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A Floresta da Morte (4/4) - Pedro Pereira

O lobo fechou os dentes em torno da garganta de um dos mercenários, arrancando-lhe a traqueia numa cena que mais parecia retirada de um filme de terror. 

Boris e os restantes capangas dispararam sobre o animal. O lobo saltou em direção a Boris e abocanhou o cano da arma, partindo-a em duas. 

Boris recuou atabalhoadamente e sacou da faca de mato. O lobo voltou a investir, mas o mercenário desviou-se com um movimento rápido, espetando a lâmina no flanco do animal. 

Ivan verificou por duas vezes se os seus olhos não o enganavam. Do flanco da criatura escorria sangue azul. 

Ferido, o lobo recuou e curvou-se sobre si mesmo. 

Boris celebrava já o golpe desferido quando o físico do animal começou a mudar. Aos poucos, o pelo que lhe cobria o corpo começou a ganhar uma tonalidade verde e a transformar-se em vegetação. O focinho da criatura encolheu e adquiriu um aspeto quase humano, revelando um rosto de pele azulada e longas barbas compostas por lianas. 

A criatura ergueu-se na sua forma humana. Devia ter uns dois metros de altura e parecia irritada. Com a mão direita, arrancou a faca de mato do dorso e atirou-a para o chão, lançando um grunhido aterrador. 

– Um Leshy! – exclamou Dimitri, que juntamente com Boris e os restantes mercenários se colocou em fuga. 

A tentativa de fuga não passou disso mesmo, de uma tentativa. Como que por magia, a vegetação e as árvores pareceram ganhar vida, rodeando os humanos em fuga. 

Imobilizado pelo medo, Ivan assistiu impotente aos seus companheiros a serem esventrados por ramos de árvores. Os gritos de dor preenchiam o natural silêncio da floresta. 

Quando os gritos cessaram, a criatura avançou para Ivan. 

– Eu avisei-te para deixares a floresta em paz, humano – declarou o Leshy com uma voz profunda. 

– O quê?! 

Diante dos olhos de Ivan, a criatura voltou a mudar de forma, desta vez para uma mais familiar. 

– Você?! 

– Sim, eu – respondeu Petrovitch. – Eu avisei-te e tu não me deste ouvidos. 

– Quem é você?! 

O Leshy voltou a assumir a sua verdadeira forma. 

– Eu sou Yaren, o senhor da floresta. Com um único golpe, O Leshy arrancou a cabeça de Ivan, fazendo-a rebolar pelo chão manchando-o de vermelho. A sua floresta estava a salvo, pelo menos pro agora…


Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:

A Floresta da Morte (3/4) - Pedro Pereira

Os trabalhadores regressaram na manhã seguinte, mas negavam-se a trabalhar enquanto o gigantesco lobo andasse em liberdade na floresta. Ninguém se queria arriscar a ser a próxima vítima. 

Perante as reivindicações dos trabalhadores, Dimitri convencera Ivan de que não tinha outro remédio senão chamar um grupo de caçadores furtivos. Tratava-se de um grupo de ex-militares, os compinchas de copos de Dimitri, que tal como o colega, eram encorpados e de cabelo cortado à escovinha. 

– Tens a certeza de que isto é boa ideia? – questionou Ivan ao lançar um novo olhar aos quatro indivíduos. 

– Não te preocupes, eles tratam do serviço – assegurou Dimitri. 

– Disso eu não duvido… Pensei que tinhas falado em caçadores, não em mercenários. 

Um dos homens começou a distribuir armas de fogo de grande calibre pelos companheiros. De certeza que não podiam ser legais. 

– Era uma urgência e tu querias os melhores. Aqui os tens. 

– Vocês os dois, então prontos ou quê?! – chamou um dos homens. 

– Mais que prontos, Boris – respondeu Dimitri. – Fica perto de mim. 

Apesar de a ideia não lhe agradar, Ivan acabou por concordar. Para os trabalhos recomeçarem tinha de se ver livre do lobo, e aqueles tipos pareciam ser a solução mais rápida. 


*** 


Ivan perdeu por completo a noção do tempo e da distância que já haviam percorrido no interior da floresta. Munido de uma faca de mato, Boris liderava o grupo e abria caminho por entre a vegetação enquanto seguia o rasto do lobo. 

– Raios! – protestou Boris. 

– O que se passa? – questionou Ivan. 

