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Biscoitos da Vida Eterna - Carina Portugal


– para bruxas que querem ser imortais e gordinhas –


Ingredientes:

– Meia dúzia de aventureiros;
– 200 g de mel de urtiga;
– 1 chávena de extracto de mandrágora;
– 4 a 5 ovos de fénix;
– 1kg de farinha de trigo bolorenta;
– 1 colher de chá de fungos pulverizados;
– 1 colher de chá de pó de unhas-de-donzela;
– 1 chávena de sangue de unicórnio;
– Raspa das escamas de um dragão.


Obtenção dos Ingredientes:

Sente-se à porta da sua bonita e acolhedora casa a fazer tricô, enquanto aguarda as presas. Quando algum jovem bem encorpado passar por si, meta conversa, num tom de avozinha, e certifique-se de que é um aventureiro experimentado. Depois de obtida a confirmação, lance-lhe um feitiço de controlo mental. Faça isto com vários, já que alguns podem morrer pelo caminho e convém ter sempre de reserva.

Quando ele estiver sob efeito do feitiço, ordene-lhe que vá roubar mel às colmeias da Bruxa Aurélia, enquanto ela estiver muito distraída a ver “As Tardes da Bruxa Jullie” – ela é famosa pela sua gigantesca plantação de urtigas. Se ele não voltar dentro de um dia, envie outro aventureiro, e assim sucessivamente (o mesmo se aplica com a obtenção de outros ingredientes).

Quando ele voltar, ordene-lhe para tirar da dispensa aquela farinha podre que está lá há séculos e diga-lhe para ir ao quintal arrancar duas mandrágoras e meia dúzia de cogumelos, que o seu reumático não é propício a esse género de tarefa. Ele que pulverize os cogumelos e que esmague as mandrágoras num almofariz, até não mexerem sequer uma raiz, e que as deixe a repousar durante uma semana.

Enquanto isso, envie-o até ao topo da montanha cujo pico toca o céu. Aí, ele encontrará o ninho de uma fénix. Que roube o único ovo existente. Se não houver ovo, ele que vá até ao próximo pico, e assim sucessivamente, até arranjar os cinco.

Para a demora não ser grande, envie um segundo aventureiro para o bosque, em busca de um unicórnio. Ele que o capture, de preferência sem o matar, e recolha uma chávena do seu sangue, ao bater das 12 horas de uma noite de lua cheia.

Quando o vendedor ambulante passar junto da sua casa, compre-lhe um frasco de pó de unhas-de-donzela. É mais prático do que enviar um aventureiro para ir arrancar unhas, até porque, para um homem, a definição de “donzela” pode ser vasta…

Por fim, o ingrediente mais difícil de obter. Envie um dos seus aventureiros em busca de um dragão. Se achar que o seu homem não é suficientemente bom, envie vários – enquanto alguns viram churrasco, e outros são empalados pelos espinhos, um deles há-de conseguir trazer uma escama.

Preparação:

Numa taça grande, junte os ovos de fénix com o mel de urtiga e o sangue de unicórnio e bata bem. Se não tiver força, peça a um aventureiro para bater por si.

Depois, junte o extracto de mandrágora, o pó de unhas-de-donzela e a raspa de escama de dragão, e de seguida adicione os fungos pulverizados e vá juntando a farinha bolorenta aos poucos até ficar consistente para moldar.

Faça pequenas bolas, e pincele com gema de ovo, para posteriormente colocar num tabuleiro untado de azeite e levar ao forno bem quente até os biscoitos ficarem dourados.

Tire-os do forno e deixe-os arrefecer longe do alcance do seu gato. Quando comer o primeiro biscoito, irá começar logo a sentir efeitos de rejuvenescimento. Se os aventureiros ainda estiverem por aí, aproveite e brinque um pouco com eles.

Notas Finais:

– Antes de enviar o aventureiro, verifique se não tem os ingredientes na dispensa.

– Ter cuidado para não desperdiçar muitos aventureiros, porque estes estão em vias de extinção e são uma espécie protegida.

O Canto da Ninfa - Carina Portugal

Inspirou fundo, lançando um olhar à Deusa Lua que crescia nos céus, antes de as pálpebras se fecharem e o seu espírito se preparar para entrar em meditação. 

Sem aviso, uma série de salpicos frios atingiu-lhe o rosto, quebrando-lhe a concentração. Estremeceu e piscou os olhos, enfrentando o luar que se reflectia no Lago Sagrado. As águas ondulavam, perturbadas por algo que o elfo não conseguia ver. Talvez uma pedra, talvez um peixe… olhou em volta, contudo o bosque parecia imperturbável. 

Era ainda demasiado cedo para a maioria dos habitantes acordar. Não havia razão para estar ali mais alguém. 

Suspirou e encolheu os ombros, voltando a fechar os olhos. E, mal o fez, foi novamente atacado por uma onda de salpicos. 

– Hey! – protestou, abrindo os olhos, a tempo de ver desaparecer na água um rosto feminino, enquanto uma gargalhada divertida se diluía no ar. 

Descruzou as pernas e debruçou-se sobre o lago, tentando ver para além do espelho que reflectia um rosto intrigado. Levou a mão à água e tocou na superfície instável. Tão depressa que não lhe deu tempo para se afastar, o rosto voltou a surgir muito perto do seu. Dois braços saíram da água e entrelaçaram-lhe o pescoço, puxando-o. 

