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7 Virtudes
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Carina Portugal
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Fantasy and Co.
Corpo, Alma e Coração (caridade) – Carina Portugal
O ribombar de um trovão tomou os céus e a terra, e a página voltou-se por si só. Também esta causou um estrondo que me fez estremecer, o mesmo que faria o bater de pedra contra pedra. No entanto, o livro era feito com pouco mais do que papel.
Engoli em seco, ao ver um traço de luz percorrer os arabescos que nunca aprendera a ler. Retorcia-lhes a tinta, esmagava-os, mutava-os a seu belo prazer, exibindo crueldade. Dentro da minha cabeça, as letras gritavam de dor e pânico, desejando saltar do papel enquanto se contorciam. Ou seria só um reflexo do ribombar do trovão?
Quando o traço atingiu o fim da última linha, outro estrondo abalou o Templo da Vida, ameaçando a segurança das colunas de suporte. As tochas que cercavam a sala extinguiram-se em simultâneo. Fiquei sem enxergar por segundos, até os olhos se habituarem ao luar que entrava pelos recortes do tecto, criando todo um jogo de luz e sombras.
O solo oscilou sob os meus pés. Os vermes que se escondiam dos olhares dos predadores guincharam, apesar de não terem voz, e fugiram dos interstícios que os ameaçavam esmagar nas suas próprias casas. Com um impulso de vida imprevisto, nasceram à superfície, por entre as lajes carcomidas pelo tempo, qual plantas daninhas. Um desses bichos emergiu por entre os meus dedos dos pés. Saltei e recuei vários passos, sem largar o livro. E outra página voltou-se.
Do que supus serem as cabeças dos vermes, ramificaram-se múltiplos membros que se alongaram numa altura acima da cintura de qualquer humano de estatura média. Ninguém os via, porém estavam lá, implantados nas extremidades: receptores sensoriais que buscavam alimento, farejando cada partícula de ar para rapidamente absorver as que lhes interessavam. Seguiam o trilho sensorial, sem hesitações. E eu próprio não compreendia como o conseguia perceber.
A última página voltou-se, e o livro encerrou-se com um estrondo que ecoou até nos ossos.
Aos meus olhos pareceu tudo tão lento, mas na verdade não demoraram mais do que um instante de segundo. Os bichos precipitarem-se sobre os sacrifícios. Com rostos que exibiam sorrisos idiotas, fora-lhes roubado o medo, o egoísmo, qualquer instinto de sobrevivência; quase tudo fora arrancado de raiz, deixando para trás somente bondade, generosidade… caridade cega.
Dos membros tentaculares brotaram múltiplas pequenas mandíbulas que perfuraram e se afundaram nos corpos. Os gritos toldaram o ar com a sua intensidade, enquanto as entranhas lhes eram sugadas.
Não podiam fugir, pois tinham sido atados às pedras de sacrifício que pejavam o templo. No entanto, se tivessem essa possibilidade, também não o fariam, porque o único desejo que se lhe implantara na mente ficava honrado em alimentar os Vermes do Mundo com tudo o que tinham.
Não demorou muito até, sobre os altares, sobrarem somente órgãos pulsantes. Um fio muito ténue erguia-se dos corações, ligando-os a uma forma espectral, qual cordão umbilical. Eram almas, ainda ligadas à vida.
Já vira imagens delas, desenhadas em livros antigos, porém nunca acreditara na sua existência. Lembravam alguém que passara por todas as prostrações do mundo. As cavidades oculares vazias eram tão profundas quanto fossas abissais; o fantasma de uma boca semi-aberta mexia-se como quem quer falar; e o que antes fora a pele do corpo repuxava-se, revelando o contorno das costelas através das quais se via o outro lado da sala.
Engoli em seco e dei novamente outro passo à retaguarda. Com o pé descalço, esmaguei parte do corpo de uma daquelas coisas, arrancando-lhe um guincho, não tanto de dor, mas de ultraje. Vários tentáculos voltaram-se para mim, exibindo as mandíbulas das quais pingava sangue. Desperdício. Aqueles vermes malditos desperdiçavam resquícios das vidas que lhes tinham sido oferecidas.