– O rasto do lobo desaparece aqui… 

O grupo estava junto a uma enorme árvore, numa zona com pouca vegetação. 

– Desaparece como?! Estamos numa zona praticamente sem vegetação e você disse que o rasto estava fresco! 

– Eu sei o que disse! 

– Boris, isto não tem lógica nenhuma – concordou Dimitri. – Ele teve de ir para algum lado. 

Uma estranha sensação na parte de trás da nuca fez Ivan olhar para cima. O seu coração gelou. Lá estavam aqueles aterradores olhos amarelos. 

Num abrir e fechar de olhos, o enorme lobo saltou do topo da árvore e lançou-se sobre o grupo. O predador acabara de virar presa…


Parte 4:
Parte 2:
Parte 1:

Apocalipse - A queda de Berlim - Pedro Pereira

O sol nascia no horizonte e afastava as sombras que cobriam as ruinas da metrópole. Tal como a maioria das cidades, Berlim não era mais do que um vislumbre daquilo que tinha sido. As ruas estavam desertas, repletas de escombros e carros abandonados. Eram ladeadas por edifícios desocupados e em risco de ruir, conferindo um ar fantasmagórico à cidade. Era a típica imagem de uma grande metrópole desde que os demónios tinham sido libertados no mundo dos humanos, reduzindo a civilização a cinzas… 

No topo de um dos edifícios devolutos, uma esbelta figura feminina, quase demasiado perfeita para parecer real, observava a paisagem. Leviatã passou os dedos pelos longos cabelos lisos de uma cor azul eletrizante. Aguardava pelo momento certo. As ordens do Senhor das Trevas tinham sido bem claras, tinha que tomar a cidade, criar uma distração para que Belphegor pudesse quebrar o véu entre dimensões. 

Um demónio abriu a porta que dava acesso ao telhado e encaminhou-se para a mulher. A criatura tinha a pele encarnada e dois chifres de bode na testa. A barba e o cabelo eram negros, tal como a armadura ou como o tufo de pelo no qual terminava a sua cauda. 

– Estás pronto? – questionou Leviatã na sua voz fria e sem emoção, muito antes de Belphegor a ter alcançado. 

– O cetro está pronto. Desde que mantenhas os humanos ocupados, eu e as minhas tropas tratamos do resto. 

– Nesse caso sugiro que te metas a caminho, o Reichstag fica do outro lado da cidade. E não te preocupes com os humanos. Eu ocupo-me deles. 

Sem aguardar resposta, Leviatã fechou os olhos e enviou o sinal telepático às suas tropas. 

Respondendo ao apelo da líder, centenas de demónios saíram das ruínas que os escondiam e invadiram as ruas da cidade. 

Leviatã deixou que os subordinados espalhassem o caos livremente. Não tardou que o objetivo fosse alcançado. As tropas humanas que patrulhavam as ruínas da cidade soaram o alarme. Desde o aparecimento dos Escolhidos que os humanos julgavam ser capazes de derrubar os demónios e recuperar o controlo do mundo. Leviatã não foi capaz de conter um sorriso de desdém. Não passavam de criaturas idiotas. Meros insetos prontos a serem esmagados por Lúcifer, o Senhor das Trevas. 

– Não devias estar com as tuas tropas a transportar o cetro? – questionou com irritação ao aperceber-se que Belphegor continuava a seu lado. 

– Sim, claro. 

Carrancudo, o demónio de pele encarnada abandonou o telhado, deixando a figura feminina a observar o caos gerado pelos lacaios. 

Pelas ruas já se podia ouvir o som dos disparos. As tropas alemãs estavam a retaliar. Vários tanques blindados acompanhados por soldados percorriam agora as ruas de Berlim. A rapidez da resposta não deixou de espantar Leviatã. Os humanos apresentavam agora um grau de coordenação que não possuíam há meses atrás. 

Um pouco mais à frente do edifício onde se encontrava, um tanque armado com lança-chamas e alguns soldados encurralaram um pequeno grupo de demónio num beco sem saída. Apanhados de surpresa, as criaturas foram carbonizada. 

Leviatã saltou do topo do edifício de cinco andares diretamente para o asfalto a rua. Focada no alvo, encaminhou-se a passo acelerado e convicto para o tanque. 

Os soldados que acompanhavam o veículo blindado deram o alerta. Leviatã ergueu as suas barreiras protetoras. Numa questão de segundos, começaram a voar balas em direção à esbelta mulher. Estas faziam ricochete nas defesas da demónio. Quem se julgavam aquelas criaturas para lhe ousarem fazer frente?! 