O elfo caiu de cabeça dentro das águas profundas. Esbracejou e esperneou para voltar à superfície, em busca de ar, e, quando a cabeça furou a água, lançou um olhar atarantado à sua volta. 

– Quem está aí? – quis saber, ofegando. Afastou o cabelo do rosto, com uma mão. – Isto não é muito simpático de se fazer, sabias? 

Ao seu lado, a corrente sofreu uma ondulação atípica, e as águas redemoinharam, até formarem um corpo delgado, feminino, cujos olhos o espreitaram à superfície, arrependidos. Ele conseguia ver-lhe a silhueta desnuda, através da ondulação do lago, tão perfeita e líquida quanto uma filha das águas poderia ser. 

Não conseguiu evitar um sorriso compreensivo. No final de contas, muitas ninfas viviam solitárias ou perdiam-se na corrente, vogando pelos trilhos incertos da água. Não constava que alguma habitasse as Lágrimas da Deusa, por isso esta deveria ter chegado há pouco tempo. 

– Chamo-me Ilnosianar e sou um dos habitantes de Nelgadir, a terra onde estais – informou, tentando esquecer a frieza que se entranhava no corpo. – Donde vindes e qual o vosso nome? 

A ninfa abriu muito os olhos e abanou a cabeça, enquanto as faces ganhavam um rubor súbito, como se ele lhe tivesse feito uma pergunta indecorosa. Mergulhou e desapareceu, sem lhe permitir dizer mais nada. O elfo piscou os olhos, atordoado com a timidez dela. Chamou-a uma, duas, três vezes, porém ela não voltou a surgir ou sequer a atirar-lhe água. 

Acabou por se içar para terra firme, com um gemido. Depois de relancear o lago uma última vez, afastou-se para o palácio, pensativo. A túnica e as calças deixaram um trilho de pingos de água. 

Todas as noites, Ilnosianar regressava às margens da Deusa. Por vezes encontrava dois olhos a observá-lo, contudo a ninfa não se atrevia a aproximar, como se ele lhe tivesse feito algum mal ao perguntar-lhe o nome. Numa tentativa de se mostrar mais amigável, conversava, apesar de não obter respostas, contava-lhe história, e chegou mesmo a levar uma flauta e tocar para ela. 

Sete noites depois, a ninfa voltou a acercar-se, enquanto ele tocava uma melodia cujo som se harmonizava com o pio esporádico de uma coruja e com o ramalhar nocturno. Apoiou os braços na margem e deixou a cabeça repousar neles, enquanto o observava. Um sorriso de agrado despontou nos lábios do elfo, contudo não interrompeu a melodia, com medo que ela voltasse a fugir. Quando por fim terminou, baixou a flauta e soltou um suspiro satisfeito. A ninfa levantou a cabeça e bateu palmas, entusiasmada. 

– Muito agradecido, bela donzela. Fico feliz por ter sido do vosso agrado. 

A ninfa fez um aceno rápido e impulsionou-se um pouco mais para fora de água, só para lhe chegar ao rosto e lhe depositar um beijo rápido nos lábios, antes de se desfazer em mil gotículas. Espantado, Ilnosianar levou uma mão à boca, onde ficara um resquício de humidade. Um calor breve corou-lhe as bochechas. 

Nessa noite, a ninfa não voltou à superfície, e o jovem príncipe quedou-se a mirar as águas onde se reflectia a Lua Cheia. Sorria para si, com o rosto de um tolo que se enamorara pela curiosidade, timidez e simultâneo atrevimento daquela bela criatura. 

A partir desse dia, a ninfa ganhou coragem para se sentar ao lado dele, sem se importar com a nudez, observando-o e bebendo-lhe as palavras das histórias, sem nunca articular uma sua. 

– Gostava de te ouvir falar – confessou ele. Achara por bem deixar as formalidades de lado. – Poder chamar-te pelo nome. 

Por vezes a pele da ninfa ondulava, instável como a água, e os olhos lembravam pequenas lagoas azuis. Foi o que aconteceu, quando ela levou ambas as mãos à boca e abanou a cabeça. O elfo quase se sentiu a mergulhar nos orbes pesarosos dela. 

– Não volto a insistir – garantiu, desviando a atenção para o mar de estrelas. 

A ninfa mordeu o lábio inferior e, numa decisão súbita, abraçou-o contra o corpo húmido, beijando-lhe o rosto inúmeras vezes, em forma de perdão. O toque dela era tão meigo que Ilnosianar não conseguiu ficar-lhe indiferente. Retribuiu o abraço, esperando que ela não se diluísse e fugisse dos seus braços, e uniu os lábios aos dela, provando a sua doçura e desejando-a para si. 

A filha das águas acabou por se afastar, com um sorriso, e deslizou para dentro da água. Uma pontada de desilusão assaltou-o, porém os braços dela esticaram-se para si, chamando-o. Depois de se despir, Ilnosianar juntou-se à ninfa, deixando-se levar num jogo de carícias fugazes e beijos líquidos, sob o olhar da Deusa, cujo astro minguava no céu. 

