sangue e o indistinto aroma a carne cozida se misturam. Moscas zumbiam à sua volta, tratando-se, na sua maioria, de gordas e esverdeadas varejeiras, enquanto se ouvia o som de água em ebulição e de sacos de plástico a serem fechados. 

      - A tua filha está impossível – acusou Kunti, enquanto esperava que o marido tirasse os últimos sacos de cima da robusta bancada ao centro da cozinha, para nela depositar a vítima. 

      Quando Luís foi largado, qual saca de batatas, a sua cabeça ficou virada para o lado e pôde ver um homem de etnia indiana, largo como um barril e com braços peludos, vestido com calças cinzentas coçadas, t-shirt e avental brancos, manchados com sangue, a atirar peças de carne ensacadas para uma grande arca frigorífica. O estudante podia ter-se iludido sobre a natureza desta carne, não fosse a visão de um pé inconfundivelmente humano, antes da arca ser fechada. 

      - Devias ter visto o como ela saiu à rua, Isha – continuou Kunti, enquanto o marido pousava o cutelo manchado de sangue e acabava de guardar as miudezas do “cliente” anterior. Embora a mulher e a filha não gostasse das tripas, rins e fígado, Isha não era tão selectivo pois, mais velho, lembrava-se bem de épocas duras, durante as quais nem isso conseguira arranjar, devido à concorrência com outros da sua espécie. O rakshasa aproveitava quase tudo, só as cabeças eram deitadas fora, após removidos os miolos, claro. – Sabes qual é o problema? Ela tem vergonha de nós e não tem respeito nenhum pela nossa herança cultural. 

      - Ela já comeu alguma coisa? – perguntou o marido, a quem o cabelo escasseava no topo, tendo, para compensar, um farto bigode negro. – Os dedos estão quase pronto. 

      - Ela tem tempo de comer durante o ritual – garantiu a mulher com indiferença, remexendo com uma colher de pau o conteúdo da panela que estava ao lume, fazendo com que alguns dedos humanos subissem à superfície. – Estão com bom aspecto… Não que ela te agradeça. Criança ingrata. Sabes qual é o problema? Mimámo-la. Ela nunca teve de roubar cadáveres ou caçar humanos com mais osso que carne em becos imundos. Fizemos-lhe as vontades todas. Ela quis ver o mundo, procurar emoção, viver numa cidade e nós, parvos, cedemos. Devíamos ter ficado em casa… 

      - Estava a pensar numa cidade a sério, LA, Paris ou Londres. Não isto! – atirou Anath, a partir da sala de estar. 

     - Estás a ver como ela me fala? – indicou Kunti, apontando para a porta com a colher de pau. – Ainda por cima tem os ouvidos apurados da megera da tua mãe. 

      - Sim, sim… – respondeu Isha, não se esforçando muito para fingir que prestava atenção aos queixumes da mulher, enquanto virava o rosto da vítima para o tecto e começava a analisar a peça, com as mãos ainda encharcadas com o sangue do “cliente” anterior, atraindo varejeiras. Aterrorizado e enojado, Luís tentou escapar, porém, não conseguiu mexer um único músculo. – Trouxe-nos um bom. 

      - Sim – concordou a esposa, admitindo a contragosto que, apesar dos seus muitos defeitos, a filha sabia escolhê-los. – Um pouco magrinho, não? 

      - Não, olha aqui – indicou Isha, puxando a manga esquerda de Luís para cima, apalpando e abanando-lhe o braço, sem que o humano, aprisionado dentro do próprio corpo, pudesse fazer o que quer que fosse para o impedir. – É tenrinho. Não tem muita gordura, mas também não é um desses ressequidos montes de músculo. Bah! 

      Embora os rakshasas não precisassem verdadeiramente de comer, eram incapazes de resistir ao sabor de carne humana, o único alimento que ingeriam. Era como um vício para eles, não diferente da nicotina ou álcool para um mortal, sendo-lhes impossível renunciar a tal dieta sem começar a ressacar. 

