O que não cura - satisfaz (temperança) - Ana Ferreira

A visão da porta de metal surgia através da renda do véu. Sentou-se à espera que a porta se abrisse para a consulta. As paredes com papel amarelado estavam descoladas e exibiam a degradação do prédio. Não havia nenhum motivo para achar que uma visita ao médico era motivo de embaraço. As suas amigas tinham sempre um médico, parcialmente humano. Embora achasse horripilante de início – ter alguém parcialmente humano a tentar curá-la - as amigas exibiam resultados perfeitos. Nunca mais a haviam procurado para satisfazer o que os maridos muitas vezes não conseguiam. A fechadura rodou e saiu uma mulher com um véu preto. O médico pareceu-lhe igual aos outros. Sem casaca, sem bata, com as mangas arregaçadas, cabelo curto e barba aparada. Não se parecia nada com os homens mecânicos que as amigas descreviam, mas também não devia ser esse o objectivo. Ele não a chamou, apenas fitou-a, como se esperasse que a consulta dependesse dela. Não notou nenhuma secretária. A sala exibia um papel de parede escarlate, com chão de madeira. O mais curioso foi a cama no meio do consultório com um colchão grosso e amarras. Na secretária do médico vários papéis estavam espalhados. O médico pegou neles todos e atrapalhou-se. 

- Eeer pois, menina...? 

- Clarissa. Trate-me por Clarissa, por favor. 

O médico fechou os olhos. 

- Sim, menina Clarissa, claro. – Os olhos azuis voltaram a aparecer. – Ah, já sei onde guardei. – Clarissa estava assustada. Embora as amigas lhe confiassem que este tipo de médicos teriam aspecto humano, à primeira vista não se teria de preocupar. Isso seria impossível! Queria tocar-lhe na cara, entender se a barba era verdadeira, se o cabelo seria igualmente macio como os dos homens. – Menina Clarissa está-me a ouvir? – A mulher saiu do transe. 

- Peço perdão, perdi-me em divagações. – Tentou esboçar um sorriso forçado. O médico olhava sem mostrar nenhuma emoção. 

- Estava a questionar quais os sintomas que tem para decidir visitar um médico de mulheres. – O homem continuava passivo e à espera de informação. 

- Bem, sr. Doutor... A verdade é que ultimamente tenho-me sentido mal. Não tenho tido muita vontade de comer, durmo bastante. – O médico repetia os sintomas à medida que ela os mencionava. – Quando eu e o meu marido estamos juntos, à noite, não sinto nada, doutor. – Ele acenava e repetia “falta de apetite sexual”. Clarissa corou. Talvez fosse melhor se em vez de ter aparência de um jovem, fosse realmente um amontoado de cabos e engenhocas. Sentia-se como se estivesse a falar com uma pessoa. Mas o médico era uma máquina, lembrou. Não a iria julgar por não satisfazer o seu marido como os outros médicos. Talvez conseguisse, de facto, uma cura. 

- Irei pedir que retire a roupa e o véu. 

Clarissa estremeceu. O véu? Não o tinham programado para saber que o véu só era removido na presença do marido? 

- Mas... o sr. Doutor deve saber que.. 

- Por favor, proceda ao removimento do seu véu e roupa. – Clarrisa obedeceu. Ordens de médico. Primeiro retirou a blusa dourada, seguida da saia comprida castanha. O véu igualmente dourado foi o último a cair no chão. Clarissa sentia-se completamente nua. O médico não sabia que uma serva só retirava o véu em frente ao seu marido? Quando uma mulher o retirava só significava uma coisa... – Queira fazer a gentileza de ser deitar na cama. – O tom continuava neutro. Clarissa cedeu. Deitou-se na cama. Imediatamente depois do seu corpo ficar colado aos lençóis, fivelas rodaram os seus braços e pernas, para a prender na cama. Ai meu Deus! O que se passa? O médico tirou a roupa. A pele falsa cobria todo o seu corpo. Não tinha qualquer órgão sexual. Os olhos de Clarissa não conseguiram esconder o choque. O médico pegou numa pistola e arrancou uma parte redonda transparente para colocar no sítio onde estaria o órgão. 

- Sintomas da menina Clarissa Alves Gomes da Costa Silva: excesso de sono, falta de apetite e falta de apetite sexual. O prognóstico: histerismo grau 1. Início do tratamento fase 1. – Avançou para a mulher que tinha as pernas presas. 

- Páre, por favor! – Mas o médico continuava a avançar. – Páre, por tudo o que é mais sagrado! 

- Impossível parar o tratamento. Este estará concluído em aproximadamente uma hora. – A mulher fechou os olhos. Aquando o contacto com o médico, Clarissa tremeu. Não era frio como pensava. Surpreendentemente sentiu o membro do médico a ficar maior e ajustar-se. O seu coração começou a palpitar mais depressa. A face ruborizou-se mais uma vez. Assim que o doutor sentiu o pulso da mulher ficar acelerado, o membro começou a vibrar com intensidade. – Feche os olhos. – A mulher obedeceu, sentindo o seu corpo a ser invadido por ondas de prazer. Com os olhos fechados, abriu um pouco a boca para trincar o lábio de forma a deter um gemido. Sentia o seu corpo a reagir de forma perfeita àquele brinquedo. De vez em quando o ritmo abrandava, e Clarissa conseguia recuperar o fôlego para logo a seguir soltar um gemido mais alto. A sua cabeça virava constantemente para esquerda e direita, as costas arqueavam para conseguir ir mais fundo. Perdida no transe em que estava, notou que as palavras de encorajamento estavam a ser proferidas por ela e não pelo doutor. 