Foi então que o livro estremeceu nas minhas mãos. Os dedos não se mexeram quando tentei largá-lo e, do seu interior, a linha de luz precipitou-se de entre as páginas para a minha mão esquerda, cauterizando a pele enquanto subia pelo interior da manga.
– Larga-me! – ordenei, bracejando compulsivamente. – Sai de mim, demónio!
Por entre o tecido negro da túnica, um fumo impregnado com fedor a pele queimada rodeou-me. Contorci o corpo selvaticamente, ao tentar livrar-me daquilo, acabando por tombar para trás. Quase não senti o impacto, e os gemidos que soltava eram todos devido à queimadura que agora me subia pelo pescoço, trepava para o rosto, e parava mesmo junto ao olho, desvanecendo-se.
Fiquei muito quieto, com os tentáculos debruçados sobre mim. Pareciam aguardar outro sinal, enquanto uma pergunta óbvia me pairava na mente: porque razão não me atacariam, como tinham feito com os outros humanos?
O corpo ardia-me de dor e calor, e o suor começava a manchar-me a roupa. Inspirei e expirei, pensando em cada movimento. Só não pensei no bater do coração, porque o meu facilmente era abafado pelos que, estranhamente, pulsavam ainda sobre os altares.
Levantei-me um pouco a medo, tentando não tocar nos tentáculos que me seguiam os movimentos. Como reflexo da minha deslocação, as almas contorceram-se e levaram as mãos a elas próprias. Crisparam os dedos translúcidos no corpo e começaram a arrancar pedaços de si, num ataque compulsivo. As zonas arrancadas ganhavam uma estranha densidade que as impedia de levitar e caiam, sendo devoradas sem demora.
Quando nada mais havia para arrancar, o cordão que as ligava ao coração desapareceu, e eu estremeci de medo. No meu rosto, a luz renasceu devagar, o calor intensificando-se e entranhando-se na carne.
– Não… tira-a de mim, tira! – gritei, batendo com o livro na cara, esperando que este apagasse a luz, ou a recolhesse no seu conteúdo amaldiçoado.
De nada me valeu. A luz queimou-me o olho e infiltrou-se por detrás do globo ocular, incendiando-me os nervos ópticos num trilho que a levou até ao cérebro. E se eu já pensara sentir uma dor excruciante, nada me preparara para a sensação que me fulminou. Um fogo invisível imolou-me o corpo, consumindo cada órgão vital, cada membro, até me transformar completamente em cinzas, ou quase. Deixei de ver, contudo, do que conseguia sentir, ainda tinha corpo. A consciência comprimia-se num invólucro apertado e a única forma de me mover era rastejando. Por isso rastejei. Escondi-me numa daquelas fendas entre as lajes e procurei um interstício onde me abrigar dos predadores. Era assim que o instinto me comandava. Agora o verme era eu, a aguardar por devorar aqueles que tinham só caridade.
Sob os altares, como reflexo do último movimento da Luz, os corações liquefizeram-se e foram absorvidos pela pedra, numa entrega total de si mesmos ao Mundo.
E eu sorvi esse fertilizante que era vida.
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Carina Portugal
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Fantasy and Co.
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Halloween
A Menina que não gostava de Doces - Carina Portugal
Os risos saltavam pelas ruas, enquanto as crianças corriam de porta em
porta. De chapéu pontiagudo no topo da cabeça, um pouco de banda, vestido negro
cheio de remendos e um gato inerte pendurado no ombro, Emma correu até à casa
mais próxima. A mão que segurava o saco enfeitado com morcegos agarrava também
o chapéu de bruxa para não o perder pelo caminho.
Por fim, parou junto a uma grande casa, cujo jardim fora repleto de
abóboras de expressões luminosas. Fez-lhes um aceno quando parou no alpendre
para ganhar fôlego, apoiada no cabo da vassoura. Todas elas eram suas amigas e,
de vez em quando, tinham conversas muito entusiásticas.
Respirou fundo para ganhar coragem, e só depois bateu à porta. Esperou
nervosamente, sem que as bochechas perdessem o rubor. Era a primeira vez que a
mãe a deixava ir festejar o Halloween pelas ruas.
Com um chiar arrastado, a porta abriu-se, e uma senhora velhota
sorriu-lhe.
