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Morte Branca - Liliana Novais


     Era véspera do dia de Todos os Santos, feriado que nos leva aos cemitérios e a honrar pessoas a quem não dávamos importância em vida. Eu estava sentado no sofá de minha casa olhando para o ecrã da televisão sem prestar grande atenção à emissão. Na casa ao lado uma festa do dia das bruxas parecia não ter fim. Malditas importações culturais. Nada daquilo é nacional é apenas uma desculpa para as raparigas se vestirem de prostitutas, e os rapazes sentirem-se viris, sem ninguém se importar com isso. Eles divertem-se com uma ilusão, será que as bruxas virão esta noite e acabarão com esta diversão toda? Ao menos teria descanso.
     Estava a pensar chamar a polícia, quando o chão começou a tremer. A festa parou e os gritos histéricos substituíram a música.
     Eu vivera uns anos em Los Angeles e sabia o que fazer. Abriguei-me debaixo da minha mesa de centro e esperei que o pior passasse. Sabia que na pior das hipóteses demoraria uns minutos.
     O tempo passou e a intensidade aumentou como se algo enorme se aproximasse de nós.
     As raparigas gritavam cada vez mais histéricas.
     - Fujam! Fujam! Que ele vem aí. Salvem-se!
     A curiosidade levou a melhor sobre a prudência e abandonei o meu refúgio para ver o que se passava na rua. Parado à minha porta as pessoas fugiam a correr.
     - Fuja que ele vem aí! - Desatando a correr novamente.
     Antes que eu lhe pudesse perguntar do que fugia, ele desapareceu na multidão aterrada, que corria desordenadamente, a gritar em plenos pulmões. Eu, sem saber o que fazer, continuei a assistir àquele espetáculo como se de um filme se tratasse.
     Os meus pés começaram a elevar-se do chão. No final da rua, vislumbrei, finalmente, do que aquelas pessoas fugiam… Um enorme coelho branco roía uma árvore num quintal. Ele devia ser tão alto como uma casa de dois andares, e o seu apetite voraz, acabaria por consumir tudo à sua passagem. Eu olhava aterrado para aquele monstro, os seus dentes eram enormes fiquei estático por momentos, sustendo a respiração tentando entender o que aquele bicho era e como era possível ele existir
     Juntei-me à multidão assustada. O meu coração batia descompassadamente. De onde teria vindo tal monstro?
     Afastámo-nos dele enquanto ele comia consolado mais um jardim e uma outra árvore. Era a primeira vez que via tal bicho comer madeira. Mas também nunca vira um coelho gigante antes. Eu tremia como varas verdes, custava-me a respirar, sentia um enorme peso sob o meu peito
     - Ouvi dizer que ele comeu um ser-humano. - Comentou um dos homens, entre as dezenas, que se encontrava escondido debaixo de uma ponte comigo -.
     - Os coelhos não comem carne. - Respondeu outro. - Do que eu tenho medo é de ficar esmagado numa das suas gigantescas patas.
     - Eu ouvi a mesma coisa. A mulher de um vizinho meu contou-nos que ele lhe comeu o marido, quando este o tentou enxotar.
     Eu ouvia aqueles relatos, atentamente, e pensava no trabalho do meu pai. Cientista militar, tudo o que ele fazia era secreto e algo me dizia que ele estaria envolvido. O seu animal de estudo preferido era o coelho, devido à sua rápida multiplicação. Imaginava como seria ser comido como se de uma cenoura me tratasse. Ver aquele animal mastigar um ente querido sem poder fazer nada para impedir deve ser uma agonia e dor enorme.
     Pelo tremer do chão sabíamos que o raio do bicho estava novamente em movimento. E aproximava-se rapidamente. Nós não podíamos permanecer ali, assim que ele tentasse transpor a ponte que ligava as duas margens de Vilarejo, ela cederia com o peso. Acabaríamos mortos naquele lugar sob os escombros.
     A parte onde o coelho se pavoneava estava completamente destruída e parecia que, quanto mais ele devorava, maior se tornava.
     A população não sabia o que fazer. O presidente da junta tentava, a todo o custo, entrar em contacto com a Protecção Cívil. Contudo os postes das linhas fixas haviam sido devoradas e as antenas das redes móveis atiradas ao chão.
     Sem saber o que fazer, os autocarros da junta e as carreiras, esperavam pelos habitantes, tentando levar todos para fora da cidade. Estes entravam, rapidamente, atropelando-se para encontrarem uma vaga, um pequeno espaço onde coubessem nos já atolados veículos. Partiam nestes sentados, em pé. Mas, estes salva-vidas não levariam toda a população, alguns seriam deixados para trás à sua sorte. Cada um tentava salvar-se sem olhar a quem ultrapassava.
     Eu fui um dos que fiquei para trás, sem ter espaço para me salvar. Sabia que iria morrer ali.
     Estava numa pequena colina e vi o bicho atravessar o rio com um salto apenas. Nada o conseguiria parar. Os poucos elementos da Guarda Nacional Republicana que estavam aquartelados na nossa aldeia, disparam contra ele, tentando detê-lo. Para meu espanto, e horror, estes foram devorados pelo esfaimado coelho.
     Era o meu fim. Em breve o animal estaria ali e os seus olhos vermelhos seriam a última coisa que veria. Aceitei o meu fim e sem medo dirigi-me na sua direção, de encontro a morte branca que me aguardava faminta.