     - Acho que será bom para o ritual – adiantou Kunti, desligando o lume e esperando a confirmação do marido. – O que te parece? 

      Habitualmente, os Kravyads escolhiam as vítimas entre vagabundos e migrantes, para que o seu desaparecimento provocasse menos ondas, sendo tal selecção exclusivamente condicionada pela qualidade e quantidade da carne, porém, uma vez por ano, a selecção processava-se de modo diferente. Ocasiões como aquela exigiam que tivessem em conta outros factores, entre os quais, a personalidade e estado de espírito do “cordeiro”. Regra geral, a falta de pessoas que se importassem com a vítima seria uma vantagem, todavia, daquela feita, para que o ritual fosse bem-sucedido, o raptado precisava de ter pessoas que sofressem com o seu desaparecimento. 

      - Vamos ver – disse Isha, esticando o indicador esquerdo e fazendo com que a unha se retraísse para dentro da pele, ao mesmo tempo que na ponta do dedo surgiu uma fina e resistente agulha de queratina. Quando a sonda atingiu dez centímetros de comprimento, o rakshasa enfiou-a no ouvido direito de Luís, perfurando-lhe o tímpano e não parando até atingir o cérebro. Apesar das dores, o mortal paralisado foi incapaz de gritar, sendo o tremor dos seus olhos o único sinal de sofrimento. – Sim, muito bom… Inocente e perturbado, com um pequeno toque de escuridão na alma… Pais e irmão, uma família que o adora… não muitos amigos, mas leais. Sim… sentirão a falta deste… O seu desaparecimento causará muita dor, será óptimo para o ritual. Boa escolha, Anath! – gritou, para que a filha ouvisse o elogio, enquanto removia a agulha. – Um belo sacrifício este ano. Devias agradecer-lhe. 

     Kunti resmungou entre dentes, em concordância, dizendo que já o fizera, ao mesmo tempo que começava a ajudar o marido a despir o humano, em preparação para o ritual, antecipando a chegada do Doutor.




Os Kravyads 3/7 – Rakshasas – Vitor Frazão

     - Quê?... Que raio de brincadeira é esta? – atirou Luís cada vez mais nervoso, tentando afastar as mãos da mulher. – Largue-me. 

      - Parece um palonço, mas é vivaço. Isso é bom… – afirmou Kunti, animada, mantendo um aperto firme no pulso direito e na parte detrás do pescoço do rapaz. 

      O olhar faminto da indiana aumentou o medo de Luís, levando-o a entrar em pânico. Assustado, o jovem estudante estrebuchou com todas a energia que tinha e acabou por conseguir libertar-se, sentindo cortes no pulso e pescoço ao fazê-lo, aparentemente provocados pelas unhas da mãe de Ana. Demasiado alarmado para reflectir na desproporcionalidade das dores perante golpes tão pequeno, limitou-se a girar sobre os calcanhares, para fugir daquela casa de doidos, só que, ao tentar rodar a maçaneta perdeu a sensibilidade na mão e começou a ver tudo desfocado. Num piscar de olhos, o corpo deixou de obedecer-lhe e as pernas cederam, levando-o a cair para trás, sendo apanhado e aparado pela indiana, antes que pudesse tombar no chão. 

      “Drogaram-me!” pensou, em pânico, concebendo, numa fracção de segundo, dezenas de cenários, cada um pior que o anterior. Aterrorizado tentou gritar, todavia, por mais que se esforçasse, o som não saiu. 

      - Não te preocupes, rapaz, não te poderás mexer, mas sentirás tudo – garantiu Kunti, rasgando um sorriso sádico. Considerando que, uma vez paralisada a vítima, já não havia necessidade de manter a ilusão que ocultava o cheiro a carne podre que todos os rakshasas emitiam, a mãe de Anath removeu o sortilégio, com um simples pensamento. 