* 

Nessa noite, com a chegada da Lua Nova, o luar extinguira-se. Ainda assim Ilnosianar conseguia perscrutar o caminho que o levava até ao lago, apressando-se com a ânsia de enamorado a bater-lhe no peito. Na mão levava três jóias-da-deusa que desabrochavam durante a noite. Viu a sua ninfa, quando estava já perto do lago – esperava-o em terra firme, com um sorriso, e quando o viu correu para ele, abraçando-o. 

Recebeu-a com um espanto mudo. Era a primeira vez que a via completamente fora de água. Abraçou-a com umas das mãos e tomou-lhe os lábios. O corpo da ninfa estava mais quente e menos húmido. 

– Não devias ter abandonado a água. É o teu elemento, pode fazer-te mal estares longe dele. 

– Não me fará mal – murmurou ela, num tom melodioso que lembrava o canto das aves. 

Ilnosianar arregalou os olhos. Ela falara, por fim! E a sua voz era tão bela, tão doce, tão nítida como o vento… imaginara-a mais líquida e fresca, na verdade, e isso revolveu-lhe a alma, sem saber porquê. 

– Porque é que não falaste antes? – perguntou, ansiando uma resposta que o serenasse. 

A ninfa encolheu os ombros. 

– O que interessa? Não devemos desperdiçar este tempo precioso – murmurou, contra os lábios dele. 

A voz dela embargava-lhe a mente de tal forma que aquela resposta foi suficiente para apagar receios ou suspeitas. Era como se lhe ciciasse uma música de embalar. O elfo vacilou e as flores escorregaram-lhe das mãos. 

– Deitemo-nos, meu amor – disse-lhe, pousando-lhe uma mão no peito. – Estás tão cansado… 

Ele começava a acenar, quando olhou de relance a superfície do lago. Dois orbes espreitavam, arregalados. 

– Espera – pediu, tentando perceber de quem eram aqueles olhos, se a sua ninfa estava ali, junto a si. Talvez a falta de luar lhe estivesse a ludibriar a vista. Ou talvez… 

– Deita-te – repetiu, num sussurro já perto do ouvido. – Cantarei para ti, meu príncipe, e embalar-te-ei. 

O sono apossava-se dele, como uma doença galopante. As pernas cederam e ele caiu de joelhos sobre a erva. A cabeça pendeu para a frente, encostando-se ao ventre nu da ninfa. Com carinho, ela afagou-lhe o cabelo, cantando baixinho numa língua obscura. 

O chapinhar de água passou-lhe completamente despercebido e só percebeu que algo se passava quando a música de embalar cessou abruptamente. Forçou-se a abrir as pálpebras e levantar o olhar. Quando o fez, uma gota de água atingiu-o na fronte, provinda da mão que agarrava a ninfa pelo pescoço. Seguiu o pulso e o braço com o olhar, e encontrou uma réplica perfeita da sua donzela. 

Quando os olhares se cruzaram, a segunda ninfa esboçou um sorriso de lamento, antes de abrir a boca e deixar escapar um gorgolejo cristalino que ecoou por todo o bosque. 

Ilnosianar despertou de súbito, como se lhe tivessem dado um banho de água fria, e pôs-se de pé com um salto. Afastou-se vários passos e mirou as duas ninfas. O som de água continuava a ecoar, invocando as ondas do mar, o grito das cascatas, o movimento dos glaciares. 

No momento em que a primeira ninfa esboçava um esgar de raiva que revelava dentes afiados, e dos dedos lhe cresciam unhas tão mortais quão estiletes, ambas explodiram – uma em múltiplas gotículas de água, outra desfazendo-se em partículas negras que caíram sobre as ervas, corroendo-as e deixando no ar um fedor que Ilnosianar reconheceu das descrições dos livros. 

Aquela criatura estava muito longe de ser uma ninfa. Era, sim, um devorador de almas, que se aproveitara do decair do luar e do consequente fraquejar das protecções mágicas daquela terra para se infiltrar. E estivera tão perto de o devorar. 

Contemplou o solo, que agora sorvia as gotas de água da sua ninfa, e mordeu o lábio inferior, por impulso, impedindo-o de tremer. Acocorou-se. 

– Obrigado – sussurrou, afagando a terra, esperando que ela ainda conseguisse sentir o seu carinho. As lágrimas correram-lhe pelo rosto e juntaram-se à ninfa que se sacrificara para o salvar. – Odorhonirien ë lio emos, calyahne sa juved sise niadin’se. (1)

Desse trágico dia em diante, Ilnosianar não passou uma noite sem se sentar à beira do lago, esperando-a, pacientemente. Um dia, cada uma daquelas gotículas reunir-se-ia para a reconstituir, e talvez a ninfa vogasse até às Lágrimas da Deusa, para se voltarem a abraçar. 



1 - Aguardarei o teu retorno, além da vontade dos deuses.


Corpo, Alma e Coração (caridade) – Carina Portugal

O ribombar de um trovão tomou os céus e a terra, e a página voltou-se por si só. Também esta causou um estrondo que me fez estremecer, o mesmo que faria o bater de pedra contra pedra. No entanto, o livro era feito com pouco mais do que papel. 

