Os Deuses do Fogo 2/5 - Liliana Novais


Os primeiros raios de sol espreitavam pelo topo da montanha, iluminado o vale que se estendia até ao horizonte. Todos os dias àquela hora, em que os habitantes da aldeia ainda dormiam, ela descia do seu castelo, no topo montanha em busca das oferendas que os aldeões lhe haviam deixado no dia anterior. Adorava as frutas acabadas de colher, as quais eram adocicadas pelo sol dos trópicos.
Nessa manhã, Miri acompanhava-a. Era a primeira vez que a pequena Deusa se encontrava no mundo dos humanos e sentia-se fascinada pelas cores e pelos animais que despertavam. Ela sentia curiosidade em relação aos humanos, queria ver um mas sabia que a sua mãe nunca lhe permitiria aproximar-se deles. Facto que a entristecia bastante.
O templo era vasto, colunas sumptuosas suportavam o teto abobadado. A pequena Miri ficou encantada com o engenho que os humanos apresentavam, eles conseguiam construir coisas lindíssimas sendo incapazes de dominar as forças da natureza. Atrás do altar encontravam-se imagens gigantes dos seus pais, estranhamente semelhantes à realidade. Pousados sobre a toalha branca bordada encontravam-se travessas e cestos repletos de comida.
Miri observou a mãe enquanto ela vistoriava o conteúdo de cada um deles, e os inspecionava cuidadosamente. A deusa movia-se com graça e elegância através do salão. Ela viu a sua mãe ficar zangada, as velas que se encontravam espalhadas, arderam com mais intensidade, com a fúria desta. Ela ficou assustada com a reação da mãe, nunca a vira assim. A deusa saiu furiosa do templo. O céu que se encontrava limpo encheu-se de nuvens e formou-se uma tempestade.
Ikiri, que ainda repousava, foi acordado pela tempestade. Sabia que Ubasti tinha que estar por detrás daquela repentina mudança climatérica. Tinha de a parar antes que ela destruísse tudo. Ele não queria ter de recomeçar com uma nova aldeia, ele que tanto amava aqueles humanos. Desceu ao templo em busca dela, mas este estava em chamas. O fim havia começado.







As Crónicas de Decessus – O Demónio de Wharrom Percy 2/5 - Pedro Pereira



 Na manhã seguinte, William levantou-se cedo, como era habitual. O facto de ter uma identidade demoníaca aprisionada no seu corpo, fazia com que o seu organismo recuperasse rapidamente, tanto da fadiga das viagens, como dos golpes que sofria em combates. A sua condição única tornava-o forte e resistente, pelo que as muitas horas de cavalgada do dia anterior, não eram mais do que uma brincadeira de crianças.
                No final da noite anterior, o guerreiro ficara a saber que o homem que o abordara era um dos servos do Lorde Chamberlain, um dos fidalgos da vila. O homem comprometera-se a agendar um encontro com o Lorde nessa manhã, na qual o fidalgo pagaria a William pelos seus serviços.
William tentara retirar algumas informações do homem sobre o tipo de demónio que estava prestes a enfrentar, no entanto, não tivera sucesso. Muitas das descrições que o homem lhe dera, eram imprecisas ou contraditórias. Isto para não falar que era difícil diferenciar o que correspondia à realidade do que era criação da plebe. Os populares, por medo e desconhecimento das criaturas das Trevas, tinham tendência a exagerar nos seus relatos. Um caçador de demónios experimente, sabia que não podia confiar por completo nas histórias do povo, caso contrário, teria de se satisfazer com descrições de criaturas que cuspiam fogo da boca e lançavam raios pelo cú.
A manhã estava cinzenta, e a chuva continuava a cair do céu carregado de nuvens, apesar de já não o fazer com tanta intensidade.
Assim que saiu da estalagem, Moonraiser foi cumprimentá-lo, como se de um cão se tratasse. O lobo cinzento tinha o focinho coberto de sangue seco, pelo que William calculou que alguns dos camponeses tivessem perdido uma ou duas galinhas durante a noite. William afagou a cabeça do animal e seguiu o seu caminho, com o lobo no seu encalço.
Ainda faltavam algumas horas para o suposto encontro com Lorde Chamberlain, pelo que, o caçador de demónios decidiu explorar a vila. Uma das regras básicas no que tocava a caçar, era conhecer o local onde iria decorrer o combate. Decessus era demasiado experiente para saber que estar familiarizado com a região, lhe podia conceder a vantagem num momento critico, ou mesmo salvar a vida.
 Acompanhado por Moonraiser, William estudou Wharrom Percy de uma ponta à outra, enquanto a maioria dos habitantes ainda dormia. A vila era composta praticamente por uma única rua, com casas de ambos os lados. Pelas contas de William, devia haver umas trinta e sete. Atrás de cada casa, existiam os campos de cultivo. Havia ainda uma igreja, e duas mansões, uma das quais certamente pertencia à família Chamberlain. Contudo, foi a outra mansão que chamou a atenção de William.
A enorme residência, claramente pertencente a alguma família da nobreza, fora alvo de um incêndio. A zona norte da mansão fora praticamente reduzida a cinzas, não restando muito mais do que algumas paredes enegrecidas pelo fogo. A zona sul parecia ter sido menos afectada. Apesar de apresentarem um ar instável, as ruínas ainda permitiam reconhecer os traços arquitectónicos da mansão. Do exterior, parecia que algumas das divisões da região sul se mantinham relativamente intactas. Porém, o que era curioso era o facto de as casas adjacentes à zona norte, a mais afectada, se encontrarem incólumes.
William acabou por perder mais alguns segundos a olhar para as ruínas antes de se dirigir para a mansão do Lorde Chamberlain. Começava a fazer-se tarde, e William não gostava de chegar atrasado.
Enquanto atravessava a povoação pela segunda vez, Decessus foi vítima dos olhares curiosos dos habitantes da vila que já tinham iniciado o seu dia de trabalho. A figura sinistra de William e o porte ameaçador de Moonraiser, atraíam a atenção de alguns dos populares.
 Ao chegar à mansão dos nobres, William bateu à porta e ficou a aguardar que algum criado o fosse receber. Não tardou para que um sujeito de bigode e ar empertigado lhe abrisse a porta.
– O Lorde Chamberlain aguarda-o – declarou o criado.
– Aposto que sim!
William preparou-se para avançar, mas o criado barrou-lhe o caminho, apontando de seguida para o lobo.
– Essa criatura não pode entrar!
Como que compreendendo as intenções do criado, Moonraiser mostrou os dentes ao humano e começou a rosnar, fazendo o criado recuar alguns passos atabalhoadamente.
– Tens a certeza de que queres discutir isso com ele? – questionou William apontando para o lobo. – Eu cá não tentava a minha sorte…


