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As Crónicas de Decessus – O Demónio de Wharrom Percy 5/5 - Pedro Pereira


O Chichevache saltou sobre William, tentado atingi-lo com as suas afiadas garras. O guerreiro teve apenas tempo de se esquivar para a esquerda. Apesar do seu tamanho colossal, o demónio era bastante rápido.
Aproveitando o movimento, William rodopiou sobre si e tentou atingir a criatura com a lâmina da espada, mas esta bloqueou-lhe o ataque com as longas garras.
Não querendo dar tempo à criatura para contra-atacar, William deu um pontapé no focinho do demónio, obrigando-o a recuar. No mesmo instante, Moonraiser abriu as mandíbulas e abocanhou a parte de trás do joelho da besta, ferrando os dentes na carne.
Com um golpe rápido, o Chichevache tentou atingir o lobo. Porém, este foi mais rápido e largou a perna do demónio, afastando-se rapidamente. O demónio deu um salto e atravessou uma fenda no teto, refugiando-se no telhado da mansão.
Deixando que a energia que o rodeava fluísse através de si, William recorreu aos poderes do demónio aprisionado no seu interior. Usando essa energia, deu um salto sobrenatural e seguiu a criatura para o telhado.
Ao aterrar no telhado velho, várias telhas deslizaram e caíram para a rua, fazendo Decessus escorregar. Mal recuperou o equilibro, o guerreiro foi atingido nas costelas por um golpe, sendo projetado no ar em direção à beira.
Tirando partido dos seus reflexos sobrenaturais, William agarrou-se à berma do telhado, evitando assim uma queda que se podia revelar mortal. Usando os seus poderes, o guerreiro impulsionou-se no ar aterrou novamente no telhado após dar um salto mortal.
William e o Chichevache iniciaram então uma dança lenta em torno um do outro. Estudavam-se mutuamente e nenhum dos dois parecia querer ser o primeiro a avançar. Sempre que Decessus ameaçava atacar o demónio colocava-se de imediato numa posição defensiva. Já William optava por usar a espada para bloquear e afastar possíveis golpes da criatura.
William sabia que não podia manter aquele impasse por muito mais tempo, pelo menos se esperava sair vitorioso daquele combate.
Foi então que surgiu uma ideia na mente do caçador de demónios. Podia não funcionar, mas também podia ser o que precisava para distrair a besta, permitindo-lhe ganhar a vantagem no combate.
Deixando a energia fluir através de si, William fez levitar algumas telhas soltas atrás do demónio, atirando-as contra a nuca da criatura.
A diversão teve o resultado esperado. O Chichevache desequilibrou-se momentaneamente, colocando a perna direita numa zona fragilizada do telhado. O peso do demónio fez com que parte do telhado cedesse, prendendo o membro da criatura na fenda.
Deslizando pelo telhado húmido, William passou por entre as pernas da criatura. Com a espada em riste, cravou a lâmina no peito do demónio, fazendo-a rasgar a carne de cima a baixo. As entranhas da criatura a deslizarem para fora do corpo à passagem da lâmina. Num salto rápido, Decessus colocou-se novamente em pé e rodopiou sobre si mesmo. Com a lâmina da espada coberta de sangue, William recorreu aos seus poderes para ampliar a força do golpe e atingiu o pescoço da besta decepando-a.
Aproximando-se do cadáver sem vida, William empurrou a cabeça e o corpo da criatura, atirando-os do telhado. Caídos na rua, os restos mortais começaram a mudar de forma, assumindo de novo a aparência humana.
Alguns populares que passavam na rua repararam em William na berma do telhado da mansão, segurando uma espada ensanguentada e o corpo mutilado do padre Alexander caído na rua, sem vida.
– Ele matou o padre! – exclamou um dos populares.
– Apanhem-no! Assassino!
Não tardou a que a rua se enchesse de curiosos.
– Merda… – praguejou William.
Deslizou pelo telhado e atravessou a fenda no teto da mansão, partindo de imediato em passo de corrida.
Moonraiser aguardava já o guerreiro junto ao cavalo. William montou o garanhão negro e fez o cavalo partir a galope. Atrás de si, o caçador de demónios ouvia os gritos irados dos populares ficarem para trás à medida que se afastava da povoação.
Pelo menos, tinha recebido metade do seu pagamento. Era mais do que recebia na maioria das vezes. Mas no final do dia, era isso que contava…