Leviatã esticou a mão direita em direção e lançou um raio de energia contra o veículo. 

A explosão do tanque matou três dos soldados humanos e projetou outros dois pelo ar. Apesar da queda violenta contra o asfalto, estes ainda se encontravam com vida. Movimentando-se com uma rapidez sobrenatural por entre os escombros, arrancou a cabeça de um dos sobreviventes com as próprias mãos quando este se tentava levantar. 

Uma expressão de terror apoderou-se do rosto do segundo sobrevivente. Não querendo tornar-se na próxima vítima, levantou-se atabalhoadamente e começou a correr. 

Leviatã apanhou uma barra de metal de entre os escombros e lançou-a em direção ao humano em fuga. O soldado caiu. A barra de metal trespassara-lhe o peito perfurando um dos pulmões. Aproximou-se do homem que jazia em convulsões. Com um sorriso no resto, colocou a bota em cima da cabeça da vítima e esmagou-lhe o crânio. 

Ficou parada por alguns instantes enquanto comtemplava com orgulho a matança. 

O som de dois aviões de combate a sobrevoar a cidade interrompeu a linha de pensamentos de Leviatã. Os humanos estavam a ficar cada vez mais atrevidos… 

Fechou os olhos e deixou que a transformação tivesse lugar. O seu corpo começou a contorcer-se e a mudar de forma. Também o seu volume aumentava a um ritmo frenético. Não foi capaz de conter os gritos de dor que aquela transformação lhe provocava. Seus ossos partiam-se em milhares de locais para assumirem uma nova forma. O corpo contorcia-se com as transformações e o crânio tomava uma forma achatada. 

A figura feminina assemelhava-se agora a uma gigantesca serpente alada, com um par de asas membranosas nas costas e quatro minúsculas patas que lhe saiam do ventre. A pele fora substituída por uma camada de escamas de um azul eletrizante, contrastando com os olhos de um violeta vivo. Com o seu tamanho atual, mal cabia na apertada rua. Na sua verdadeira forma ninguém ousava fazer frente a Leviatã. Chegara a hora de tomar Berlim e vergar as forças dos humanos…


A Floresta da Morte (2/4) - Pedro Pereira

A manhã estava fria, mas pelo menos já não nevava como no dia anterior. Ivan esfregou as mãos para as aquecer. Aproximando-se da orla da floresta, foi ao encontro do responsável pela equipa de trabalhadores. 

– E então? Quando é que podemos avançar com as máquinas? 

O responsável, um sujeito gordo e careca, coçou o queixo e olhou para a floresta. 

– Isto ainda é capaz de demorar um pouco… A vegetação é muito densa para se avançar já com os bulldozers. Vamos ter de desbravar o terreno antes de podermos derrubar as árvores. 

– Nesse caso apressem-se. 

– Parem! Não podem entrar na floresta! 

Ivan virou-se para enfrentar o velho. Seria possível que aquele louco lhe fosse causar problemas? 

– Vá para casa senhor Petrovitch. Deixe os meus homens trabalhar. 

– Não! Tem de me ouvir! 

– Dimitri! 

Como um cão de guarda bem treinado, o jovem entroncado apressou-se a agarrar no idoso e a puxá-lo para longe do local. 

– Despachem o assunto – ordenou novamente para o responsável dos trabalhadores, que lhe acenou a cabeça em sinal de concordância. 


*** 


Ivan aguardava junto ao carro com Dimitri. A equipa de trabalhadores já se encontrava a desbravar o terreno. Desde que acompanhara Petrovitch a casa, que não voltou a haver qualquer interrupção nos trabalhos. 

– Espero bem que aquele sujeito não nos comece a criar problemas – comentou Ivan. 

– Não sei, mas o tipo deixa-me com os nervos em franja. Os olhos dele parecem completamente vazios, sem vida. É completamente lunático… 

Um grito de agonia vindo da floresta interrompeu Dimitri. 

– Mas que raio?! – protestou Ivan. 

Correu para a floresta a toda a velocidade. Ao chegar junto dos trabalhadores, deu com um dos homens caído no chão, agarrado ao antebraço ensanguentado. Tinha o músculo rasgado e era possível ver o próprio osso. 