Decessus empurrou a porta e avançou pela casa sem o consentimento do criado, sendo seguido de perto pelo imponente lobo.

Continua…





Os Deuses do Fogo 1/5 - Liliana Novais



A aldeia cresceu à sombra da montanha. Os seus antepassados haviam-se fixado ali milénios antes, porque os deuses que a habitavam eram bons e haviam abençoado a terra com fertilidade. Tudo o que ali plantavam florescia, e a aldeia prosperava. Como agradecimento da bondade que eles demonstravam, os habitantes sacrificavam animais num templo sagrado e deixavam as carcaças para que estes os continuassem a favorecer. A tradição manteve-se e os Deuses continuaram a ser favoráveis para a aldeia.
Ikiri, o Rei dos Deuses, via os seres humanos com curiosidade e visitava-os frequentemente. Era o mais alto de todos, numa casa humana, a sua cabeça roçava no teto. Nem um lutador de sumo era tão imponente como ele. Tinha uma atitude meiga e felina, conseguia ser tão dócil quanto um gato doméstico e como feroz como um gato de rua, os seus olhos eram iguais aos destes. A sua rainha, Ubasti, era a mais bela de todas e vaidosa. Era viciada em toda a idolatração que os seres humanos manifestavam por ela.
«Mãe, porque é que os seres humanos vivem no sopé da nossa montanha? – Perguntou Miri, a mais nova filha do casal, tão bela quanto a mãe, mas com os cabelos cor de fogo do pai.
 «Os seres humanos criam e plantam os animais que comemos. Eles vivem para nos servir e adorar. – Explicou a deusa loira à sua filha, enquanto acariciava o seu cabelo com carinho.
Ikiri entrou nos aposentos, onde ambas se encontravam a repousar.
«Mais um dia no meio dos humanos, meu amor? – Perguntou a rainha. – Eu sinceramente não entendo porque é tu gostas de permanecer tanto tempo no meio deles. São criaturas primitivas e sem sabor, cuja única utilidade é servirem-nos e adorarem.
«Eles são muito mais do que isso. São realmente fascinantes. Se os conhecesses realmente, ao invés de permaneceres fechada neste palácio sem teres contacto com o mundo real, acabarias de ter a mesma opinião que eu. Vem comigo da próxima vez e verás com os teus próprios olhos como eles mudaram.
«Tu podes ter convencido os nossos dois filhos mais velhos a te seguirem nessas aventuras no mundo inferior, mas ao fim destes milénios ao meu lado, já deverias saber que não vou sair daqui para me rebaixar e passear no meio daqueles humanos.
Ele sabia que não valia a pena discutir com ela. Nunca haveria de mudar, já se havia resignado com isso. Sabia que a tinha de manter feliz e calma. Ela era a Deusa da montanha e do fogo. Aqueles não eram os primeiros seres humanos a habitarem aquelas paragens, ela acabara com uma civilização anteriormente e seria bem capaz de o fazer de novo. A memória dos humanos era curta, e a história já se havia tornado mito, mas para ele era tudo bem real, ainda se lembrava do horror e da morte que a sua mulher causara milénios antes, fazendo com que a montanha explodisse, e inundasse a primeira aldeia em fogo e lava.
Continua…