As Crónicas de Decessus – O Demónio de Wharrom Percy 4/5 - Pedro Pereira


William passou o resto do dia a inspecionar o que restava da mansão da família Percy. O fogo parecia ter-se propagado de uma forma estranha, afetando mais a zona norte da mansão, destruindo tudo à sua passagem. William parou subitamente quando se aproximou das propriedades adjacentes a norte. Estas não se encontravam sequer chamuscadas, dando a ideia que o incêndio consumira a mansão de fora para dentro. O forte cheiro a enxofre no ar e a propagação do fogo, levava o caçador de demónios a crer que o incêndio tinha tido causas sobrenaturais.
Acompanhado por Moonraiser, o caçador vasculhou as poucas divisões da zona sul que tinham sobrevivido, procurando algum registo da informação que custara a vida à família Percy. Porém, o fogo atingira a mansão com tal violência que pouco restava. Apagar o rasto era fundamental para os demónios que se disfarçavam de humanos. Estes tinham de esconder a sua identidade para manterem o seu terreno de caça e aquele demónio em particular sabia bem como cobrir os vestígios.
No exterior, tinha começado a anoitecer, cobrindo o local de sombras, dando um ar ainda mais desolado ao local.
William ouviu um som vindo do corredor que dava acesso ao quarto onde se encontrava. Eram passos… Preparando-se para um possível combate, apertou o punho prateado da espada.
– Decessus, calculei que o encontrasse por aqui…
– É um pouco tarde para explorações. Não acha, padre? – questionou sem retirar a mão do punho da espada.
Junto a William, Moonraiser começou a rosnar.
– Descobriu alguma coisa de interesse?
– Nada de que eu não desconfiasse já… O que faz aqui a estas horas?
– Vim ver se já tinha descoberto algo… Realmente foi uma tragédia o que aconteceu à família Percy – comentou o padre enquanto observava as paredes cobertas de negro.
– Há algo que eu não percebo em relação ao Lorde Percy, se ele possuía informações importantes sobre o demónio, porquê avisar apenas Chamberlain? Supostamente o padre também estava a ajudar a capturar o demónio…
– Está a insinuar algo? – questionou o padre calmamente.
– É um pouco estranho ter chegado à vila antes de os ataques começarem…
O clérigo sorriu e começou a andar lentamente em círculos pela sala.
– Coincidências…
– Eu não acredito em coincidências – comentou Wiiliam. – Não me espanta que Chamberlain e os habitantes da vila não consigam capazes de ver através da sua máscara. O disfarce de padre benfeitor quase me enganou. Por vezes, a verdade mais difícil de se ver, é a que está mesmo em frente aos nossos olhos…
O sacerdote parou de frente para William e sorriu, passando a mão pelos cabelos loiros.
– Estou curioso… A sua fama precede-o, mas de todos os relatos que ouvi, nunca ninguém mencionou o seu aspecto peculiar…
– E porque o haviam de fazer? Não sou propriamente nenhuma rameira com um bom par de tetas…
– Ora, ora... Não é muito comum encontrar sujeitos com o seu aspecto. Cabelos brancos, penetrantes olhos amarelos… Nasceu com essas características peculiares, ou desenvolveu-as?
– Quando era criança, fui possuído por um demónio. Os meus pais arranjaram um padre para executar o exorcismo, mas o desgraçado tinha pouca experiência e o demónio era demasiado forte. Eu recuperei o controlo do meu corpo, mas a criatura continua aprisionada dentro de mim.
– Daí os cabelos brancos e os olhos amarelos – concluiu o padre. – Mas se assim é, de certeza que deve ter adquirido outras habilidades bastante úteis…
Decessus deixou escapar um grunhido.