Engoli em seco, ao ver um traço de luz percorrer os arabescos que nunca aprendera a ler. Retorcia-lhes a tinta, esmagava-os, mutava-os a seu belo prazer, exibindo crueldade. Dentro da minha cabeça, as letras gritavam de dor e pânico, desejando saltar do papel enquanto se contorciam. Ou seria só um reflexo do ribombar do trovão? 

Quando o traço atingiu o fim da última linha, outro estrondo abalou o Templo da Vida, ameaçando a segurança das colunas de suporte. As tochas que cercavam a sala extinguiram-se em simultâneo. Fiquei sem enxergar por segundos, até os olhos se habituarem ao luar que entrava pelos recortes do tecto, criando todo um jogo de luz e sombras. 

O solo oscilou sob os meus pés. Os vermes que se escondiam dos olhares dos predadores guincharam, apesar de não terem voz, e fugiram dos interstícios que os ameaçavam esmagar nas suas próprias casas. Com um impulso de vida imprevisto, nasceram à superfície, por entre as lajes carcomidas pelo tempo, qual plantas daninhas. Um desses bichos emergiu por entre os meus dedos dos pés. Saltei e recuei vários passos, sem largar o livro. E outra página voltou-se. 

Do que supus serem as cabeças dos vermes, ramificaram-se múltiplos membros que se alongaram numa altura acima da cintura de qualquer humano de estatura média. Ninguém os via, porém estavam lá, implantados nas extremidades: receptores sensoriais que buscavam alimento, farejando cada partícula de ar para rapidamente absorver as que lhes interessavam. Seguiam o trilho sensorial, sem hesitações. E eu próprio não compreendia como o conseguia perceber. 

A última página voltou-se, e o livro encerrou-se com um estrondo que ecoou até nos ossos. 

Aos meus olhos pareceu tudo tão lento, mas na verdade não demoraram mais do que um instante de segundo. Os bichos precipitarem-se sobre os sacrifícios. Com rostos que exibiam sorrisos idiotas, fora-lhes roubado o medo, o egoísmo, qualquer instinto de sobrevivência; quase tudo fora arrancado de raiz, deixando para trás somente bondade, generosidade… caridade cega. 

Dos membros tentaculares brotaram múltiplas pequenas mandíbulas que perfuraram e se afundaram nos corpos. Os gritos toldaram o ar com a sua intensidade, enquanto as entranhas lhes eram sugadas. 

Não podiam fugir, pois tinham sido atados às pedras de sacrifício que pejavam o templo. No entanto, se tivessem essa possibilidade, também não o fariam, porque o único desejo que se lhe implantara na mente ficava honrado em alimentar os Vermes do Mundo com tudo o que tinham. 

Não demorou muito até, sobre os altares, sobrarem somente órgãos pulsantes. Um fio muito ténue erguia-se dos corações, ligando-os a uma forma espectral, qual cordão umbilical. Eram almas, ainda ligadas à vida. 

Já vira imagens delas, desenhadas em livros antigos, porém nunca acreditara na sua existência. Lembravam alguém que passara por todas as prostrações do mundo. As cavidades oculares vazias eram tão profundas quanto fossas abissais; o fantasma de uma boca semi-aberta mexia-se como quem quer falar; e o que antes fora a pele do corpo repuxava-se, revelando o contorno das costelas através das quais se via o outro lado da sala. 

Engoli em seco e dei novamente outro passo à retaguarda. Com o pé descalço, esmaguei parte do corpo de uma daquelas coisas, arrancando-lhe um guincho, não tanto de dor, mas de ultraje. Vários tentáculos voltaram-se para mim, exibindo as mandíbulas das quais pingava sangue. Desperdício. Aqueles vermes malditos desperdiçavam resquícios das vidas que lhes tinham sido oferecidas. 

Foi então que o livro estremeceu nas minhas mãos. Os dedos não se mexeram quando tentei largá-lo e, do seu interior, a linha de luz precipitou-se de entre as páginas para a minha mão esquerda, cauterizando a pele enquanto subia pelo interior da manga. 

– Larga-me! – ordenei, bracejando compulsivamente. – Sai de mim, demónio! 

Por entre o tecido negro da túnica, um fumo impregnado com fedor a pele queimada rodeou-me. Contorci o corpo selvaticamente, ao tentar livrar-me daquilo, acabando por tombar para trás. Quase não senti o impacto, e os gemidos que soltava eram todos devido à queimadura que agora me subia pelo pescoço, trepava para o rosto, e parava mesmo junto ao olho, desvanecendo-se. 

Fiquei muito quieto, com os tentáculos debruçados sobre mim. Pareciam aguardar outro sinal, enquanto uma pergunta óbvia me pairava na mente: porque razão não me atacariam, como tinham feito com os outros humanos? 

O corpo ardia-me de dor e calor, e o suor começava a manchar-me a roupa. Inspirei e expirei, pensando em cada movimento. Só não pensei no bater do coração, porque o meu facilmente era abafado pelos que, estranhamente, pulsavam ainda sobre os altares. 

Levantei-me um pouco a medo, tentando não tocar nos tentáculos que me seguiam os movimentos. Como reflexo da minha deslocação, as almas contorceram-se e levaram as mãos a elas próprias. Crisparam os dedos translúcidos no corpo e começaram a arrancar pedaços de si, num ataque compulsivo. As zonas arrancadas ganhavam uma estranha densidade que as impedia de levitar e caiam, sendo devoradas sem demora. 