Um pouco mais à frente, os restantes trabalhadores berravam e gesticulavam com as ferramentas no ar, tentando afugentar um enorme lobo negro. 

Ivan nunca vira uma criatura com um ar tão ameaçador. O corpo era exageradamente grande e corpulento, parecia impossível um lobo poder alcançar aquelas proporções. Com as orelhas para trás e dentes de fora, rosnava para os trabalhadores que o tentavam afugentar. Porém, apesar de estar sozinho, a criatura não fugia, parecia antes avaliar os adversários com os penetrantes olhos amarelos, como se estivesse a escolher a próxima vítima. 

Ivan sacou do revólver e disparou um tiro para o ar. 

Com o som do disparo, o lobo virou costas e fugiu para o interior da floresta. – Chamem uma ambulância – ordenou Ivan. – Os trabalhos estão suspensos.


Parte 4:
Parte 3:
Parte 1:

A Floresta da Morte (1/4) - Pedro Pereira

Ivan apertou o casaco com força contra o peito. A neve batida a vento ameaçava gelar-lhe as entranhas a qualquer momento. Maldita a hora em que o patrão o enviara para aquele fim do mundo. Apesar da neve e do vento forte, o dia estava longe de ser frio para o que eram as temperaturas habituais na Sibéria. 

– É este o maldito lugar? 

– Sim, é esta a floresta – respondeu Dimitri, ao companheiro de trabalho. 

Os dois homens afastaram-se do velho carro vermelho e aproximaram-se da orla da floresta de coníferas. 

A floresta era densa, repleta de vegetação alta e de árvores com vários metros de altura. Era impensável penetrar por entre aquela vegetação, ainda mais com aquele tempo. 

– Tens a certeza que o idiota do Ygor fez bem a análise do solo? 

– Absoluta – garantiu Dimitri. 

Ivan trabalhava para uma multinacional russa que explorava minérios valiosos. O seu trabalho era simples, ele e a sua equipa encontravam zonas promissoras para exploração e acompanhavam todo o processo até a instalação da operação estar concluída. A Sibéria era conhecida pelos solos ricos em carvão, ferro, ouro e diamantes. Aquela zona em particular mostrara-se bastante rica em ouro. Pelo menos era o que indicavam as análises de Ygor, o técnico de laboratório que trabalhava na atual equipa de Ivan. 

– Muito bem. Liga aos tipos dos bulldozers. Quero-os amanhã aqui sem falta. Temos de nos livrar de todo este matagal e derrubar as árvores. 

– Derrubar as árvores?! 

Ivan e Dimitri voltaram-se para ver quem falava. À sua frente estava um camponês, um homem na casa dos oitenta anos, mal vestido, de barba branca e semblante carregado. 

– Não podem deitar as árvores abaixo! – protestou na sua voz rouca. 

– E posso saber porquê? – questionou Ivan. 

– A morte abate-se sobre quem perturbar a paz desta floresta. Se enfurecerem o espirito da floresta irão ter de pagar as consequências… Se prezam as vossas vidas, deixem este lugar em paz! 

– Superstições locais – segredou Dimitri. 

– Oiça senhor… 

– Yuri, Yuri Petrovitch. 

– Oiça senhor Petrovitch, o meu patrão comprou estes terrenos por uma bela quantia e tenciona explorá-los. Não se preocupe com a floresta, eu asseguro-lhe de que ela não nos vai fazer mal. Você mora aqui perto? 

O velho apontou para o outro lado da estrada, onde se encontrava uma casa antiga. Pelo aspeto, Ivan quase era capaz de jurar que estava desabitada. 

– Oiçam o que eu vos digo! Se perturbarem a floresta vão pagar o preço com as vossas vidas! 

– Dimitri, não te importas de acompanhar o senhor Petrovitch a casa? 

O homem louro e encorpado agarrou no velho pelo braço e afastou-se em direção à casa em degradação. 

– Doido varrido… – comentou Ivan para si. Voltou-se de novo para a floresta. Passou com a mão pela barba de três dias enquanto estudava mais uma vez o cenário. Iniciaria os trabalhos no dia seguinte. Com sorte, assim que as instalações estivessem prontas, talvez conseguisse que o seu patrão o transferisse para outro local. Aquele inferno gelado no norte da Rússia não era para ele.