Chekhov's gun - Carlos Silva

     Todos temos aquele conhecido especial de quem gostaríamos de ser amigos. 
     Algures no passado cruzámo-nos com essa pessoa magnetizante cujas atitudes, personalidade e acções invejamos não serem as nossas. Esse conhecido surge, muitas das vezes, num momento de viragem da nossa vida e marca-nos profundamente e de um modo tão intenso que pensamos que a amizade irá durar para sempre. Depois, começamos a afastar-nos desse conhecido, indolor e gradualmente, até a ligação se desvanecer numa reminiscência de empatia. Tudo o que fica são as memórias e encontros fugazes marcados pelo acaso onde nos recordamos porque o admiramos e admitimos que já não há sintonia dos dois espíritos. 
     É curioso como se mantém contacto com alguém de outro país, mas não se é capaz com alguém da mesma cidade. Deve ser uma questão de destino. 
     O meu conhecido especial desapareceu da minha vida no último dia de aulas do secundário e só o voltei a ver hoje quando cheguei a casa e sentei-me ao computador para consultar os emails. Só tinha uma mensagem, a dele. Era um vídeo. Abri-o e expandi de modo a ocupar todo o monitor. Sorri por ainda o reconhecer, mesmo apesar da barba que lhe cobria o rosto, os olhos cansados e o corte de cabelo desalinhado. Ele contorcia-se na cadeira, mas não dizia nada, mexendo algo nas mãos que não conseguia ver por estar fora do ângulo da câmara. O meu conhecido especial engoliu em seco e disse a mensagem que tinha para mim.- Olá Claúdia, tudo bem? Espero que sim. – O sorriso dele era nervoso, tão depressa se formando como se desfazendo. – Desculpa não te ter dito nada estes anos que passaram. Talvez tenha sido melhor assim. Preciso de falar com alguém distante e próximo ao mesmo tempo. Percebes? – Fez uma pausa, como se esperasse uma resposta da amiga. – Preciso de dizer em voz alta. Preciso de mostrar que não estou louco. Nem que seja a mim próprio, confiando que alguém está aí desse lado a ver isto. Por onde começar? Não é grande história. Acabei o curso de fotografia. Trabalho agora em regime freelancer e estou a tentar construir um portefólio de jeito. Aventurei-me pelo urbex, em busca de imagens que o completassem. Em vez disso, encontrei isto. – Disse ele, revelando o objecto que segurava entre as mãos: um revólver. Dele pendia uma etiqueta que o meu amigo especial fez questão de mostrar na câmara. Dizia “Chekhov's gun” – Sabes o que isto quer dizer, não sabes? Eu não quero usá-la. Não quero. Não sou uma pessoa violenta. Tu sabes disso. Não seria capaz de magoar ninguém, nem que fosse para salvar a minha vida. Lembras-te daquele passarinho caído do ninho que encontrámos uma vez? Nem de um gesto de misericórdia sou capaz. Mas tu sabes… Se ela aparece, tem de ser usada. Não consigo pensar noutra coisa. Não consigo sonhar noutra coisa. Estou a ficar obcecado com isto. Quando é que é a próxima cena? E se eu não a quiser usar quando chegar a altura? Não sou capaz…Não sou capaz, nem que fosse para me salvar. 
     O meu conhecido especial chorava e fungava, sorvendo cada ponto final com um bocado de ranho. As mãos tremiam-lhe, fazendo o cano da arma balançar freneticamente na minha direcção. Sem aviso, encostou o cano debaixo do queixo e disse: 
     - Não vou ser capaz. Não vou… Ela tem de ser usada…Não sou capaz… 
     Um jacto de sangue e massa pastosa cobriu a parede atrás dele e a cabeça caiu sobre o teclado. Abafei o meu grito com as mãos e deixei-me escorregar, atónita, pela cadeira até me sentar no chão. Não queria crer no que acabara de ver. Que história era aquela? Não fazia sentido nenhum. 
     Chorei a noite toda, incapaz de tomar uma acção em concreto. Chorei quando me telefonaram de madrugada a informar que o meu conhecido especial se tinha suicidado. Talvez por não conseguir emprego há quase um ano. Eu chorei em resposta. Ninguém precisava de saber que ele havia morrido por causa de uma metáfora. 
     Só mais tarde, quando as lágrimas secaram, é que o terror veio. 
     Se ele estava morto, quem me enviou o vídeo?


