Diligência - Carlos Silva

Uma nova vergastada cortou o ar, emitindo o seu terrível silvar. Uma linha fina de sangue rasgou-se nas costas de Semião entre os sulcos vermelhos das vergastadas anteriores. O jovem guerreiro cerrou os dentes, quase cortando a língua, absorvendo no seu silêncio a dor lancinante. O mundo estava turvo. Mesmo assim, conseguia ver os olhares fixos e inexpressivos dos restantes recrutas que assistiam ao castigo. 

- Diligência! – berrou o instrutor, demorando-se em cada sílaba. – Acima de tudo, diligência! 

Semião acenou com a cabeça, aceitando o castigo. Era preciso estar alerta, constantemente de sobreaviso, sempre pronto a actuar. Era treinado para atingir o ideal de soldado, que ao mínimo sinal se transmutasse numa máquina de matar, sem reflexão nem ponderação, apenas acção. Uma nova vergastada caiu sobre as costas de Semião, fazendo algumas gotas de sangue cair no chão. O instrutor parecia satisfeito com o castigo e deu ordens para dispersar. Como um só corpo, o batalhão afastou-se do palanque onde agora Semião jazia no chão, ao lado do toro. 

Um par de braços arrastou o corpo inconsciente do soldado castigado de novo para a caserna, deitando-o numa cama. 

Quando Semião voltou a abrir os olhos, já a noite ia alta. As costas ainda latejavam de dor, avisando-o do que aconteceria se ele se tentasse mover. Do exterior, abafados pela grossa muralha e pela distância, conseguiam-se ouvir os gritos de guerra dos seus companheiros e os guinchos dos ferradentes que, mais uma vez, atacavam a cidade. Semião daria tudo para estar a combater lado a lado com os seus colegas, a proteger a cidade, a cumprir o destino que desde criança escolhera. Tentou levantar-se, mas a dor sobrepôs-se à vontade. Diligência! Repetiu para si e fez uma nova tentativa, erguendo-se num movimento desengonçado. Conseguia agora espreitar pela janela, onde o céu nocturno se iluminava de clarões das rajadas de magia que os magos atiravam contra os ferradentes. 

Todas as noites a história repetia-se, tal como sempre fora desde que havia registo da civilização. Assim que o breu cobria a terra, os ferradentes saíam dos seus covis sedentos de carne humana e lançavam-se num ataque selvagem à cidade mais próxima. Alguns povos isolavam-se em cidades subterrâneas, outros viviam em cidades flutuantes, mas a cidade de Semião, dependente da agricultura, apenas podia erguer muralhas e organizar turnos para que em cada ataque os ferradentes encontrassem a morte nas armas e feitiços em riste. 

O combate duraria, vaga após vaga, até ao sol nascer. Os ferradentes recolheriam para a floresta, levando consigo para comer os seus irmãos caídos em batalha e, se tivessem sorte, algum humano que tivessem conseguido capturar. 

Semião suspirou, pensando nos seus colegas. Aquela era a noite em que o seu batalhão ia ser levado, pela primeira vez, a assistir à defesa da cidade. Não era raro os batalhões em treino serem requeridos para a batalha na sua primeira noite de observação. Semião cerrou os dentes de frustração. Não conseguia suportar a ideia de poder estar a perder uma oportunidade única de despedaçar os monstros que tinham morto o seu irmão mais velho, em vez dos fantoches de treino. Como ansiava ferrar as mãos na sua lança e empalar três e quatro ferradentes de uma só vez. Aprendi a lição. Disse para si. De ora em diante, serei o soldado mais diligente de todos. 

A porta da caserna abriu-se num estrondo, fazendo Semião saltar dolorosamente de susto. O perfil de um soldado recortou-se entre o exterior e o interior. Movia-se com dificuldade, com uma mão a segurar algo contra a barriga. Foi ao ver o sangue a pingar sobre o chão que Semião se apercebeu que estava ferido. Bradou por um mago hospitalar e acorreu ao colega. Não era do seu batalhão, era muito mais velho, provavelmente um veterano que não se conseguira afastar do clamor da batalha. Guiou-o até à sua cama, onde o estendeu. O soldado veterano não respondeu a nenhuma das perguntas que Semião lhe fizera, apenas grunhia sons incompreensíveis motivados pela dor. Semião clamou de novo por um mago hospitalar, mas não obteve qualquer resposta. 

De repente, um segundo homem abeirou-se da porta. Era o seu instrutor, arfando, de espada em punho, procurando algo como um louco. A armadura estava coberta de sangue que se mesclava com o vermelho da capa, mas o seu dono não parecia estar ferido. Colérico, o instrutor apontou para o soldado caído e gritou, projectando fios de baba em todas as direcções:
- Mata-o, Semião! Mata-o! 

Semião olhou para o seu instrutor, olhou para o homem ferido e de novo para o instrutor. Porque é que ele lhe pediria isso? Que se passaria com ele? Que teria feito aquele soldado de tão mal que merecesse a morte? Estaria o instrutor louco? Não podia matar assim sem mais nem menos! 

O recruta ouviu algo a rasgar atrás de si. Quando se virou, apenas teve tempo de ver uma forma negra e esquelética a irromper do soldado moribundo, espalhando carne sangue em todas as direcções. Os olhos amarelos da criatura fitaram os de Semião, arrancando as últimas réstias de coragem do recruta cujas pernas tremiam sem controlo. O instrutor rodou a espada sobre si e desferiu um golpe no ferradente, cortando-o ao meio, não sem antes a criatura abrir com um golpe a garganta de Semião. 

Os dois corpos caíram em uníssono no chão, mesclando os seus sangues avermelhados. O instrutor abanou a cabeça condescendente. Não se podia demorar muito mais ali, os seus recrutas precisavam de si na frente de batalha. Saiu porta fora, deitando um último olhar ao último folgo de Semião. 

- Diligência… Diligência acima de tudo, Semião.


3 comentários:

Selenyum disse...

Gostei particularmente do setting dos ferradentes!

Leto of the Crows disse...

Como já tinha dito, gostei do conto e da conclusão que lhe deste :)

Joel-Gomes disse...

Gostei do conceito dos ferradentes - é o tipo de criatura ideal para uma história destas - mas não gostei muito do nome. Soa um pouco abrasileirado. Nada contra o Brasil, até porque muito do que li na minha infância e juventude veio desse 'país irmão', é apenas a sonoridade do termo 'ferradentes' que parece um pouco deslocada da nossa. De qualquer modo, uma rápida consideração de outras alternativas faz concluir que não há muito por onde se escolher se se quiser um nome chamativo e poderoso. Fiquemos assim.
Fora este (longo) aparte inicial, apreciei bastante este conto. Está bem trabalhado, nomeadamente ao nível da personagem principal e da oposição entre da sua vontade de lutar e matar quando não pode e a sua hesitação em fazer isso quando é ordenado. Semião é um soldado forjado pela guerra com os ferradentes, treinado para matar sem hesitar, mas hesita num momento chave e isso acaba por ser o seu fim.
É um personagem que gera simpatia pela sua perda e é um sinal de grande perspicácia despachá-lo de forma tão rápida (até a frase que descreve a sua morte é curta). A sobrevivência de Semião não teria o mesmo impacto. Arrisco mesmo dizer que seria o pior dos finais.

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