Paixão 4/4 - Liliana Novais

Os Eraks foram apanhados desprevenidos pelas hordas furiosas que procuravam sangue. A paixão de Tobi foi a desculpa perfeita para aqueles que odiavam os Eraks e que esperavam que algum deles cometesse um erro para soltar a sua ira contra toda a população. A sua sede de vingança era enorme e todos sofreram. Armaram-se de paus, pedras, bastões. Tudo servia para infligir dor, já que não os conseguiriam matar com aquelas armas. Os Eraks feridos eram rapidamente transportados para os curandeiros. Felizmente as hordas não tinham em sua posse uma Kaleth, a única arma que conseguia matar Eraks e retirar-lhes o poder. Estas tornaram-se raras após a grande guerra e apenas alguns mercenários as possuíam e felizmente não havia nenhum na cidade. 

Os que ainda se encontravam aptos reuniram-se na cabana do oráculo. Tinham de fazer algo para que as hostilidades parassem. 

- A culpa disto tudo se estar a passar é do Tobi. – começou um deles. Fazendo com que este se sentisse ainda mais culpado. 

- A culpa não é dele! – Defendeu-o Orak. – Tal como qualquer um de nós, ele apaixonou-se… 

- Mas mais nenhum de nós se apaixonou por quem não devia! 

Orak abriu a boca para responder, mas Tobi interrompeu-o. 

- Eu sei que me apaixonei. Mas eu pergunto-vos: qual de vocês consegue dizer ao vosso coração o que fazer? Por quem se apaixonar? Eu sei que não consegui. O amor tem vontade própria e ninguém o controla. Amo a Athena e faria tudo por ela. Só lamento ter-vos arrastado para o meio da confusão. Nunca vos quis fazer mal. Mas a verdade é esta: quem são eles para nos mandarem fazer algo? Quem nos pode dizer que uma pessoa não se pode apaixonar por outra? Não devíamos ser livres de escolher o nosso próprio futuro? Temos de lutar pelo que acreditamos, pelo que amamos! Já pagamos muito pelos erros dos nossos antepassados. Durante cem anos mantivemo-nos nas sombras, chegou a altura de dizermos basta! 

O discurso de Tobi incendiou os corações de todos os que o ouviam. Todos sentiam o mesmo que ele e sabiam que aquela era a altura certa para agir. Mostrar que não iam tolerar mais a descriminação. O fim estava próximo. Ou venciam ou morriam a tentar. 

Orak informou o seu amigo que o Lord Huntington ia enviar a sua filha novamente para longe, para a casa de uma tia e que também havia chamado alguns mercenários para a protegerem. Ele era benevolente com os Eraks, mas que os deuses o livrassem de a sua preciosa filha se envolver com um deles! 

O plano era simples, interceptar a carruagem onde Athena seguia de modo aos dois poderem fugir. Seria uma vida complicada, sempre com medo, mas ao menos estariam juntos. Todos os que apoiavam Tobi se prepararam, ali, naquela pequena terra do norte, a revolução ia começar… 

*** 

Esconderam-se no estreito de Gordan. O local perfeito para uma emboscada. Aguardavam em silêncio, ocultos pela densa floresta. A carruagem aproximava-se rapidamente. Uma árvore caiu impedindo a passagem, forçando-a parar. Os homens que a protegiam ficaram alerta temendo uma emboscada. 

Ramos de árvores controlados pelos Eraks derrubaram os mercenários dos seus cavalos. As plantas rasteiras agarram alguns deles e envolveram-nos, restringindo-lhes os movimentos. Animais da floresta assustaram os cavalos que fugiram para longe. Os mercenários colocaram-se em defesa, os Eraks não os podiam matar mas podiam incapacitá-los e levar a sua carga preciosa. Num abrir e fechar de olhos estavam rodeados por centenas de rebeldes. 

Athena espreitou pela sua janela curiosa, o seu coração acelerou quando viu Tobi no meio da multidão. Ele tinha ido salvá-la. Afinal amava-a tanto como ela a ele. 

O confronto tomava agora proporções mais elevadas. Bolas de fogo foram lançadas para separar a carruagem dos seus protetores. Árvores altas nasciam do solo e cresciam a velocidades espantosas criando o caos. Tobi corria para a carruagem de encontro ao seu amor. Do seu interior saiu o Lor Huntington. 

- Se pensa que vai levar a minha filha está enganado. Ela nunca vai ser sua. Deixe-nos passar. 

- Mas eu amo-a. – replicou Tobi. 

- Eu tratei-vos sempre bem e é assim que me retribuem? – gritou o Lord. – Vão pagar com a vida! 

Por trás deste saiu um homem monstruoso. Na sua mão trazia uma enorme espada e na outra uma Kaleth. Este avançou em direção ao Tobi, não lhe era necessário chegar até ele. O fogo que a Kaleth libertava queimava a magia dos Eraks e sem magia eles morriam. Com um movimento brusco, o homem lançou uma primeira vaga de fogo, a qual falha Tobi por pouco. Ele cai no chão desamparado. Sem qualquer hipótese de defesa, uma segunda labareda de fogo é lançada. Athena, que havia abandonado a carruagem sem ninguém a ver, grita: Não! E atira-se em frente deste tentando proteger Tobi. Infelizmente a chama era maior do que a anterior e consome-os os dois. Lord Huntington a ver o que causara entra em desespero e chora pela sua filha. As hostilidades terminam naquele momento e todos olham para os corpos sem vida dos dois jovens amantes… 

*** 

O enterro dos dois amantes foi de acordo com os costumes do seu povo, mas ambos ficaram lado a lado para que pudessem passar a eternidade juntos. Lord Huntington viu a hipocrisia do seu ato ao tentar separá-los e utilizou a sua raiva e dor para acabar com as estúpidas leis que limitavam a vida dos Eraks. Ainda tinham um caminho longo a percorrer, mas um dia todos seriam tratados como iguais.


Parte 3:
Parte 2: 


2 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Gostei muito!

Joel-Gomes disse...

Há uns anos atrás trabalhei num projecto relacionado com lendas de Portugal. Esta história, não sei porquê, trouxe-me à memória esses tempos. Em particular, uma colectânea que tinha em casa, cujas lendas de Mouras encantadas e outras histórias de feitiçaria e amores proibidos que esta história de Liliana Novais me fez lembrar.
Gostei da ideia, gostei do conto, embora algumas das opções que a autora tomou não tenham sido as minhas preferidas. Certas partes precisavam de um melhor desenvolvimento (não necessariamente mais texto) e uma outra frase mereciam outro tipo de construção frásica. Está no bom caminho, conquanto que continue a trabalhar para isso.

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