A Menina que não gostava de Doces - Carina Portugal


Os risos saltavam pelas ruas, enquanto as crianças corriam de porta em porta. De chapéu pontiagudo no topo da cabeça, um pouco de banda, vestido negro cheio de remendos e um gato inerte pendurado no ombro, Emma correu até à casa mais próxima. A mão que segurava o saco enfeitado com morcegos agarrava também o chapéu de bruxa para não o perder pelo caminho.
Por fim, parou junto a uma grande casa, cujo jardim fora repleto de abóboras de expressões luminosas. Fez-lhes um aceno quando parou no alpendre para ganhar fôlego, apoiada no cabo da vassoura. Todas elas eram suas amigas e, de vez em quando, tinham conversas muito entusiásticas.
Respirou fundo para ganhar coragem, e só depois bateu à porta. Esperou nervosamente, sem que as bochechas perdessem o rubor. Era a primeira vez que a mãe a deixava ir festejar o Halloween pelas ruas.
Com um chiar arrastado, a porta abriu-se, e uma senhora velhota sorriu-lhe.
‒ Doce ou travessura?! ‒ perguntou Emma, meia atrapalhada.
‒ Já não estou nova para travessuras, minha querida, por isso vão ser doces. Onde estão os teus amigos?
‒ Estão no seu jardim, e no meu ombro, e na minha cabeça... – respondeu Emma enquanto, desiludida, observava a velhota a vasculhar dentro do avental. Tirou de lá uma mão cheia de rebuçados, deixando-os cair no saco. Emma recolheu-o e mirou o interior. ‒ Mas isto faz mal aos dentes...
A senhora ficou estupefacta.
‒ Pois faz, e é por isso que tens de os lavar muito bem.
A menina abanou a cabeça, muito céptica.
‒ Obrigada ‒ disse, antes de descer os três degraus, ainda a mirar o interior do saco. Aquilo não estava nada certo.
Quando ouviu a porta a fechar-se atrás de si, meteu a mão dentro do saco e tirou os doces todos, atirando-os às abóboras. Uma delas deu um salto súbito para apanhar um bombom no ar, fechando a boca  recortada num sorriso. Enquanto mastigava a guloseima, os olhos saltavam faíscas de contentamento.
‒ Bom proveito – desejou Emma, antes de ir visitar a próxima casa. Se lhe voltassem a dar doces, teria de tomar medidas drásticas.
Quando bateu à porta, recebeu uma resposta tão imediata que a fez dar um salto.
“Não mora aqui ninguém! Vão-se embora pirralhos do demónio!”
Emma abriu muito os olhos.
‒ Ouviste, Tchaikovsky? – mirou o gato pendurado seu ombro. – Esta casa está assombrada. Não te preocupes, espectro do outro mundo! Não te chateamos mais! Vai ter com os teus amigos ao cemitério, ouvi dizer que estão a fazer por lá um banquete à base de almas de rábano, cenoura e alface. Claro que é um banquete vegetariano – comentou, ajeitando de novo o chapéu. – Se não gostares de almas de vegetais, podes sempre socializar. Bem, feliz dia das pessoas como eu!
Enquanto ela se ia embora com um sorriso nos lábios, uma das cortinas da casa moveu-se e um homem espreitou-a, de cenho franzido.
“As crianças de hoje em dia dizem com cada coisa…” pensou para si, antes de voltar para o seu comando da consola, acabando por descobrir que o seu personagem estava a ser devorado por meia dúzia de zombies.
Emma aventurou-se então por mais quatro ou cinco casas, ficando cada vez mais desolada. Quando, ao chegar à sétima casa, lhe ofereceram um monte de chocolates em forma de morcego, as suas bochechas coraram muito de irritação.
‒ Vou transformar-vos todos em sapos! – declarou. – Alguém tem de deter esta maldição dos doces!
A senhora que lhe deu os morcegos limitou-se a rir, achando a bruxinha muito engraçada, antes de lhe fechar a porta na cara.