Parte 4:
Parte 3:
Parte 2:

Indivíduo 103 (3/3) - Pedro Pereira

Recupero a consciência à medida que as drogas vão abandonado o meu organismo. Curiosamente, apesar de a dosagem ter sido maior, não parecem fazer tanto efeito como da primeira vez…

As criaturas ainda estão no laboratório. Discutem umas com as outras. Não se apercebem de que acordei.

– Ele é claramente perigoso e instável! Não o podemos manter nesta situação!

– E o que sugeres que eu faça, Lorek? Que mate a nosso maior feito em vinte anos de investigação?!

– Não vejo outra alternativa. Ele é demasiado instável. O doutor viu a amplitude daquelas ondas psíquicas. Não há registo de nada assim!

As criaturas conspiravam para me matar. É este o meu propósito? Ser apenas uma cobaia de laboratório? Este não pode ser o meu destino!

– Doutor! Os níveis psíquicos!

– O quê?! Não é possível! Ele devia estar a dormir! Os sedativos, rápido!

O líquido verde é novamente injetado no tanque. Sinto o meu corpo a ficar entorpecido, mas logo de seguida recupero o vigor. Estou mais forte.

– Não é possível! Não está a funcionar!

Liberto a minha energia psíquica contra o tanque que me aprisiona. Os tubos e a parede de vidro explodem em milhares de fragmentos. Estou livre.

– Matem-no! Depressa!

Uma das criaturas corre na direção com uma arma de fogo. Ele dispara. Ergo uma barreira psíquica em meu redor e bloqueio os projéteis.

– Fujam!

Lanço uma onda de energia contra o meu atacante. O ser é atirado pelo ar contra a parede. Ouve-se o inconfundível som de ossos a partir com o embate. O corpo cai inerte no chão com o pescoço dobrado num ângulo estranho.

Os restantes correm em pânico para as saídas do laboratório. Bloqueio todas as saídas com a minha mente. Agora eram eles os prisioneiros.

Uma a uma, ataco aquelas mentes rudimentares. As criaturas caiem ao chão sem vida com a massa encefálica a escorrer-lhes pelas fossas nasais.

Deixo uma das criaturas para o fim. O meu criador.

Ao contrário dos restantes, este ser parece não ter medo de mim. Não foge, não grita. Limita-se a olhar para mim com um estranho ar de orgulho e de loucura nos olhos.

Aproximo-me.

– Quem sou eu?

– Quem és tu?!

– Qual é o meu propósito?

A criatura parece espantada por me ver falar na sua língua.

– Tu és o resultado do meu trabalho, de uma experiência para trazer os Inai de volta ao nosso mundo. Uma raça há muito extinta e que desapareceu misteriosamente. Criámos-te a partir do ADN de um Inai. Foste o primeiro espécime a sobreviver…

– Então sou uma cópia… Uma mera sombra do Inai que usaram.

– Oh, não! Tu és muito mais do que isso! Nós melhorámos o teu ADN. És mais forte e mais poderoso do que qualquer Inai que alguma vez tenha existido.

– E o que vai acontecer agora que a vossa experiência terminou?

– Mas a experiência ainda não terminou! Os verdadeiros testes ainda nem sequer começaram!

Estas criaturas… Eu não significo para elas. Não passo de uma cobaia de laboratório.

Aumento a pressão intracraniana do meu criador. O ser cai de joelhos ao chão no momento em que o seu crânio explode. Pela parede escorrem os restos do que sobrou do cérebro.

Percorro as instalações agora desertas e destruo o que resta do laboratório. Abandono o pequeno edifício envolto em chamas e penetro na densa floresta que o rodeia. Eu não nasci. Fui criado. Quem sou eu? Quem me mandou criar? Qual é o meu destino? Eu vou descobrir o meu propósito. Vou descobrir quem me mandou criar, ele irá responder às minhas perguntas. E depois? Depois vou vingar-me. Vou eliminar todos os responsáveis pelo meu cativeiro e quem se atrever a atravessar no meu caminho. Este mundo vai aprender a temer-me…


Indivíduo 103 (2/3) - Pedro Pereira

Despertei lentamente do meu sono e apercebi-me de que aquelas mentes primitivas continuavam a partilhar o laboratório comigo. Pareciam estar mais calmas. Não se aperceberam de que eu tinha acordado. 

Mantive-me imóvel e com a mente calma, livre de perturbações. Talvez assim conseguisse enganar a máquina que me monitorizava. 

Duas das criaturas falavam no seu idioma primitivo. Estavam suficientemente próximas para eu ouvir a sua conversa. 