– Ainda não me disse o que faz aqui, padre?
Alexander sorriu e dirigiu-se para junto de uma janela, deixando que a luz da lua lhe banhasse a pele clara.
– Durante a minha vida, cruzei-me com indivíduos com habilidades pouco naturais. Muitos destes casos eram deveras fascinantes! Mas você… Você é o primeiro que conseguiu domar um demónio aprisionado no seu interior. Tal controlo sobre a criatura decerto que lhe trouxe algumas habilidades.
– E qual é o seu interesse?
– Digamos que eu gosto de colecionar capacidades invulgares… Quais são as suas? Força sobre-humana? Velocidade sobrenatural? Reflexos extraordinários? Ou talvez algo mais discreto? Vidência, por exemplo?
Wiiliam apertou com mais força o punho da espada.
– Demasiadas perguntas – respondeu o caçador de demónios. – Para um Íncubo é bastante corajoso. Se eu fosse a si já me tinha colocado a milhas, não está à minha altura…
– Um Íncubo?! Talvez os rumores sobre as suas capacidades como caçador sejam exagerados…
– Geralmente são – respondeu William em tom trocista. – Mais uma vez, qual é o seu interesse nas minhas habilidades?
– Absorver todas estas habilidades, domá-las, torná-las minhas… Chegará o dia em que ninguém será capaz de se opor à minha vontade.
– Não me parece que haja muitas habilidades em Wharron Percy…
– Infelizmente, a minha fome aumenta com os meus poderes. Toda a gente tem de comer…
– Um bocadinho tagarela para demónio sugador de vidas, não? – comentou William.
O padre sorriu com desdém.
– Não estás à minha altura, Decessus.
                – Isso é o que iremos ver…
– Sabes o que vai acontecer a seguir, certo? Vou partir cada osso do teu corpo deixando-te com dores excruciantes. E quando terminar, sugo-te a vida e os poderes muito lentamente…
– Prefiro a versão em que te deixo as entranhas de fora e a cabeça espetada numa lança, para os corvos a debicarem…
William desembainhou a espada e lançou-se ao ataque, mas o padre esquivou-se com um salto sobre-humano. O guerreiro ouviu os ossos de Alexander a estalar, enquanto este se contorcia e o seu corpo mudava de forma, revelando a sua verdadeira identidade.
A criatura que se erguia agora em frente a William tinha uns dois metros de altura, possuía um corpo musculado, com ombros largos e andava curvada. A transformação do padre reduzira a sua roupa a farrapos, revelado um denso e espesso pelo de tonalidade escura. No entanto, e apesar do porte imponente da criatura, era a cabeça que a tornava verdadeiramente aterradora. Possuía dois enormes chifres, semelhantes aos de um boi, que lhe nasciam um pouco acima dos penetrantes olhos vermelhos. O focinho do demónio terminava numa boca composta do que pareciam ser quatro mandíbulas extensíveis, repletas de afiados dentes e que escondiam uma longa e musculada língua negra, que terminava em dois aguçados espigões.
O que se erguia à sua frente não era um Íncubo, mas sim um Chichevache. Os Íncubos, tal como a sua versão feminina, o Súcubo, alimentam-se da energia vital das suas vítimas, colocando-as num transe profundo enquanto lhe sugam lentamente a vida do corpo. Contudo, alguém experiente como William, facilmente seria capaz de quebrar o transe induzido pelo demónio. Porém, um Chichevache era um adversário temível. As criaturas podiam viver milénios e serviam-se da sua língua para sugar a vida e as capacidades às presas. Quantos mais anos viviam, e vidas ceifavam, mais fortes se tornavam. Avaliando o comprimento dos chifres daquele Chichevache, tratava-se de um bem antigo e poderoso.