‒ Viste, Arquimedes? A senhora má não acreditou!
Como resposta, ouviu-se um coaxar vindo de dentro do chapéu.
Num passo de corrida, Emma saltou os degraus do alpendre e precipitou-se para a rua cheia de mascarados. Parou só uma ou duas vezes, para ganhar fôlego, quando a respiração lhe picava os pulmões. Depois, enveredou por uma rua mais escura, sempre a subir, ladeada de árvores que lhe tentavam roubar o chapéu ao esticar os ramos mais finos e quase desnudos.
‒ Quietos – ordenou a menina, dando-lhes com a vassoura.
Com a advertência, os ramos retraíram-se um pouco.
Cerca de quinze minutos tinham passado, quando Emma alcançou os portões escuros do cemitério. Ao pé dela, lembravam enormes gigantes de ferro, austeros.
Empurrando-os ligeiramente, a menina esgueirou-se através da fresta criada. Passou por reuniões entre esqueletos e corpos já semi-comidos pelos vermes; pela tal festa vegetariana de almas do outro mundo, e por um bêbedo que, tal como ela, achava aquelas aparições perfeitamente normais.
Escolheu uma campa de laje tumular larga, e reuniu alguns gravetos que dispôs estrategicamente, de tal forma que formavam um pentagrama.
De expressão muito séria, Emma arregaçou as mangas e estendeu ambas as mãos à sua frente.
‒ Arde – ordenou com firmeza. Um fio de fumo elevou-se da madeira, mas não mais do que isso. – Eu disse ARDE!
Com um estalido de aviso, os ramos inflamaram-se… para se apagarem três segundos depois. Emma insuflou as bochechas.
‒ Tchaikovsky! Porque é que os ramos não me obedecem?
No seu ombro, o gato que estivera inerte durante todo aquele tempo, ergueu a cabeça e mirou-a. Piscou os olhos amarelos de brilho perspicaz, que pareciam esconder enigmas de outro mundo.
‒ Miau…
Emma franziu as sobrancelhas.
‒ Não fales gatês, por favor.
Um rosnar leve e um tossicar fizeram o gato estremecer e levar uma pata à boca, para disfarçar os ruídos.
‒ As palavras da menina Emma carecem de sensibilidade. A aura que habita o símbolo precisa de um tom mais… carinhoso – explicou.
‒ É isso mesmo, meu! – Um esqueleto desengonçado aproximou-se deles, de cigarro preso entre os dentes amarelos. Levou uma mão ao peito descarnado. – O coração que não tem palpita qual refém do jugo do sentir.
Emma lançou-lhe uma mirada de lado e não comentou. Só lhe calhavam malucos na rifa. Respirou fundo para serenar um pouco, antes de voltar a esticar os braços.
‒ Podias arder, por favor, querido pentagramazinho?
Nada aconteceu durante longos segundos em que só se ouviam as conversas dos convivas que por ali se espalhavam. Até que cada um dos ramos se tornou incandescente, fazendo a madeira estalar na noite. Cinco línguas de fogo ergueram-se de cada uma das pontas do pentagrama, e enrolaram-se sobre si como serpentes, apertando-se até se fundirem numa só labareda.
Com um sorriso de contentamento, Emma tirou o chapéu, descobrindo o pequeno sapo que repousava sobre os seus cabelos que, à luz do fogo, pareciam ainda mais ruivos. O esqueleto tirou-lhe o chapéu da mão e pô-lo sobre o próprio crânio sujo de terra, sem que a criança contestasse.
Cuidadosamente, Emma segurou no sapo e estendeu-o à sua frente.
‒ É a tua vez, Arquimedes. – Tossicou para afinar a voz, antes de começar a recitar:

Ossos de morcego negro,
Sangue de salamandra pantanal,
Vísceras do morto que desenterro,
Escondido no meu quintal,
Inspirem-se neste sapo
Para esta noite ser a tal
Em que os adultos dos doces
Se transformam num igual!