– Depois de quase vinte anos, finalmente conseguimos! Clonámos um Inai com sucesso! Temos de avisar o Supremo Sacerdote, ele vai querer saber as notícias. 

– Mas doutor, não acha que ainda é cedo? Será que ele está estável? 

– Pela primeira vez conseguimos acordar um indivíduo. Não nos limitámos a clonar tecido, este desenvolveu consciência! Parece-me um motivo mais do que suficiente para informar o Supremo Sacerdote. A Igreja investiu muito nesta investigação, há muito em jogo… 

– E o que vai dizer ao supremo sacerdote? Ele quer um clone de um Inai puro, esta aberração não passa de um mestiço. 

– Clir Lorek, já trabalhas comigo há dois anos neste projeto. És um dos geneticistas mais promissores que Sython já viu. Sabes perfeitamente porque é que não é possível clonar um Inai puro… 

– O corpo do espécime original tinha milhares de anos e, apesar de bem conservado, o ADN deteriorou-se, ficou incompleto… 

– E por isso mesmo, de todos os indivíduos que gerámos até agora, nenhum sobreviveu mais do que algumas horas. Só quando começámos a alterar o genoma do Inai, adicionando-lhe características de outras criaturas para o completar, é que começámos a obter resultados. 

– Não me parece que o Supremo Sacerdote vá gostar da ideia de termos conspurcado o ADN do seu precioso Inai com o de outras criaturas. Os Inai são os deuses da Igreja, as crenças estão bem enraizadas no povo. Além disso, são a base de toda a civilização moderna, toda a tecnologia que possuímos resultou de engenharia reversa dos vestígios que os Inai deixaram no nosso planeta. Clonar um destes seres e alterar o seu ADN não vai contra todas as crenças e ensinamentos da Igreja? 

– Agora é que estás preocupado com moral?! Não sejas hipócrita, Lorek! Aprecia o momento. Graças a este nosso feito vamos ficar para a história! E quanto ao Supremo Sacerdote, ele não precisa de saber todos os detalhes… Afinal, o Inai é o brinquedo dele, a ferramenta ideal para controlar as massas e dar mais poder à Igreja. 

Brinquedo?! Clone?! Aberração?! O que queria isto dizer?! Quem se julgavam estas criaturas para me usarem a seu bel-prazer?! Eu não sou escravo de ninguém! 

– Doutor, as ondas psíquicas! 

– Rápido, adormeçam-no! E coloquem uma dose de sedativo mais forte desta vez! A máquina detestou o meu descontrolo emocional. Em fúria, tentei libertar-me da minha cela, mas em vão. O tranquilizante foi inserido no tanque numa questão de segundos. A névoa regressou e eu caí novamente num sono sem sonhos…


Parte 3:
Parte 1:

Indivíduo 103 (1/3) - Pedro Pereira

Sinto o corpo a aquecer. Os meus músculos contraem-se com espasmos e experiencio o picar da dormência nos membros. Conforme recupero a sensibilidade, apercebo-me de que estou submerso num líquido viscoso. 

Abro os olhos. Luz. A claridade fere-me a vista e impede-me de ver o que quer que seja. 

A minha mente começa a recuperar da sonolência. Parece que dormi uma eternidade… Consigo sentir a presença de várias mentes primitivas em meu redor. Não estou sozinho. Oiço vozes. O dialeto é primitivo mas simples de entender. Aprendo rapidamente aquela língua rude através dos pensamentos das criaturas. 

– Doutor, as medições dos níveis psíquicos estão a aumentar! 

– Não é possível! Ele está?... 

– Ele está a ganhar consciência, doutor! 

– Ao fim de tantos anos, finalmente conseguimos! 

A excitação daquelas mentes primitivas é notória. 

Aos poucos, os meus olhos habituam-se à claridade e recupero a visão. Dou por mim fechado numa sala branca, repleta de instrumentos brilhantes. Estou aprisionado numa espécie de tanque. 

Um estranho ser bípede aproxima-se de mim e olha-me através do vidro. Consigo perceber que ele é o líder. 

– Fantástico… Indivíduo 103, és um sucesso! Vais-me valer uma boa promoção! 

Indivíduo 103? Onde estou? Quem são estes seres? 

Já com o controlo completo dos membros, começo a bater contra o vidro com os meus quatro braços. O ser bípede afasta-se repentinamente. Continuo a bater contra o vidro, tentando libertar-me, mas os meus membros estão presos por vários tubos que saem do tanque, condicionando-me os movimentos. 