O Chichevache avançou em força sobre William, obrigando o guerreiro a desviar-se. Aquele ia ser um combate duro…





As Crónicas de Decessus – O Demónio de Wharrom Percy 3/5 - Pedro Pereira


William analisava cuidadosamente o dragão dourado bordado na enorme tapeçaria vermelha. As suas capacidades únicas permitiam-lhe ver cada ponto dado com grande detalhe. Quase que conseguia reconstruir mentalmente o momento em que aquela peça fora criada. Era sem dúvida o trabalho de um mestre artesão, uma peça digna para adornar o salão de um nobre.
– A minha família é detentora de grande parte dos terrenos em torno de Wharrom Percy. A vila tem prosperado graças aos imensos esforços que gerações de Chamberlain têm feito – declarou o Lorde Chamberlain, quebrando a linha de raciocínio do caçador de demónios.
O fidalgo era gordo, careca e ostentava uma espessa barba negra. Vestia umas calças negras e um gibão branco e, em cima, um pelote negro de meias mangas, com uma capa aberta e frisada de cor encarnada. Os trajes que envergava não deixavam qualquer dúvida de que se tratava de um nobre e de que estava habituado a ser tratado como um.
– Estes ataques ao povo são péssimos para os negócios… Os desgraçados até já têm medo de sair à rua!
William batia com os dedos impacientemente no braço do cadeirão onde se encontrava sentado. Se havia algo que o caçador de demónios detestava, era conversa da treta. Perdera já a conta ao tempo a que estava a ouvir os disparates do nobre, sem que este lhe pagasse ou fosse direto ao assunto.
– Imagine o que acontece quando as noticias chegarem aos ouvidos dos comerciantes que por aqui passam! Vou ter um prejuízo enorme! Já me chega os meus trabalhadores não produzirem o mesmo às custas desta situação!
Tentando abstrair-se da enfadonha conversa do nobre, William desviou o olhar e recomeçou a estudar o salão. Junto ao guerreiro, Moonraiser encontrava-se deitado sobre um luxuoso tapete encarnado e entretinha-se a mordiscar-lhe as pontas.
– Como tal, é trabalho da minha família assegurar o bem-estar da população desta vila! Foi a missão do meu pai, do meu avô e de muitos outros Chamberlain antes deles!
William levantou-se e preparou-se para abandonar o ostentoso salão.
– Espere! Onde vai?! Ainda não falámos sobre o demónio! – protestou o nobre.
– Nem vamos falar… Eu não vim aqui para ouvir contar a história da grande família Chamberlain. Estou-me nas tintas para quantos terrenos tem ou para os seus negócios com os comerciantes! Eu vim aqui porque me disseram que tinha um trabalho e que ia ser bem pago…
– Sim, mas é claro que sim! Por favor, deixe-me oferecer-lhe um copo do nosso melhor vinho!
Não querendo perder mais tempo, William dirigiu-se para a porta. Naquele momento a porta abriu-se, permitindo a entrada de um homem de batina.
Ao lado de William, Moonraiser começou a rosnar ao desconhecido.
– Oh, bons olhos o vejam, padre Alexander! Estávamos mesmo à sua espera! Por favor, junte-se a nós!
O padre era mais alto que William, o seu corpo era esguio, dando-lhe um ar frágil. Os seus cabelos loiros e lisos estavam penteados na perfeição. O negro das suas vestes clericais contratava com o tom claro da sua pele.