As chamas cresceram numa explosão de luz e estenderam duas línguas compridas e serpenteantes até Arquimedes que observava o feitiço, de olhos esbugalhados. Emma impediu que ele fugisse, segurando-o muito bem entre as mãos. O fogo examinou-lhe o corpo húmido, sem o queimar, e depois recuou ao pentagrama, acabando por se extinguir sem mais delongas. O fumo que se elevava dos gravetos carbonizados era tudo o que restava do feitiço executado.
‒ Bem, problema resolvido, já não há distribuição massiva de doces – declarou Emma, toda contente, voltando a pôr o sapo em cima da cabeça. – Dá-me o chapéu.
Lançou um olhar ao esqueleto que se encostara a uma pedra tumular alta.
‒ Qual chapéu? – perguntou ele, fazendo-se de desentendido, enquanto o ajeitava. – Bem, tenham uma boa noite.
Afastou-se a correr de forma desengonçada, sem mais palavras, levando na cabeça o que não era dele.
‒ Hey, ladrão! – exclamou Emma, correndo atrás dele. Numa mão segurava Arquimedes para que ele não caísse, na outra empunhava a vassoura, tentando espancar o esqueleto com ela.
Enquanto isso, lá em baixo na vila, sempre que as crianças batiam à porta de alguma casa escutava-se uma nova sinfonia: o coaxar de inúmeros de sapos.


A noite de todas as sombras - Sara Farinha


Em cada novo dia adensa-se o cinzento dos céus, menos horas de luz e escasseia a claridade. Faltam as horas brilhantes, o calor abrasivo e os humores ligeiros. Carrega o espírito dos que se protegem da intempérie. Na noite de todas as sombras qualquer luz é esperança.

Um sopro de ar frio invadiu o escritório e Alina tremeu. Acomodada na poltrona verde, equilibrava um livro aberto nos joelhos, com as faces abrasadas pelo fogo vivo da lareira. Ainda assim, sentia nas costas a humidade incrustada nas paredes. Entalou a manta branca de lã entre os rins e o veludo cor de mofo criando uma nova barreira ao frio das paredes. Passou as costas da mão pela face, secando a lágrima que escorria, e voltou à página.
Da madeira soavam estalidos secos que ecoavam pela divisão, arrulhos indistintos compunham uma estranha melodia que a despertava do seu deambulo mental. Uma lamúria longínqua, seguida dum estrondo, impeliram Alina à janela.
Dezenas de pessoas rumavam de porta em porta, acompanhando grupos de crianças animadas pelos trajes e pelas recompensas. Um ritual banal… tão impossível.
Uma corrente de ar gelado percorreu-lhe o torso, abanando-a com violência. O calor da braseira nada significava para o frio que se adensava… Nem o calor a acompanhava. Os seus punhos enrolaram-se nos antebraços, espetando-se nas costelas salientes. Absorveu a imagem das crianças de todos os tamanhos até as lágrimas formarem uma barreira desfocada.
Disfarçado, o choro convulsivo de um bebé misturava-se no riso histérico das crianças. Sacudindo o curto cabelo negro, Alina fechou os sentidos ao mundo. Repetiu a litania que a trouxera para o lado dos vivos, tentando apaziguar o ardor que lhe invadia os pulmões pelas narinas.
Uma palma gelada pousou nas suas costas arrancando-lhe um tremor e uma inspiração violenta. Virou-se, nada encontrando atrás de si.
Por baixo da manga da camisola de malha, os pêlos do antebraço mexeram-se, provocando uma miríade de sensações. Sacudiu o braço e voltou a entalá-lo junto ao peito. Expirou profundamente, a névoa opaca pairando na frente do seu rosto.
Limpou as lágrimas que lhe gelavam o rosto e deixou-se cair sobre a poltrona de veludo verde, frente à réstia de calor.
Enrolou as pernas por baixo de si, cobriu-as com a manta e acariciou o livro contra o peito. Nos seus ouvidos, o choro sofrido da criança crescia, sons agudos entrecortados que ecoavam pelas divisões. Alina tapou os ouvidos com as mãos, apertou as pálpebras e murmurou com fervor, sendo imobilizada por um arrastado toque gélido na sua face.
Num pico de adrenalina levantou-se da poltrona e precipitou-se sobre o calor da lareira. Tropeçou na manta em que se enrolara e, tombando sobre o tapete, arrastou-o atrás de si, até chegar ao fogo. Aqueceu o corpo ignorando as picadas na pele, de olhos muito abertos vigiou a divisão, acompanhando o incessante ruído infantil.
Tecidos roçaram ritmicamente, deixando-a atenta à fricção dos panos. O apertão de dentes num dos seus mamilos fê-la gritar e proteger os seios com as mãos. Arrastou-se pelo chão, raspando as costas na parede. O choro esfomeado ecoou pela casa enquanto uma corrente de ar ártico lhe cobria a cara.
Contida por tecidos, de costas pregadas no estuque e com lacrimosos olhos negros, Alina descobriu o calor. Devorada por brilhantes chamas azuladas, estava pronta para enfrentar o frio invasor. Pronta para alimentar o nado-morto que a reclamava.