Quando nada mais havia para arrancar, o cordão que as ligava ao coração desapareceu, e eu estremeci de medo. No meu rosto, a luz renasceu devagar, o calor intensificando-se e entranhando-se na carne. 

– Não… tira-a de mim, tira! – gritei, batendo com o livro na cara, esperando que este apagasse a luz, ou a recolhesse no seu conteúdo amaldiçoado. 

De nada me valeu. A luz queimou-me o olho e infiltrou-se por detrás do globo ocular, incendiando-me os nervos ópticos num trilho que a levou até ao cérebro. E se eu já pensara sentir uma dor excruciante, nada me preparara para a sensação que me fulminou. Um fogo invisível imolou-me o corpo, consumindo cada órgão vital, cada membro, até me transformar completamente em cinzas, ou quase. Deixei de ver, contudo, do que conseguia sentir, ainda tinha corpo. A consciência comprimia-se num invólucro apertado e a única forma de me mover era rastejando. Por isso rastejei. Escondi-me numa daquelas fendas entre as lajes e procurei um interstício onde me abrigar dos predadores. Era assim que o instinto me comandava. Agora o verme era eu, a aguardar por devorar aqueles que tinham só caridade. 

Sob os altares, como reflexo do último movimento da Luz, os corações liquefizeram-se e foram absorvidos pela pedra, numa entrega total de si mesmos ao Mundo. 

E eu sorvi esse fertilizante que era vida.