‒ Doce ou travessura?! ‒ perguntou Emma, meia atrapalhada.
‒ Já não estou nova para travessuras, minha querida, por isso vão ser
doces. Onde estão os teus amigos?
‒ Estão no seu jardim, e no meu ombro, e na minha cabeça... – respondeu
Emma enquanto, desiludida, observava a velhota a vasculhar dentro do avental.
Tirou de lá uma mão cheia de rebuçados, deixando-os cair no saco. Emma recolheu-o
e mirou o interior. ‒ Mas isto faz mal aos dentes...
A senhora ficou estupefacta.
‒ Pois faz, e é por isso que tens de os lavar muito bem.
A menina abanou a cabeça, muito céptica.
‒ Obrigada ‒ disse, antes de descer os três degraus, ainda a mirar o
interior do saco. Aquilo não estava nada certo.
Quando ouviu a porta a fechar-se atrás de si, meteu a mão dentro do
saco e tirou os doces todos, atirando-os às abóboras. Uma delas deu um salto
súbito para apanhar um bombom no ar, fechando a boca recortada num
sorriso. Enquanto mastigava a guloseima, os olhos saltavam faíscas de
contentamento.
‒ Bom proveito – desejou Emma, antes de ir visitar a próxima casa. Se
lhe voltassem a dar doces, teria de tomar medidas drásticas.
Quando bateu à porta, recebeu uma resposta tão imediata que a fez dar
um salto.
“Não mora aqui ninguém! Vão-se embora pirralhos do demónio!”
Emma abriu muito os olhos.
‒ Ouviste, Tchaikovsky? – mirou o gato pendurado seu ombro. – Esta casa
está assombrada. Não te preocupes, espectro do outro mundo! Não te chateamos
mais! Vai ter com os teus amigos ao cemitério, ouvi dizer que estão a fazer por
lá um banquete à base de almas de rábano, cenoura e alface. Claro que é um
banquete vegetariano – comentou, ajeitando de novo o chapéu. – Se não gostares
de almas de vegetais, podes sempre socializar. Bem, feliz dia das pessoas como
eu!
Enquanto ela se ia embora com um sorriso nos lábios, uma das cortinas
da casa moveu-se e um homem espreitou-a, de cenho franzido.
“As crianças de hoje em dia dizem com cada coisa…” pensou para si,
antes de voltar para o seu comando da consola, acabando por descobrir que o seu
personagem estava a ser devorado por meia dúzia de zombies.
Emma aventurou-se então por mais quatro ou cinco casas, ficando cada
vez mais desolada. Quando, ao chegar à sétima casa, lhe ofereceram um monte de
chocolates em forma de morcego, as suas bochechas coraram muito de irritação.
‒ Vou transformar-vos todos em sapos! – declarou. – Alguém tem de deter
esta maldição dos doces!
A senhora que lhe deu os morcegos limitou-se a rir, achando a bruxinha
muito engraçada, antes de lhe fechar a porta na cara.
‒ Viste, Arquimedes? A senhora má não acreditou!
Como resposta, ouviu-se um coaxar vindo de dentro do chapéu.
Num passo de corrida, Emma saltou os degraus do alpendre e
precipitou-se para a rua cheia de mascarados. Parou só uma ou duas vezes, para
ganhar fôlego, quando a respiração lhe picava os pulmões. Depois, enveredou por
uma rua mais escura, sempre a subir, ladeada de árvores que lhe tentavam roubar
o chapéu ao esticar os ramos mais finos e quase desnudos.
‒ Quietos – ordenou a menina, dando-lhes com a vassoura.
Com a advertência, os ramos retraíram-se um pouco.
Cerca de quinze minutos tinham passado, quando Emma alcançou os portões
escuros do cemitério. Ao pé dela, lembravam enormes gigantes de ferro, austeros.
Empurrando-os ligeiramente, a menina esgueirou-se através da fresta
criada. Passou por reuniões entre esqueletos e corpos já semi-comidos pelos
vermes; pela tal festa vegetariana de almas do outro mundo, e por um bêbedo
que, tal como ela, achava aquelas aparições perfeitamente normais.