Se uma árvore cai na floresta… - Vitor Frazão


A floresta abafava-lhe os guinchos de terror e os protestos desesperados, enquanto esperneava sobre as folhas secas. As lágrimas escorriam o negro do eyeliner para o verde da pele tingida da Noiva de Frankenstein, iluminada pela Lua Cheia.   
- Segura-a porra! – comandou o engravatado, que usava uma máscara de Presidente Clinton. 
- Estou a tentar! – disse o rapaz vestido de zombie. – Meu, se calhar não devíamos fazer isto… E se ela fala?
- Ela não vai falar – garantiu Clinton, sacando de uma navalha de ponta e mola. Intimidada pela lâmina, a vítima parou de debater-se e tentou conter o choro. – Se sabe o que é bom vai ficar caladinha. Vai ser o nosso segredinho, não é, Noiva? – Sorrindo debaixo da máscara sussurrou-lhe ao ouvido, passando a parte romba da lâmina pelo decote. – A nossa pequena travessura de Halloween.
- Por favor, não – implorou, lavada em lágrimas e ainda lutando para o afastar, embora o medo da faca a impedisse de o fazer com muito vigor.
- Chiuu, quieta – ordenou, puxando o vestido e usando a lâmina para o desfazer numa questão de segundos. – Olha para ela, mal pode esperar.
- Vê se te despachas! – atirou um terceiro atacante, vestido de palhaço, mal podendo esperar pela sua vez, ao ver a lâmina percorrer inofensivamente o corpo nu. O largo sorriso pintado pela maquilhagem e brilho sádico dos olhos tornaram-se ainda mais horripilantes à luz do cigarro morrente.
O som metálico do cinto de Clinton a ser desapertado ecoou pela noite, por entre o choro estrangulado, enquanto Palhaço apagava a beata no tronco do freixo atrás de si, apressando-se a procurar outro paivante nas roupas coloridas. Tão ocupado estava em levar o filtro à boca e a contemplar o espectáculo, focado na expressão aterrorizada da Noiva, que não fez caso do discreto assobio de advertência que lhe ecoou na mente, nem viu um olho verde-claro surgir no tronco do freixo.
A tampa do Zippo estalou para trás e o rosto disformemente maquilhado foi iluminado pela chama, que se apagou de repente, soprada por uma rajada inesperada, antes de acender o cigarro. O macabro palhaço nem teve tempo de protestar, pois foi de imediato agarrado na boca e cintura, por mãos castanhas, enrugadas e ásperas, sendo puxado para trás, contra o freixo. Batendo no tronco não sofreu o impacto duro da madeira, mas antes algo pastoso que o tragou para as entranhas da árvore. Estrebuchado como um desalmado sentiu a madeira em redor voltar a enrijecer, comprimindo-o à medida que se afundava.
- O que?... – protestou Zombie, pondo-se de pé de um salto e fazendo Clinton voltar-se para trás. Num piscar de olhos a única coisa que sobrou da intensa luta do companheiro foi um freixo ensanguentado, de onde emergiam duas pernas sem vida, ornadas com grandes sapatos vermelhos.
Junto ao tronco, onde o sangue corria espesso e negro, estava uma figura magra e alta, vagamente feminina, parecendo surgir detrás da árvore, quando na verdade vinha de dentro dela. O luar iluminou uma tatuagem composta por nós intercruzados ao longo de toda a pele castanha e enrugada. Erguendo a cabeça, revelou um par de olhos verde-claros, por entre o emaranhado de cabelos castanhos rebeldes, cobertos com folhas mortas.
