A Floresta da Morte (4/4) - Pedro Pereira

O lobo fechou os dentes em torno da garganta de um dos mercenários, arrancando-lhe a traqueia numa cena que mais parecia retirada de um filme de terror. 

Boris e os restantes capangas dispararam sobre o animal. O lobo saltou em direção a Boris e abocanhou o cano da arma, partindo-a em duas. 

Boris recuou atabalhoadamente e sacou da faca de mato. O lobo voltou a investir, mas o mercenário desviou-se com um movimento rápido, espetando a lâmina no flanco do animal. 

Ivan verificou por duas vezes se os seus olhos não o enganavam. Do flanco da criatura escorria sangue azul. 

Ferido, o lobo recuou e curvou-se sobre si mesmo. 

Boris celebrava já o golpe desferido quando o físico do animal começou a mudar. Aos poucos, o pelo que lhe cobria o corpo começou a ganhar uma tonalidade verde e a transformar-se em vegetação. O focinho da criatura encolheu e adquiriu um aspeto quase humano, revelando um rosto de pele azulada e longas barbas compostas por lianas. 

A criatura ergueu-se na sua forma humana. Devia ter uns dois metros de altura e parecia irritada. Com a mão direita, arrancou a faca de mato do dorso e atirou-a para o chão, lançando um grunhido aterrador. 

– Um Leshy! – exclamou Dimitri, que juntamente com Boris e os restantes mercenários se colocou em fuga. 

A tentativa de fuga não passou disso mesmo, de uma tentativa. Como que por magia, a vegetação e as árvores pareceram ganhar vida, rodeando os humanos em fuga. 

Imobilizado pelo medo, Ivan assistiu impotente aos seus companheiros a serem esventrados por ramos de árvores. Os gritos de dor preenchiam o natural silêncio da floresta. 

Quando os gritos cessaram, a criatura avançou para Ivan. 

– Eu avisei-te para deixares a floresta em paz, humano – declarou o Leshy com uma voz profunda. 

– O quê?! 

Diante dos olhos de Ivan, a criatura voltou a mudar de forma, desta vez para uma mais familiar. 

– Você?! 

– Sim, eu – respondeu Petrovitch. – Eu avisei-te e tu não me deste ouvidos. 

– Quem é você?! 

O Leshy voltou a assumir a sua verdadeira forma. 

– Eu sou Yaren, o senhor da floresta. Com um único golpe, O Leshy arrancou a cabeça de Ivan, fazendo-a rebolar pelo chão manchando-o de vermelho. A sua floresta estava a salvo, pelo menos pro agora…


Parte 3:
Parte 2:
Parte 1:

A Floresta da Morte (3/4) - Pedro Pereira

Os trabalhadores regressaram na manhã seguinte, mas negavam-se a trabalhar enquanto o gigantesco lobo andasse em liberdade na floresta. Ninguém se queria arriscar a ser a próxima vítima. 

Perante as reivindicações dos trabalhadores, Dimitri convencera Ivan de que não tinha outro remédio senão chamar um grupo de caçadores furtivos. Tratava-se de um grupo de ex-militares, os compinchas de copos de Dimitri, que tal como o colega, eram encorpados e de cabelo cortado à escovinha. 

– Tens a certeza de que isto é boa ideia? – questionou Ivan ao lançar um novo olhar aos quatro indivíduos. 

– Não te preocupes, eles tratam do serviço – assegurou Dimitri. 

– Disso eu não duvido… Pensei que tinhas falado em caçadores, não em mercenários. 

Um dos homens começou a distribuir armas de fogo de grande calibre pelos companheiros. De certeza que não podiam ser legais. 

– Era uma urgência e tu querias os melhores. Aqui os tens. 

– Vocês os dois, então prontos ou quê?! – chamou um dos homens. 

– Mais que prontos, Boris – respondeu Dimitri. – Fica perto de mim. 

Apesar de a ideia não lhe agradar, Ivan acabou por concordar. Para os trabalhos recomeçarem tinha de se ver livre do lobo, e aqueles tipos pareciam ser a solução mais rápida. 


*** 


Ivan perdeu por completo a noção do tempo e da distância que já haviam percorrido no interior da floresta. Munido de uma faca de mato, Boris liderava o grupo e abria caminho por entre a vegetação enquanto seguia o rasto do lobo. 

– Raios! – protestou Boris. 

– O que se passa? – questionou Ivan. 

– O rasto do lobo desaparece aqui… 

O grupo estava junto a uma enorme árvore, numa zona com pouca vegetação. 