- Não páre, por favor! Continue! Sim... por favor, sr. Doutor mais fundo! – Cumprindo o desejo da mulher, o membro aumentou o tamanho e a grossura. Minutos depois os tímidos gemidos de Clarissa resultaram na erupção de tremores e gritos abafados. A respiração tornou-se irregular, mas o médico notou um sorriso nos lábios da mulher depois da primeira fase do tratamento. Retirou o membro postiço. 

- Tratamento fase 1 terminado. Cinco minutos de descanso até começar o tratamento 2. – As amarras soltaram os pulsos e os tornozelos. Por momentos lamentou o processo já ter acabado. O médico ausentou-se por momentos para regressar com uma chávena de chocolate quente e na outra mão uma fatia de bolo de chocolate. Há quantos tempo não bebia um chocolate quente... – Segunda fase do tratamento: iniciar. – Clarissa bebeu um gole do chocolate quente. O sabor doce dissolvia-se na boca. Há quanto tempo não sentira um orgasmo e depois comia algo que não fosse apenas pão seco? Não tinha propriamente fome, mas aquele bolo tinha tão bom aspecto! Uma serva só deveria comer pão e água depois das relações com o seu parceiro. O seu corpo purificaria a actividade mundana do sexo para depois a mulher poder estar propicia à gestação. Antes de dar uma garfada no bolo, Clarissa começou a pensar. Os seus cabelos longos já não estavam cobertos pelo véu, mas sim soltos pelos seus ombros, tinha traído o parceiro com uma máquina e para finalizar quebrara a regra do pós-coito para beber um chocolate quente em vez do tradicional pão e água. Algo dentro do seu coração arrastou-a outra vez para a expressão neutra. Os seus lábios perderam a emoção. O médico verificou esta mudança. – Mudança para tratamento fase 2. – Colocou outra vez o objecto desta vez castanho. Clarissa tentou fugir e debater-se contra o médico quando este a apanhou. Encostou-a contra a parede e com a boca abafou os seus pedidos. Clarissa quis repetir o seu pedido, implorar para parar, mas desta vez o médico tinha assumido o comportamento de um homem e consumia-a como se fosse um homem, ou bicho, contra a parede. Clarissa só tinha tido relações com o parceiro na cama. O médico segurava-a firmemente, enquanto a sua nova paciente se entregava mais uma vez a si. As entranhas dela revoltavam-se contra aquele maldito órgão que estava a fazê-la tão feliz. Isto é o mal, pensou. O demónio enviou-me este médico para me tentar, mas não vai conseguir! Uma hora passada e Clarisse sucumbia aos prazeres provocados pelos vibradores de clockwork vindos de Inglaterra. Olhou para a roupa espalhada no chão e recolheu-a. Apressou-se a vestir e a colocar o véu em ordem. Agora sim, estava apresentável. O médico foi à secretária buscar um documento para ela passar na boutique. Enquanto ele estava de costas, Clarisse imaginou-se a desliga-lo, a espetar algo nos seus circuitos. Aquele homem, ainda que metade máquina, sabia o seu nome completo e poderia dar a informação a qualquer membro do Governo. Antes que ele se virasse, Clarisse pegou num bisturi e direcionou a mão para lhe cortar os fios. A passos de distância, parou. Meu Deus, acabei de pecar duas vezes, como posso pensar em pecar mais uma? O médico virou-se e deu-lhe o papel. - Por favor, volte para a semana. – Sorriu. Clarissa pegou no papel e fugiu daquele lugar. Naquela noite e nas noites seguintes, o seu parceiro informou-a que iriam jejuar das suas noites de amor. Clarissa pensou em regressar ao médico ao outro dia... mas não o fez.



7 comentários:

Carlos Silva disse...

Gosto bastante. Tanto do universo criado, como da história em si.

Mil Estrelas disse...

Adorei. Espectacular!!
Sandra Sousa

Olinda P. Gil © disse...

Achei que estava muito bem escrito. Até nem precisava de ser fantástico/sci-fi para funcionar (bastava ser um mundo alternativo onde existissem servas e médicos que servissem chávenas de café e chocolate).
Mas fiquei desiludida com a perspectiva masculina do texto. Ele é que comanda tudo, viola-a e ela ainda suspira por ele?

Inês M. disse...

És winda. A parte das mamocas fica para momentos mais privados :P
Não posso dizer que goste do mundo nem do que vemos da sociedade criada (as minhas entranhas femininas rugem de horror), but well, bom uso e bom aproveitamento para o enredo.

Leto of the Crows disse...

Acho que o conto ficou muito bom :)

Ash disse...

Bem diferente do que li ontem da Carian.
Ainda fiquei na esperança que afinal fosse um lindo macho... Oh Well! Não se pode ter tudo! :)

Vitor Frazão disse...

Por desagradável que seja a realidade criada, o worldbuilding está bem conseguido e a história em si encarna bem o respectivo pecado.

Houve de facto uma perspectiva masculina no texto e concordaria com Olinda, a verdade é que ela não existe. Assim como não acredito que a paciente suspire pelo médio, antes pelo alívio sexual, apesar de reprimida pelo contexto social. Não faria sentido desenvolver sentimentos para com uma máquina.

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