Assustado, sem entender bem o que se passava, Clinton agiu por instinto, atirando-se de navalha em punho para a figura que caminhava para ele. A melíade nem hesitou, agarrou-lhe a mão toda e esmagou-a no meio da sua, tornando-a num molhe ensanguentado de dedos partidos. O infeliz ainda não tinha parado de gritar quando ela lhe pisou o joelho, partindo-lhe a perna como um ramo seco.
Aterrorizado, enquanto a Noiva se encolhia, procurando cobrir-se desajeitadamente com o vestido rasgado, Zombie virou as costas e tentou fugir, só que tropeçou numa raiz, que logo lhe rodeou o tornozelo, prendendo-o ao solo. Foi obrigado a ver enquanto uma choramingas versão do seu amigo era agarrado pela ninfa arbórea e uma vara emergia do solo, empalando-o. Clinton contorceu-se com todas as forças, mas nada pôde fazer à medida que o pau entrava pelo ânus, fazendo o caminho pelo interior e centro do corpo, evitando os órgãos vitais, e emergia pela boca, altura em que começou a desenvolver ramos e folhas, até se converter num forte, embora delgado, freixo de copa frondosa.
Terminada a árvore revestida com um humano moribundo, a criatura voltou-se para Zombie.
- Não! Não, não, não… Por favor – implorou, puxando pela raiz que o prendia com toda a força e depois esgravatando o solo tentando rastejar para longe, à medida que a ninfa se aproximava, lentamente. – Eu não queria. Foram ele que me obrigaram. Peço desculpa. Juro que não volto a… Espera, por favor. – Ela estava sobre ele. Raízes erguiam-se da terra húmida, enrolando-se aos membros e prendendo-o ao solo. – Eu não conto a ninguém. Prometo! Guardo segredo!
Centenas de finas varas penetraram todas as partes do corpo, excepto a cabeça, evitando pontos vitais. A dor foi tão intensa que ele nem conseguiu gritar ou sequer reagir quando a melíade lhe levou a mão à cara, perfurando-lhe os olhos e arrancando-lhe a fronte do crânio.
Mais calma, largou os fragmentos ensanguentado do rosto no solo da floresta, fazendo as varas dentro de Zombie expandirem-se, unirem-se em centenas de ramificações e puxarem-no para debaixo de terra.
- Obrigada – agradeceu Noiva, lavada em lágrimas, de joelhos no chão, abraçando-se como se quisesse proteger-se do mundo. Estava aterrorizada, mas satisfeita por aquela espécie de anjo vingativo ter intervindo, dando àqueles filhos da puta o castigo que mereciam. – Muito obrigada.
À volta de ambas, as provas da luta desapareciam. Palhaço e todos os seus restos eram absorvidos pelo freixo original e a árvore que brotara em segundo regressava ao solo, com Clinton ainda vivo nela.
Noiva ergueu os olhos para a figura que tapava o luar, vendo-a debruçar-se e agarrar-lhe em ambos os lados da cabeça, com carinho. Os seus olhos verdes eram meigos e tranquilizantes, como uma brisa primaveril, reconfortantes como um abraço materno.
Uma única palavra soou telepaticamente na mente da humana.
“Desculpa.”
Noiva morreu instantaneamente e o seu corpo foi tragado com delicadeza pelo solo da floresta. Não tivera qualquer prazer em matá-la e, de regresso ao freixo, talvez até soltasse uma ou duas lágrimas por a falta de paciência com os profanadores ter custado a vida a uma inocente, todavia, o segredo da sua existência precisava de ser mantido.       