Escolheu uma campa de laje tumular larga, e reuniu alguns gravetos que
dispôs estrategicamente, de tal forma que formavam um pentagrama.
De expressão muito séria, Emma arregaçou as mangas e estendeu ambas as
mãos à sua frente.
‒ Arde – ordenou com firmeza. Um fio de fumo elevou-se da madeira, mas
não mais do que isso. – Eu disse ARDE!
Com um estalido de aviso, os ramos inflamaram-se… para se apagarem três
segundos depois. Emma insuflou as bochechas.
‒ Tchaikovsky! Porque é que os ramos não me obedecem?
No seu ombro, o gato que estivera inerte durante todo aquele tempo,
ergueu a cabeça e mirou-a. Piscou os olhos amarelos de brilho perspicaz, que
pareciam esconder enigmas de outro mundo.
‒ Miau…
Emma franziu as sobrancelhas.
‒ Não fales gatês, por favor.
Um rosnar leve e um tossicar fizeram o gato estremecer e levar uma pata
à boca, para disfarçar os ruídos.
‒ As palavras da menina Emma carecem de sensibilidade. A aura que
habita o símbolo precisa de um tom mais… carinhoso – explicou.
‒ É isso mesmo, meu! – Um esqueleto desengonçado aproximou-se deles, de
cigarro preso entre os dentes amarelos. Levou uma mão ao peito descarnado. – O coração que não tem palpita qual refém do
jugo do sentir.
Emma lançou-lhe uma mirada de lado e não comentou. Só lhe calhavam
malucos na rifa. Respirou fundo para serenar um pouco, antes de voltar a
esticar os braços.
‒ Podias arder, por favor, querido pentagramazinho?
Nada aconteceu durante longos segundos em que só se ouviam as conversas
dos convivas que por ali se espalhavam. Até que cada um dos ramos se tornou
incandescente, fazendo a madeira estalar na noite. Cinco línguas de fogo
ergueram-se de cada uma das pontas do pentagrama, e enrolaram-se sobre si como
serpentes, apertando-se até se fundirem numa só labareda.
Com um sorriso de contentamento, Emma tirou o chapéu, descobrindo o
pequeno sapo que repousava sobre os seus cabelos que, à luz do fogo, pareciam
ainda mais ruivos. O esqueleto tirou-lhe o chapéu da mão e pô-lo sobre o
próprio crânio sujo de terra, sem que a criança contestasse.
Cuidadosamente, Emma segurou no sapo e estendeu-o à sua frente.
‒ É a tua vez, Arquimedes. – Tossicou para afinar a voz, antes de
começar a recitar:
Ossos de morcego negro,
Sangue de salamandra pantanal,
Vísceras do morto que desenterro,
Escondido no meu quintal,
Inspirem-se neste sapo
Para esta noite ser a tal
Em que os adultos dos doces
Se transformam num igual!
As chamas cresceram numa explosão de luz e estenderam duas línguas
compridas e serpenteantes até Arquimedes que observava o feitiço, de olhos
esbugalhados. Emma impediu que ele fugisse, segurando-o muito bem entre as
mãos. O fogo examinou-lhe o corpo húmido, sem o queimar, e depois recuou ao
pentagrama, acabando por se extinguir sem mais delongas. O fumo que se elevava
dos gravetos carbonizados era tudo o que restava do feitiço executado.
‒ Bem, problema resolvido, já não há distribuição massiva de doces –
declarou Emma, toda contente, voltando a pôr o sapo em cima da cabeça. – Dá-me
o chapéu.
Lançou um olhar ao esqueleto que se encostara a uma pedra tumular alta.
‒ Qual chapéu? – perguntou ele, fazendo-se de desentendido, enquanto o ajeitava.
– Bem, tenham uma boa noite.
Afastou-se a correr de forma desengonçada, sem mais palavras, levando
na cabeça o que não era dele.
‒ Hey, ladrão! – exclamou Emma, correndo atrás dele. Numa mão segurava
Arquimedes para que ele não caísse, na outra empunhava a vassoura, tentando espancar
o esqueleto com ela.
Enquanto isso, lá em baixo na vila, sempre que as crianças batiam à
porta de alguma casa escutava-se uma nova sinfonia: o coaxar de inúmeros de
sapos.