William sentiu que os olhos azuis do padre o percorreram de alto abaixo. A maioria das pessoas acabava demasiado intimidada pelo seu aspeto, mas o padre não. Havia qualquer coisa de perigoso no religioso. Disso, William estava certo.
– É um prazer conhecê-lo – declarou o padre num tom de voz apático.
William apertou a mão ao padre e voltou a sentar-se sem tirar os olhos do clérigo.
– O padre Alexander tem ajudado a combater o demónio. Ele chegou a Wharram Percy pouco antes de os ataques começarem.
– É um infortúnio o mal que se abateu sobre esta população – declarou o padre, passando com a mão pelos cabelos loiros.
– Já conseguiu identificar o tipo de demónio com que estamos a lidar?
– Infelizmente não. Mas parece ter uma atração especial por mulheres. Ainda não houve uma única vítima masculina. Que as suas almas descansem em paz!
– Já houve vítimas masculinas! Ou está a esquecer-se do que aconteceu à família Percy?
– O que aconteceu?
– O Lorde Brom Percy enviou-me uma mensagem na qual afirmava ter descoberto o covil do demónio. Ele estava a trabalhar connosco para deter a criatura… Apenas tive tempo de informar o padre Alexander de que o Lorde Percy descobrira algo.
– Nunca teve a oportunidade nos contar o que descobriu – continuou o padre. – Infelizmente, nessa mesma noite a mansão dos Percy ardeu. Toda a família morreu… Uma tragédia!
– E que conveniente para o demónio! Se o vosso demónio prefere rabos de saias, muito provavelmente é um Íncubo. Vou até ao que resta da mansão dos Percy ver se descubro algo sobre a criatura.
– Faça como entender melhor – declarou o nobre.
– Mas antes disso, vamos ao que interessa… As minhas quinhentas moedas de ouro.
– Quinhentas moedas?! Quem pensa que é para cobrar semelhante quantia a um povo necessitado?! – protestou o padre.
– Eu não vivo de esmolas, padre. Além disso, se eu estou aqui é porque vocês não conseguem tirar esse cú gordo da cadeira para tratar do assunto…
– Lamento, mas concordo com o padre Alexander. Quinhentas moedas de ouro é uma quantia bastante elevada…
– Bem, nesse caso divirta-se com o seu demónio! Tenho a certeza de que o corajoso Lorde Chamberlain o consegue vencer num combate com a preciosa ajuda do padre…
Mais uma vez, William virou costas ao nobre e preparou-se para sair do salão.
– Espere! – pediu o fidalgo. – Digamos que eu consigo reunir essa quantia… Que garantias tenho de que depois de lhe pagar, não se vai limitar a fugir com o dinheiro?
– Não tem… Mas se quer o demónio morto, vai ter de correr esse risco.
O Lorde Chamberlain aproximou-se do padre e começaram os dois a sussurrar. Por fim, o nobre afastou-se do clérigo e virou-se novamente para William.
– Vai receber metade do pagamento agora e a outra metade quando me trouxer a cabeça do demónio. Veja isto como uma garantia de que o trabalho vai ser feito.
– Muito bem! Temos negócio – declarou William.
O nobre dirigiu-se então à sua secretária e, de uma das gavetas, retirou uma bolsa de pele. De seguida, aproximou-se de William e deu-lhe a bolsa cheia de moedas.
– Metade agora e o resto quando o demónio estiver morto.
O caçador de demónio guardou a bolsa e abandonou a mansão, sempre seguido de perto pelo imponente lobo. Estava na hora de caçar demónios e, se os instintos de William estivessem certos, não se teria de esforçar muito para encontrar a criatura. Ela iria ter consigo…
Continua…