Bruxaria - Pedro Pereira


Na sala mal iluminada, a fraca luz das candeias colocadas no interior das abóboras projetava sombras de contornos estranhos nas paredes, dando um ar um tanto ou quanto bizarro ao local.
Nélia acendeu as velas em redor do velho tabuleiro de Ouija e colocou o copo no centro.
– Está tudo pronto – declarou.
– Têm a certeza de que querem fazer isto? – questionou Luciana com o nervosismo latente na voz.
– O que se passa Lú? Estás com medo que os teus pais descubram? – perguntou Rita.
– Deixa-te de coisas! Não sejas cortes! – protestou Carina.
– Não te preocupes, Lú. Isto é completamente seguro – disse Nélia tentado conter o riso. Luciana sempre fora a mais medrosa do grupo. – Coloquem todas um dedo no copo.
As jovens seguiram as instruções da amiga. Luciana hesitou um pouco antes de imitar as companheiras.
– E agora? – questionou Carina.
– Agora vamos ver se há espíritos por aqui… – explicou Nélia. – Está algum espírito presente que queira contactar connosco?
Lentamente, o copo começou a mover-se. O som do vidro a deslizar no tabuleiro de madeira preencheu o silêncio da sala. Luciana não pôde deixar de sentir um aperto na garanta quando o copo parou em cima do “sim” no tabuleiro.
– Fixe! – comentou Rita.
– Quem vai morrer hoje? – perguntou Nélia, enquanto trocava olhares comprometidos com Rita e Carina.
O copo moveu-se mais uma vez no tabuleiro, deslocando-se entre as várias letras enquanto a mensagem se formava.
Uma gota de suor escorreu pelo rosto de Luciana. Com a respiração acelerada, a jovem sentia o corpo a tremer cada vez que o copo se movimentava.
Lentamente o copo deslocou-se para a letra L.
O aperto que Luciana sentia na garganta ficou mais forte, e a sala pareceu ficar subitamente muito mais quente, porém ela sentia frio.
Copo estava novamente em movimento. O som do arranhar na madeira parecia agora aterrador. Avançou de seguida para o U.
– Lú – sussurrou Carina.
Luciana deixou escapar um grito histérico e largou o copo, afastando-se do tabuleiro.
As amigas desataram a rir enquanto Luciana olhava para elas com um ar pálido e assustado.
– Não teve piada! Não teve piada nenhuma!
Os protestos da amiga serviram apenas aumentar o riso das adolescentes. Rita já sentia as lágrimas a virem-lhe aos olhos de tanto rir.
As risadas foram substituídas por gritos quando uma força invisível atirou Carina pelo ar, lançando-a contra uma parede.
Atordoada pela pancada, a jovem levantou-se com algum esforço, mas foi de imediato atingida por uma força invisível que a prendeu contra a parede. Sem perceber o que se passava, Carina gritou, vítima de uma dor lancinante nas têmporas. Por entre os berros de dor, um líquido espesso e morno começou a escorrer-lhe pelo rosto. Incapaz de se mover, só se apercebeu que era sangue quando lhe alcançou os lábios.
Formou-se uma linha de sangue entre as têmporas de Carina, circundando-lhe por completo a cabeça. Lentamente surgiu uma terceira linha que dividia o crânio em dois na vertical, fazendo deslizar vagarosamente as partes do crânio acima das têmporas, colocando a massa encefálica exposta. Os gritos de dor de Carina eram agonizantes, confundindo-se apenas com os gritos de horror das amigas, que em pânico tentaram fugir da sala.
O velho bengaleiro de madeira sobrevoou a sala em direção às jovens em fuga, trespassando Luciana no peito, que caiu ao chão com espasmos de dor enquanto dava o seu último fôlego.
Nélia e Rita correram para a porta do apartamento, enquanto os seus gritos de aflição preenchiam a casa.
– Está trancada! – exclamou Nélia em pânico.
Num dos cantos da sala, Carina deixava escapar os seus últimos gemidos de dor, antes de se entregar à morte.
– Eu vou morrer! – choramingava Rita por entre as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.
– Pois vais, pequenina – respondeu Nélia.
Nélia enterrou as unhas abaixo das costelas de Rita, que a olhava agora com uma expressão de pavor e descrença no rosto.
Remexendo a mão, Nélia puxou o braço para trás e arrancou o coração de Rita, cujo corpo caiu inerte no chão.
Com calma, Nélia levou o coração aos lábios e lambeu o sangue que o cobria. Olhando para o coração sorriu. Fora tudo tão fácil…
Movendo-se com determinação por entre os corpos, pegou numa pequena caixa de metal escondida por baixo da mesa e colocou o coração no seu interior. De seguida, aproximou-se do corpo de Carina, de onde cuidadosamente retirou a massa encefálica também para o interior da caixa. Por fim, dirigiu-se para junto do sofá encarnado, onde jazia o corpo de Luciana e com as unhas, arrancou os olhos azuis da fronte sem vida.
Nélia guardou os seus preciosos bens no seu pequeno cofre de metal, pegou no seu tabuleiro de Ouija e abandonou o apartamento. A bruxa tinha reunido os últimos ingredientes para a sua poção da juventude. Agora iria conseguir manter aquele aspeto jovem por mais algumas décadas…


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