– Metam-no a dormir! Já!

Sinto que um líquido é injetado no tanque. Continuo a debater-me, a tentar libertar-me, mas o meu corpo começa a ficar mole. As mentes que me rodeiam parecem ficar cada vez mais distantes. Já não oiço vozes, já não sinto a presença das criaturas. Uma névoa cobre-me os pensamentos e tolda-me a mente. Contra a minha vontade, fecho os olhos e caio num sono profundo.


Parte 3:
Parte 2:

O paciente é o mais forte (paciência) - Pedro Pereira

Ormim Endyere era conhecido por todo o reino como sendo o mais poderoso feiticeiro vivo. O mago ganhara a sua fama ao longo de várias décadas. Contavam as histórias que nunca ninguém o fora capaz de derrotar em duelo. 

Agora, já com mais de oitenta anos, Ormim optara por se retirar para as solitárias montanhas de Ruos, na zona norte do reino. Nunca gostara das luzes da ribalta embora a sua aptidão para a magia sempre o tivesse colocado em posições de destaque. As inóspitas montanhas permitiam-lhe ter uma vida mais calma, pelo que rapidamente fez delas a sua casa. Ali podia instruir os seus discípulos sobre as artes ocultas sem interferências do mundo exterior. 

Ormim passou as mãos pela longa barba branca enquanto observava os seus alunos. Encontravam-se nas margens de um lago escondido por rochedos. Os seus alunos punham em prática o encantamento que lhes acabara de ensinar: como transformar água em gelo. 

– Dradel, respira fundo e concentra-te – declarou Ormim. 

Dradel era um dos seus alunos com maior potencial, mas era demasiado impulsivo, o que lhe dificultava a mestria das artes ocultas. 

– Lembra-te, a água turva não mostra peixes ou conchas, o mesmo acontece com uma mente nublada. Tens de manter a calma e a concentração quando executas o encantamento, ou o resultado não será o esperado. 

– Sim, mestre… 

Continuou a observar os seus alunos com atenção. Ainda tinham muito que aprender e ele muito que lhes ensinar… 

Uma figura coberta por um manto negro surgiu por entre as rochas da encosta. Com passos decididos, encaminhou-se para a margem do lago, onde Ormim e os seus alunos se encontravam. Era raro cruzarem-se com outras pessoas naquelas passagens. Por vezes encontravam alguns pastores, mas Ormim conhecia-os a todos. Aquele homem não era nenhum pastor. 

O desconhecido aproximou-se do mago e parou. 

– Ormim Endyere, pelo código dos magos e pelos deuses antigos, eu, Taird Aughad da casa de Tasygh, desafio-o para um duelo – declarou o homem. 

Taird não devia ter muito mais de trinta anos. Ainda era jovem e dificilmente teria conhecimentos e poder suficiente para derrotar Ormim. Contudo, ditava o código dos magos que não se podia recusar um pedido formal de duelo. Era a forma habitual pela qual os jovens feiticeiros ganhavam fama, mostrando as suas capacidades contra outros mais experientes. 

– Aceito o teu desafio, Taird Aughad da casa de Tasygh – respondeu Ormim, levantando-se da rocha onde estava sentado. 

Todos os alunos pararam com os seus exercícios para assistirem ao confronto. 

Antes que Ormim pudesse mover um único musculo, Taird lançou uma tempestade de chamas contra o mago, envolvendo-o em fogo azul. Mas as labaredas não chegaram a atingir o feiticeiro. Concentrando toda a sua atenção nas defesas, o mago mais experiente fez com que estas se afastassem do seu corpo. 

Taird cessou o ataque de fogo e lançou vários raios na direção de Ormim. Tal como as chamas, estes embateram na barreira invisível que o mago erguera à sua volta. 

Irritado, o jovem feiticeiro lançou uma nova vaga de ataques, mas o resultado foi sempre o mesmo. 

O duelo manteve-se por quase duas horas. Taird atacava Ormim, mas este nem mexia um único músculo nem mostrava intenções de atacar. Limitava-se a permanecer no mesmo local e a focar a sua atenção na sua barreira protetora. 

Sentindo-se exausto e humilhado, Taird deu-se por vencido e retirou-se, deixando o velho mago novamente a sós com os alunos. 