– Desaparece como?! Estamos numa zona praticamente sem vegetação e você disse que o rasto estava fresco! 

– Eu sei o que disse! 

– Boris, isto não tem lógica nenhuma – concordou Dimitri. – Ele teve de ir para algum lado. 

Uma estranha sensação na parte de trás da nuca fez Ivan olhar para cima. O seu coração gelou. Lá estavam aqueles aterradores olhos amarelos. 

Num abrir e fechar de olhos, o enorme lobo saltou do topo da árvore e lançou-se sobre o grupo. O predador acabara de virar presa…


Parte 4:
Parte 2:
Parte 1:

O Primeiro Voo - Liliana Novais

O coração de Aluminir batia acelerado. Aquele seria o seu primeiro voo sem a companhia dos pais. A ideia da independência excitava-a e amedrontava-a de igual modo. Aquele era o maior acontecimento da sua vida, pelo menos até aquele momento. O sangue corria-lhe quente pelas veias e os primeiros raios de sol da manhã faziam as escamas prateadas brilharem. Estendeu as asas e com apenas um impulso elevou-se no ar com a ajuda das correntes ascendentes. 

Pela primeira vez na curta vida sentia-se completamente livre e queria apenas explorar os seus limites. Elevou-se cada vez mais, subindo acima dos cumes das montanhas Farlan, a enorme cordilheira norte de Ahelanae. Subiu bem acima dos pássaros, deixando de os ver. A sua respiração tornou-se pesada e difícil, como se tivesse um peso a contrair-lhe os pulmões. Nem mesmo assim desistiu, prosseguiu com a subida. A visão começou a ficar turva e o ar que entrava nos seus pulmões não era suficiente.Perdeu os sentidos. Aluminir caía descontroladamente, aproximando-se cada vez mais depressa do solo. O chão estava ameaçadoramente próximo. Finalmente abriu os olhos. Teve apenas tempo de reagir e raspar na encosta de um dos picos mais altos, arrastando várias pedras. Sentiu-as a cortar a pele. Uivou de dor quando uma pedra embateu numa das asas. As suas garras raspavam na encosta, numa tentativa de abrandar, mas não conseguia agarrar-se e continuava a embater contra a parede da montanha. Finalmente conseguiu fincar as patas traseiras e abrandar a queda, acabando por se imobilizar. 

Suspirou, nunca mais faria o mesmo. Aprendera com o erro, quase perdera a vida. 

Esticou a asa.Sentia uma pontada de dor mas era suportável, felizmente não a tinha partido. Retomou o voo. Teria de ser mais cautelosa. Apenas queria sentir o vento sob as asas. Sobrevoou as montanhas em direcção à Floresta de Holvar. Acompanhou os pássaros, voando ao seu lado, pairando sob os altos picos. Fazia corridas com as velozes águias Tiran, as quais tinham metade do seu tamanho. Ria-se. Entendera, finalmente, o significado de ser livre, de poder voar. Estava feliz. 

Uma sombra tapou-lhe o sol. Assustada, olhou para cima. Um segundo dragão prateado surgiu no céu. Aluminir não estava à espera de companhia no seu primeiro voo. 

Iniciaram numa graciosa dança alada,como se duma corte se tratasse. Faziam piruetas, voos rasantes, em torno um do outro. Aluminir não queria admitir, mas estava a divertir-se com aquele dragão desconhecido. Estava curiosa, sem contar com os seus pais, nunca vira outro dragão. Queria falar com ele, conhecê-lo melhor. 

Ela olhou para baixo, já não estavam sob as montanhas, a verdejante floresta estendia-se agora por baixo deles. À frente, um enorme lago alongava-se, o lago Tadal. Ela começou a descer em direcção a este. O outro dragão entendeu e seguiu-a. 

Aluminir tentou aterrar o mais graciosamente que conseguia, queria fazer uma boa figura para o seu companheiro. Virou-se e ficou a observá-lo. Ele era um grande macho prateado. Os seus olhos verdes, raros na sua espécie, fitavam-na com a mesma curiosidade que sentia. Começaram a andar um em torno do outro, observando-se mutuamente. Ele não era muito mais velho do que ela, teria mais cem anos no máximo. Ela queria tocar-lhe, falar-lhe mas não sabia o que dizer. Queria saber mais sobre ele. O seu coração batia mais depressa. O sangue nas suas veias fervia e não compreendia a razão. 

- Olá! Eu sou a Aluminir. E tu, quem és? – Perguntou ela, disfarçando o nervosismo. - Eu sou o Seneth.