      Desejando assegurar que o jovem se mantinha vivo, mas imobilizado, a velha rakshasi decidiu aumentar a dosagem, para tal, enfiou uma das unhas, com cerca de dois centímetros, debaixo do olho direito de Luís, injectando-lhe as toxinas directamente na corrente sanguínea. 

      - Importas-te de mudar para algo mais próprio? – criticou Kunti, em hindu, pegando no jovem ao colo sem esforço aparente. – O Cegueta deve estar a chegar e tu nesses preparos. 

      - Mãe… – queixou-se Anath, na mesma língua, farta de ter sempre a progenitora a implicar com ela. 

      - O que foi, custa-te alguma coisa? Porque é que tens tanta vergonha da tua herança? Já te esqueceste que?… 

     - Pronto está bem – interrompeu a filha, sem paciência e considerando que mais valia ceder do que aturar outro sermão. Sem mexer um músculo, Anath mudou de apresentação. Os seus olhos tornaram-se castanhos, os longos cabelos louros passaram a negros e o tom de pele escureceu, para se assemelhar ao da mãe. – Satisfeita? 

      - Muito melhor – sentenciou a progenitora, que odiava quando a filha saía à rua com uma aparência tão diferente da dos pais. Apesar de, como rakshasi, nome dado a uma rakshasa fêmea, puder assumir diversas formas e criar todo o tipo de ilusões, Kunti fazia questão que a sua aparência humana coincidisse com o aspecto dos nativos da região onde nascera, como sinal de respeito para com a sua linhagem, e exigia o mesmo da filha. 

      - “Melhor” não, apenas mais vulgar – retaliou Anath, contemplando o rosto por uns segundos, no pequeno espelho que tirara da mala, antes de o fechar repentinamente, irritada e insatisfeita como o que via. – Já não basta vivermos nesta pasmaceira, também temos de parecer tão… banais? 

      Na verdade, nenhum humano seria capaz de olhar para ela e considerá-la banal, muito pelo contrário, a mudança acrescentara à anterior beleza e perfeição sobrenatural um toque de exotismo. Contudo, após usar aquela aparência durante duzentos e trinta anos, estava farta dela e mal podia esperar para utilizar outras. Contrariamente aos pais, que pareciam satisfeitos com a rotina, a jovem queria o caos de novas emoções e experiências. 

     - Deixa-te de coisas – cuspiu Kunti, virando-lhe as costas, com o humano nos braços, tão desejosa de ouvir as queixas da filha, quanto ela as suas. – Quando o Cegueta chegar, trá-lo à cozinha. - Sim, mãe – anuiu a rakshasi mais nova, por entre um suspiro de tédio, começando a experimentar outras etnias e feições assim que a mãe entrou na cozinha.