– Mestre, como conseguiu aguentar as defesas por tanto tempo? – questionou Dradel impressionado com a prestação do mestre. 

– Com uma mente calma e limpa. Só assim consegues manter o nível de concentração necessário para bloquear os ataques. 

– Mas mestre, o duelo durou quase duas horas… Como é que não perdeu a calma e a concentração durante tanto tempo? 

– A paz interior depende unicamente de ti. Ninguém te pode tirar a calma a menos que tu deixes – respondeu Ormim. – A paciência e a perseverança são as melhores amigas de um mago. Lembra-te sempre disso.


Inspiração, procura-se! 4/4 - Pedro Pereira

     Dionísio empurrou João para o centro da clareira, colocando-o bem à vista das duas figuras que ali se encontravam. Uma mulher esbelta, de longos cabelos castanhos que envergava um vestido branco e um homem alto de corpo musculado, que vestia uma túnica comprida. 

     – Olá – cumprimentou João, levantando a mão timidamente para acenar. 

     – Então é este o desgraçado? – questionou Calíope claramente enervada. 

     A musa observou o jovem escritor da cabeça aos pés. 

     – Sim, é ele – confirmou Apolo com a sua voz grave. 

    – Eu tentei ajudar, mas o tipo é esquisito. Não gostou de nenhuma das minhas ideias – comentou Dionísio. 

     – Se eu achasse que ele precisava da ajuda de um bêbado, tinha-o enviado para um bar em vez de o trazer para aqui – declarou Apolo. – E então? O que achas mulher? 

    Calíope continuava a observar João atentamente, como se aqueles grandes olhos castanhos lhe estivessem a sondar a própria alma. Fazia lembrar um escultor a analisar a matéria em bruto antes de esculpir uma obra de arte. 

     A musa respirou fundo e deixou escapar um suspiro. 

     – Já os vi bem piores… Talvez este tenha solução. Com um empurrãozinho na direção certa, pode ser que ainda nos venha a surpreender. 

     – Vai-me ajudar? 

     – Com uma condição – avisou Calíope. – Tens de me prometer não irás escrever mais um romance sobre canibais lamechas. Se queres escrever sobre canibais, ao menos eles sejam maus e viris! Não quero voltar a ver criaturas que brilhem ao luar e que andem aos saltinhos pela floresta como se fossem fadas! 

     João nem queria acreditar sobre o quão fácil seria manter aquele acordo. 

     – Está combinado! 

     – Ainda bem. Eu não sei se seria capaz de suportar mais uma desilusão… 

    – Lembra-te do que prometeste, rapaz! Quem tem de a aturar sou eu! Se te atreves a escrever uma palavra que seja sobre o assunto, garanto-te que te transformo numa galinha! 

     João engoliu em seco. 

     – Tem a minha palavra – assegurou. 

     Calíope aproximou-se lentamente de João e colocou-lhe as mãos no rosto. Inclinou-se sobre o escritor e beijou-o com os seus lábios sumarentos. 

     – Detesto esta parte… – comentou Apolo entredentes. 

     João sentiu uma onda de calor a percorrer-lhe todo o corpo. Quando a musa rompeu o beijo e se afastou, sentiu que via o mundo com outros olhos. 

     – Está feito – declarou Calíope. 

     – Obrigado, acho eu… 

     Apolo avançou na direção de João com ar decidido. 

     – Está na altura de voltares para casa – disse o deus. 

   – Se um dia quiseres tomar um copo para afogares as mágoas, é só avisares. Eu levo a bebida – prontificou-se Dionísio. 

     – Agora desculpa-me. Isto vai doer – avisou Apolo. 

     – O que vai?… 

     Antes que pudesse terminar a questão, a mão de Apolo acertou em cheio no rosto de João numa violenta estalada. O jovem julgou mesmo que os olhos lhe iriam saltar das órbitas com a força do impacto. 

*** 

     João acordou sobressaltado com uma dor intensa na bochecha direita, como se alguém lhe tivesse dado uma grande bofetada. 

     Olhou para o relógio em cima da secretária. Eram cinco da manhã. Não se lembrava de ter adormecido nem do sonho que tivera, mas sentia-se invulgarmente inspirado. Pegou na caneta pousada no tampo e começou a escrever. Surgiu-lhe de imediato a ideia de um romance com canibais e adolescentes, mas um estranho desejo de querer comer milho fê-lo parar. Talvez fosse melhor escrever sobre outro tema…




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