Inspiração, procura-se! 1/4 - Pedro Pereira

     João amachucou mais uma folha de papel e atirou-a em direção ao caixote do lixo do outro lado do escritório. Esta fez ricochete na borda e caiu ao chão, juntando-se ao amontoado de folhas que povoavam a área. 

      Na manhã daquele dia recebera a notícia de que o seu último romance fora rejeitado por mais uma editora. Algo que João tinha dificuldade em entender. Afinal, quem é que não gostaria de ler um romance sobre homens das cavernas armados com mocas que montavam mamutes e que gostavam de lutas de boxe com dinossauros? Ou mesmo o seu trabalho anterior, uma história sangrenta sobre um grupo de suínos que se exaltou durante um concerto de rock, acabando por espalhar o pânico por entre a multidão, culminando no cancelamento do espetáculo? Não, João não compreendia o porquê de tantas rejeições. Tanto quanto era capaz de ver, as suas ideias eram brilhantes e arrojadas. 

      Inclinou-se sobre a pequena secretária e recomeçou a escrevinhar. A editora dissera-lhe que estava à procura de algo épico e era isso que João lhe iria dar. Porém, a única coisa realmente épica naquele momento era a sua bebedeira. Era a quarta cerveja que bebia para afogar as mágoas, passando bem o seu limite de duas. A falta de sorte de João com as editoras só era equiparável à sua fraca resistência ao álcool, que desde sempre fora motivo de chacota entre amigos. Contudo tinha uma vantagem, em noites de bebedeira, João saía muito barato… 

      Após alguns gatafunhos indecifráveis escritos à pressa no caderno, João arrancou a folha e atirou-a em direção ao caixote, acertando em cheio na abertura. Pelo menos a sua pontaria estava a melhorar. 

      Sonolento e frustrado, deixou cair a cabeça sobre o tampo da secretária e entregou-se ao sono. Estava completamente esgotado e a inspiração não estava definitivamente do seu lado…

Os Kravyads 3/7 – Rakshasas – Vitor Frazão

     - Quê?... Que raio de brincadeira é esta? – atirou Luís cada vez mais nervoso, tentando afastar as mãos da mulher. – Largue-me. 

      - Parece um palonço, mas é vivaço. Isso é bom… – afirmou Kunti, animada, mantendo um aperto firme no pulso direito e na parte detrás do pescoço do rapaz. 

      O olhar faminto da indiana aumentou o medo de Luís, levando-o a entrar em pânico. Assustado, o jovem estudante estrebuchou com todas a energia que tinha e acabou por conseguir libertar-se, sentindo cortes no pulso e pescoço ao fazê-lo, aparentemente provocados pelas unhas da mãe de Ana. Demasiado alarmado para reflectir na desproporcionalidade das dores perante golpes tão pequeno, limitou-se a girar sobre os calcanhares, para fugir daquela casa de doidos, só que, ao tentar rodar a maçaneta perdeu a sensibilidade na mão e começou a ver tudo desfocado. Num piscar de olhos, o corpo deixou de obedecer-lhe e as pernas cederam, levando-o a cair para trás, sendo apanhado e aparado pela indiana, antes que pudesse tombar no chão. 

      “Drogaram-me!” pensou, em pânico, concebendo, numa fracção de segundo, dezenas de cenários, cada um pior que o anterior. Aterrorizado tentou gritar, todavia, por mais que se esforçasse, o som não saiu. 

      - Não te preocupes, rapaz, não te poderás mexer, mas sentirás tudo – garantiu Kunti, rasgando um sorriso sádico. Considerando que, uma vez paralisada a vítima, já não havia necessidade de manter a ilusão que ocultava o cheiro a carne podre que todos os rakshasas emitiam, a mãe de Anath removeu o sortilégio, com um simples pensamento. 

      Desejando assegurar que o jovem se mantinha vivo, mas imobilizado, a velha rakshasi decidiu aumentar a dosagem, para tal, enfiou uma das unhas, com cerca de dois centímetros, debaixo do olho direito de Luís, injectando-lhe as toxinas directamente na corrente sanguínea. 