Os Kravyads 2/7 – Segredos de família – Vitor Frazão


- Anath é tu? – inquiriu, em hindu, uma voz feminina, vinda detrás de uma lascada porta de madeira.
- Sim, mãe – respondeu ela, em português, tirando o longo e grosso casaco preto que envergava, pendurando-o no cabide junto à porta.
Apesar da estranheza da situação lhe ter estragado a fantasia, uma parte de Luís não conseguiu evitar deslizar de volta para a ilusão, ao ver as curvilíneas formas de Ana, favorecidas por uma camisola de lã vermelha e jeans justas. O simples poder da luxúria talvez tivesse sido suficiente para cativá-lo de novo, se não fosse pela súbita e radical mudança de atitude da rapariga. Embora mantivesse uma beleza quase sobrenatural, a simpática, tímida e ligeiramente travessa jovem que conhecera e que o atraíra ali, perdera todo o calor, tornando-se numa mulher arrogante e fria, que nem parecia interessada em olhar para ele. Na verdade, aparentava dar-lhe tanta importância como a uma minúscula poça de lama, limitando a sentar-se, numa cadeira junto à entrada, com uma mão sobre as pernas cruzadas e a outra a apoiar a cabeça, como se achasse toda a situação incrivelmente enfadonha.    
- Não tiveste pressa nenhuma… É quase meia-noite! – criticou a mulher mais velha, em português, entrando na sala, enquanto limpava as mãos ao avental branco que usava por cima de uma camisola de lã azul-escura.
- Isto é alguma piada? – perguntou Luís, cada vez mais confuso. – É a tua mãe? És adoptada?
- Não – respondeu Anath, sem sequer olhar para ele, usando um tom de voz que dava a entender que, por vezes, desejava sê-lo.
 O choque do jovem perante a confirmação do laço sanguíneo não se devia tanto a Ana ser alta e esbelta, com cabelos louros e olhos cinzentos e a mãe baixa e forte, com cabelos pretos e olhos castanhos, mas antes, ao facto da pele branca como leite da filha parecer indicar origens escandinavas, enquanto a progenitora era indubitavelmente do subcontinente indiano. Embora Luís nada entendesse de genética, parecia-lhe improvável, senão impossível, aquelas duas serem mãe e filha, por mais nórdico que fosse o pai, algo acentuado pela total ausência de feições similares.     
- Não acredito que saíste assim à rua – reprovou a mãe, acabando de limpar as mãos ao avental manchado de sangue. – Isso são preparos?
- Mãe, poupa-me – cuspiu Anath, farta de ouvir aquele sermão cada vez que saía.
- O que se passa aqui? – quis saber Luís. – Esta mulher, não pode ser tua mãe…
- Às vezes gostava de não ser, sempre teria menos desgostos – sentenciou Kunti, abanando a cabeça em sinal de desapontamento, enquanto se aproximava. – Mas deixa ver o que trouxeste…
- Ei, minha senhora! O que?... – protestou Luís, quando a mulher esticou os braços e começou a mexer-lhe na cara.
Parte do jovem pensou em ficar quieto e aguentar o escrutínio, não sabendo se aquilo seria um qualquer hábito cultural que desconhecia, porém, o seu primeiro instinto foi protestar. Pensando que talvez estivesse a exagerar e não querendo insultar ninguém, Luís olhou para Ana, na esperança de obter alguma pista sobre como devia agir, só que esta permaneceu indiferente a toda a interacção, demonstrando-se mais preocupada em certificar-se que a camisola que usava se mantinha impecável, do que com o resultado do estranho ritual.
Continuando sem entender o que se passava, enquanto a mãe de Ana lhe apalpava o rosto, braços e tronco, Luís notou que algo mudara. Inicialmente, tudo parecera normal, porém, com o aproximar da anfitriã e à medida que o escrutínio desta se intensificara, o jovem começou a sentir um invulgar e pungente cheiro, como se alguém tivesse acabado de esquartejar um animal em decomposição, surgir do nada, tornando-se cada vez mais forte. Estranhamente esse odor, que ia e vinha, sendo difícil detectar se não estivesse atento, provinha da mãe de Ana, uma mulher que à primeira impressão parecera, na verdade, completamente desprovida de aroma. Mais invulgar ainda era o facto desse inconstante odor parecer estender a sua mutável influência ao ambiente em redor. Ocasionalmente, Luís pensava ver parte do velho, asseado e acolhedor apartamento que o rodeava tornar-se em algo mais sombrio, sujo e sinistro, como se estivesse a observá-lo através de uma cortina esburacada, abanada pela brisa. Não compreendendo o que percepcionava e receando ter bebido mais do que julgara, o jovem depressa descartou tudo como uma ilusão de óptica influenciada pela parca iluminação do hall de entrada, todavia, permaneceu perturbado.

- Não está mal... – decretou a mulher mais velha, avaliando o jovem como se ele fosse um animal de feira. – Um pouco magrinho, mas… – comentou, pondo-lhe uma mão na nuca e puxando-o para a frente, de modo a olhá-lo nos olhos. – Sim… – acrescentou, hesitando por momentos, antes de rasgar um largo sorriso, aparentemente satisfeita com o que vira. – Fizeste bem Anath, foi uma boa escolha. Sentirão a falta deste. Dará um óptimo sacrifício.