A Menina que não gostava de Doces - Carina Portugal


Os risos saltavam pelas ruas, enquanto as crianças corriam de porta em porta. De chapéu pontiagudo no topo da cabeça, um pouco de banda, vestido negro cheio de remendos e um gato inerte pendurado no ombro, Emma correu até à casa mais próxima. A mão que segurava o saco enfeitado com morcegos agarrava também o chapéu de bruxa para não o perder pelo caminho.
Por fim, parou junto a uma grande casa, cujo jardim fora repleto de abóboras de expressões luminosas. Fez-lhes um aceno quando parou no alpendre para ganhar fôlego, apoiada no cabo da vassoura. Todas elas eram suas amigas e, de vez em quando, tinham conversas muito entusiásticas.
Respirou fundo para ganhar coragem, e só depois bateu à porta. Esperou nervosamente, sem que as bochechas perdessem o rubor. Era a primeira vez que a mãe a deixava ir festejar o Halloween pelas ruas.
Com um chiar arrastado, a porta abriu-se, e uma senhora velhota sorriu-lhe.
‒ Doce ou travessura?! ‒ perguntou Emma, meia atrapalhada.
‒ Já não estou nova para travessuras, minha querida, por isso vão ser doces. Onde estão os teus amigos?
‒ Estão no seu jardim, e no meu ombro, e na minha cabeça... – respondeu Emma enquanto, desiludida, observava a velhota a vasculhar dentro do avental. Tirou de lá uma mão cheia de rebuçados, deixando-os cair no saco. Emma recolheu-o e mirou o interior. ‒ Mas isto faz mal aos dentes...
A senhora ficou estupefacta.
‒ Pois faz, e é por isso que tens de os lavar muito bem.
A menina abanou a cabeça, muito céptica.
‒ Obrigada ‒ disse, antes de descer os três degraus, ainda a mirar o interior do saco. Aquilo não estava nada certo.
Quando ouviu a porta a fechar-se atrás de si, meteu a mão dentro do saco e tirou os doces todos, atirando-os às abóboras. Uma delas deu um salto súbito para apanhar um bombom no ar, fechando a boca  recortada num sorriso. Enquanto mastigava a guloseima, os olhos saltavam faíscas de contentamento.
‒ Bom proveito – desejou Emma, antes de ir visitar a próxima casa. Se lhe voltassem a dar doces, teria de tomar medidas drásticas.
Quando bateu à porta, recebeu uma resposta tão imediata que a fez dar um salto.
“Não mora aqui ninguém! Vão-se embora pirralhos do demónio!”
Emma abriu muito os olhos.
‒ Ouviste, Tchaikovsky? – mirou o gato pendurado seu ombro. – Esta casa está assombrada. Não te preocupes, espectro do outro mundo! Não te chateamos mais! Vai ter com os teus amigos ao cemitério, ouvi dizer que estão a fazer por lá um banquete à base de almas de rábano, cenoura e alface. Claro que é um banquete vegetariano – comentou, ajeitando de novo o chapéu. – Se não gostares de almas de vegetais, podes sempre socializar. Bem, feliz dia das pessoas como eu!
Enquanto ela se ia embora com um sorriso nos lábios, uma das cortinas da casa moveu-se e um homem espreitou-a, de cenho franzido.
“As crianças de hoje em dia dizem com cada coisa…” pensou para si, antes de voltar para o seu comando da consola, acabando por descobrir que o seu personagem estava a ser devorado por meia dúzia de zombies.
Emma aventurou-se então por mais quatro ou cinco casas, ficando cada vez mais desolada. Quando, ao chegar à sétima casa, lhe ofereceram um monte de chocolates em forma de morcego, as suas bochechas coraram muito de irritação.
‒ Vou transformar-vos todos em sapos! – declarou. – Alguém tem de deter esta maldição dos doces!
A senhora que lhe deu os morcegos limitou-se a rir, achando a bruxinha muito engraçada, antes de lhe fechar a porta na cara.
‒ Viste, Arquimedes? A senhora má não acreditou!
Como resposta, ouviu-se um coaxar vindo de dentro do chapéu.
Num passo de corrida, Emma saltou os degraus do alpendre e precipitou-se para a rua cheia de mascarados. Parou só uma ou duas vezes, para ganhar fôlego, quando a respiração lhe picava os pulmões. Depois, enveredou por uma rua mais escura, sempre a subir, ladeada de árvores que lhe tentavam roubar o chapéu ao esticar os ramos mais finos e quase desnudos.
‒ Quietos – ordenou a menina, dando-lhes com a vassoura.
Com a advertência, os ramos retraíram-se um pouco.
Cerca de quinze minutos tinham passado, quando Emma alcançou os portões escuros do cemitério. Ao pé dela, lembravam enormes gigantes de ferro, austeros.
Empurrando-os ligeiramente, a menina esgueirou-se através da fresta criada. Passou por reuniões entre esqueletos e corpos já semi-comidos pelos vermes; pela tal festa vegetariana de almas do outro mundo, e por um bêbedo que, tal como ela, achava aquelas aparições perfeitamente normais.
Escolheu uma campa de laje tumular larga, e reuniu alguns gravetos que dispôs estrategicamente, de tal forma que formavam um pentagrama.
De expressão muito séria, Emma arregaçou as mangas e estendeu ambas as mãos à sua frente.
‒ Arde – ordenou com firmeza. Um fio de fumo elevou-se da madeira, mas não mais do que isso. – Eu disse ARDE!
Com um estalido de aviso, os ramos inflamaram-se… para se apagarem três segundos depois. Emma insuflou as bochechas.
‒ Tchaikovsky! Porque é que os ramos não me obedecem?
No seu ombro, o gato que estivera inerte durante todo aquele tempo, ergueu a cabeça e mirou-a. Piscou os olhos amarelos de brilho perspicaz, que pareciam esconder enigmas de outro mundo.
‒ Miau…
Emma franziu as sobrancelhas.
‒ Não fales gatês, por favor.
Um rosnar leve e um tossicar fizeram o gato estremecer e levar uma pata à boca, para disfarçar os ruídos.
‒ As palavras da menina Emma carecem de sensibilidade. A aura que habita o símbolo precisa de um tom mais… carinhoso – explicou.
‒ É isso mesmo, meu! – Um esqueleto desengonçado aproximou-se deles, de cigarro preso entre os dentes amarelos. Levou uma mão ao peito descarnado. – O coração que não tem palpita qual refém do jugo do sentir.
Emma lançou-lhe uma mirada de lado e não comentou. Só lhe calhavam malucos na rifa. Respirou fundo para serenar um pouco, antes de voltar a esticar os braços.
‒ Podias arder, por favor, querido pentagramazinho?
Nada aconteceu durante longos segundos em que só se ouviam as conversas dos convivas que por ali se espalhavam. Até que cada um dos ramos se tornou incandescente, fazendo a madeira estalar na noite. Cinco línguas de fogo ergueram-se de cada uma das pontas do pentagrama, e enrolaram-se sobre si como serpentes, apertando-se até se fundirem numa só labareda.
Com um sorriso de contentamento, Emma tirou o chapéu, descobrindo o pequeno sapo que repousava sobre os seus cabelos que, à luz do fogo, pareciam ainda mais ruivos. O esqueleto tirou-lhe o chapéu da mão e pô-lo sobre o próprio crânio sujo de terra, sem que a criança contestasse.
Cuidadosamente, Emma segurou no sapo e estendeu-o à sua frente.
‒ É a tua vez, Arquimedes. – Tossicou para afinar a voz, antes de começar a recitar:

Ossos de morcego negro,
Sangue de salamandra pantanal,
Vísceras do morto que desenterro,
Escondido no meu quintal,
Inspirem-se neste sapo
Para esta noite ser a tal
Em que os adultos dos doces
Se transformam num igual!

As chamas cresceram numa explosão de luz e estenderam duas línguas compridas e serpenteantes até Arquimedes que observava o feitiço, de olhos esbugalhados. Emma impediu que ele fugisse, segurando-o muito bem entre as mãos. O fogo examinou-lhe o corpo húmido, sem o queimar, e depois recuou ao pentagrama, acabando por se extinguir sem mais delongas. O fumo que se elevava dos gravetos carbonizados era tudo o que restava do feitiço executado.
‒ Bem, problema resolvido, já não há distribuição massiva de doces – declarou Emma, toda contente, voltando a pôr o sapo em cima da cabeça. – Dá-me o chapéu.
Lançou um olhar ao esqueleto que se encostara a uma pedra tumular alta.
‒ Qual chapéu? – perguntou ele, fazendo-se de desentendido, enquanto o ajeitava. – Bem, tenham uma boa noite.
Afastou-se a correr de forma desengonçada, sem mais palavras, levando na cabeça o que não era dele.
‒ Hey, ladrão! – exclamou Emma, correndo atrás dele. Numa mão segurava Arquimedes para que ele não caísse, na outra empunhava a vassoura, tentando espancar o esqueleto com ela.
Enquanto isso, lá em baixo na vila, sempre que as crianças batiam à porta de alguma casa escutava-se uma nova sinfonia: o coaxar de inúmeros de sapos.