      - Importas-te de mudar para algo mais próprio? – criticou Kunti, em hindu, pegando no jovem ao colo sem esforço aparente. – O Cegueta deve estar a chegar e tu nesses preparos. 

      - Mãe… – queixou-se Anath, na mesma língua, farta de ter sempre a progenitora a implicar com ela. 

      - O que foi, custa-te alguma coisa? Porque é que tens tanta vergonha da tua herança? Já te esqueceste que?… 

     - Pronto está bem – interrompeu a filha, sem paciência e considerando que mais valia ceder do que aturar outro sermão. Sem mexer um músculo, Anath mudou de apresentação. Os seus olhos tornaram-se castanhos, os longos cabelos louros passaram a negros e o tom de pele escureceu, para se assemelhar ao da mãe. – Satisfeita? 

      - Muito melhor – sentenciou a progenitora, que odiava quando a filha saía à rua com uma aparência tão diferente da dos pais. Apesar de, como rakshasi, nome dado a uma rakshasa fêmea, puder assumir diversas formas e criar todo o tipo de ilusões, Kunti fazia questão que a sua aparência humana coincidisse com o aspecto dos nativos da região onde nascera, como sinal de respeito para com a sua linhagem, e exigia o mesmo da filha. 

      - “Melhor” não, apenas mais vulgar – retaliou Anath, contemplando o rosto por uns segundos, no pequeno espelho que tirara da mala, antes de o fechar repentinamente, irritada e insatisfeita como o que via. – Já não basta vivermos nesta pasmaceira, também temos de parecer tão… banais? 

      Na verdade, nenhum humano seria capaz de olhar para ela e considerá-la banal, muito pelo contrário, a mudança acrescentara à anterior beleza e perfeição sobrenatural um toque de exotismo. Contudo, após usar aquela aparência durante duzentos e trinta anos, estava farta dela e mal podia esperar para utilizar outras. Contrariamente aos pais, que pareciam satisfeitos com a rotina, a jovem queria o caos de novas emoções e experiências. 

     - Deixa-te de coisas – cuspiu Kunti, virando-lhe as costas, com o humano nos braços, tão desejosa de ouvir as queixas da filha, quanto ela as suas. – Quando o Cegueta chegar, trá-lo à cozinha. - Sim, mãe – anuiu a rakshasi mais nova, por entre um suspiro de tédio, começando a experimentar outras etnias e feições assim que a mãe entrou na cozinha.



