O paciente é o mais forte (paciência) - Pedro Pereira

Ormim Endyere era conhecido por todo o reino como sendo o mais poderoso feiticeiro vivo. O mago ganhara a sua fama ao longo de várias décadas. Contavam as histórias que nunca ninguém o fora capaz de derrotar em duelo. 

Agora, já com mais de oitenta anos, Ormim optara por se retirar para as solitárias montanhas de Ruos, na zona norte do reino. Nunca gostara das luzes da ribalta embora a sua aptidão para a magia sempre o tivesse colocado em posições de destaque. As inóspitas montanhas permitiam-lhe ter uma vida mais calma, pelo que rapidamente fez delas a sua casa. Ali podia instruir os seus discípulos sobre as artes ocultas sem interferências do mundo exterior. 

Ormim passou as mãos pela longa barba branca enquanto observava os seus alunos. Encontravam-se nas margens de um lago escondido por rochedos. Os seus alunos punham em prática o encantamento que lhes acabara de ensinar: como transformar água em gelo. 

– Dradel, respira fundo e concentra-te – declarou Ormim. 

Dradel era um dos seus alunos com maior potencial, mas era demasiado impulsivo, o que lhe dificultava a mestria das artes ocultas. 

– Lembra-te, a água turva não mostra peixes ou conchas, o mesmo acontece com uma mente nublada. Tens de manter a calma e a concentração quando executas o encantamento, ou o resultado não será o esperado. 

– Sim, mestre… 

Continuou a observar os seus alunos com atenção. Ainda tinham muito que aprender e ele muito que lhes ensinar… 

Uma figura coberta por um manto negro surgiu por entre as rochas da encosta. Com passos decididos, encaminhou-se para a margem do lago, onde Ormim e os seus alunos se encontravam. Era raro cruzarem-se com outras pessoas naquelas passagens. Por vezes encontravam alguns pastores, mas Ormim conhecia-os a todos. Aquele homem não era nenhum pastor. 

O desconhecido aproximou-se do mago e parou. 

– Ormim Endyere, pelo código dos magos e pelos deuses antigos, eu, Taird Aughad da casa de Tasygh, desafio-o para um duelo – declarou o homem. 

Taird não devia ter muito mais de trinta anos. Ainda era jovem e dificilmente teria conhecimentos e poder suficiente para derrotar Ormim. Contudo, ditava o código dos magos que não se podia recusar um pedido formal de duelo. Era a forma habitual pela qual os jovens feiticeiros ganhavam fama, mostrando as suas capacidades contra outros mais experientes. 

– Aceito o teu desafio, Taird Aughad da casa de Tasygh – respondeu Ormim, levantando-se da rocha onde estava sentado. 

Todos os alunos pararam com os seus exercícios para assistirem ao confronto. 

Antes que Ormim pudesse mover um único musculo, Taird lançou uma tempestade de chamas contra o mago, envolvendo-o em fogo azul. Mas as labaredas não chegaram a atingir o feiticeiro. Concentrando toda a sua atenção nas defesas, o mago mais experiente fez com que estas se afastassem do seu corpo. 

Taird cessou o ataque de fogo e lançou vários raios na direção de Ormim. Tal como as chamas, estes embateram na barreira invisível que o mago erguera à sua volta. 

Irritado, o jovem feiticeiro lançou uma nova vaga de ataques, mas o resultado foi sempre o mesmo. 

O duelo manteve-se por quase duas horas. Taird atacava Ormim, mas este nem mexia um único músculo nem mostrava intenções de atacar. Limitava-se a permanecer no mesmo local e a focar a sua atenção na sua barreira protetora. 

Sentindo-se exausto e humilhado, Taird deu-se por vencido e retirou-se, deixando o velho mago novamente a sós com os alunos. 

– Mestre, como conseguiu aguentar as defesas por tanto tempo? – questionou Dradel impressionado com a prestação do mestre. 

– Com uma mente calma e limpa. Só assim consegues manter o nível de concentração necessário para bloquear os ataques. 

– Mas mestre, o duelo durou quase duas horas… Como é que não perdeu a calma e a concentração durante tanto tempo? 

– A paz interior depende unicamente de ti. Ninguém te pode tirar a calma a menos que tu deixes – respondeu Ormim. – A paciência e a perseverança são as melhores amigas de um mago. Lembra-te sempre disso.


2 comentários:

Leto of the Crows disse...

Porque a paciência é realmente uma virtude preciosa. Simples e eficaz :)

Joel-Gomes disse...

Não há dúvida de que a paciência é uma virtude preciosa. Todavia, neste caso, a palavra que eu usaria para classificar este conto seria 'passividade'. Ormim limita-se a ficar quieto e a aguentar. É uma forma de paciência, não digo o contrário, mas não a mais apelativa para uma história. Como pitch a premissa 'É uma história sobre o duelo entre dois magos e ganha o que fica quieto'.
Julgo que a história teria muito mais ganhar se os magos estivessem mais equilibrados ou se a balança pendesse mais para o lado de Taird. Em ambos os casos, a 'paciência' poderia ser o aguardar da oportunidade perfeita para atacar. De resto, nada a criticar.

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