Triste e Leda Madrugada - Carina Portugal


O canto das aves imiscuía-se no raiar do Sol e eu, sentada à beira do precipício, observava como o céu se matizava com o passar dos minutos. Era uma visão digna dos deuses.
– Em que pensas?
– Não tenho a certeza. Acho que penso em nada – respondi, cruzando as pernas. – Penso em nada para poder sentir tudo. Faz sentido?
Ao meu lado, a bela jovem abanou a cabeça. Os seus cabelos eram de puro ouro, revoltos e reluzentes. O rosto revelava-se uma mescla estranha de expressões que se harmonizavam – parecia simultaneamente triste e alegre. Mas, para mim, isso também não fazia sentido.
– Então, diz-me o que pensas – pedi, com um sorriso curioso.
Ela hesitou um pouco, levando um dedo ao queixo enquanto meditava.
– Penso que não penso. Penso que pensar destrói, penso que te estou a destruir ao pensar, por isso não vou pensar mais – respondeu, com um sorriso demasiado feliz para se coadunar com as suas palavras. – Se pensar demasiado, a vida morrerá nesse pensar.
Fiz uma careta de desgosto. As reflexões dela criavam-me nós na mente, e depois tinha de passar todo o dia a tentar desfazê-los. Era sempre assim.
– Mas, se não pensares de todo, a vida não chega a nascer sequer – notei, perguntando-me o que iria ela responder àquilo.
Vi-a ficar novamente pensativa. Quanto mais pensava, mais os cabelos cresciam, alargando-se pela superfície em seu redor, mergulhando no penhasco, sem medo. Quando senti que uma madeixa me tocou a mão, estremeci por dentro, sofrendo a sua queimadura na pele e na alma.
– Porque me fazes perguntas tão difíceis? Já disse que não quero pensar. Estou a magoar-te – concluiu, sem deixar de sorrir, mas ainda assim com tristeza no olhar.
Encolhi os ombros. Não era nada de novo, só significava que estava na minha hora de recolher, que precisava de me afastar. Mas só depois de sentir um pouco mais daquela dor. Queria que ela pensasse. Queria uma resposta. Insistiria até à eternidade se fosse necessário.
– Não faz mal. Continua a pensar – pedi simplesmente, observando-a. Mas até olhar para ela já me magoava.
E ela pensou, pensou até os seus cabelos se perderem no horizonte, pensou até eu sentir o corpo tremer. Quando dei conta de que já não aguentaria mais aquele tormento, fechei os olhos.
– Volto amanhã e esperar-te-ei aqui, à mesma hora. Não faltes e traz-me a tua resposta – volvi, deixando-me cair do penhasco com um mero impulso, como se se tratasse da brisa do vento. – Não faltes, Madrugada.
Senti o seu olhar, até me perder de vista na escuridão daquele abismo.

– Até amanhã, Noite – chegaram as suas palavras até mim, antes de me sentir a adormecer. Ela já pensara o suficiente para que a vida nascesse e seguisse o seu trilho sinuoso.


