O Farol - Vitor Frazão

Não havia luar ou estrelas, apenas nuvens negras lançando um manto de trevas sobre o oceano. Não fosse pela luz do farol, Alan não teria qualquer meio de se orientar, além do som das vagas a esmagarem-se contra as rochas ou o assobio furioso do vento, enquanto o seu corpo encharcado era arremessado de um lado para o outro e o peito oprimido pelas garras da água gelada. Do barco nem sinal. Tanto quanto o infeliz náufrago sabia, a mesma onda que o arrebatara para o mar colocara a embarcação a pique e com ela todos os seus companheiros, deixando-o sozinho na imensidão indomável do Atlântico Norte. Verdade fosse dita, na escuridão, com o barulho do vento e das ondas, os seus amigos poderiam estar a menos de dois ou três metros, a bradar a plenos pulmões por ajuda, que ele não saberia. 


Apenas a luz do farol o guiava e foi graças a ela que Alan viu o rochedo antes da vaga o atirar de encontro a ele. Avisado do perigo, virou-se para receber o impacto com as solas, diminuindo os danos, mas não a dor. Quando a onda passou, o náufrago estava abraçado ao penedo com todas as forças e, apesar do mar o fustigar, ao ponto dos dedos e palmas ficarem em carne viva, sangrando de vários cortes provocados pelas saliências da rocha, recusava-se a largar a minúscula ilha, abandonando aquela segurança relativa em detrimento da aterradora vastidão do oceano. 

O olhar do homenzinho encharcado ergueu-se para a ilha onde se localizava o farol, uma imensa massa negra que estaria a menos de uma centena de metros. Uma parte dele ponderou arriscar-se, lançando-se no mar aberto, num último esforço desesperado para procurar refúgio no ventre daquele sólido porto de abrigo. Todavia, sentia-se intimidado pelo vulto intermitentemente iluminado, que se elevava acima do nível do mar como a bossa de um gigantesco monstro marinho, pois receava ser esmagado de encontro à mesma solidez que o poderia proteger, morrendo numa explosão salgada de espuma e sangue, ou perder as forças antes de o alcançar. No seu medo e insegurança, foi incapaz de abandonar o penedo, acto que racionalizava, considerando que era demasiado perigoso fazê-lo durante a noite, sendo preferível esperar pelo amanhecer. 

Entretanto, numa das encostas da ilhota surrada pelos ventos, onde só os arbustos e ervas mais resistentes conseguiam crescer, um homem de cabelos grisalhos, casaco azul-escuro de fazenda e calças castanhas de bombazina estava sentado numa rocha, a comer uma maçã cujos pedaços cortava com uma pequena faca, provida de um tosco e irregular cabo de madeira. Aparentava cerca de sessenta anos, mãos áspera e um rosto severo, adornado por um nariz aduncado e lábios secos. Uma figura que passaria despercebida, não fosse pelo facto de nada nele reagir aos inclementes ventos que castigavam a encosta, permanecendo as suas roupas e cabelos tão imóveis como se estivesse sentado dentro de casa. 

Dir-se-ia que o mundo exterior não o afectava, porém, o ancião mantinha um olhar vigilante nele, especialmente naquele miserável náufrago, vendo para além da escuridão, da distância, da ondulação e do mau tempo. Aparentemente indiferente ao sofrimento do humano, Cathasach afastou o braço para o lado, de modo a retirar a manga de cima do relógio, revelando-se aborrecido com a demora. 

Aos pés do ancião uma criatura de pelagem negra, com colmilhos afiados a ornar a larga boca vermelha, emitiu um pequeno queixume, como se pedinchasse algo. 

- Não, rapazola – respondeu o ancião, ainda a mastigar o último pedaço de maçã, que se apressou a engolir. – Ele tem de se safar sozinho ou não servirá para nada. Estas ilhas não são para fracos. 

Embora soubesse falar, o buggane juvenil limitou-se a emitir novo grunhido, desta feita de desilusão e mágoa, por o mestre não o deixar salvar aquele infeliz humano. Ao contrário dos seus parente maiores da Ilha de Man, aquele pequeno humanóide peludo, com garras robustas feitas para escavar, olhos minúsculos, um sentido de olfacto muito apurado e aproximadamente a altura de um criança de cinco anos, era um excelente nadador, produto da vida naquela ilhota perdida no topo do mundo. 

Cathasach não partilhava da generosidade do rapazola. As suas responsabilidades não lhe permitiam ao luxo de tais sentimentalismos.

Havia quarenta anos que aquelas ilhas não tinham um residente humano, apenas visitas esporádicas, a maioria das quais feitas para garantir que o farol automático permanecia operacional, e Cathasach não podia permitir que o seu primeiro inquilino mortal em quatro décadas fosse débil. Precisava de um indivíduo forte ou aquelas ilhas devorá-lo-iam, cuspindo de volta para o oceano um corpo ensanguentado e uma mente mutilada. Na verdade, se aquele tipo não tivesse a força de vontade necessária para confiar nas suas capacidades e nadar até à ilha, deixá-lo ser engolido pelo oceano era a opção mais misericordiosa, pois ele não seria capaz de suportar as provações e os espíritos atormentados que assombravam aquele calhau perdido nos confins do mundo, na zona mais inclemente dos oceanos, dilacerar-lhe-iam a sanidade. Cathasach acreditava no rapaz ou não teria comprado o bilhete dele com as vidas dos seus companheiros de viagem, que naquele momento eram arrastados para o Abismo, porém, recusava-se a fornecer mais refeições fáceis às ilhas e às suas cavernas empestadas com o cheiro a carne putrefacta.

“Tem que ser ele” pensou o ancião, acariciando o cabo da faca com uma mão e passando a outra pelos cabelos, enquanto desejava que aquela nova “aposta” não falhasse, como tantas outras antes… Os Pais o ajudassem… Após todos aqueles séculos precisava tanto daquela vitória, quanto as ilhas careciam de um novo Zelador…


2 comentários:

Joel-Gomes disse...

Um conto interessante, sombrio e bem escrito. A única coisa que apreciei menos, porque não creio que houvesse necessidade para tal, foi o protagonista ter um nome estrangeiro. Não sei em que local o autor situou esta história, mas temos bastantes faróis em Portugal (o do Cabo da Roca em noite de tempestade é qualquer coisa de fenomenal) e a história poderia perfeitamente passar-se cá.
Alguma pontuação devia ser revista, talvez algumas frases quebradas. Esta, por exemplo, "Na verdade, se aquele tipo não tivesse a força de vontade necessária para confiar nas suas capacidades e nadar até à ilha, deixá-lo ser engolido pelo oceano era a opção mais misericordiosa, pois ele não seria capaz de suportar as provações e os espíritos atormentados que assombravam aquele calhau perdido nos confins do mundo, na zona mais inclemente dos oceanos, dilacerar-lhe-iam a sanidade." parece-me uma frase que poderia perfeitamente quebrar-se em duas ou mais. Note-se que não estou a dizer que seria o correcto, é apenas uma opção minha, nada que atrapalhe ou comprometa a apreciação da história.

Vitor Frazão disse...

Já ouviste falar das Flannan Isles também conhecidas como Seven Hunters? "The Mystery of Flannan Isle Lighthouse" dos Genesis, da qual existem referências no próprio excerto que indicaste?

Se tivesses notado isso entenderias porque escolhi tal cenário.

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