Os Kravyads 1/7 – Luxúria – Vitor Frazão


Os lábios quentes e húmidos dela eram sumarentos como cerejas maduras e a língua suave como seda. Mesmo embotada pelo desejo, a mente de Luís era assolada por uma tempestade de pensamentos, incapaz de simplesmente se deixar levar pelo prazer do momento.
Quando saíra de casa, no início da noite, e se dirigira ao tasco para beber uns copos com os amigos, os planos do jovem e tímido estudante universitário eram modestos: relaxar um bocado, depois de um dia inteiro a “marrar”, abstraindo-se, por algumas horas, dos exames e da pressão de fazer jus às expectativas da família, que tanto sacrificara para o pôr a estudar em Coimbra, e, no máximo, se tivesse sorte, conseguir chegar a algum lado com Madalena. Nunca imaginara que deixaria passar essa oportunidade para dar por si no corredor de um prédio estranho, prestes a ir para a cama com uma bela e misteriosa desconhecida.
Mal acreditava na sua sorte, ao ponto de desconfiar tratar-se de uma tramóia maldosa. Luís não se achava feio, porém, também sabia que não era nenhuma estampa, não tendo nada que o distinguisse dos demais, muito pelo contrário, se precisasse de o fazer, definir-se-ia como banal. Por outro lado, aquela que o engatara era, pura e simplesmente, excepcional. Seria tudo aquilo, uma partida ou alucinação? Desde quando é que uma mulher como ela ligava puto a um tipo como ele?
Ana parecia saída das suas mais loucas fantasias, quase demasiado bela para ser real. Olhos cinzentos, guardados por longas pestanas e sobrancelhas finas; compridos e lisos cabelos louros, que desciam até meio das costas; lábios finos e sumarentos que ocasionalmente se rasgavam num singelo e desarmante sorriso, misto de malícia e timidez; corpo delgado, mas voluptuoso, cujas formas, mesmo sob as grossas roupas de Inverno, faziam virar cabeças e um rosto que transmitia calor, alegria e um toque de travessura. A mistura de femme fatal e “rapariguinha da porta ao lado”, fazia-a bela e sedutora ao ponto de a sua presença ser intimidante, porém, a atitude descontraída e simpática tornava-a acessível, mesmo acolhedora. Era o tipo de mulher que podia ter qualquer um, o que levava um desconfiado, embora satisfeito, Luís a interrogar-se: “Porquê eu?”
Quando finalmente chegaram à porta do apartamento de Ana e esta interrompeu o beijo, afastando-se ligeiramente para levar a chave à fechadura, Luís estava capaz de jurar que sentira o mundo tornar-se mais frio e escuro. O toque dela, a sua respiração na dele, eram a luz e o calor que o puxavam de um universo cinzento e cruel, como uma droga que atenuava a realidade. Não queria estar longe dela, não podia estar, a ideia de tentá-lo enchia-o de um vazio angustiante, que lhe oprimia o coração, como uma mão gelada.
 Vozes dentro do apartamento arrancaram-no, momentaneamente, da hipnótica fantasia criada pela luxúria.
- Tens colegas de casa?
- Só os meus pais – respondeu ela, abrindo a porta.
Foi como se lhe tivessem enfiado um balde de água fria pela cabeça abaixo. O choque acordou Luís para a realidade, levando-o a interrogar-se que espécie de piada cruel seria aquela? Quem é que engatava um tipo qualquer e o trazia para conhecer os pais?
- Mas o que?... Eu… Mas… – foram as únicas palavras que conseguiu articular, enquanto Ana o puxava suavemente para dentro do apartamento.

- Não te preocupes – pediu ela, lançando um sorriso perante o qual Luís não conseguiu conjurar uma razão para se recusar a segui-la.






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