Gula - Carina Portugal


Com um gesto impulsivo, Alug atirou o resto de perna humana para cima de uma das incontáveis poças de sangue que manchavam a sala outrora branca. Fora descarnada até os dentes ficarem marcados no osso.
Recostou-se contra a parede fria e lambeu os lábios sujos, onde ainda se entranhava um gosto inebriante a vida. Era tudo o que sobrava da prostituta: ossos e sangue, e também mãos-cheias de cabelo arrancado pela raiz.
No entanto, a carne dela não o satisfizera; o seu corpo implorava por mais, depois de ser mantido por tantos dias em abstinência, envenenado com químicos que o prostravam na cama, também ela agora ensopada em sangue. Fora lá que começara o pequeno banquete.
Lambeu as mãos de dedos longos e certificou-se de que nenhum pedacinho de carne se escondia sob as unhas. Fazia questão de que nada sobrasse, nem mesmo as vísceras.
Por essa razão, levantou-se e foi verificar se, por entre a sua voracidade cega, não deixara no crânio qualquer vestígio de massa encefálica. Quando pegou nas duas metades, soltou um suspiro. Estavam tão limpas que um canibal as poderia utilizar para servir ensopado de carne humana.
Atirou-as ao chão num movimento frustrado e dirigiu-se à porta, junto da qual fora montado um intercomunicador de aço inoxidável, tão frio quanto a voz fingidamente calorosa que falava através dele. Premiu o botão e esperou, deixando lá uma impressão digital de sangue e saliva.
Estalando como se algum fio fritasse dentro do aparelho, uma voz masculina, mas suave, chegou até si. Ainda não lhe conhecera o dono, mas podia adivinhar a crueza que se escondia sob a camada melíflua, principalmente depois daquele acepipe inesperado.
“Boa tarde, Senhor Alug Odacep. Gostou do presente que lhe enviámos?”
Alug revirou os olhos e lançou uma mirada à câmara pregada ao centro do tecto. Vigiava-o, segundo a segundo, perseguindo-lhe cada movimento.
– Adorei. Não tem mais nenhuma guardada na dispensa, Doutor? Aquela só serviu para abrir o apetite.
A resposta demorou alguns segundos até atingir a cela, como se se tivesse perdido no labirinto de cobre que se escondia dentro das paredes.
“Lamento. É difícil encontrar alguém que lhe sacie a fome. Apesar de eu duvidar de que possa chamar fome àquilo que sente. Comeu o suficiente para vários dias” notou, sem espanto, sem repreensão, sem sentimento. “Diga-me o que sente”.
Continuando contemplar a câmara, o recluso arqueou uma sobrancelha, permitindo que esta captasse bem o desprezo que sentia por aquele doutor e as suas experiências.
‒ Um desejo insaciável por carne humana viva. Agora que já respondi enésimas vezes à mesma questão, poderia, por gentileza, arranjar mais uma das suas amigas de quem se queira livrar? Devia agradecer-me por fazer com que a sua esposa não saiba de nada.
Alug conseguia imaginar o sorriso sardónico que o médico deveria estar a esboçar naquele momento, e estava capaz de lho arrancar à dentada.
“Como já disse, não posso fazer nada quanto a isso. Se sentir necessidade de mais alguma coisa, para além da carne humana, não hesite em contactar-me”. Dito isto, o crepitar do intercomunicador cessou.
Com um ranger de dentes, Alug afastou-se da porta, recomeçando um dos seus passatempos constantes, quando não estava drogado: dar voltas à sala. Os pés descalços pisavam o sangue que começava a secar, e as pegadas de assassino que eram deixadas para trás pareciam formar um círculo para algum ritual pagão. Por vezes parava para contemplar a janela de vidro fixo, para além da qual deambulavam muitos dos moradores do hospital psiquiátrico onde os tribunais o tinham selado. Passeavam nos jardins, com sorrisos parvos no rosto, expressões sérias, ou olhares perdidos no céu. Apesar disso, cada um deles dava-lhe vontade de partir o entrave e saltar os três andares que os separavam. O vidro era, contudo, inquebrável. Sabia-o por experiência própria, depois de ter fracturado o pulso esquerdo, no qual ainda usava uma ligadura.
Voltou a lamber os dedos por instinto, imaginando o sabor que não teria a carne de uma das novas enfermeiras, temperada com gritos, dor e angústia. Eram a cereja no topo do bolo.
Quando a língua acabava de lamber o dedo polegar, Alug parou de súbito, colapsando sob a força de um pensamento que não lhe ocorrera antes. Fitou a própria mão, como se a visse pela primeira vez.
– É isso – sussurrou para si. – Sou mesmo idiota…
Voltou ao seu lugar no chão, na zona mais limpa da sala, seguido de imediato pela câmara. Mirou-se por um momento, ponderativo, antes de dobrar as costas e puxar o pé para cima com ambas as mãos.
Usando toda a força, abocanhou o dedo grande e arrancou-o num só movimento. No entanto, um grito lancinante fê-lo cuspir a nova guloseima que encontrara para se saciar. Arfou e mordeu o lábio inferior, tentando conter o ardor atroz que lhe consumia o pé. Mas isso durou apenas até o seu olhar cair sobre o dedo ensanguentado. Pegou-lhe rapidamente e enfiou-o outra vez na boca, como se na sala houvesse ratazanas que lho pudessem roubar. Mastigou-o devagar, controlando a respiração, para assim controlar a dor.
As papilas gustativas não deixaram escapar um único nuance da própria carne. Nunca na vida provara uma refeição tão suculenta e o gosto era supremo. Não se absteve de comer um pouco do gémeo interno da perna direita, e provou todos os músculos que existiam nos braços. A dor era imensa, todavia o desejo superava-a de tal forma que Alug era incapaz de se conter. O sangue que lhe manchava o peito, o pescoço e a parte inferior do rosto era já tanto que ninguém perceberia que acabara de dar uma dentada no lábio inferior, arrancando-o por completo.
No momento em que a porta da cela se abriu, e meia dúzia de enfermeiros se precipitou para ele, já Alug engolia metade da própria língua.
Tentaram estancar as hemorragias, mas foi um esforço vão. Quando o médico se aproximou e debruçou para o observar, alheio às feridas em carne viva, o doente lançou-lhe meia dúzia de palavras mal articuladas, envolvidas num golfo de sangue, que nenhum dos seis enfermeiros compreendeu. Depois disso, a sua alma esvaiu-se também, abandonando aquele corpo deteriorado para não mais voltar.
Com um encolher de ombros ligeiro, o médico afastou-se do cadáver e regressou ao gabinete, deixando para trás um grupo de humanos horrorizados. Pelo caminho, um grito de terror fez estremecer os vidros de uma das portas, quando uma enfermeira aparentemente normal se lançou, qual lobo esfaimado, ao pescoço de uma velhota acamada.
Ele limitou-se a sorrir e a seguir caminho, de mãos nos bolsos. Por um instante de segundo, os olhos brilharam num reflexo de obsidiana negra. Aquele fragmento de pecado encontrara um novo corpo onde se instalar e uma nova alma para drenar até ao Inferno. Porque pecado que se preze consome por completo o possuidor, de tão guloso que é. E demónio que é demónio faz sempre por aumentar as legiões infernais.


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