As Crónicas de Decessus – O Demónio de Wharrom Percy 2/5 - Pedro Pereira



 Na manhã seguinte, William levantou-se cedo, como era habitual. O facto de ter uma identidade demoníaca aprisionada no seu corpo, fazia com que o seu organismo recuperasse rapidamente, tanto da fadiga das viagens, como dos golpes que sofria em combates. A sua condição única tornava-o forte e resistente, pelo que as muitas horas de cavalgada do dia anterior, não eram mais do que uma brincadeira de crianças.
                No final da noite anterior, o guerreiro ficara a saber que o homem que o abordara era um dos servos do Lorde Chamberlain, um dos fidalgos da vila. O homem comprometera-se a agendar um encontro com o Lorde nessa manhã, na qual o fidalgo pagaria a William pelos seus serviços.
William tentara retirar algumas informações do homem sobre o tipo de demónio que estava prestes a enfrentar, no entanto, não tivera sucesso. Muitas das descrições que o homem lhe dera, eram imprecisas ou contraditórias. Isto para não falar que era difícil diferenciar o que correspondia à realidade do que era criação da plebe. Os populares, por medo e desconhecimento das criaturas das Trevas, tinham tendência a exagerar nos seus relatos. Um caçador de demónios experimente, sabia que não podia confiar por completo nas histórias do povo, caso contrário, teria de se satisfazer com descrições de criaturas que cuspiam fogo da boca e lançavam raios pelo cú.
A manhã estava cinzenta, e a chuva continuava a cair do céu carregado de nuvens, apesar de já não o fazer com tanta intensidade.
Assim que saiu da estalagem, Moonraiser foi cumprimentá-lo, como se de um cão se tratasse. O lobo cinzento tinha o focinho coberto de sangue seco, pelo que William calculou que alguns dos camponeses tivessem perdido uma ou duas galinhas durante a noite. William afagou a cabeça do animal e seguiu o seu caminho, com o lobo no seu encalço.
Ainda faltavam algumas horas para o suposto encontro com Lorde Chamberlain, pelo que, o caçador de demónios decidiu explorar a vila. Uma das regras básicas no que tocava a caçar, era conhecer o local onde iria decorrer o combate. Decessus era demasiado experiente para saber que estar familiarizado com a região, lhe podia conceder a vantagem num momento critico, ou mesmo salvar a vida.
 Acompanhado por Moonraiser, William estudou Wharrom Percy de uma ponta à outra, enquanto a maioria dos habitantes ainda dormia. A vila era composta praticamente por uma única rua, com casas de ambos os lados. Pelas contas de William, devia haver umas trinta e sete. Atrás de cada casa, existiam os campos de cultivo. Havia ainda uma igreja, e duas mansões, uma das quais certamente pertencia à família Chamberlain. Contudo, foi a outra mansão que chamou a atenção de William.
A enorme residência, claramente pertencente a alguma família da nobreza, fora alvo de um incêndio. A zona norte da mansão fora praticamente reduzida a cinzas, não restando muito mais do que algumas paredes enegrecidas pelo fogo. A zona sul parecia ter sido menos afectada. Apesar de apresentarem um ar instável, as ruínas ainda permitiam reconhecer os traços arquitectónicos da mansão. Do exterior, parecia que algumas das divisões da região sul se mantinham relativamente intactas. Porém, o que era curioso era o facto de as casas adjacentes à zona norte, a mais afectada, se encontrarem incólumes.
William acabou por perder mais alguns segundos a olhar para as ruínas antes de se dirigir para a mansão do Lorde Chamberlain. Começava a fazer-se tarde, e William não gostava de chegar atrasado.
Enquanto atravessava a povoação pela segunda vez, Decessus foi vítima dos olhares curiosos dos habitantes da vila que já tinham iniciado o seu dia de trabalho. A figura sinistra de William e o porte ameaçador de Moonraiser, atraíam a atenção de alguns dos populares.
 Ao chegar à mansão dos nobres, William bateu à porta e ficou a aguardar que algum criado o fosse receber. Não tardou para que um sujeito de bigode e ar empertigado lhe abrisse a porta.
– O Lorde Chamberlain aguarda-o – declarou o criado.
– Aposto que sim!
William preparou-se para avançar, mas o criado barrou-lhe o caminho, apontando de seguida para o lobo.
– Essa criatura não pode entrar!
Como que compreendendo as intenções do criado, Moonraiser mostrou os dentes ao humano e começou a rosnar, fazendo o criado recuar alguns passos atabalhoadamente.
– Tens a certeza de que queres discutir isso com ele? – questionou William apontando para o lobo. – Eu cá não tentava a minha sorte…


Decessus empurrou a porta e avançou pela casa sem o consentimento do criado, sendo seguido de perto pelo imponente lobo.

Continua…





As Crónicas de Decessus – O Demónio de Wharrom Percy 1/5 - Pedro Pereira


As chuvas de Dezembro caíam com grande intensidade na escuridão da noite. Chovia torrencialmente há horas, deixando as estradas e os caminhos completamente alagados, transformando-os em autênticos rios de lama.
Montado no dorso do seu garanhão negro, William tentava proteger-se da chuva com o seu manto preto, o que lhe conferia um ar sinistro na escuridão da noite. Há muito que perdera a conta às horas que cavalgava. Um camponês dera-lhe indicações sobre a existência de uma vila na proximidades, mas era quase impossível enxergar o que quer que fosse naquelas condições.
Ao lado do cavalo, Moonraider, o encorpado lobo cinzento, fiel companheiro de William, estancou. O animal começou a farejar e apontou o focinho para o horizonte.
O rosnar de Moonraider foi o sinal que William procurava. Olhando para o horizonte, conseguiu vislumbrar as ténues luzes que provinham de Wharrom Percy.
– Vem – ordenou William para o lobo, com a sua voz grave e rouca. De seguida, conduziu o garanhão em direção à vila.