Morte Branca - Liliana Novais


     Era véspera do dia de Todos os Santos, feriado que nos leva aos cemitérios e a honrar pessoas a quem não dávamos importância em vida. Eu estava sentado no sofá de minha casa olhando para o ecrã da televisão sem prestar grande atenção à emissão. Na casa ao lado uma festa do dia das bruxas parecia não ter fim. Malditas importações culturais. Nada daquilo é nacional é apenas uma desculpa para as raparigas se vestirem de prostitutas, e os rapazes sentirem-se viris, sem ninguém se importar com isso. Eles divertem-se com uma ilusão, será que as bruxas virão esta noite e acabarão com esta diversão toda? Ao menos teria descanso.
     Estava a pensar chamar a polícia, quando o chão começou a tremer. A festa parou e os gritos histéricos substituíram a música.
     Eu vivera uns anos em Los Angeles e sabia o que fazer. Abriguei-me debaixo da minha mesa de centro e esperei que o pior passasse. Sabia que na pior das hipóteses demoraria uns minutos.
     O tempo passou e a intensidade aumentou como se algo enorme se aproximasse de nós.
     As raparigas gritavam cada vez mais histéricas.
     - Fujam! Fujam! Que ele vem aí. Salvem-se!
     A curiosidade levou a melhor sobre a prudência e abandonei o meu refúgio para ver o que se passava na rua. Parado à minha porta as pessoas fugiam a correr.
     - Fuja que ele vem aí! - Desatando a correr novamente.
     Antes que eu lhe pudesse perguntar do que fugia, ele desapareceu na multidão aterrada, que corria desordenadamente, a gritar em plenos pulmões. Eu, sem saber o que fazer, continuei a assistir àquele espetáculo como se de um filme se tratasse.
     Os meus pés começaram a elevar-se do chão. No final da rua, vislumbrei, finalmente, do que aquelas pessoas fugiam… Um enorme coelho branco roía uma árvore num quintal. Ele devia ser tão alto como uma casa de dois andares, e o seu apetite voraz, acabaria por consumir tudo à sua passagem. Eu olhava aterrado para aquele monstro, os seus dentes eram enormes fiquei estático por momentos, sustendo a respiração tentando entender o que aquele bicho era e como era possível ele existir
     Juntei-me à multidão assustada. O meu coração batia descompassadamente. De onde teria vindo tal monstro?
     Afastámo-nos dele enquanto ele comia consolado mais um jardim e uma outra árvore. Era a primeira vez que via tal bicho comer madeira. Mas também nunca vira um coelho gigante antes. Eu tremia como varas verdes, custava-me a respirar, sentia um enorme peso sob o meu peito
     - Ouvi dizer que ele comeu um ser-humano. - Comentou um dos homens, entre as dezenas, que se encontrava escondido debaixo de uma ponte comigo -.
     - Os coelhos não comem carne. - Respondeu outro. - Do que eu tenho medo é de ficar esmagado numa das suas gigantescas patas.
     - Eu ouvi a mesma coisa. A mulher de um vizinho meu contou-nos que ele lhe comeu o marido, quando este o tentou enxotar.
     Eu ouvia aqueles relatos, atentamente, e pensava no trabalho do meu pai. Cientista militar, tudo o que ele fazia era secreto e algo me dizia que ele estaria envolvido. O seu animal de estudo preferido era o coelho, devido à sua rápida multiplicação. Imaginava como seria ser comido como se de uma cenoura me tratasse. Ver aquele animal mastigar um ente querido sem poder fazer nada para impedir deve ser uma agonia e dor enorme.
     Pelo tremer do chão sabíamos que o raio do bicho estava novamente em movimento. E aproximava-se rapidamente. Nós não podíamos permanecer ali, assim que ele tentasse transpor a ponte que ligava as duas margens de Vilarejo, ela cederia com o peso. Acabaríamos mortos naquele lugar sob os escombros.
     A parte onde o coelho se pavoneava estava completamente destruída e parecia que, quanto mais ele devorava, maior se tornava.
     A população não sabia o que fazer. O presidente da junta tentava, a todo o custo, entrar em contacto com a Protecção Cívil. Contudo os postes das linhas fixas haviam sido devoradas e as antenas das redes móveis atiradas ao chão.
     Sem saber o que fazer, os autocarros da junta e as carreiras, esperavam pelos habitantes, tentando levar todos para fora da cidade. Estes entravam, rapidamente, atropelando-se para encontrarem uma vaga, um pequeno espaço onde coubessem nos já atolados veículos. Partiam nestes sentados, em pé. Mas, estes salva-vidas não levariam toda a população, alguns seriam deixados para trás à sua sorte. Cada um tentava salvar-se sem olhar a quem ultrapassava.
     Eu fui um dos que fiquei para trás, sem ter espaço para me salvar. Sabia que iria morrer ali.
     Estava numa pequena colina e vi o bicho atravessar o rio com um salto apenas. Nada o conseguiria parar. Os poucos elementos da Guarda Nacional Republicana que estavam aquartelados na nossa aldeia, disparam contra ele, tentando detê-lo. Para meu espanto, e horror, estes foram devorados pelo esfaimado coelho.
     Era o meu fim. Em breve o animal estaria ali e os seus olhos vermelhos seriam a última coisa que veria. Aceitei o meu fim e sem medo dirigi-me na sua direção, de encontro a morte branca que me aguardava faminta.