As ruas de Wharrom Percy encontravam-se completamente desertas. Nada que não fosse de esperar, tendo em conta o temporal que se fazia sentir e a avançada hora da noite.
Quando finalmente encontrou a pequena estalagem, William desceu do dorso do seu cavalo e prendeu-o junto à entrada.
– Fica.
Obedecendo às ordens de William, Moonraiser soltou um latido de desagrado e sentou-se ao lado do cavalo, com ar pouco satisfeito.
O ambiente no interior da estalagem aparentava estar calmo. Dada a hora da noite, havia apenas meia dúzia de camponeses sentados nas mesas mais próximas da lareira da sala comum. A maioria nem deu pela sua entrada. Estavam demasiado entretidos a esvaziar as suas canecas de hidromel.
William encaminhou-se para o balcão onde se encontrava o estalajadeiro, um homem gordo e com ar mesquinho. Pelo caminho, puxou para trás o capuz do manto, revelando os seus cabelos brancos e olhos amarelos, sinais que denunciavam a sua condição…
– Arranje-me um quarto e traga-me uma caneca de hidromel – declarou William, ao mesmo tempo que deixava cair algumas moedas de prata no balcão.
– É para já, Senhor. Vou preparar o nosso melhor quarto.
William foi então sentar-se numa das mesas livres. Não tardou para que lhe levassem uma caneca cheia, com a bebida dos deuses.
O forasteiro saboreava calmamente a sua bebida, quando um homem moreno e franzino, envergando um manto azul, se sentou a seu lado.
 – O que o trás por estas bandas, meu Senhor? – questionou o homem, num tom de voz pomposo e extremamente irritante. – Não é habitual termos visitantes.
William manteve-se em silêncio, na esperança de que o homem fosse embora. Estava habituado àquela escumalha, sempre há procura de alguém que se oferecesse para pagar umas bebidas, em troco de uns dedos de conversa. Porém, este parecia não querer partir sem a sua resposta.
– Estou apenas de passagem…
– Pensei que tivesse sido atraído pelas mortes. Um caçador de demónios como você…
Aquelas palavras deixaram William em alerta. Se o homem conhecia a sua identidade, isso podia significar que havia gente suficientemente estúpida naquela terriola para o tentar enfrentar. Era a principal desvantagem de ter a “cabeça a prémio”. Porém, William decidiu participar no jogo, antes de começar a pintar o chão de vermelho com a sua espada.
– Eu não sou nenhum caçador de demónios. Além disso, duvido que a Peste Negra possa ser um…
William tomou mais um trago do seu hidromel, com uma atitude de desdém.
– Alguém com a “cabeça a prémio” devia ter mais cuidado com a sua identidade, Decessus…
O homem nem teve tempo para mover um único músculo. Numa fracção de segundo, William retirou uma pequena adaga da manga do manto e, por baixo da mesa, encostou-a à virilha do homem.
O sujeito empalideceu de imediato, ao sentir a lâmina afiada.
– A menos que não tenhas amor à tua pila, sugiro que escolhas a tuas palavras muito cuidadosamente…
– Eu sabia que eras tu! Vi o teu retrato no cartaz! És tão sádico como contam!
– E o tempo está a passar, e eu estou a ficar aborrecido… – declarou William, em tom de ameaça, aumentando a pressão da lâmina.
– Temos um demónio aqui na nossa vila… Ele tem atacado as nossas mulheres e crianças. Só na semana passada morreram quatro pessoas – explicou o homem, apressadamente.
William podia ver as gotas de suor a escorrerem pela face do homem. Não passava de um campónio que gostava de se armar em valente. Se se mantivesse aquele impasse por muito mais tempo, o desgraçado ainda se mijava nas calças.
 – Por favor, precisamos da ajuda de alguém como você!
– As boas ações não enchem o estômago, nem ferram cavalos…
– Nós temos dinheiro! Nós podemos pagar! Juro! Por favor!
            – Nesse caso, começa a falar…
Continua…